U Turn (1997)

“U Turn” (1997)

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Oliver às portas do país das maravilhas

Não tenho grande consideração por Stone, e a maioria dos seus filmes. Ele parece ser um desses tipos aborrecidos que só falam para serem ouvidos, que só acham significativo que outras pessoas estejam à sua volta para que possa concordar com o que ele está a dizer, acenar afirmativamente, dando-lhe a ovação que o seu intelecto brilhante merece. Na verdade penso que há um número significativo de realizadores (e outros artistas) que caem neste tipo de categoria. Suponho que estar permanentemente a tentar formar uma opinião acima das mentes médias fá-los pensar que eles mesmos são diferentes das massas banais. Bem, algumas vezes eles são, e assim justificam a arrogância: Wenders, e Tarantino (por vezes). Outros são simplesmente personalidades egocêntricas. Stone é um deles. Todas as suas divagações políticas são teorias da conspiração que ele retrata como verdades inquestionáveis. Platoon é uma grande experiência, mas há pouco mais para lá disso.

Este filme, no entanto, merece alguma atenção. Não se enganem, a personalidade de Stone está aqui, e isto prejudica uma enorme parte da experiência. Mas há pessoas interessantes a trabalhar aqui, e foram corridos alguns riscos, mesmo por parte de Stone. Por isso apesar de no final este filme ser um falhanço, eu acho que é um falhanço valioso, quase glorioso, porque havia ambição aqui, e verdadeiro comprometimento para chegar lá.

Temos um contexto Coen, um em que um mundo normal nos dá respostas bizarras para situações estranhas. Começamos, junto com Penn, fora desse mundo. No início somos literalmente conduzidos para esse cenário físico louco, e também literalmente ficamos lá pendurados. E para lá da história que liga Penn a Lopez a Nolte, todos os personagens paralelos garantem-nos que o mundo é cheio de truques, bizarro, e não confiável. Isto é totalmente cinematográfico e é a melhor tentativa que se faz aqui. Os Coens são os actuais mestres disto, já o eram nessa altura. Penn faz um grande trabalho, como costume, neste caso representando a ambiguidade de se sentir fora desse mundo louco e ter de se deixar sugar por ele. O que quer que funcione aqui tem certamente a ver com ele. Jennifer Lopez na verdade não sabe actuar, mas eu até acho que neste caso isso jogou a favor do filme, porque ao não controlar a sua actuação, ela não nos permite ver através dela, e isso é uma coisa boa dado o personagem dela. Claro que ela é também um personagem físico, o corpo dela conta. Phoenix, Danes, Billy Bob, Voight. Cada episódio que os envolve depende deles como actores, por isso este é um filme sobre actuações, ainda que Stone não o quisesse assim tanto.

O que arruina isto é ver como Oliver Stone coleccionou tantos truques visuais, que usa indiscriminadamente, em cada momento. Aqueles truques todos de edição, de separar o que ouvimos do que vemos, mais os truques no filme para mudar cores por vezes. Stone pensava que isso seria suficiente para dar ao filme o ambiente que ele queria. Na verdade, alguns desses truques podiam ter sido muito poderosos, mas era preciso uma mente sensível para usá-los, não alguém que se olha ao espelho enquanto concebe o seu trabalho. Stone fez uma boa tentativa, quase conseguiu fazer-nos cruzar para o mundo que nos propõe, mas estragou tudo porque não conseguiu apagar-se do filme, o que permitira que tudo fosse totalmente uma experiência colectiva.

A banda sonora é o elemento mais focado que temos aqui.

A minha opinião: 3/5

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Cobra (1986)

“Cobra” (1986)

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dureza aborrecida

Tenho consumido uma quantidade razoável de acção, porque estou interessado em seguir as tendências. Este tipo específico de filme, o do tipo duro, esteve muito presente na minha infância e, para o bom e para o mau, é uma boa parte das minhas memórias cinematográficas mais antigas. Bem, não escolhemos o que chega até nós, quando somos tão novos.

Dentro dessa tendência, este Cobra poderá bem ser o cliché mais claro que temos. Isso porque este filme tem tudo que ver com todos os outros filmes de acção com aqueles jarrões, como Stallone. É como se tivesse sido escrito por dois tipos que estiveram a ver todos os filmes anteriores de Sly, mais os dos Seagal, mais os do Chuck Norris… vamos pensar como um adolescente: a justiça está podre, a não ser que alguém, Cobra, O Homem, a coloque nas próprias mãos; “this is where justice ends, and i begin…” o tipo é implacável, mas moralmente superior, ignora as regras, apenas para fazer o mais justo, e proteger os oprimidos. O mau é um pulha total, fisicamente ameaçador. Ah, e tem uma equipa de motoqueiros, uma espécie de versão aguada do The wild one. A luta final é mano a mano, entre o polícia e o mau, uma espécie de Boss no final de cada nível em jogos de computador. O cenário ameaçador, cheio de elementos perigosos, neste caso uma fundição. A uma certa altura, temos uma fuga em par, em que o herói tem de proteger uma mulher, primeiro são estranhos, logo se apaixonam, assim revelando a faceta mais humana no meio da dureza do herói. A mulher existe tanto como objecto para ser apreciado pelas audiências masculinas e como garantia que essas audiências vão apreciar o herói como um sujeito (ídolo) desejável. Pronto, é isso.

Isto é consumível, e eventualmente cumpria o que se pretendia, que era encher espaço. Mas não há muito mais aqui. A esta altura já Stallone era um tipo aprisionado pelo seu próprio personagem, e que queria sair (como ele várias vezes assumiu) sem o conseguir. As lutas e sequências de acção são aborrecidas hoje, e já havia muito melhor mesmo nessa altura.

Há o interesse de vermos como Stallone e a então sedutora Brigitte Nielsen actuavam juntos. Eles eram casados, e suponho que apaixonados. Há uma tensão positiva na forma como eles se encaram, notável na cena do quarto que antecede a sequência final.

A minha opinião: 2/5

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Peur sur la ville (1975)

“Peur sur la ville” (1975)

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Popeye vai para Paris

Há uma relação muito interessante entre os cinemas americano e francês dos anos 60/70. Todos sabemos que começou com os tipos da nova vaga, primeiro como críticos, liderados pelo notável Bazin. Eles foram muito bons na forma como colocaram mestres não reconhecidos, apenas considerados como artesãos competentes, no seu devido lugar; Hawks, Ray, Hitchcock (?). Depois como realizadores, e foi aí que as coisas aqueceram. Godard, o mais radical, levou-nos para um mundo auto-referenciado de citações cinematográficas. Belmondo era o personagem central dessa representação Acossada. Curiosamente, ao citar os americanos, os franceses lideraram as modas dos anos 60, e levaram os americanos a ter de segui-los. Mas parece-me que a revolução francesa era mais pobre do que inicialmente prometia (aliás como muitas revoluções francesas!), e depois da excitação de termos filmes explicitamente sobre filmes, o entusiasmo desvaneceu-se. Por isso, muito antes do final dos anos 60, a nova vaga francesa estava, na sua essência, esgotada. Godard perdido a balbuciar tretas sobre idealismos ingénuos, Truffaut, Resnais, Demy… fazendo as suas obras pessoais, na verdade até mais interessantes (para mim) do que as originais, mas totalmente fora daquilo que inicialmente era o pretendido. Foi aí que alguns americanos reganharam a liderança, Coppola, Scorcese, Lucas, claro. Mas notavelmente, temos uma linha de filmes de acção que realmente são incríveis. Siegel, Frankenheimer, e o incrível Friedkin. Esses estabeleceram as regras do que temos aqui. Por isso este filme é muito curioso, e um produto interessante, nascido da relação simbiótica entre as tendências americana e francesa. Belmondo é a herança da nova vaga original, mesmo na sua (bizarra) caracterização (o cigarro, a postura dura), assim como nas citações cinematográficas explícitas, logo no início o pedaço Jean Gabin. Por isso, já é bom ver este filme se conhecerem o contexto, se conhecerem as referências.

Mas na raiz, e do ponto de vista dos investidores, o que temos é um produto de acção, que compra as tendências da acção daqueles dias e, para mim, faz um trabalho bastante bom. Tem um enredo, que é descartável, excepto pela premissa de termos dois polícias que trabalham juntos (bom-mau), e o ambiente geral da coisa. Um assassino qualquer, louco traumatizado, e um aspecto interessante. A história anuncia que a sua própria solução está no olho. Por isso o Minos é um tipo com um olho só, que até é descoberto quando Belmondo prova a ligação ao olho de vidro. A primeiríssima vez que o assassino aparece, perto do início, temos logo um olho no ecran, para nos mostrar isso. Por isso a pista é que teremos algo visual.

E essa premissa é materializada nas sequências de acção. Temos aqui algum material impressionante. O truque é extender as sequências de perseguição o máximo que for possível, mudando cenários, mudando meio de locomoção (a pé nos telhados, carros na cidade, metro/comboio). Há uma sequência específica que é impressionante. Muito bem concebida, bem integrada na cidade, tem momentos cuidadosamente enquadrados. É divertido vê-la, e ela acontece de forma visual. Normalmente não faço resumos de filmes, mas aqui parece-me que vale a pena observar a sequência de perto. *spoilers a partir daqui* Temos Belmondo que surpreende Minos, que tinha acabado de matar uma mulher. Ele persegue-o pelos telhados, troca de tiros, acrobacias nas coberturas, e alguns olhares deliciosos sobre a cidade, Paris. Depois temos uma transição para as galerias Lafayette, através de um armazém de bonecos expositores de roupa, em que os modelos são mesmo usados na cena. Temos o troço nas Lafayette, estamos agora em espaço público. O assassino chega a uma moto, Belmondo e o parceiro começam a perseguição num carro. Agora estamos na cidade, ao nível zero, muitos planos de contextualização (notavelmente a ópera de Paris). Apreciei como fizeram os tracking shots dentro do carro dos polícias. A esta altura há uma perseguição paralela que toma lugar, a um velho vilão que Belmondo há muito procura. Dois outros polícias seguem esse outro, enquanto Belmondo ainda persegue o assassino. O interessante aqui é que, se conhecem Paris, compreenderão através do que é dito que ambas as perseguições estão bastante perto. Por isso, a dada altura saberão porque Belmondo desiste de perseguir o assassino para começar a seguir a sua vingança pessoal. Ele faz isso, e isto permite-nos refrescar a perseguição, que por esta altura já deve durar há 10 minutos ou mais. Temos um pouco mais de cenas de carros, que nos ligam ao novo sujeito perseguido, e entramos no metro. Enterrado e elevado. Belmondo no comboio, túneis, ele entra, mata o tipo. Fim da história. É complexo, é muito bem pensado, com um bom sentido de posicionamento na cidade. Belmondo tem qualidades físicas, e faz as suas próprias cenas de duplo. Esta sequência toda claramente tinha como referência a semelhante perseguição de carros do French Connection. Essa era mais fresca, mas esta é mais complexa, uma extrapolação sobre a outra. Vale a pena ver.

A minha opinião: 3/5

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Guantanamera (1995)

“Guantanamera” (1995)

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a honestidade de uma visão

Se estudamos a evolução do pensamento em relação à organização social, necessariamente teremos de passar pela maior fractura no mundo do pós-2ªguerra. A cortina de ferro. é com cada um formar uma opinião em relação ao que cada lado tem para oferecer, e que lados dentro de cada lado apoias. Para ajudar a decidir, temos de confiar nas histórias contadas por quem viveu, na pele, os problemas e vantagens desses mundos. Estou a falar de pensadores sérioes, ou pessoas com histórias honestas para contar. Se aprofundamos a pesquisa do lado soviético da cortina, necessariamente vamos enfrentar o caso cubano. É uma história fascinante. E dentro dessa história, há alguns contadores de histórias honestos. Korda, e Gutierrez-Alea são os mais significativos, e trabalham com imagens. Mas enquanto Korda é importante fundamentalmente porque seguiu o processo, a revolução, Gutierrez esteve no início, e continuou a contar a sua honesta versão da realidade até à morte. Um pouco antes disso, fez este belo filme.

Assim, sabemos que vamos ver nos seus filmes a narrativa de alguém que nunca parou de questionar-se, e denunciar o que acreditava ser mau, tanto como denunciou os abusos pre-Castro, e tanto como tinha abraçado genuinamente a revolução. Esta é a sua visão, a meio dos anos 90. Desencantado, cínico, irónico. poucas vezes foi a road-trip tão metafórica, tão embebida na noção de viagem, pelo tempo, e não no espaço físico. Também podemos colocar o peso simbólico que quisermos no cadáver que eles transportam. Mas o que me interessa é o talento puro que Alea tinha como verdadeiro contador de histórias cinematográfico. Eu aposto que ele começava com imagens, soltas e disconexas, que queria passar. Tal como a do plano final deste filme. Depois disso ele trabalhava muito na construção de uma estrutura narrativa que pudesse competente, coerentemente e, digo eu, poeticamente, integrar todas as suas múltiplas visões. O engraçado deste filme é que a multiplicidade de visões da mesma mente está reflectida nas várias histórias que seguimos, cada uma com o seu tom, o seu ambiente. Temos a história telenovelesca que rodeia a vida engraçada de Mariano, muitas mulheres que significam sexo para ele, e um amor platónico, com dificuldades em consumar-se. Temos o crítico cínico do regime totalmente investido na estupidez de todo o negócio de funerais. A parte de inventar regras para poupar combustível, tudo isso representado pelo marido burocrata e frígido, um retrato triste de um sistema a esta altura (e já naquela altura) triste. E o mais pesado drama cai sobre a alma mais delicada entre os personagens vivos, o velho viúvo, marido de uma artista falecida, aquele que nunca deixa de preocupar-se com as pessoas, eventualmente o único verdadeiro amor na história (não sei se considero a professora uma apaixonada). Alea não poupa postura cínica, por isso o humor negro com o cadáver, perto do fim, realmente faz-nos sentir desconfortáveis. Todas estas linhas estão perfeitamente integradas por uma bem gerida viagem pela estrada, e uma boa adaptação de uma canção eterna, que por casualidade é um representante da alma cubana.

Este é como um filme italiano pos-moderno “doce”, mas melhor, porque é mais significativo.

A minha opinião: 4/5

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The Private Lives of Pippa Lee (2009)

“The Private Lives of Pippa Lee” (2009)

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temas centrais

Há cada vez menos pessoas a ir ao cinema hoje em dia, e cada vez mais filmes a serem estreados cada semana. Mundo estranho, este. No meio desta loucura, tenho por hábito tentar adivinhar quais os filmes, entre a avalanche em catálogo, que valerão a pena. Alguns são escolhas fáceis, porque têm pessoas que me interessam. Outros são puro acaso (gosto de chamar-lhe intuição). Este é um desses. Sim, tem a Robin Wright, que me impressionou nas minhas revisões de Breaking and Entering (não tanto da primeira vez que o vi, tenho de reescrever esse comentário). No entanto, ainda foi um tiro no escuro. Mas por vezes acontece o destino e alguma capacidade de prever uma experiência valiosa mesmo descontando os seus conteúdos. Por isso, vi este filme numa última sessão numa sala totalmente vazia. Foi incrível. E o próprio filme tem a ver com rodear múltiplas concepções de solidão, de vazio espiritual, de objectivos vazios. O filme é uma dádiva válida. Foi-me dado, só para mim, mas estive na companhia do filme.

Temos uma vida central, de uma mulher que aparentemente afecta as vidas das pessoas que a rodeiam. Sem intenção. Ela fica com o que lhe acontece, não o que ela prevê. Isso é tanto a sua maldição como a luz do seu ser. Para representar esta mulher, a realizadora (também mulher) escolheu uma mulher jovem, viva e interessante, Lively, espelhada numa pessoa muito interessante, Wright Penn, cuja maior qualidade está no que ela faz com a cara. Por isso começamos o filme nessa cara, em primeiro plano extremo. As expressões dela vão dizer-nos tudo o que queremos saber sobre onde esse personagem está em cada momento. Dois tipos de actuação, um externo, de Lively, outro interno e concentrado, por Wright. Por isso em perfeita coerência com a ideia de uma mulher que aparentemente apagou-se da existência verdadeira, da vida verdadeira, para se tornar a sombra de alguém que num momento trágico viu a sua vida ligado a ela. Escolhas sensíveis.

A grande questão aqui poderá ter uma natureza auto-referencial. Vidas vazias significam as que criam nada? Afinal, Pippa sente o mesmo tipo de frustração que o seu marido sentia, quando percebeu que não seria um escritor. A questão surge várias vezes, notavelmente quando Sam pergunta a Pippa qual é o trabalho criativo dela, ao que ela responde que trabalha numa loja de roupa. Em última análise, a luz criativa que rodeia Pippa é ela mesma, como tema, e como dínamo das vidas que a rodeiam, alguém que agita e perturba. Por isso é que o personagem de Julianne Moore está ali, para realçar Pippa como tema, não a criadora. Casualmente, Moore é perfeita no papel porque ela mesma é muito dificilmente uma marioneta no meio da arte onde se move. Ela representa papéis importantes como a criadora de arte em si. Auto-referência, outra vez.

Temos a mãe, doente, viciada, e obcecada com a filha, temos Sam, sempre apaixonado, temos o personagem de Arkin, que materializa em Pippa a frustração de uma existência não criativa. Temos o personagem de Bellucci, ela mesma uma competidora de Pippa, que não aguenta ser substituida.

Tudo isto é Rebecca Miller, que escreveu um livro, eventualmente como projecção dela mesma, e extendeu a ideia a um filme, pessoal intuitivo. Uma boa experiência.

A minha opinião: 4/5

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Sherlock Holmes (2009)

“Sherlock Holmes” (2009)

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Actor, e sentido de Lugar

De certa forma, sempre evitei as representações em cinema ou tv de Sherlock Holmes. Acho o personagem fascinante, mas sempre me pareceu mais ligado à literatura, não ao cinema. As deduções, a forma como rodeia os mundos que investiga são um festim para mentes pensantes. Mesmo quando as deduções são exageradas (o que acontece bastante!9 não deixamos de sorrir à inteligência. Mais que isso, o personagem é uma peça perfeita que encaixa num mundo inteligente, irresistível e fascinante. Londres. Essa parte é visual, e um terreno sólido para colocar um mundo cinematográfico. Mas, ao contrário por exemplo de praticamente qualquer coisa de Agatha Christie, a inteligência de Doyle baseia-se em lógica pura dedutiva, não na mecânica do mundo. Reparem que os crimes de Christie têm muitas vezes que ver com a compreensão de como as coisas aconteceram, espacialmente (o crime no expresso oriente é o zénite disto). Suponho que Conan Doyle formou a sus mente antes do cinema ter algum tipo de impacto significativo na forma como as nossas mentes funcionam.

Por isso, o desafio para qualquer realizador e actor modernos que queiram actualizar Holmes, é tornar o personagem mais cinematográfico, mais atractivo. Vários truques são usados aqui, a maioria deles com sucesso, ainda que sejam directos. Um é o mais óbvio, tornar Holmes um personagem de acção (que na verdade até está no dna original do personagem, apesar das produções televisivas normalmente ignorarem isso). Isto poderia ser um falhanço e tornar esta versão ridícula, mas a esta altura há um sentido de ironia e lucidez nos filmes de Ritchie (desde Lock Stock) que lhe permitem colocar uma figura de acção do século xxi nas roupagens do Holmes, e tornar isso credível. Um truque menor que temos aqui é a associação da dedução com o próprio processo da luta física, que cria alguns momentos Matrix. Bem, são toleráveis, mas não particularmente interessantes. No grande arco, há boas sequências de acção, porque como qualquer acção competente hoje em dia, considera os elementos que rodeiam o espaço, e usa-os.

Mas há duas grandes coisas neste filme, que o levam a novos níveis de interesse.

Uma são as actuações. Jude Law é um tipo inteligente, um actor interessante cuja maior qualidade é a forma como ele se integra anonimamente no contexto que é suposto integrar. Ele torna-se deliberadamente uma peça da tapeçaria maior, e isso é realmente algo que devemos admirar. Não há muitos actores que possam gabar-se de fazer isto competentemente. Mas o rei deste jogo é Downey Jr. Ele é a peça de ouro neste puzzle de actualizar o Holmes. Certamente haverá um antes e um depois do personagem Holmes com este filme. O tipo é capaz de trabalhar as suas actuações em diferentes direcções, e cada uma delas tem uma ligação perfeita com o contexto. Por isso ele cede às necessidades de Ritchie, e introduz humor, ironia, e auto consciência no personagem, para o tornar próprio para as piscadelas de olho do realizador à acção irónica. Ele investe totalmente na criação de um personagem que se integre nas texturas do contexto, apesar de ser totalmente distinto dele. E enquanto o faz, ele coloca-nos em jogo, no jogo dele, por isso fazemos tudo com ele, lado a lado. Deduzimos, sorrimos, corremos, tudo com ele. Por isso, mesmo que o filme não tivesse outras qualidades, Downey Jr torná-lo-ia interessante porque, sozinho, ele consegue resolver um dos problemas mais básicos de todos os filmes: o de encontrar um canal que a audiência possa tranquilamente cruzar para entrar no jogo que alguém (o realizador) propõe. Ele é um dos melhores de sempre.

Mas há outra coisa formidável aqui, que suspeito que tem muito que ver com os diversos tipos envolvidos no processo de produção do filme. O resultado é um incrível sentido de Lugar. Londres, século XIX. Todas aquelas ruas sujas e lamacentas, toda a sujidade. O fascínio dos interiores, nomeadamente o laboratório do anão. Como os cenários são usados, nas cenas de acção. Tudo isso é competente, mais que competente. Está perfeitamente renderizado, cuidadosamente fotografado, soa artificial por vezes, mas isso é uma questão de gosto, creio. Mas o que para mim é realmente notável é o uso da ponte de Londres. Reparem como ela é anunciada, cedo no filme, com uma perspectiva semelhante à que teremos no final. Depois, a excelente sequência, quando Irene Adler atravessa o esgoto, sobre, e temos o plano muito aproximado dela num local não identificado. O ângulo abre, afastamo-nos, e estamos de repente no local da cena de luta final, que nesse aspecto específico é suficientemente interessante. Por isso o que temos é uma forma única de usar um local de contextualização, em vez de apenas mostrá-lo. Vamos lá a ver, quantos filmes é que já mostraram a torre Eiffel? inúmeros. Quantos é que realmente a usaram? não tantos assim. Esta é uma das melhores cidades de Londres que já vimos.

A minha opinião: 4/5

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Body Double (1984)

“Body Double” (1984)

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olho cego

Há muito poucos temas que são mais adequados para o cinema do que para qualquer outro meio. Desses temas, o voyeurismo é certamente o que já foi mais explorado, e por isso tem mais soluções e experiências. Provavelmente isso acontece porque é sedutor, e permite diversas abordagens (ao contrário, por exemplo, da exploração espacial). Para além disso, o voyeurismo é rentável, e pode adequar-se a diferentes géneros. E é uma forma incrivelmente eficiente de colocar a audiência no ecran, porque independentemente de quem, o que seja o voyeur no filme, nós como espectadores tornamo-nos voyeurs. Por isso suponho que o facto de que o voyeurismo encaixe no cinema melhor que em qualquer outra forma de arte é um aspecto puramente técnico, relacionado com as próprias características do meio, mas o facto de gostarmos tanto do voyeurismo é porque somos também nós voyeurs por natureza.

Por tudo isto, fazer algo voyeur que seja ao mesmo tempo interessante e original pode ser algo bastante difícil. Mas de Palma tenta. Tenta muito, é suficientemente inteligente para aprender com cada uma das suas experiências, e é suficientemente arrojado para tentar coisas novas uma vez atingidas as coisas que ele pretendia em primeiro lugar. Ele tem, quanto a mim injustamente, a fama de copiar os mestres, observar o que eles fazem e fazer algo parecido. Não acho que ele faça isso, ou alguma vez tenha feito. Ele pega em conceitos que outros (normalmente grandes realizadores) usaram, e refaz esses conceitos com uma visão totalmente renovada (e nova!), muitas vezes um novo olho, literalmente. Por vezes ele ultrapassa os originais. Esta estratégia produziu um dos melhores filmes de sempre sobre construção narrativa e olho: Blow out, uma transformação de Antonioni. Porque esse filme foi um sucesso tão grande naquilo que atingiu, ele avançou para outras coisas.

Aqui ele tenta Hitchcock. Não o tipo da Janela Indiscreta, mais aquele que fez o Vertigo. Há um mundo, desconhecido para nós, desconhecido para o nosso representante no filme, o espectador. Ele constrói uma história, ele compreende o mundo, porque olha para ele. Apenas ao olhar. O envolvimento dele no desenvolvimento desse mundo aparece muito mais tarde no jogo, e não é assim tão importante. Ele tem o olho do detective. E o mundo que é suposto ele encontrar está colocado de forma a que ele o encontre, mesmo que nem ele nem nós saibamos isso ao início. Aqui entramos no território do noir, a colocação de elementos do mundo de tal forma que nós/ele temos necessariamente de os encontrar. Aqui o que gatilha o interesse do personagem é sexo, como acontece inúmeras vezes nas histórias voyeuristas directas.

de Palma sabe onde quer ir, ele experimenta sobre terreno firme. Mas não consegue ser bem sucedido aqui. Para lá da estrutura básica daquilo que ele pretendia fazer, quase tudo o resto joga contra a ideia. A câmara dele não é fluída, sensível, serpenteada como tinha sido no Blow out e como voltaria a ser nos anos 90. Há alguns planos e sequências muito bem concebidos, mas que apenas valem por si mesmos, sem integração numa estrutura maior. Melanie Griffith não funciona para mim. Preferia muito mais Karen Allen, especialmente quando Brian estava apaixonado, isso passava para o filme. Griffith é tremida e insegura. Ela é apenas adolescente, não com o encanto de uma Lolita, apenas e simplesmente ingénua, e isso tira-a da história. A banda sonora é horrível, uma das piores que já ouvir, pior que em muitos dos filmes série b aos quais este está estilisticamente ligado.

A minha opinião: 2/5 se conhecem de Palma suficientemente bem, vão apreciar o conceito geral aqui. Mas há melhores sítios para ver as ideias dele florescerem.

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Where the Wild Things Are (2009)

“Where the Wild Things Are” (2009)

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portais

Muitos críticos, comentadores, ou simplesmente cinéfilos sérios acreditam que vivemos um tempo de decadência, em que filmes sérios, inovadores e ambiciosos são cada vez mais difíceis de encontrar. Eu discordo. É possível que em nenhum outro momento tivesse havido tantos realizadores inteligentes e sensíveis como agora. Entre várias linhas, normalmente construídas em torno de raízes culturais (os mexicanos, os coreanos), temos um conjunto de criadores contemporâneos que criam colectivamente e sozinhos novas soluções, inovam de formas duradouras, enquanto produzem um tipo de filme sincero e altamente pessoal. Jonze, Gondry, Kaufman (talvez possamos extender isto a Medem). Para mim “Malkovich” e “despertar da mente” são dois marcos fundamentais deste tipo de filme. Se consideramos Medem teremos então de considerar mais alguns trabalhos.

De que é tratam esses filmes? Ligações, conexões, exploração da mente, imaginação enraizada em como funcona a imaginação. Portais, transições, terrenos pantanosos para mentes pouco acomodadas. Isto é o material essencial deste cinema pós-moderno. Como espectadores, tornamo-nos espectadores da mente de alguém, visitantes dessa mente, várias vezes literalmente, como aqui. Este filme soma a essa noção a ideia da criação de todo um mundo completo (retirado de um livro), cheio de personagens perfeitamente definidos, cada um uma fracção de um todo. Auto referência. E temos Jonze, que renova uma certa ideia lírica de cinema. Carter Burwell ajuda, muito. Jonze não carrega muito na tecla da ironia, como o faz Kaufman, nem se torna cínico, como várias vezes Gondry faz. Ele é um lírico, e investe toda a sua criatividade na visão poética das coisas, do mundo em si, de como ele se desenvolve. A estrutura nos filmes dele é-nos totalmente revelada, e não deixa dúvidas. Por isso concentramo-nos nas texturas do mundo, na forma como os sentimentos magoam, no doloroso que é ser cada uma das fracções (personagens) do mundo que ele propõe. Malkovich superou tudo, e criou algo único. Este filme é a segunda melhor coisa dele.

Aqui, o esforço colectivo de uma única mente está investida visualmente na criação de uma estrutura, arquitectónica, o forte que Max constrói na sua imaginação. Pela forma como vemos essa estrutura crescer, vemos Max desenvolver as suas ligações imaginadas com os seus eus inventados. Numa certa forma, a estrutura e a visão dessa estrutura (a maquete) é um mundo dentro do mundo que Max cria, e torna-se em si mesma um personagem. Paisagens: deserto, floresta, mar; marcam os ambientes necessários.

Este é um mundo de sensibilidades, como o interior de um corpo, onde tudo o que tocamos tem o impacto maior, como o interior de KW, onde Max se esconde. É um mundo de portas, janelas, ligações. Sexo.

A minha opinião: 4/5

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Avatar (2009)

“Avatar” (2009)

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expectativas

Os marcos no cinema podem ser produtos fabricados, feitos à medida por corporações enormes, complexas e bem espalhadas, que lutam pelas atenções globais, e por vender um produto. Por isso agora temos este Avatar, que foi anunciado como o próximo grande evento, desde há vários meses, anos talvez. Apenas por isso, este é um produto revolucionário fabricado, não é o Citizen Kane, nem mesmo o Jazz Singer. Provavelmente é mais um E tudo o vento levou.

Mas há um filme aqui. E interessa vê-lo, para lá do embrulho do marketing e as opiniões descerebradas opostas das massas.

Há coisas fortes evidentes aqui. Uma é a forma como Cameron ultrapassou Zemeckis na forma como atinge um certo realismo que cresce de pessoas reais, abstraídos para a animação, apenas para nos serem devolvidas como personagens animados realistas; aquele jogo que Zemeckis tentou no Polar Express. Este filme ultrapassa o que tinha sido feito até agora. Não sei qual será o interesse futuro destas emulações da realidade através de meios puramente digitais, há assim tanto para ser explorado com interesse? Mas este filme é o ponto alto até agora.

Outra coisa é a forma como o filme cimenta o que Peter Jackson tinha feito com King Kong, e que vários filmes de acção trabalharam desde então: filmes de acção são peças espaciais hoje em dia. Isso já é um lugar comum, e será ainda mais no futuro. Um filme de grande escala de acção/épico/guerra(?) que não considere a ocupação espacial vai parecer datado e frágil. É aí que entra o interesse do 3d. Nas minhas poucas observações ao cinema em 3d já notei como as suas possibilidades maiores estão precisamente na forma como o 3d realça e cria espaço, espaço físico, construído com distâncias, onde a acção acontecerá. Por isso, a floresta de Pandora, está construída para ser explorada espacialmente. Desde o início, na cascata, a batalha para destruir a grande árvore, e basicamente toda a acção que toma lugar aí. O 3d é uma adição interessante para o que uma mente preocupada (ou grupo de mentes) pode fazer. Espero que se torne uma ferramenta utilizável pelas mentes de autor bonitas que há no mundo (quem me dera que Welles estivesse aqui para usá-la).

Os riscos foram reduzidos ao mínimo. A história é simplesmente clichá, reconhecível, e por isso comestível, sem se tornar gritante e insuportável. Aqui o filme segue a lógica de mercado de Selznick, a de promover produtos que são parecidos com algo já visto e aceite pelas audiências, apenas a uma escala maior e melhor promovidos.

Mas a rodear esta frágil história de bem-mal, há pedaços de reflexividade, conscientes ou sem intenção, que tornam o processo de reflectir sobre este filme delicioso. O aspecto mais visível, e assumido, é como o filme está para nós como o avatar no filme está para o seu dono. Nós escavamos a realidade do filme da mesma forma que os 3 utilizadores de avatares escavam a realidade de Pandora. Corpos falsos, realidades internas, como se descer cada nível fosse o equivalente a subir a grande árvore. Uma coisa que parece não intencional é quando consideramos os comentários no filme (sociais, ecológicos, morais) contra as contradições que o próprio filme exibe. Gira a roda do tipo bom-tipo mau. Por fim assume o “general americano” como o tipo sádico e destrutivo, que comete o mesmo tipo de crimes terroristas que um dia ele perseguia. Mas depois, as ferramentas que o filme usa para atingir o final feliz desejado, que respeita a “alternativa” da cultura nativa, são exactamente as ferramentas que os terroristas vencidos estavam a usar. O filme é em si mesmo uma história de bem-mal, não o contentor para conhecimentos acumulados, como a árvore das almas que colecciona as vidas de cada ser humano passado.

considerem a experiência visual. Não é radical mas é um ponto de situação das melhores ferramentas que temos hoje em dia, para explorar os mundos emergentes da animação digital e do 3d. Apreciem a autoreferência se quiserem, mas não se deixem guiar pelas opções pouco corajosas e inúteis.

A minha opinião: 3/5

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Hwal (2005)

“Hwal” (2005)

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tranquilidade que grita

Somos nós que decidimos onde nos devemos apoiar, enquanto divagamos pela vastidão de filmes e arte que experimentamos. Kim Ki Duk é um dos portos que mais procuro, hoje em dia. Para mim, Bin Jip é transcendente em vários sentidos. É um esquisso de amor, uma ideia linda, de ver sem olhar, sentir sem tocar. Permite-nos tentar coisas, na mente, retirar-lhe o ruído da habitual pornografia emocional, e elevar-nos a um mundo diferente. A minha experiência, tanto de Bin-jip como com este foi realçada pelo facto de ter sido uma experiência partilhada, com alguém muito importante (bin-jip foi mesmo sugerido por ela).

Suponho que isto é uma questão pessoal, mas para mim, embora Bin-jip tenha muito que ver com este filme, supera-o em todos os aspectos. E não deveria. O que quero dizer é que este, na raiz, tem muito mais que ver com aquilo que trata. Deveria ser um passo em frente, em relação ao outro. Isolamento. o velho e a rapariga, totalmente separados apesar de partilharem o mesmo barco, a mesma vida, o mesmo quarto! O velho não toca na rapariga, mas dá-lhe banho todas as noites. As perturbações que ultrapassam a tranquilidade da visão. Metáforas, o Arco, a corda. Este filme está construído com oposições, ou melhor, contradições. Mas o resultado é semelhante nos dois filmes. O casal consuma o amor quando o velho desaparece. A mesma filosofia de não tocar, aqui alcançada com uma cena mais espectacular, em que o sexo é consumado quando o velho desaparece no mar.

Por isso, isto é um porto seguro, uma viagem bonita, e se não esperamos nada daqui, teremos muitas coisas boas. Comparado com Bin jip este filme é ainda mais depurado, e toda a imagética está mais trabalhada e desenvolvida. Por isso o filme resolve as queixas que eu tinha de bin jip. Mas é menos subtil, menos desenvolvido e, por isso, menos desafiador.

A minha opinião: 4/5

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Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve

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