Cockfighter (1974)

“Cockfighter” (1974)

cockfighter

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fundo branco

Tenho uma grande simpatia pelo tipo de cinema que a que este filme aponta. Respeito as intenções, gosto sempre de viver os ambientes que filmes como este tentam criar. Mas quando este tipo de filme falha, nunca é um falhanço glorioso, nem interessante. As coisas deslizam para campos aborrecidos e vazios.

No que toca à direcção e, para mim, actuações, este filme falha totalmente. Não porque seja incompetente, simplesmente porque não é cativante, não há uma ideia visual que Hellman tente explorar. Este é o seu único filme que vi até agora; aqui ele liga a narrativa ao personagem, o actor (que entra também em vários dos seus outros filmes). É o que certos críticos definem como “estudar um personagem”. Bem, eu acho que isso pode ser feito, se o personagem for interessante, e isso depende do quão interessante é o actor, como actor e como pessoa. Isto reduz drasticamente as possibilidades de ter sucesso com este tipo de filme. Para mim, Warren Oates não é suficientemente interessante para eu o seguir voluntariamente. Isto tornou o filme desinteressante no seu conteúdo, que é a vida de um simplório treinador de galos.

Mas algo redime todas as falhas. a cinematografia é discreta e linda em vários aspectos. Almendros era um dos cinematógrafos que magistralmente conseguia afastar-se do protagonismo e ainda assim construir um ambiente valioso no qual queremos entrar. Em parceria com Truffaut ele deu-nos alguns momentos impagáveis de fotografia minimal, no sentido em temos transcendência a partir de um certo “naturalismo”. Impressionante. Se virem este filme poderão ser levados a crer, como eu fui, que há partes nele que são trabalho burocrático que Almendros teve de fazer para narrar o personagem aborrecido que Hellman propõe, mas outros momentos são brilhantes e merecem ser vistos. Entre esses momentos estão as lutas de galos. Os grandes planos dos galos são lindos, e uma edição cuidada faz as cenas de luta realmente pesadas e duras. Os cenários interiores, quando associados a intimidades, são sempre confortáveis e evocam um certo ambiente. À parte dessas cenas, vocês vão querer ver uma específica: é junto a um lago, o protagonista e a sua amante acariciam-se, e falam sobre a sua vida e relação. O plano começa como um grande plano das suas caras, sobre um fundo totalmente branco. Depois a câmara lentamente abre o plano, revela o ambiente, e é aí que percebemos o lago. Tudo isto é feito com uma subtileza que é raro ver. Este plano ficará comigo por muito tempo.

A minha opinião: 3/5 vejam-no, pela cinematografia, apenas.

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Before the Devil Knows You’re Dead (2007)

“Before the Devil Knows You’re Dead” (2007)

devil knows

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tragédia harmónica

Várias coisas neste filme podem, e foram, celebradas, em níveis diferentes. Algumas são competentes, outras bastante interessantes, e uma outra notável.

Encontramos aqui um realizador no seu melhor no que toca a explorar actores. Ele empurra onde sabe que pode e deve empurrar, e atinge picos de intensidade útil que poucos realizadores conseguem atingir. Hoffman é uma escolha natural para o tipo de trabalho que Lumet faz.  Ele é um dos actores mais concentrados e conscientes, e o que ele faz aqui é coerente e pontuada por momentos eternos. Um desses momentos (o histerismo que rebenta no carro, com Tomei) depende totalmente dos dois actores, e Lumet teve apenas que escolher os momentos mais expressivos de cada actor. Mas há outra cena que é uma colaboração linda entre Lumet e Hoffman: o monólogo na casa do traficante de droga. Aí, temos um actor transcendente, e o realizador de ‘12 angry men’: centrado nos personagens, mas ainda assim espacial. É essa consciência espacial que me faz ir para os filmes de Lumet. Não há um único cenário interior que não seja considerado, quer haja movimento ou não. Reparem, é o personagem e não o espaço que determinam o movimento, o ritmo, o tom. Mas o espaço é totalmente explorado para o servir. Creio que temos isso em alguns momentos com Antonioni, mas ninguém o faz de forma tão consistente como Lumet o fez ao longo da sua carreira.

Por mais de uma vez disse que não gosto de Ethan Hawke. A entrevista que ele dá no making of deste filme sublinha os motivos pelos quais não gosto dele. Mas admito que ele encaixa bem na tapeçaria melodramática que Lumet teceu aqui. Uma vez mais, tal como em ‘Great Expectations’, ele é tão inconsciente acerca do que quer que seja como o seu personagem, mas aqui ele compreende o ritmo. Suponho que Lumet deverá ser reconhecido também por isso.

O outro ponto que interessa é a forma como a narrativa está modelada. O que temos aqui vem na linha do que Iñarritu/Arriaga fizeram, eventualmente algum do trabalho de Figgis. Não avança nada em relação ao que eles fizeram, mas é impressionante a forma como Lumet compreendeu a evolução da forma como se contam histórias e colocou o seu talente cinematográfico ao serviço dessas evoluções. Que evolução é essa? Basicamente, é a consideração de um mundo complexo em que não seguimos uma simples linha, ao invés seguimos várias, que se intersectam, cada uma com o potencial de afectar todas as outras. É uma questão de considerarmos a harmonia de 3 melodias diferentes sobrepostas, em vez de seguirmos apenas uma delas. É isso que o cinema tem feito.

A minha opinião: 4/5

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L’homme qui aimait les femmes (1977)

“L’homme qui aimait les femmes” (1977)

homme

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detalhes narrativos

Esta é uma das criações mais interessantes de um homem que passou a sua carreira e vida a questionar a própria criação cinematográfica e o que ela significava em cada momento. Depois da aventura da nova vaga francesa dos anos 60, Truffaut evoluiu e, para mim, começou a produzir o seu trabalho mais lúcido. Basicamente ele criou alguns filmes que são ensaios sobre cinema, assim como rascunhos autobiográficos dos seus pensamentos.

Assim, temos um filme sobre contar histórias. Um mulherengo que escreve a história da sua vida. Cada mulher nessa vi é, em si mesmo, uma história. Assim, o prazer do envolvimento com uma mulher coincide com a vontade que Truffaut tem de contar uma história. O facto de Morane escrever todas as histórias e criar uma única forma abrangente (um livro) que as contém todas sublinha isto.

A editora tem um papel importante. Ela é o personagem chave que Truffaut coloca acima de Morane, e ela produz anotações e comentários a toda a estrutura. As suas observações ao livro e personalidade de Morane podem ser tomadas como comentários ao próprio filme e ao seu realizador. Ela é auto-referência, ela é Truffaut que se comenta a si mesmo; somando assim à reflexividade do filme. Por isso é que ela nota que Morane, o escritor, não rejeita os “detalhes” que outros não notariam, e ela diz literalmente que ele é, basicamente, um contador de histórias. Para além disso, é ela quem nota que o funeral de Morane é o fim perfeito para a história. Eu vi tudo isso como anotações reflexivas à própria estrutura do filme e, de forma mais geral, à natureza do próprio cinema de Truffaut. Ele próprio foi, durante toda a vida, um contador de histórias, e sobre todos os prazeres que retirava da criação de filmes, estava o prazer de narrar. Também dava uma especial atenção a filmar os detalhes, algo que creio que retirou de Hitchcock. A mão que marca o número no telefone, ou que vira as páginas na agenda, esse tipo de coisas.

O funeral de Morane, que abre e fecha o filme, reúne todas as mulheres à sua volta. Tal como a editora (a segunda narradora) nota, é uma celebração da vida de Morane, o reconhecimento das suas qualidades, e da sua vida (cinema).

Para já, este filme e “La nuit américaine” são os filmes de Truffaut mais bem construídos que eu vi. Muitas vezes penso que ele (e Godard!) gastaram demasiado tempo com coisas que não eram assim tão importantes, como se fossem adolescentes a discutir equipas de futebol. Mas em certos momentos, ele fez contribuições importantes para o desenvolvimento da narrativa em cinema. Este filme é uma delas.

A minha opinião: 4/5

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Sleuth (2007)

“Sleuth” (2007)

sleuth

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reviravoltas

É redutor encarar este filme como um remake do original. Na verdade é muito mais rico considerá-lo como um filme que se adiciona ao original. Realmente deveriam ver o antigo em primeiro lugar, para enriquecer a experiência deste. Pensem no original, e depois considerem-no como um ponto de partida. Abram a vossa mente para receber este. Façam isso, e terão uma das melhores experiências em filmes que lidam com a criação de histórias. Eu tive.

A versão de Schaffer/Mankiewicz tinha que ver com dois personagens que lutavam pelo controlo da história. O seu jogo pessoal de humilhação e vingança baseava-se em cada um deles criar uma história e representá-la de forma tão convincente que levavam o outro a acreditar nela. Nessa versão tínhamos brinquedos e bonecos animados por todo o cenário para realçar isso. É uma obra prima de escrita para filmes que funcionava porque as actuações a suportavam. Laurence Olivier esteve muito bem aí porque constantemente nos explicava a criação da história, à medida que ela avançava. O filme é um de machos puros, lutas de galos. A mulher por quem eles lutam, estava num quadro.

Aqui começamos nas pegadas desse filme. Dois terços do que temos deixa pouco espaço para reflectirmos sobre motivações. Se conhecem o original sabem o que esperar. O filme está incrivelmente encenado. A mulher que provoca o jogo É a casa, que ela decorou. Por isso, têmo-la a jogar o jogo, muito mais do que tínhamos no original. Branagh deve ser reconhecido pela maestria disto. A forma como ele lida com as câmaras de vigilância inventa um terceiro personagem que está em todo o lado, mas que nunca vemos. Por outro lado, a casa é ostensivamente um cenário, concebido não para que alguém ali viva, mas para ser explorada pelos nossos personagens. Mas também É uma casa! Vou marcar este filme como um caso interessante de relação entre cinema e arquitectura, pela forma como a casa/cenário é usada.

**spoilers a partir de aqui**

O toque de mestre na narrativa acontece nos últimos 20 minutos. É uma coisa especial, que ganha mais força ainda porque já conhecemos o original. É uma espécie de reviravolta sobre o que esperávamos porque vimos o outro filme. Aqui sentimos a mão de Harold Pinter. Num certo momento, quando os nossos personagens começam o último “set” do seu jogo, ficamos na indecisão, oscilando entre acreditar na sinceridade deles ou tentar perceber quem está a fazer a jogada. O tema gay é introduzido, e a peça entra num campo de enorme ambiguidade, apenas desvelada nos últimos minutos. Uma vez mais, a casa (o elevador) dão-nos um último plano fortíssimo, que termina o filme de forma muito mais conclusiva e eficiente que o original. O personagem de Caine é muito mais ambíguo, e ele deve receber crédito pelos seus longos momentos de puro silêncio, no quarto de hóspedes, quando ele decide se deve ou não ceder às exigências de Law. Esses momentos são fantásticos.

Jude Law é um actor muito interessante. Para lá das suas qualidades óbvias, parece-me que ele é especialmente inteligente (ou bem orientado) na forma como escolhe os filmes onde entra. Os seus remakes de papéis antigos de Caine são bons exemplos disso.

A minha opinião: 4/5 este filme são várias peças dentro de uma peça, que se torna o filme, enquadrado por outro filme. Vocês vão querer vê-lo.

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Batman (1989)

“Batman” (1989)

batman burton original

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recordação da escuridão

Eu vi este filme quando era muito novo, e já não o via há bastante tempo, por isso tenho uma relação pessoal com ele. Eu evolui e o filme evoluiu comigo, na minha mente.

Realmente passou bastante tempo. E a memória que tinha dele é muito mais obscura do que o filme mostra. Porquê? Eu mudei; os filmes mudaram. É por isso. Supõe-se que este contém um mundo negro, muitos chamam-lhe gótico. Sim, tem um ambiente negro em vários pontos, Burton é um especialista em produzir certo tipo de ambientes. Mas já não funciona agora como um mundo negro de mentes negras, se é que alguma vez funcionou. Agora este filme tem a atracção dos filmes adolescentes:  sabemos onde tudo vai parar, mas queremos vê-lo de qualquer forma. E o mundo é mais brilhante que tantos filmes não especialmente celebrados por serem “negros” como este é. Suponho que isso tem a ver com a forma como a narrativa se constrói. Este filme apoia-se no aspecto visual, e isso normalmente é uma questão de moda. Muda, e quando muda, o filme vai segurar-se, ou não, baseado no seu conteúdo cinematográfico. Burton confia que mostrar o mundo vai fazer-nos entrar nele. Bem, eu realmente entrei há 15 anos atrás, agora apenas me lembro que o fiz, mas já não sei onde fica a porta. Suponho que Nolan, depois dos desastres de Schumacher, realmente substituiu com solidez a visão de Burton. Ele introduziu a instabilidade na narrativa, em “dark knight” ele construiu toda a narrativa em torno dessa instabilidade. Ele compreendeu como poderia suportar todo um mundo visual adicionando consistentemente reviravoltas, na verdade fazendo todo o filme ser uma enorme reviravolta.

A actuação de Nicholson é plastificada como o seu personagem. É baseada no charme individual, não numa mente perturbada. O seu vilão é um joker, mas sem ironia. Ledger realmente empurrou o personagem para os campos onde Brando ou Depp se movem.

É interessante ver este filme, já que mostra a ligação entre cinema, memórias cinematográficas, e as nossas próprias vidas.

A minha opinião: 2/5

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Je vous salue, Sarajevo (1993)

“Je vous salue, Sarajevo” (1993)

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o enquadramento certo

Godard é um cineasta curioso e imensamente talentoso, mas difícil de compreender, e tantas vezes arrogante e autista. Isto arruina muito do que ele faz, mas ainda nos deixa algumas pérolas.

Esta é uma delas. Um exercício simples de manipulação visual, minimal nos recursos usados e tempo de extensão, mas magnificada no seu poder visual. Esta curta são 2 minutos de enquadramentos múltiplos de uma única fotografia. Cada enquadramento dá-nos uma realidade particular, e faz-nos compreender mundos dentro do mundo que, à medida que a curta avança, percebemos que é apenas uma imagem. Estes 2 minutos de Godard são mais analíticos e significativos do que muitos dos filmes de Wenders que tentam directamente analisar o que significa procurar os significados escondidos das imagens. Porque é que ele não foi tão sóbrio nos 20 anos antes deste filme?

Aqui, como em outros poucos filmes de Godard, fiquei tão impressionado com a forma como ele me manipulou, que perdoei o seu discurso habitual, um de teimosia e egotismo, disfarçado de puro humanitarismo. Não rejeito as intenções dele, só a atitude.

Outra questão se levanta aqui, e no trabalho de Godard ao longo dos anos 90′. Mais do que testar os limites do cinema, aqui ele questiona as suas definições. Baseado nas suas “histórias do cinema”, penso que ele empurra as suas próprias definições de cinema para o campo da pintura. No entanto, penso que ele se torna mais um criador de imagens e um manipulador. A pintura, no seu sentido cinematográfico, tem duas formas de ser compreendida: uma é pela luz/cor/composição, a outra é pela comunicação/manipulação visual. Welles/Toland, Conrad Hall, Gordon Willis. Esses eram pintores. Aqui Godard tenta a manipulação e percorre campos não tão explorados de narrativa cinematográfica.

A minha opinião: 4/5 vejam este.

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Mankind Is No Island. (2008)

“Mankind Is No Island” (2008)

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enganador

Este filme é material danificado. Tudo nele parece confiável e poderoso, mas um revisionamento cuidadoso vai revelar o falso que é.

O filme nasce, aparentemente, de uma ideia visual inteligente, suportada pela edição. Imagens capturadas em duas cidades, que se misturam para nos dar uma mensagem. E a edição é a ferramenta cinematográfica chave para passar essa mensagem. Mas o engano é, para além de umas poucas imagens de pessoas sem abrigo e de verdadeiras cenas de rotina urbana, todo o material é na verdade palavras filmadas editadas para fazer frases legíveis. E todo o ritmo é dado Não pelas palavras filmadas, mas pela música que as suporta. Por isso, podemos ser levados a pensar que isto tem algum valor cinematográfico em geral quando, na verdade, é uma tentativa preguiçosa, disfarçada de trabalho amador honesto. Levei vários visionamentos para perceber o que estava mal.

Uma queixa menor é que a mensagem é paternalista, catatónica, sem garra. Diz-nos o que já sabemos e não o faz de nenhuma perspectiva interessante. Está embrulhada na noção estúpida de tratar os espectadores como crianças, de uma forma que nem mesmo as crianças (ou sobretudo as crianças) deveriam ser tratadas. Muitos espectadores gostam de ser tratados assim, e provavelmente é por isso que o filme teve o sucesso que teve. Eu não gosto.

Se querem um pedaço de edição onde as imagens são a chave da emoção e a música é só um suporte, vejam este anúncio:

Tirem o som num segundo visionamento e vejam como a edição se segura. Façam-no com este “mankind…” e vejam como o filme morre. O IMDb não lista anúncios comerciais, mas comparando o filme que estou a comentar com o exemplo que estou a dar, talvez devessem.

A minha opinião: 1/5

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Great Expectations (1998)

“Great Expectations” (1998)

expectations

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narrativa espacial

Este filme foi realizado por uma das mentes visuais mais interessantes a trabalhar hoje. Cuarón sabe como trabalhar o espaço, sabe movimentar-se nele, sabe como encontrar e/ou criar espaços que ele pode explorar, encontrar os melhores pontos de vista. Neste tema, ele provavelmente herda as investigações de Orson Welles nos dias em que ele dominou a exploração espacial e o enquadramento da arquitectura. É aí que a mente de Cuarón se centra, creio. Enquanto Wenders explora imagens bidimensionais numa forma pura, enquanto Kubrick molda os seus filmes ao redor da narrativa, Cuarón fá-lo com espaço.

Tendo dito isto, este filme específico não é aquele em que ele o faz de forma mais intensa. Não vi este filme quando ele saíu, e neste momento já vi Children of Men e o terceiro Harry Potter. Aqui ele estava provavelmente mais limitador e tinha menos margem de manobra para trabalhar as suas capacidades. No entanto há momentos, agarrados a espaços, que são puras pérolas visuais. Assim, pensem nas cenas da casa do Paraíso Perdido. Vejam como esse espaço está construído para ser explorado, como as salas grandes existe para merecer a pena a câmara dançar com os personagens. Vejam como a escadaria que desce até à fonte do primeiro beijo está ali para permitir à câmara seguir os personagens e explorar o espaço. Estes momentos na escadaria são especialmente wellesianos. O outro espaço explorado é o estúdio de Hawke em Nova Iorque. O espaço é claro e denunciado na forma como o lemos. Por outras palavras, compreendemo-lo com uma única imagem, é aberto, e a sua composição perfeitamente legível. Mas é interessante, pela iluminação e pela escala, e Cuarón compreende-o. Imagino que este espaço é real, e o Paraíso Perdido um cenário.

Estes momentos, que claramente foram os mais impressionantes no filme, para mim, estão pendurados numa história. Seguindo Dickens, essa história tem a ver com a história em si. Os personagens são manipuladores ou manipulados (ou ambos, no caso de Paltrow). É uma história sobre quem está a contar a história. Na construção cinematográfica (não na do livro), os personagens existem para servir a construção narrativa, e pessoalmente creio que, em cinema, é mais eficiente que seja dessa forma. Por isso temos dois narradores principais, mas só temos consciência de um, e Hawke também. É esse o truque, é inteligente e funciona.

Não gosto de Ethan Hawke, admito. Para mim ele não tem talento e, pior, ele actua de forma arrogante. Isto significa que ele não faz nada, mas realmente acredita que nos está a dar algo duradouro. Bem, normalmente esse tipo de actuações afastam-me (na linha de Freeman, Redford, o Cruise mais recente…) mas aqui, considerando que o papel do seu personagem na história, de duplamente manipulado, admito que é uma escolha perfeita. Tal como o actor, o personagem pensa que comanda, mas é na verdade usado. Gwyneth Paltrow é concentrada, iteligente, e parece-me que trabalha duro para integrar os seus personagens, mas o seu trabalho é invisível no produto final. E isso é fantástico…

A minha opinião: 4/5

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2 anos

Faz agora 2 anos que comecei a ideia deste blogue. Há um ano atrás remarquei o facto de que nunca pensei que pudesse durar tanto tempo esta experiência, sobretudo pela proposta de a fazer em 3 línguas. Tenho conseguido, e isso tem-me satisfeito, em alguma medida.

Tenho neste momento 180 filmes comentados (99 no último ano). Não é o número de filmes que estabelece a eventual qualidade daquilo que tenho vindo a fazer, mas acabei por aumentar o número de comentários neste segundo ano de vida do blogue, o que também me deixa satisfeito.

Sobretudo tenho usado, como sempre referi, o pretexto de comentar filmes para aprender sobre eles, aprender sobre cinema e, consequentemente, aprender algo sobre mim. É uma aventura poder explorar realmente filmes, sem medo, como o têm a maioria daqueles que vão vendo filmes. É uma aventura porque entrar num filme, seja bom ou seja mau, é sempre uma experiência em que encontramos aquilo que levamos connosco, aquilo que somos. Há filmes que mudam a minha vida quando os vejo, e são esses que sempre procuro, mesmo quando não encontro.

As estatísticas do wordpress (que contam infelizmente apenas as visitas “on site”) são neste momento:

7Olhares:___ 27 827 visitas (14 290 no último ano)

7Eyes: ________6 700 visitas ( 3 989 no último ano)

7Ojos: _________8 596 visitas ( 4 422 no último ano)

_________43 123 visitas (22 701 no último ano)


Ser visitado dá-me força para continuar, nas 3 línguas. Agradeço sempre sugestões, no site, ou por mail, como vou recebendo. Sobretudo acredito na possibilidade que a internet dá de aproximar opiniões, conhecimentos, pessoas.

Lisboa de Hoje e de Amanhã (1948)

“Lisboa de Hoje e de Amanhã” (1948)

e agora?

Este documentário é terrivelmente significativo para todos os portugueses, certamente mais agora do que quando foi feito. Colocado no contexto adequado, e com a informação certa para o suportar, poderá levar-nos a concluir coisas assustadoras e terríveis. Creio que ver agora o filme e reflectir ao mesmo tempo sobre os últimos 35 anos em Portugal pode ser mais clarificador do que qualquer filme, documentário, livro ou o que seja feito depois do 25 de Abril e que trate o tema.

O filme é um exemplo de propaganda. Isto significa que vamos ver um ponto de vista totalmente parcial, em todo o momento favorável ao regime em questão. Neste caso temos todo o tipo de elogios às políticas urbanas de Lisboa há 60 anos. Basicamente, o planto de que se fala é a obra de um homem notável, Duarte Pacheco, que não era um visionário, porque não previu nada que não estivesse já a ser feito noutros sítios, mas que teve o mérito de actualizar as políticas urbanas de Lisboa que é como quem diz, criou uma. Esse plano é notável, apesar de desactualizado hoje, especialmente nos conceitos de habitação em cidade, em termos de tipologia (casas únicas ou geminadas em contextos altamente urbanos é terrível política hoje) e aglomeração social (casas de baixo custo, que agrupam todos os desfavorecidos, também é um conceito desactualizado). Claro que o sucesso e eficiência do plano dependia de Pacheco (que morreu 5 anos antes deste documentário ser feito) ter o poder absoluto para construir e destruir, sem ter de negociar com as popularções envolvidas. Mais interessante do que tudo é a ideia de “pulmão urbano”, materializada no enorme Monsanto. Alguns projectos de bairros são muito interessantes, nomeadamente Alvalade. E claro, os anéis que rodeiam a cidade, é algo contemporâneo e planeado a uma escala visionária (sim, aqui foi visionário), mas creio (sem certeza), que nem todo o plano veio a ser cumprido.

O documentário tem uma grande qualidade: realmente explica o plano, a ideia, no local, em plantas, com maquetes. Não depende de demonstrações conceptuais inúteis, porque as pessoas naqueles dias não dependiam tanto das imagens como ícones como dependemos todos hoje. Mas muito do que vemos e especialmente muito do que ouvimos é perfeitamente ridículo, e era já ridículo e até cómico para alguém naqueles dias que pensasse. A ideia de fazer “monumental” para que ninguém se pudesse “envergonhar” da capital é ridícula, assim como é ridículo o orgulho demonstrado no agrupamento de pessoas pobres como gado nas partes mais desinteressantes da cidade, enquanto “belas vivendas” são construídas junto à água. Bem, talvez devêssemos apreciar esses comentários, são ingénuos e, por isso, muito menos hipócritas do que os que ouvimos estes dias.

Uma coisa muito mais triste é pensar que o documentário está totalmente centrado na capital subdesenvolvida de um país então terrivelmente subdesenvolvido e que os trabalhos que vemos para modernizar a cidade foram insuficientes para fazer a cidade ter as condições de outras cidades europeias e, pior que isso, foram os únicos feitos aquela escala em todo o país. Temos, por isso, aquele princípio fascista odioso de fazer um único empreendimento representar todo um país, que morria lentamente entretanto.

Mas a coisa realmente triste é esta: estes tipos, há 60 anos atrás, tinham o mesmo discurso que os inconsequentes que hoje vão governando o país. Eles tinham o discurso de “tu isto estava mal antes, agora estamos a limpar o país”. Basicamente, desviam a responsabilidade da sua inabilidade e falta de ambição para os erros que “alguém” cometeu no passado. Assim, se eles actualizaram o que não foi feito antes deles, e nos últimos 35 anos nós temos actualizado o que esses tipos deixaram, quem irá actualizar as coisas que nós Não estamos a fazer agora? Vêm o triste disto? Quando é que começaremos a fazer coisas boas, em vez de apenas “compensarmos” o que outros fizeram? Que ciclo vicioso.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Um dos filmes que mais quero ver; sobre um romance de Saramago, realizado por Meirelles, com Julianne Moore. Vejam Diário de Blindness, written by Meirelles himself (portuguese)

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