Wall Street (1987)

“Wall Street” (1987)

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previsível como sempre

Não gosto de Oliver Stone. Tenho motivos para isso.

Ele é sempre previsível na forma como os seus filmes se desenvolvem. Ele usa um tipo de estereótipo de anti-herói, necessariamente americano, necessariamente imperfeito, mas no final sempre capaz de reconhecer essas falhas e fazer a coisa certa. Stone é um dos expoentes máximos dos últimos 15 anos de relevância americana no mundo. Não me interessa muito esta atitude, acho que há muito mais na cultura americana e muitas mais vantagens americanas do que estes clichés que me cansam observar, repetidamente, por tipos como Stone.

Ele constrói os seus filmes com uma vulgaridade cinemática atroz. Não há visões inteligentes, na verdade não há conceitos visuais que integrem as ideias do filme. O filme simplesmente se desenvolve, não há trabalho de câmara especial, preocupações artísticas, etc.

Este filme especificamente, corresponde à descrição que fiz. É um filme vulgar, de um realizador vulgar, que tem no entanto uma sequência redentora: a primeira vez que vemos Wall Street. É uma sequência que começa com planos reveladores normais, mas depois vamos para o interior, e temos algum tempo com um pedaço fabuloso de edição, que mostra o dia-a-dia da bolsa. Gostei desse pedaço, porque há uma forma visual de passar um ambiente, que está de acordo com o que vemos. Claro que a ideia que se passa da bolsa de valores é comum, mesmo clichá, mas a narrativa visual (ambiente visual?) é muito boa. Esta sequência merece ser vista, tudo o resto é tão vulgar como sempre. Suponho que é preciso ver Platoon para termos o projecto redentor da carreira de Stone. Este não o é.

Ah, e a “arte da guerra”, aplicada ao mercado de acções, é tão amador que não vale a pena comentar.

A minha opinião: 3/5 aquela cena no início…

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A Guide for the Married Man (1967)

“A Guide for the Married Man” (1967)

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sWingin’ in the rain

Creio que sei o que era suposto este filme ser. Esta história, e esta montagem deveriam bailar em frente dos nosso olhos tal como Gene Kelly costumava, literalmente, dançar nos seus musicais passados. Aprecio a ideia, o homem usou a imagem que o público tinha dele, e tentou ser coerente com ela, detrás da câmara. A história fala de bailarinos, tipos que contornam adversidades, esquemas para enganar as mulheres, aquele ambiente onde o adultério é cómico, e o bom nunca cai nele, porque no fundo ele compreenderá que na verdade ama a sua mulher. Assim, trocamos constantemente de cenários, e voltamos a esses cenários, introduzimos novos personagens, contando-se histórias que não sabemos se realmente aconteceram, e isso é feito de uma forma frenética (para a altura deste filme). Kelly tenta bastante manter a edição a par da história, e aprecio o esforço, mas ele não é suficientemente dotado para fazer isto com competência. No mesmo ano, Stanley Donen realizou uma obra notável, um filme que eu considero essencial, “Two for the Road”, ele tentou algo semelhante, mas saíu-se bem de uma forma que Kelly nunca poderia conseguir. Aí, Donen conseguiu controlar a edição e a linha narrativa em coerência. Estas duas mentes (Kelly e Donen) tinham sido responsáveis por uma grande experiência, “Singin’ in the rain”. Por esse filme, e por “Two for…” compreendemos que eles sabiam que poderiam chegar a algum lado com o que experimentavam. Donen chegou, mas este filme é só uma tentativa menor.

A minha opinião: 2/5

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Phone Booth (2002)

“Phone Booth” (2002)

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cinema centrípeto

Isto podia ter sido memorável. Tinha um conceito interessante detrás, mas quem executou arruinou-o. Suponho que em grande parte a responsabilidade devia ser atribuída a Schumacher. Ele é incompetente, ele vai com a maré, ele faz o que quer que as audiências consumam facilmente, e não se interessa por cinema ou como pode construi-lo numa base visual. Os seus filmes funcionam para mim como poluição visual, a estratégia dele é encher o olho com todo o tipo de imagens para substituir a falta das suas próprias ideias.

Assim, algumas coisas boas perderam-se aqui: Este filme é, num certo sentido, o oposto do que Hitchcock fez em Janela Indiscreta. Esse foi uma obra prima, porque nos colocava dentro do olho de um observador, e o mundo do filme é tudo aquilo que ele é capaz de ver. Nem mais, nem menos. Tirando alguns poucos planos especiais, recebemos um mundo com as mesmas medidas do de Stewart. Isso foi especialmente bem feito, e a história desenvolve-se visualmente. Aqui tínhamos o oposto. O mundo está centrado num personagem, como em Janela indiscreta, mas a forma como vemos esse mundo é completamente oposta, o que significa que não vemos o mundo como Farrel vê (pelo menos não tantas vezes), temos antes Farrel de vários ângulos e pontos de vista:

. o atirador furtivo, ele é o mais próximo de deus que temos, ele sabe tudo, incluindo o que levou à situação que observamos, ele tem o olhar superior, ele controla a acção, todo o tempo;

. o polícia, ele esforça-se por perceber as coisas, no início ele é tão ignorante como todos os outros, mas acaba por descobrir algumas coisas;

. a esposa e a amante, cada uma ignora a existência da outra, e sabem apenas o que Farrel quer dizer-lhes;

. a imprensa, esta é a entidade que tem de concluir, que tem de fingir que sabe, mas a sua participação aqui é praticamente nula;

Havia estas 4 linhas, mais a versão pessoal de Farrell. Isto já foi bem explorado em cinema, como explorar várias linhas narrativas, começando com Citizen Kane, e continuando com uma série de outros projectos importantes ou meramente interessantes. Este perde-se com truques de edição completamente inúteis, edição sonora inconsequente, fogo de artifício inútil. Pelo menos desta vez não vemos mamilos nas roupas do herói.

A minha opinião: 2/5 alguns conceitos interessantes, mas execução terrível.

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The Apartment (1960)

“The Apartment” (1960)

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tempos modernos

Vale a pena ver o que Billy Wilder fez, independentemente do que seja, ou sob que circunstâncias ele as fez. Isso porque ele sempre tentou contornar adversidades, mesmo se no final isso aparece com a forma da ironia e da crítica aos seus patrões, usando as possibilidades que eles dão. É o que ele faz aqui. Os resultados não são muito impressionantes, talvez porque ele mistura mundos diferentes. Ele tem um romance para contar, foi para isso que foi contratado, para produzir a comédia romântica que se esperava dele, início dos anos 60, mas feita como se fosse nos anos 50. Mas na verdade, ele está angustiado porque ele sente-se agarrado e dependente do sistema de produção cinematográfica que não lhe permite exprimir livremente as suas preocupações, os seus temas, da sua própria forma. Ele teria a sua última recusa tarde na sua vida, quando Spielberg não o deixou realizar a sua Lista de Schindler. Por isso imagino que Stalag 17 deve provavelmente ter sido um projecto muito pessoal para Wilder, um que procurarei verbrevemente. Neste processo de luta pela sua própria expressão, ele criou uma obra prima, Sunset Boulevard, e o menos interessante Ace in the Hole. O noir servia perfeitamente as suas intenções de integrar os seus sentimentos sem os gritar, e ainda assim produzir o filme que lhe tinham pedido.

Aqui, isso não funcionou assim tão bem. Como o tema era romance, ele substitui o ambiente noir por sexo. Assim, temos um personagem imerso num mundo moderno de exploração, onde lhe dizem o que ele deve fazer, tem a sua vida sabotada pelos interessos dos seus (muitos) superiores. Este é um mundo que Chaplin tinha criado em Tempos Modernos, mas aqui Wilder substitui a maquinaria belissimamente coreografada da fábrica pelo sexo. O apartamento é um ponto de encontro, o sexo guia o que acontece aqui, tudo. Assim, temos um homem apanhado num sistema e que tem de criar as suas soluções para ganhar a sua liberdade de decisão. certo?

Jack Lemmon é sublime, realmente aprecio o seu estilo de comédia não explosivo, mas intenso. Ele tem uma forma de se mover, de caminhar, que fortalece o seu personagem, e neste caso particular, torna-o mais apreciável e mais fácil de acreditar que ele é na verdade um peão num mundo corrupto e opressivo. Ele é um Charlot aqui. Isto não é inocente. O Charlot deve ser uma das personagens com maior poder metafórico na história do cinema, e ele sempre representa coisas que não vemos no ecrán. Shirley MacLaine encaixa bem, a cara dela não é tão enigmática e intensa como a das Hepburns, mas ele move-se de forma mais entusiástica.

Depois de tantos anos, creio que o que suporta este filme são as actuações. Por agora já não tenho o contexto de Wilder, e estou demasiado afastado das audiências que valorizaram o filme no seu tempo. E toda a mecânica do sexo parece uma linha completamente paralela ao romance que seguimos, não está suficientemente bem integrada, creio. Apesar de tudo, há um carinho nas interpretações, e uma nostalgia que eu levava para o filme quando comecei a vê-lo, não porque vivi esses dias, mas porque pude ver o que aconteceu a esses intérpretes, Lemmon e MacLaine. A nostalgia é um ingrediente poderoso.

A minha opinião: 3/5

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Die Fälscher (2007)

“Die Fälscher” (2007)

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uma nova abordagem

Tendo em conta todos os filmes que já foram feitos sobre a opressão nazi aos judeus, este é inteligente na forma como constrói os seus personagens e a sua abordagem ao tema.

O que se passa é, os criadores aqui são suficientemente competentes, especialmente na cinematografia, que segue Rembrandt, uma tradição belíssima no que toca ao uso da luz, e a construção de um ambiente. Com isto falo de imagens onde a luz é uma massa com a forma do objecto iluminado no meio de um ambiente escuro, mas nunca, ou quase nunca, percebemos a fonte da luz, é como se ela irradiasse do próprio objecto. Isto faz-nos focar no centro da composição com especial concentração. Coisas comuns, aspectos miseráveis, tornados especiais por estarem num local escuro. Isto tem tudo que ver com a segunda guerra, e as profundas da miséria humana. Mas apesar desta fotografia, o resto é apenas competente, a câmara foi carinhosa em alguns momentos, mas apenas (falso) documental em praticamente todo o resto. As actuações são boas, e Markovics e os escritores merecem crédito, porque fizeram algo que eu nunca tinha visto num filme de Holocausto.

Assim, não temos bem e mal, isso ganhou o meu coração imediatamente. Verificamos as falhas, e o mau carácter do falsificador logo do início. Ele tem tantas falhas como qualquer outro homem, talvez ainda mais. Ele finge, ele falsifica dinheiro, ele finge para sobreviver, ele está interessado em sobreviver, não em salvar o mundo. “um dia é um dia”, diz ele. Todos os judeus que trabalham com ele pensam da mesma forma, excepto o idealista. Todos os judeus querem apenas sobreviver, e eles são os sortudos, uma ilha de relativa paz na ilha que é o campo de concentração. É interessante como acabamos por os invejar pelo seu quase nada, comparado com o nada que a maioria tinha. Creio que essa sensação que temos ao ver o filme, é provavelmente comparável à sensação que os judeus reais teriam, ao viver a situação. Isto é um feito interessante. Assim, temos um ângulo diferente, um que não santifica as vítimas, e coloca-as na esfera real do mundo com falhas onde eles viviam, antes da guerra, antes dos nazis. Para alguém que está 2 ou 3 gerações afastado da guerra, como eu, isto representa uma abordagem muito mais interessante. Claro que o realizador tem apenas 47 anos agora, também é evidentemente pós-guerra.

Uma coisa não funcionou para mim, pelo menos achei que foi mal utilizado. Tango. Está assumido, desdo o início, todas as adaptações de Gardel, muito boas, mais sensuais mas menos viscerais que o Gardel original. Realmente não percebi a ligação. Porquê Tango? No início tentei compreender e adivinhar onde iria encaixar, mas não encaixou, não para mim. Vou tentar compreender isso.

A minha opinião: 4/5 vejam este

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Helvetica (2007)

“Helvetica” (2007)

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Catálogo

Como um futuro arquitecto, eu senti-me próximo do que estava em discussão aqui. A evolução de muitas das concepções, concepções vulgares, do que arquitectura deveria ser ou, como o design gráfico deveria ser encarado, é bastante similar. Assim, temos design, aqui representado pelas diversas fontes de escrita, que surgem como resposta a uma necessidade, uma representação de um certo momento no tempo, ou o ícone de determinada postura política ou de vida.

O título do filme é uma criação do modernismo, e isso significa que funciona, tenta ser universal, e é durável, em termos visuais. Isso não impede que seja um potencial alvo de críticas. O que se passa é, a natureza humana não permite que os humanos permaneçam iguais sempre. Isso porque a mente humana é criativa. Ao mesmo tempo, os homens gostam de fórmulas. Gostam que lhes digam o que está certo, gostam de confiar. E na verdade, com a excepção de um número reduzido de artistas que têm/tiveram o génio para produzir trabalho gerado numa realidade qualquer paralela, algo que Platão descreve, a vasta maioria dos mortais necessitam referências, fórmulas (mesmo que lutem contra elas), necessitam de restrições, como alguém disse neste documentário. Assim, à Helvetica podem-se juntar muitas fórmulas, as caixas modernistas da Bauhaus, os espaços transparentes de Mies, tudo foram criações que nasceram de mentes criativas e que foram massivamente adoptadas, com resultados notáveis ou com gradual perda de interesse, contexto e qualidade. No final, creio que todos somos, em maior ou menor grau, conservadores e radicais, conformistas e revolucionários, Helvetica e manual, Gropius e Gaudi. É na oscilação entre estes extremos que a criatividade humana funciona, e nos conflitos que existem nesta evolução. Por isso, quem és tu? Que riscos estás disposto a ter? Quão novo estás disposto a ser?. Se fosse (for) americano, em quem votaria? Obama ou Clinton? A ideia por trás do que está neste filme, é que as escolhas que tu fazes definem quem tu és. Mas há um senão. Estamos a falar de escolhas sobre as criações dos outros. As pessoas defendem que a Helvetica faz parte delas, mas também faz parte da American Airlines. E uma janela é aberta, no final do filme.

O facto de, hoje, a democracia tecnológica permitir a alguém ter um poder de comunicação e personalização muito maior dos nossos “bilhetes de identidade”. Pessoalmente não creio que a tecnologia estimule a criatividade, aumenta as opções, sim, mas isso apenas nos dá um maior catálogo de “fontes”. O nosso poder de inovar é o mesmo, com ou sem computadores. Eu até creio que os tempos fantásticos que conseguimos obter ao trabalhar com um computador podem matar o processo criativo, a partir do momento em que nos apressamos a fazer coisas só descobrindo que não são as opções certas quando já é demasiado tarde para mudá-las. Mas é fantástico que hoje uma pessoa possa produzir um filme completo com um telemóvel, ou saber todas as coisas de determinada área de conhecimento com pouco ou nenhum dinheiro. Vai levar vários anos para nós compreendermos que trabalho importante pode ser criado com as possibilidades que temos hoje. Sou céptico, mas também encorajo as possibilidades, e penso sobre o que poderemos fazer com elas. E é realmente apaixonante estar vivo e poder participar no processo. Escrevendo com Helvetica, ou manualmente…

A minha opinião: 4/5 vejam este

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The Transporter (2002)

“The Transporter” (2002)

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pólvora seca

Isto está baseado em nada. Tudo explode, mas nada rebenta. Os elementos usados neste filme serão vistos, suponho, como as características principais nos filmes de acção desta primeira década do século. Temos uma cinematografia específica, baseada em tons azuis que funcionam como um tipo de imagem sóbria, dura, mesmo violenta. Isto supostamente marca o tom da acção, que por sua vez é coreografada, mas também dura, pesada. A edição tem um papel fundamental nisto tudo, muitas vezes não nos é permitido a nós, espectadores, compreender exactamente tudo o que acontece. Os filmes Bourne começaram esta tendência, creio, Casino Royale explorou-a com sucesso, assim como vários outros filmes. Não este. Este é uma colecção de truques inúteis, que não funcionam em nenhum ponto do filme, em nenhuma situação. Não há nada aqui. Copia mal as suas referências, vive de um certo estilo, mas esse estilo aqui está corrompido e é usado de forma incompetente.

A minha opinião: 1/5 afastem-se deste.

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Billy Madison (1995)

“Billy Madison” (1995)

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Sandler com uma ajuda

este é um filme vulgar com dois momentos que o valorizam parcialmente.

O Adam Sandler acostumou-nos a projectos em que tudo gira em torno do seu personagem, todos os elementos existem para realçar as suas qualidades como intérprete de comédia. Ele é um daqueles humoristas que construíu uma carreira em redor de um personagem específico. Neste caso, alguém que é anormal, aparentemente aparte de tudo que, no entanto, acaba por ser capaz de completar feitos puramente honestos e difíceis. Assim é o caso aqui. Mesmo o título dá-nos o que veremos: billy e não muito mais.

Há uma questão de gostos pessoais aqui, se gostar de Sandler, pode-se aguentar este filme, suponho que tem bons momentos do seu ‘personagem’. Mas é, no entanto, uma experiência vulgar sem muito ou nada para dar.

Há, no entanto, dois episódios bem feitos. O primeiro é a participação de Steve Buscemi. Ele aqui faz também referência e brinca com o seu próprio personagem, o psicopata estranho, o velho companheiro de turma de Sandler que se torna um psicopata com desvios sexuais. Isso foi realmente engraçado, pela associação que fazemos com os personagens passados de Buscemi. O outro momento é o excerto musical. Suponho que funciona porque é totalmente inesperado. Pelo menos eu não esperava, e imita com um bom nível cómico os musicais clássicos que referencia. Claro que, para além destes momentos, não muito mais aqui.

A minha opinião: 2/5

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No Country for Old Med (2007)

“No Country for Old Men” (2007) (Este país não é para velhos)

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as crianças que saíram da caixa de areia

Este filme é uma grande experiência em muitos níveis, e um dos melhores usos do widescreen que tenho visto em produções recentes. A fotografia é invejável, e chamo a atenção para todas as cenas que têm lugar no sítio do massacre. Dia, noite, de cima para baixo e ao contrário, todas as situações e ângulos são tentados, todos eles significam coisas diferentes em pontos diferentes da narração. É realmente grande trabalho. Mas há questões aqui para ser analisadas, creio.

Estou convencido que grande parte do gozo pessoal que podemos tirar de um filme (e de outros trabalhos criativos) é uma questão de decisão pessoal. Basicamente temos duas opções: ficar na superfície, ou pensar/sentir. A vasta maioria das audiências médias de cinema funcionam na primeira situação que basicamente se traduz em “gostei da história?”, “gostei das actuações?” (no nível básico de serem convincentes ou artificiais), e eventualmente a beleza das imagens. Para esse tipo de audiências este filme funcionará perfeitamente, porque está construído de situações/enredos/personagens já vistos. Nada do que temos aqui é pouco usual, traficantes de droga, dinheiro, xerife, e a fronteira dos EUA com o México. Ah, e o psicopata. Com estas afirmações, não me estou a retirar da audiência média. Mas procuro os meus caminhos para tentar compreender o que poderá estar por trás do que vi. Neste caso, não acredito que os Coens simplesmente fossem com a corrente, e fizessem tudo o que seria esperado de outros realizadores apenas competentes. Mas de facto, aparentemente eles fazem isso… suponho que foi propositado.

Gosto de tentar encontrar auto-referências em filmes, ou metáforas para as mecânicas das coisas no mundo real. Por isso tentei fazer a minha própria interpretação do mundo que vi neste filme e estabelecer uma possível relação, que pode ter alguma lógica, ou nenhuma de todo. É importante dizer que não li o livro, nem conheço a escrita de McCormack, mas creio que a sua influência neste filme deve reflectir-se na estrutura narrativa, de episódios que são paralelos, por vezes intersectam-se e ligam-se (nem sempre os Coen funcionam desta forma). De qualquer forma, decidi ver o seguinte: temos um filme que começa no rescaldo de uma chacina. Muitos corpos, disputas de droga num território fronteiriço, e uma grande quantidade de dinheiro. Isto está encenado para nós, é a secção do filme em que somos forçados a ver realmente o cenário e em que somos posicionados lá. Temos alguém que é totalmente ignorante em relação ao que se passou, e o destino/acaso leva-o a encontrar o dinheiro. E ele é perseguido por isso. Verifiquemos o caçador. Todos pensam que ele é louco, que “you(ele) don’t have to do this”. Mas ele nunca cede um único milímetro. Ele tem a sua própria moral, ele cria as suas regras, e ainda dá uma chance ao destino, quando usa uma moeda para decidir sobre a vida e morte. No final, ele procura exactamente o mesmo que todos os outros, o ‘macguffin’ (dinheiro), mas intuitivamente sabemos que ele tem outras motivações, apesar de não sabermos exactamente quais. Isto foi feito por dois irmãos, orgulhosos de serem aqueles que brincam numa caixa de areia do canto de Hollywood, fazem os seus jogos e não são aborrecidos por aqueles que estão “apenas” atrás do dinheiro. Mas afinal, eles também jogam o grande jogo, eles também produzem no contexto do Moss e do Wells deste filme, e eles também estão sob a jurisdição do Bell. Eles não são independentes na visão falida europeia, eles nem são cineastas de baixo custo. Eles são estrelas, e o sucesso mediático deste filme fê-los ainda mais estrelas. Assim, creio que assisti a um jogo. Os Coens pondo audiências, investidores, produtores a verem-se a si mesmo, fugindo e temendo os Coens, e a rir disso. Ironia encoberta. Mas tenho um senão neste jogo. O filme encheu muitos bolsos, é visto, e o seu sucesso pode tornar-se uma espécie de paradigma, um estilo para ser perseguido, copiado, e reconhecido. Assim, quem ganhou o jogo?

E já agora, para mim este é o mais “convencional” dos filmes dos Coen, convencional em relação aos outros filmes dos Coen, e também em relação aos filmes convencionais.

A minha opinião: 4/5, é divertido ver Joel e Ethan, mas eles já fizeram melhor. Mas este é um bom filme.

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Fados (2007)

“Fados” (2007)

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Fado também é arte

Tenho sonhado com este filme. Apesar de o ter visto há alguns meses, não o comentei antes porque queria compreender como ele caberia na minha imaginação. E tem mexido com os meus sonhos de uma forma que eu não tinha ainda experimentado antes. Este trabalho é um marco, e vou marcar este como um filme que deve ser visto se se quizer obter à máxima amplitude daquilo que a imagem em movimento tem para oferecer.

Eu tinha experimentado o género musical segundo a visão de Saura. Este supera o que eu tinha experimentado com Iberia e Flamenco. Ele superou tudo o que tinha sido feito antes nesta área. O que se passa é: não tenho a certeza de ter visto cinema aqui. Eu vi uma composição, que implica música, desenvolvimento plástico de cenários base baseados no sentimento que a música causa, enquadramento, movimento da câmara e por aí em diante. Assim, Saura joga com todo o baralho de cartas. Ele joga com a câmara, som e a imagem/composição. Ele usa todas as possibilidades, e sabe tão bem onde quer ir.

Provavelmente, como português, eu liguei-me com este filme de forma especial. Fado é uma arte em desenvolvimento, é uma forma de expressão que saltou já da “periferia”. Amália Rodrigues tentou saltar barreiras, ela procurou fazer do Fado algo mais jazzístico no sentido em que podia tocar com mais “notas”, quebrar formas, quebrar mesmo a ideia de formas rígidas. Ary dos Santos foi o equivalente no campo das palavras (e suportou nesta pesquisa o emergente Carlos do Carmos, que actua neste filme). Mas quando Amália começou, ela tinha o fascismo a suportar o “tradicional” e o fado tinha o papel fundamental de suportar a alma das pessoas, e a saúde do império. Por isso ela nunca teve a oportunidade para levar a música para todo um nível novo, como tem sido feito em anos mais recentes.

Mariza apareceu, entretanto, bem apoiada pelas pessoas certas, e ela levou o fado, musicalmente, para um novo nível artístico. Fado é também música, disse-lhe Morelembaum. Novos desenvolvimentos musicais estão em curso. E agora temos este filme. Aqui a questão torna-se mais universal e relaciona-se com outros “desportos”. Várias formas de expressão “paralelas”, que intersectam o fado sem serem exactamente fado. Sob essas expressões, Saura coloca superfícies coloridas planas, e ele usa-as à sua vontade, para realçar o melhor que os “números” (danças ou música) têm para oferecer. Assim, ele usa espelhos para multiplicar as áreas ou para reflectir movimentos que lhe interessam, e usa cores fortes, normalmente para colocar caras em contraste. Aqui ele consegue momentos de génio. Sonho com aquele laranja amarelado, creio que chorei uma lágrima no meu lugar sobre aquele laranja… O génio aqui aparece quando Saura consegue usar todos os meios que tem para realçar o valor da música. Ele cria uma nova forma de arte, que poderá estar para lá do cinema, algo entre o happening e a instalação, mas muito mais interessante que esses dois. Curiosamente, 2007 também nos deu um filme que eu considero essencial, Caótica Ana, de Medem, outro espanhol, e nesse filme comentei uma cena específica que considerei ser algo mais que cinema, algo que incluía o espectador. Muito interessante, o mesmo ano, o mesmo país. Creio que o próximo passo aqui será incluir nestas concepções um olho arquitectónico/espacial. Isso poderia dar-se estudando os arquitectos do cinema (Welles, Tarkovsky, Antonioni…) e referenciá-los, ou transformar esta numa experiência física real, mas aí o cinema estaria ausente. Preferia que isto fosse feito da primeira forma.

A minha opinião: 5/5 senti que estava a assistir à construção de um novo meio, algo que nunca tinha visto antes. A sensação é fantástica.

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