Arquivo de Setembro, 2011

The Imaginarium of Doctor Parnassus (2009)

“The Imaginarium of Doctor Parnassus” (2009)

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as caras no ninho

Nada em cinema deveria ser mais celebrado do que uma imaginação enraizada totalmente num ambiente visual. Filmes cujo propósito é criar imagens, em que as imagens são o meio e o fim. Emoção? Significado? Metáforas? Sim a tudo isso, mas embebido em imagens, todas essas coisas Como imagens, e não Suportadas por elas. Se começamos a pensar nesses termos, então Terry Gilliam vai figurar alto na sua atitude em relação aos filmes. Praticamente todos os conceitos que ele nos dá são eminentemente visuais.

O problema é que sobre isso, ele parece ser incapaz na maioria das vezes de ultrapassar limitações práticas ou técnicas, e por isso a execução quase sempre não consegue atingir o que o conceito prometia.

Aqui temos uma coisa muito interessante e visual: a ideia da imaginação de alguém aninhada no subconsciente de outra pessoa. O atravessamento de um portal visual que leva à nossa própria mente. Empatia como uma coisa profundamente enraizada, que acontece do outro lado da cortina. Dois mundos separados por uma fina cortina, como a velha fachada abandonada separa Londres do refúgio dos nossos personagens (espaço magnífico, aquele quarteirão vazio).

Somado a isso, a morte trágica de Heath Ledger e a subsequente solução encontrada para o problema levantaram ainda mais as minhas expectativas. Agora íamos ter 4 dos actores mais interessantes de hoje em dia a representar o mesmo personagem no mesmo filme! Isso era uma ideia realmente fascinante, se pensarem bem. E ainda que eu admita que em termos de continuidade os escritores fizeram um bom trabalho ao ultrapassarem a falta daquilo que Ledger não filmou, a forma como colocaram os 3 voluntários ficou realmente longe daquilo que eu esperava ver.

Depp representa o seu tipo “casualmente sensual”, algo que ele tem feito bastante ultimamente. Jude Law é inócuo e só Colin Farrell faz algo minimamente interessante, mas apenas se considerarmos a sua performance isolada, não a de Ledger e as possíveis ligações entre as diferentes caras do personagem.

Se considerarmos que os mundos visuais dentro da cabeça do Parnassus simplesmente não são interessantes, simples deviações digitais sobre cenários virtuais banais, então ficamos com uma má sensação. E como em outros filmes de Gillian, sabemos que poderíamos estar a ver um filme poderoso, mas há algo que simplesmente sofre de limitações severas. E neste caso não é só a execução, embora isso ajude.

Fico-me com Lily Cole, uma actriz muito intrigante, realmente notável na sua estranheza muito própria.

A minha opinião: 2/5

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Out of Sight (1998)

“Out of Sight” (1998)

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golpe colorido

Vim a este filme pouco depois de ver “o americano”. Nesse, Clooney impressionou na forma como desistiu do seu personagem habitual cool, cujas acções no ecran são todas conduzidas por um sentido de auto-coolness e estilo. É um jogo divertido de jogar com ele, ainda que longe de transcendente. Neste filme, esse sentido de comédia e estilo divertido ficará para sempre resumido na cena em que a porta de um elevador se abre e Clooney vê Lopez sentada num sofá do lobby de um hotel onde ela o perseguia a ele, e ele fica apático e simplesmente levanta a mão para dizer olá. É mesmo aquilo, é assim que o personagem dele funciona.

Soderbergh compreendeu essa característica de Clooney cedo, e aqui vêmo-lo a fazer o primeiro rascunho do que seria o topo desse estilo: o franchise Ocean.

Aqui temos um projecto mais simples, um curioso onde Soderbergh se diverte e se permite alguma liberdade para ser pessoal enquanto ganha dinheiro para os seus projectos mais pessoais. É um filme normal sobre um golpe, em que a diversão está na complexidade do esquema, a forma como é planeado, e a forma como se desenrola, e todas as reviravoltas e coisas imprevisíveis que acontecem. O filme é bastante competente a esse respeito, embora não se retire grande coisa daqui.

Mas há uma sequência realmente apreciável na qual se anunciam algumas experiências futuras de Soderbergh no seu campo “pessoal”. A sequência em que Clooney se encontra com Lopez num hotel. Ela é abordada sucessivamente vários tipos babados de gravata, depois Clooney faz a sua aproximação, eles falam, vão para o quarto, dormem juntos. Apreciem a cinematografia dessa sequência e a forma como quase não cola com o resto do filme. Esse pedaço tem mais a ver com o trabalho de um autor. A paisagem urbana fora da janela do bar do hotel, as cores do quarto, a iluminação das caras, até o interesse do diálogo. Provavelmente o melhor pedaço de actuação de Jennifer Lopez. Vou ficar com essa cena.

A minha opinião: 3/5, não vai fazer mal, mas vejam os voos mais altos que Soderbergh tem para oferecer.

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Spaceballs (1987)

“Spaceballs” (1987)

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retroceder

Vim a este filme pouco tempo depois de ver a triologia de episódios duplos do Family Guy a gozar com a Guerra das Estrelas (“Laugh it up, fuzzball”). Queria comparar as piadas com a comédia feita enquanto a Guerra das Estrelas ainda era um tema quente. Para além disso, é bastante provável que MacFarlane tenha visto este filme quando era adolescente, ainda mais tendo em conta que ele é um fã incondicional da GE.

O que temos aqui está bastante datado hoje, no que toca aos valores puros de comédia. Não tem tanto que ver com as piadas, que aliás caem na maioria dos casos nas mesmas categorias das piadas equivalentes em “Laugh it up…”. Mas o ritmo mudou desde que isto foi feito. As audiências agora requerem desenvolvimentos mais frenéticos, para não se distrairem. Ou seja, até os Simpsons hoje parecem lentos quando comparados com o Family Guy, South Park ou Friends. Mas suponho que isso é normal. Entre todos os géneros, a comédia é aquele que envelhece mais rapidamente, e mais vezes. Os ritmos mudam, pedem mudanças, e mesmo os interesses mudam. Este filme ainda está vivo hoje, suponho, porque a Guerra das Estrelas, impulsionada pelos novos episódios, ainda está viva. Por isso é possível às pessoas que nasceram depois do filme ser feito relacionarem-se com as suas piadas.

Mas eu queria ver o filme. Queria sair das séries de televisão, que vivem dos sketches em si, mas às quais falta o grande arco, a grande forma. E Mel Brooks dificilmente falha no capítulo da escrita. Ele é um verdadeiro brincalhão porque a sua mente funciona cinematograficamente, e é assim que ele provoca as reviravoltas. A piada está na escrita, na concepção, tanto como nas piadas em si.

Assim, as piadas podem funcionar ou não. O Han Solo vestido de Indiana Jones. O realce das características da GE até à caricatura. Inferências sexuais em relação aos sabres de luz ou a figura física samurai do Darth Vader (estes 2 aspectos também aparecem no Family Guy). Mas as coisas boas que realmente fazem o filme para mim são os pedaços auto-referenciais. Filmes sobre filmes, filmes sobre fazer filmes. Há várias alusões banais ao facto de estarmos a ver um filme, mas uma delas é realmente interessante. Darth Vader e equipa, para descobrirem onde estão os fugitivos, assumem que são personagens num filme, e por isso procuram o próprio filme, numa prateleira cheia dos filmes de Brooks, encontrando nela este filme já editado, e passam-no numa tv, avançando rapidamente sobre tudo o que já tínhamos visto até então. Depois, chegam ao ponto presente da história, e temos uma dupla imagem do filme exterior, e do mesmo filme a ser visto pelos personagens nele, tudo sincronizado. Isto foi um pedaço maravilhoso de auto-referência, que pode ser apreciado sempre que virmos o filme, agora e no futuro.

A minha opinião: 3/5

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The Commitments (1991)

“The Commitments” (1991)

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dura suavidade

Alan Parker é um realizador generoso, no sentido em que se permite fundir-se com a textura dos seus temas, permite que o filme tenha uma vida própria. Isso é algo que eu não apreciaria num filme de Kar Wai ou Welles, cuja forma pessoal de se apropriarem das histórias é o próprio motivo pelo qual vejo os filmes deles. Mas Parker parece ter a sua maior força no entendimento daquilo que o filme necessita, e a capacidade para o deixar respirar. Isso é uma grande qualidade.

Aqui ele trabalha o tema da música soul apropriado por trabalhadores irlandeses, e Dublin, como síbolos do espírito irlandês.

A simples qualidade e expressão da execução das canções justifica o culto que este filme criou ao seu redor desde que saiu. A música não é original, tudo que ouvimos são versões de canções dos mestres da soul, mas as interpretações são tão cativantes que é difícil não sermos conduzidos por elas. Funcionou não bem que a banda composta por vários actores deste filme, actuando com o nome da banda do filme, ainda tem uma carreira hoje, ainda actua ao vivo.

Entre todas as coisas boas que se podem dizer sobre as actuações, vou referir a cara do cantor principal. A voz de Andrew Strong dá às canções toda a paixão de que elas necessitam para funcionar. Mas a cara dele, aparentemente tão feita, forma um conjunto de expressões transcendentes, formas, frases dolorosas que saem de um qualquer mundo fantástico superior. Parker compreendeu isto, e por isso é que ele tantas vezes o enquadra quando canta, em primeiro plano. Ele absorve-nos de formas que não compreendemos.

Claro que há um enredo engraçado que rodeia os momentos musicais, mas é apenas um suporte. A música é o personagem principal, e não um mero suporte de uma qualquer história central.

Piadas irlandesas e a alma negra da América. Que mistura poderosa. Este filme merece crédito, é um excelente momento.

A minha opinião: 4/5

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Monsieur Verdoux (1947)

“Monsieur Verdoux” (1947)

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ver e adivinhar

Há 2 filmes óbvios que podemos ver e imaginar aqui.

A história a famosa: Orson Welles propôs a ideia a Chaplin, e queria dirigi-lo num filme que não seria uma comédia. As coisas correram mal, Chaplin não quis ser realizado por Welles, comprou-lhe a ideia, e transformou-a numa comédia.

Aquilo que hoje temos é um mau filme. Chaplin nunca se adaptou realmente ao sonoro. O melhor filme dele é já do tempo dos filmes falados, mas o filme era silencioso. Depois ele fez o Grande Ditador que é um bom filme, mas se colocado no seu contexto, pela coragem e a forma como nos conta hoje como estava o mundo moldado naquela altura. Depois deste Verdoux temos 2 filmes interessantes pela auto-referência, não porque são bons. E este é apenas mau. Conseguimos sentir quando Chaplin está a falar dele próprio. O tipo que trabalha num banco durante uma vida, apenas para ser substituído pelos ventos de mudança, forçado a usar o seu “génio” de outras formas. Chaplin nunca levou a bem que o seu brilho fosse substituído pelo de novos talentos brilhantes (como o do próprio Welles). Aqui já não temos o charlot, as piadas já não funcionam, e suponho que já não funcionavam naquela altura. O ritmo frenético dos melhores filmes silenciosos de Chaplin desaparece, ele não controla o ritmo da palavra, a excitação dos diálogos. Para mim, ele nunca foi um grande realizador, excepto por alguns momentos transcendentes (Luzes da Cidade sendo o mais brilhante de todos), mas ele sempre foi um incrível actor, com uma sensibilidade humanista no centro. Mas aqui, nem o momento moralista final funciona.

Mas há algo realmente fascinante que podemos fazer. Podemos e devemos imaginar que filme veríamos hoje se Welles o tivesse realizado. A esta altura ele estava a desenvolver algumas das suas ideias mais poderosas. Narrativa e Espaço, apoiados por Enquadramento e Edição. Tudo conduzido por uma visão unificadora. Era nisso que ele estava a trabalhar. O que teria ele feito aqui? Como é que lidaria com os diferentes níveis das diferentes amantes de Verdoux? Será que mudaria a personalidade da câmara? Quebrar a linearidade dos episódios? Enquadrar cada um de uma forma diferente? Como é que ele equilibraria os diálogos com a actuação física de Chaplin? Qual seria o centro deste projecto?

Se Chaplin e Welles conseguiriam trabalhar juntos, nunca saberemos embora eu pense que não. Mas vale a pena imaginar. Aqui podemos ver um filme que nunca existiu, isso é o fascinante. Aquele que podemos ver não vale a pena. Por isso, aqui temos um sempre interessante caso de um filme que não é bom mas que vale a pena ver.

A minha opinião: 2/5

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The American (2010)

“The American” (2010)

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pela culatra

A melhor maneira de apreciar este filme é estando consciente das suas referências, conhecer decor os terrenos onde ele pisa, e simplesmente deixarmo-nos ficar aí. Tomá-lo pelo que ele é, ir aos sítios onde ele nos leva.

O filme rodeia uma ideia a esta altura relativamente explorada: fazer um filme de género totalmente esvaziado do seu próprio género. Um filme que seja o seu próprio oposto. A aproximação irónica a uma ideia, tocando-a, acariciando-a, fazendo uma homenagem a ela, enquanto a inverte totalmente.

O mestre absoluto desta noção foi Leone. É aí que estamos, no edifício sólido de ironia auto-referencial que ele construiu para nós. No meu livro, Luc Besson também tem um lugar importante nesse canto. Corbijn seguramente perseguia Leone aqui, tão claramente que faz a alusão directa a um filme dele, ao passar um excerto.

Assim a ideia geral é a de um anti-filme. Um filme de acção potencial, com um personagem de acção potencial que, no entanto, passa o tempo literalmente a fugir da acção, literalmente a tentar sair do filme onde todos os outros personagens o procuram enquadrar. É essa a última reviravolta, a piada definitiva com o espectador. Podemos rir com a piada. E ter George Clooney aqui a protagonizar o filme é uma dupla piada. Ele construiu uma carreira ao redor de um tipo cool mas engraçado, engraçado mas profundo. Ele pisca o olho permanentemente à audiência, criando uma espécie de segundo nível de actuação, no qual vemos o personagem e vemos o tipo. Aqui ele desiste disso. Ele deliberadamente joga o jogo do filme, contorna a sua própria pessoa pública e provavelmente dá-nos o seu papel mais importante em filme.

*spoilers* A história inclui um símbolo muito subtil mas poderoso das suas concepções fundamentais. O personagem de Clooney tem de construir uma arma, personalizada para um determinado trabalho incerto. Vemo-lo ao longo do filme a fazê-la, a calibrá-la, fazendo-a de acordo com os desejos da pessoa que será responsável por usá-la. Vemos o fora de campo do que normalmente aparece. No vocabulário fílmico, as armas são normalmente irrelevantes em si, um mcguffin no máximo, normalmente um adereço. Aqui vemos cada fase da sua concepção e construção, e testes. Uma vez mais, Corbijn constrói algo dentro do género, a promessa de um trabalho de assassino, apenas para nos puxar o tapete no fim, quando o tiro deliberadamente sai pela culatra. O que é normalmente irrelevante (a construção da arma) é trazido para o centro da narrativa, quase acidentalmente. Isto é grande escrita, e grande cinema. Pergunto-me porque é que Corbijn só começou a realizar há tão poucos anos.

Itália é outra pequena ironia. Leone o italiano ia a Espanha para filmar as suas histórias supostamente localizadas na América. Corbijn vai para Itália para filmar os filmes referenciados a Leone que Leone nunca filmou ali.

A minha opinião: 4/5

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The Last Picture Show (1971)

“The Last Picture Show” (1971)

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o teórico, o amante, o realizador

Em alguns aspectos fundamentais, os anos 60 no cinema foram franceses. Não importa que agora, 40 anos depois, vejamos tantas coisas fora de sítio, ambições tão grandes materializadas em coisas práticas tão pequenas. O que importa é que a geração de teóricos feitos realizadores fez passar os seus pontos de vista. E o mundo seguiu-os. Hollywood passou essa década a reciclar os seus modelos já gastos, e em 1970 estavam à rasca. A nova geração abraçou os franceses.

Bogdanovich também é antes de mais um teórico. Ele pensou o cinema do ponto de vista de um espectador, não de um tipo prático, antes de entrar. Por isso, naturalmente, entre a geração de jovens realizadores americanos de então, ele era um dos mais predispostos a transplantar o “método francês” sem alterações. Aquele tipo de escrita deliberadamente vazia, personagens como parte de um estilo, imagens como suporte de um certo tipo de ambiente tranquilo e desesperado, e apenas indirectamente suporte de uma história.

Sobreponham isso a uma certa ideia do fim de um modo de vida rural e puritano, que a América atravessava a esta altura. Isto é algo que podemos sentir hoje, mas provavelmente só dirá algo a quem conheceu o contexto.

Junte-se a isso a paixão sexual que Bogdanovich mostra pela sua então amante, Cybil Sheperd. Ele despe-a no ecran, põe personagens masculinos a lutarem por ela. Mas por trás disso, sabemos que é ele quem a acaricia. A relação deles na vida real afectou profundamente a forma como o filme e o personagem dela nos são apresentados.

O problema aqui é que Bogdanovich é alguém que sabe muito sobre o que está a fazer, mas parece incapaz de dominar o que faz bem. Ele realmente cativou a equipa, as actuações são profundamente comprometidas como é raro vermos. Mas o resultado final não leva a lado nenhum. Não estou a dizer isto no sentido tradicional de uma história que não tem uma conclusão clássica ou um climax claro. Quero dizer que o filme deve ser “como” outros filmes, em vez de ter uma vida própria, mesmo que ligada aos seus predecessores. Não é fácil ter sucesso num filme destes, e parece-me que Bogdanovich esteve realmente perto de conseguir. Mas não conseguiu. Pelo menos não no longo curso, não 40 anos depois do filme ser feito.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve