Arquivo de Janeiro, 2009

Sukkar banat (2007)

“Sukkar banat” (2007)

caramel

IMDb

Doçura

Este filme é tão sedutor como as mulheres q mostra. Mulheres que realizam é um campo que não explorei muito até agora, e penso que pode ser recompensador, pelos exemplos que tive até agora.

O filme é, como se sabe, libanês, realizado por uma mulher, e representa mulheres livre-pensadores. Isto é suficientemente curioso para o ver, e um marco num país que, não estando tão imerso em fundamentalismos como outros países islâmicos, ainda é bastante ensombrado por ele. Assim, há uma linha de comentários sobre o filme que exploram esse tema. Eu dispenso-os.

O que me interessou aqui foi a doçura de tudo. Doce como caramelo? Claro, mas mais. Há verdadeiras urgências, verdadeiros temas fundamentais que são debatidos, sem serem mencionados directamente, já que são contados visualmente, e esse é o ponto doce que aprecio profundamente.

Não há divagações depressivas e pseudo intelectuais, apenas necessidades reais destas mulheres, com preocupações honestamente existenciais, que ultrapassam fundamentalismos, opressão de mulheres ou “sentimentos”. Aquilo porque as mulheres lutam é uma forma de ser, uma forma de viver, elas procuram o seu próprio ambiente; esse ambiente que o filme em si tem (cinematografia belíssima). Cada uma destas mulheres contorna adversidades (a falsa virgem, as lésbicas) ou encaram-nas directamente e seguem em frente (a mulher mais velha, a protagonista). Assim, num certo sentido, as histórias que vemos é provavelmente a própria história da criação deste filme. Apesar de ele ter um apoio francês, adivinho que Labaki contornou e ultrapassou directamente preocupações existenciais semelhantes enquanto o criou. Bem, ultrapassou-as bem, para mim.

É bom ter mulheres filmadas, talvez o cinema possa tornar-se a melhor forma de vermos mulheres pelos olhos das mulheres, literalmente. Pela minha curta experiência em filmes de mulheres, é um olhar muito menos erótico, mas que prescuta a sua alma com mais profundidade. Posso viver com isso.

A minha opinião: 4/5

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Il Mio nome è Nessuno (1973)

“Il Mio nome è Nessuno” (1973)

nessuno

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Realizador versus actor

Esta é uma produção Leone que ele observou e supervisionou, piscando o olho à realização em várias cenas, segundo consta. Creio que isso será verdade, há momentos que soam Leone. Desconcentrado, desinteressado, mas Leone.

Assim, para o melhor e para o pior, é visível que Leone esteve aqui, a própria ideia da história (que é interessante) é creditada como sua, mas ele não foi a mente que concebeu a grande escala, o grande filme. Na verdade esse é o problema. Este filme não está inserido num grande esquema, é apenas um filme sobre personagens, e isso não é o que Leone fazia, quando estava totalmente no controle.

Tonino Valerii é, por esta amostra (é o seu único filme que vi) um mau controlador, que ou não tem o pulso para transportar a sua visão, ou simplesmente não tem uma visão para oferecer. Suspeito do segundo. Assim aqui, em vez de uma história sobre um criador de histórias, que é do que trata o guião, temos uma história sobre dois personagems, o de Fonda e o de Hill. Fonda está claramente a levantar o cheque, e sem qualquer motivação para fazer qualquer coisa interessante, Terence Hill é novo e quer mostrar-se (uma coisa comum em actores menos maduros). O filme vive da sua actuação física e gestos, mas não devia.

Uma coisa engraçada: quando Leone era a mente criativa, os actores eram seus empregados e serviam um filme maior. Aqui, os actores fazem a acção, guiam o filme. O resultado final é que, na primeira situação, os actores saem muito bem, neste caso, são perfeitamente olvidáveis. Percebem? A maioria das vezes os actores são apenas a parte visível, mas não tão importante, do grande jogo, que deve ser jogado por um jogador maior, uma pessoa de visão, alguém que não estava aqui, já que Leone apenas produzia e divertia-se a realizar cenas soltas.

Bons pontos: as cenas iniciais não são tão concentradas como as equivalentes nos filmes de Leone, não têm o tempo perfeito, são apressadas e no entanto demasiado longas. Apesar disso são apreciáveis, alguns enquadramentos são bons pedaços de narrativa visual (o espelho no início).

Os pedaços Orson Welles, na casa fantasia, aqui o esquema do espelho é uma vez mais usado para enaltecer os troços cómicos de Terence Hill, mas não é mal usado, creio que a sequência é divertida, e por si só cumpre o que era suposto.

A secção perto do fim, quando Fonda encara o bando “sozinho” é agradável. O alternar entre o detalhe extremo e o grande enquadramento de uma paisagem minimalista é algo que Leone inventou, e na verdade funciona aqui.

Para os que gostam de Terence Hill (e do seu parceiro Bud Spencer) há outras viagens mais agradáveis, em filmes centrados de raiz em personagens, nos seus personagens. Aqui temos um filme dividido entre querer parecer um grande épico, tipo Leone, e a ser assaltado por personagens que queriam apenas fazer o seu número. Incidentalmente, a história é sobre 2 personagens que tentam escrever a história à sua própria maneira. Quem ganha? aquele que é claramente mais um ‘personagem’ que o outro. Vêm? Forças coordenadas, é o que falta aqui. O cinema, sobretudo de grande escala, não tem tudo que ver com isso?

A minha opinião: 1/5

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Le Gendarme de St. Tropez (1964)

“Le Gendarme de St. Tropez” (1964)

gendarme

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o que me lembro, e o que sinto agora

De todos os géneros, a comédia é o que mais facilmente se desactualiza. Isso acontece porque as convenções em cada momento no tempo (e para cada cultura) são muito voláteis, mudam rapidamente. E, por alguma razão, não acumulamos novas noções sobre as velhas, é como quem diz, com humor, uma vez instituídas novas convenções, rejeitamos as velhas (ao contrário, por exemplo, do filme de detective). Isto significa que o que faz as pessoas rirem agora, não funcionará num curto espaço de tempo. Ainda sou novo, e já vi isso acontecer, com filmes que vi quando adolescente. Mas depois temos outro aspecto a reconhecer: o facto de que as audiências se adaptam a novas convenções independentemente da sua idade (desde que continuem a ver novos filmes e vivam vidas sociais activas), mas ganham uma memória cinematográfica. Assim, muitas vezes, as pessoas “sabem” que vão rever um filme que “é” engraçado, elas lembram-se que se riram quando o viram pela primeira vez.

Eu vi este filme com a minha mãe, e registei este efeito nela. Para mim, este era algo que eu tinha visto há 10 anos, para ela, é uma memória de infância, quando estes filmes do gendarme era frescos.

Agora já não o são. As críticas sociais são totalmente desactualizadas nas sociedades portuguesas, mesmo na portuguesa!, por isso essa é uma carta fora do baralho.

O tipo de expressão física que Funés usa já não é tão suportável. A actuação física agora joga muito mais com o corpo como objecto (tipo Jim Carey) mais do que com a colocação de personagens em situações engraçadas, como aqui (Chaplin fazia as duas coisas).

Na verdade eu simpatizo com o personagem detestável dele. O polícia raçudo, desprezável, sobre-protector da sua filha (isso é comentário social também), que se preocupa com aparências. É uma questão de atitude, e Louis de Funés era um representador válido.

Uma coisa é notável neste filme no seu contexto: St. Tropez. O que é notável, para além de praias bonitas e estilo de vida desejável, é como o cinema uma peça importante, mesmo fundamental na máquina publicitária que os franceses montaram para promover o local. Começando com ‘e deus criou a mulher’, e com vários outros filmes, incluindo este. Aqui até temos uma canção sobre a vila, obviamente feita para promover tanto o filme como o lugar. Por isso (como com ‘e deus…) temos elementos chave que era importante realçar: praia, areia, ambiente de verão, barcos, alta sociedade, juventude relaxada e de mente aberta, raparigas atractivas. A história existe para exibir estes elementos. Bem, se formos hoje a St. Tropez e compararmos com o que temos neste filme (e especialmente em ‘e deus…’) temos que admitir que eles fizeram a campanha muito bem.

A minha opinião: 3/5

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Click (2006)

“Click” (2006)

click1

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contraste

Outra fórmula simples e bastante usada na comédia de Hollywood: um tema simples, supostamente profundo, honesto, sincero e moral: temos de aproveitar a viagem, viver é o mais importante, escolham a família, não o trabalho e o sucesso.

Depois adiciona-se um dispositivo que permita a acção mover-se e explicar a moral, neste caso um comando que controla o desenrolar do tempo, e que permite ao personagem avançar e recuar no tempo, e eventualmente o faz perder o controle (o comando usa preferências).

Depois temos Sandler, que deverá fazer a coisa funcionar. Bem, não aprecio muito o seu tipo de comédia, com algumas excepções. Mas mesmo para quem gosta das suas melhores actuações, creio que esta ficará uns bons metros abaixo do que ele pode dar.

A comédia e o drama podem ser uma mistura poderosa nas mãos certas. Chaplin poderá ter inventado a noção, e é provavelmente o mestre absoluto neste género até hoje. É algo baseado em altos contrastes, que realçam os pedaços dramáticos. Se for bem conduzido, pode despedaçar-nos: o realizador faz-nos rir, gozar com as frivolidades da vida e de repente, ou gradualmente, empurra-nos para os abismos da tristeza, realçados pelo nosso estado anterior de alegria. Contraste. Bem, estes tipos não o fizeram, nem estiveram perto disso.

A minha opinião: 1/5

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The Dark Knight (2008)

“The Dark Knight” (2008 )

the_dark_knight_poster

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o que é, e o eu tinha sonhado

Coisa estranha, curiosa, e interessante que me aconteceu aqui. Bem, fiquei um pouco desapontado com o filme. Não que seja mau. É um trabalho sólido, e uma boa viagem com alguém que tem coisas interessantes a dizer em termos de construção narrativa.

Basicamente: o Joker é o pivot de um dispositivo narrativo complexo, em que todos, bons e maus, são completamente ignorantes do que lhes acontecerá, a eles ou a Gotham. O Joker joga o jogo, é a chave central deste enredo. Ele define as regras, que são acidentais mesmo no pensamento dele, ele actua aleatoriamente, mata à sorte. Caos, pela impredizibilidade. É fantástico. Todos têm o trabalho de sobreviver, excepto 2 personagens: o Batman, que segue o Joker e tenta “desmascarar” o plano (sem se desmascarar a ele), e Dent, que tenta atacar directamente o Joker, também desmascará-lo a ele, mas de uma forma mais directa e “honesta”. Por isso ele é olhado como o verdadeiro herói de Gotham, até pelo Batman. Por isso ele é revirado e retorcido até ficar o “bom” inimigo. É um jogo de oposições, facções claras, as duas faces de toda a gente. O culminar deste jogo é, claro, quando o Joker perde o controlo dos factos descontrolados.

Por isso, na verdade temos aqui narrativa cinematográfica formidável. Não é visual, não tenta ser totalmente visual como, por exemplo, “Batman Begins” tentou (e em parte conseguiu), mas é uma grande estrutura, na linha de trabalhos recentes como o transcendente “Oldboy”.

O que me desiludiu foram as altas expectativas criadas por um incrível 4º lugar no top 250 do IMDb, e as esmagadoras críticas positivas por praticamente todas as pessoas que li. Ok, eu devia ter previsto, o motivo disto foi o efeito da morte prematura de Ledger. Ele realmente mostra capacidades e verdadeiro talento, e o seu personagem está envolto numa aura de escuridão que existe porque Ledger lida com as contradições do personagem, o sorriso constante vs a escuridão do espírito. Ele é consciente da sua própria actuação e por isso “ri” do seu personagem e do seu papel. É muito difícil fazer isso. Por isso tudo neste filme é sólido. Mas não é suficientemente ambicioso para me fazer sonhar para lá de certos limites que, no meu ponto de vista, ficam bem abaixo do “4º melhor filme de sempre”.

Por isso tenho de colocar as críticas e opiniões gerais na perspectiva certa. Se eu tivesse visto este filme no cinema quando saíu, antes da avalanche de críticas fortíssimas ao redor da actuação de Ledger, talvez o tivesse tomado pelo que é. Assim, fiquei injustamente desapontado com este filme poderoso.

A minha opinião: 4/5

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Alfie (2004)

“Alfie” (2004)

alfie

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fashion

Duas observações à boa experiência que este filme é:

-uma é o aspecto visual da coisa. Temos uma tapeçaria visual, cada cena tem a sua própria força visual e pode ser apreciada isolada, mas todas juntas causam uma boa impressão. Cada caso na vida de Alfie tem o seu próprio tratamento visual, de acordo com o seu ambiente específico. Cores, e trabalho de câmara são elementos cuidados. Vendo os extras, percebe-se que valores artísticos é algo que estava na cabeça destes tipos, mas dou grande crédito a Ashley Rowe pelo que foi feito aqui. As cores são na linha do que Chris Doyle poderia fazer. É interessante como Jude Law encaixa bem neste tipo de fotografia, vimo-lo numa situação semelhante no recente “my blueberry nights”.

-a outra coisa é o dispositivo narrativo. Ainda não vi o original, por isso poderei estar a comentar algo que já acontecia no outro, mas aposto que não. Alfie fala para a câmara, ele fala para nós. Ele denuncia o teatral que tudo é e a artificialidade do cinema em si (a fotografia, luxuriante mas artificial, sublinha isto). O filme é episódico por natureza, cada mulher é um episódio, mas sabemos que Alfie é o nosso narrador, já que percebemos cada sentimento directamente pela sua boca. Jude Law é um actor muito interessante, um dos bons actores que temos hoje em dia, e ele cumpre, ele sabe o tipo de dramatismo e exagero controlado que tem de dar para isto funcionar. O sucesso desta estratégia é fazer-nos assumir que as palavras de Law são um diálogo connosco, em vez de um monólogo como por exemplo Depp em ‘The Libertine’. Jude Law sabe isso, ele pausa o discurso, e entona como se estivesse a conversar em vez de narrar. Muito bom.

Jude Law é em si mesmo um personagem, mesmo através da moda. Neste filme ele estava no início de uma relação com Sienna Miller, eles são vistos no meio de uma colecção de clips a ler a Vogue juntos. Isto não é inocente. Na verdade, é uma forma inteligente de construirem as suas personalidades públicas fora do ecran.

Ah, e temos uma história. Um playboy, solteiro, com a vida centrada nas mulheres, que procura carinho verdadeiro, vive o amor como episódios e sofre as consequências das suas irresponsabilidades. É apenas uma desculpa para desenrolar uma história visualmente. Algumas mulheres, contudo, são interessantes. Temos Tomei, temos Miller, temos Sarandon que apesar das suas limitações como actriz, é bem encaixada no filme.

A minha opinião: 4/5

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3:10 to Yuma (2007)

“3:10 to Yuma” (2007)

310

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(não) subverter, e um par

Que filme interessante e eficiente.

Este é um remake de um western feito originalmente antes de Leone se rir do género western. Mas este filme é de 2007, 43 anos depois dessa injecção de ironia e subversão que o género sofreu. Este filme leva-se a sério, ou pelo menos pega nos elementos chave do género como eram antes de Leone os subverter, e assume-os com a visão de Ford. Creio que essa é uma abordagem perigosa, porque as audiências, nestes anos, adaptaram as velhas concepções para o que Leone propunha (para mim, nascido nos anos 80, ‘clássicos’ são os filmes do Leone, os outros são ‘antigos’). Mas o resultado é bem sucedido.

Assim, temos personagens extremos que preenchem todo o espaço. Crowe é ambíguo, tão inteligentemente mau que gostamos dele, por isso cada vez o encaramos melhor, tal como ele encara melhor o personagem de Bale. Estes homens estão neste jogo por razões claras. Bale por auto-superação (para ser melhor visto pelo filho), Crowe usa uma máscara de maldade como a vingança pelo trauma da rejeição na infância (a Bíblia como elemento expiatório), o filho de Bale como forma de auto-imposição. Cumprir cada objectivo como uma travessia no deserto. A honra é um elemento chave, morrer por ela vale a pena e é admirável. Isso é algo com que Leone gozava. Mas depois, temos sequências visuais que devem mais a Leone do que a qualquer outro antes dele, e mais a filmes recentes de acção do que aos velhos tiroteios de Ford e Hawks. Por isso isto é uma miscelânea, um verdadeiro produto do seu tempo, quando já todos os géneros estão subvertidos, e mesmo tentar fazer um filme de género completamente em linha com visões antigas é em si uma subversão.

O porquê de este ser tão agradável e eficiente é por Bale/Crowe. Eles são ambos actores inteligentes, Bale mais flexível e alguém que se adapta ao que é necessário, Crowe mais interno, meditativo e que se impõe. Portanto, o que eles são como actores é o espelho do que os seus personagens são. E isso é algo realmente bem feito. Os arcos narrativos são clássicos, mas tão bem construídos…

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve