Arquivo de Junho, 2007

Morangos e chocolate (1994)

“Fresa y chocolate” (1994)

Realizadores: Tomás Gutiérrez Alea; Juan Carlos Tabío
Argumento: Senel Paz

Género: Drama / Comédia

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Sair para a rua

O cinema é uma arte em si mesmo, não uma soma de artes. Isso acontece porque tem aspectos específicos que não podem ser atingidos sozinhos por qualquer outra arte. Mas o que torna o cinema autónomo como expressão artística é discutível mas terá sempre algo que ver com imagens em movimento (ou dinâmica de imagens estáticas):

. contar uma história
. um ambiente, atmosfera, modo
. factos

Todos são passíveis de ser explorados. Em “Fresa y Chocolate” o problema é que, aparentemente, temos uma mistura dos 3, mistura que pode existir, mas não como acontece aqui. O truque é claro e aparentemente eficiente: uma história simples dentro da História. Esqueça-se a história simples, é o menos importante em si mesma. A História é todo o contexto de Cuba. Vai-se ao geral, realça-se um episódio (que pode, ou não, representar factos) e a partir daí constróe-se o modo, a atmosfera. Este último passo foi o que falhou. E isso foi, a meu ver, pela não definição do “olho” da câmara. Deveriam ter sido dados todos os ingredientes, todas as senhas para o mundo contido (ilha) e o seu contexto específico. Eu estive em Cuba, não faltou muito para mim, eu sei o que não vi no filme, mas ao focá-lo no diálogo (que poderia, pelo seu conteúdo surgir embebido na atmosfera geral) e ao não ter um olho para a rua, as pessoas a cidade, o projecto perdeu imenso. Tinha tudo para poder ser um filme sobre uma cidade. História inserida no espaço, já que a história que nos contam é claramente tipificada, uma entre muitas. Podem ter existido, é certo, questões políticas por trás, e é de uma grande importância que este filme possa ter sido feito, tratando temas locais tão pesados. Contudo, esta é a minha maior crítica; Gutiérrez Alea tinha um excelente olho para o retrato, e para colocar histórias em contexto, mas faltava-lhe o sentido do lugar, em termos de sentidos (a tal atmosfera).

Apesar de tudo, é um bom documento, poderá compensar o tempo que dura, o desenvolvimento dos personagens é excelente, assim como as actuações. A casa de Diego (e os diálogos que a acompanham) contem excelentes mensagens implícitas, os diálogos são cheios (não li a história original) de mensagens, numa forma por vezes não tão subtil. Também uma nota para o excelente uso da cor (bastante cubano).

A minha avaliação: 3/5

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Lisboetas (2004)

“Lisboetas” (2004)

Realizador: Sérgio Tréfaut

Género: Documentário

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Binóculos

Lisboa está construída sobre colinas. Se caminharmos junto ao rio, em frente à baixa iluminada de Pombal, construída nos destroços do terramoto de 1755 e olharmos para cima, podemos ver todo o centro histórico, protegido pelo castelo. Bonita vista. Subimos, chegamos a esse castelo, e olhamos para baixo, a vista oposta, abraçada pelo rio, também magnífica, também linda. A luz é especial, qualquer amante de cinema deverá sabê-lo, Wenders sabe-o (Lisbon Story). As cores são ocre, amarelo pálido, rosa aguado, e o laranja argilado dos telhados. Quando chegarmos ao castelo, peguemos num par de binóculos, observemos a cidade de cima, tomando atenção ao outro lado do rio, e muita atenção às partes velhas. O amarelo torna-se azul vivo, veremos preto e branco, grandes contrastes, e uma cidade que não vem em postais. Através desses binóculos, poderemos ver este filme.

Lisboa, cidade multi-cultural, cidade de sobreposições. Muitas línguas, muitas culturas, muitas diferenças. Estou contente por ter visto este filme apenas alguns dias depois de ver Alice. O mundo contado aqui é o mundo que torna Alice possível. Este enforma o mundo de Alice. A imigração como, ao mesmo tempo, um dos fenómenos mais naturais nos nossos tempos globais e um dos aspectos mais explorados por todo o sistema é o tema que nos conduz através da vida de vários imigrantes, dando-nos o retrato completo, o desmascarar de vaidades, sentimentos de progresso e futuros felizes. Claro que o filme não é constante. Tem planos artísticos lindos, de simplicidade na combinação de música, cenas de rotina, narração com voz “off” e momentos da vida real. Mas também tem planos demasiado aproximados, sem qualidade cinemática, úteis mas sem arte, ou cenas filmadas de forma quase amadora. Claro… Mas ganha um lugar especial pelo que mostra e pelos problemas que trata.

Está construído por quadros, episódios, descontinuidade de personagens, descontinuidade racial, descontinuidade linguística, descontinuidade de cor, descontinuidade de modo. Tal como as grandes cidades, hoje.

Este filme tem alguma arte, e Tréfaut sabe o que faz. Recomendo que se veja, com Alice ao lado, para questões cinemáticas mais elevadas.

A minha avaliação: 3/5

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Alice (2005)

“Alice” (2005)

Realizador: Marco Martins

Argumento: Marco Martins

Género: Drama

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Casaco azul

Há muito para dizer sobre este. É fantástico poder apreciar um filme como este, viver o momento em que finalmente, isto acontece. Não sei muito sobre M.Martins, não tinha ouvido falar dele antes (praticamente ninguém tinha). Também não sei o que fará a seguir. Mas coloco este junto com um pequeníssimo número de primeiras tentativas “difícil-ser-melhor” (junto com títulos como “a bout de souffle” ou “citizen kane”).

A cidade aqui é o tema. Esqueça a história. Ponto. Está lá. Ponto. Serve o objectivo de agarrar uma cidade nunca vista no grande écran antes deste film. Ponto final. É tudo que há para dizer sobre a história.

Assim, este tem sucesso onde “Ossos” e “O fantasma” tinham falhado completamente; em mostrar Lisboa livre de clichés, de imagens pre-concebidas e (re)aquecidas. O tempo evolui, o cinema tem de o acompanhar. O que se passou aqui foi ajustar contas com o tempo.

Este projecto leva a cidade a zero. Os écrans (quantos vemos durante o filme?) que pertencem à personagem de Lopes são a tela branca onde as acções se desenham, em azul. A câmara (que é, a meu ver, um jovem realizador em experimentação) tenta captá-las, tenta torná-las eternas, todas as cenas, em todo o lado. Lopes (o actor, na vida real e neste filme), tenta chegar a elas, ele participa, ele pode até surgir em frente à câmara, mas nunca pode controlá-las. Assim, temos o actor como um peão, constantemente exposto, nunca controlando. Isto é cinema, e Mário (Nuno Lopes) compreende isso no momento em que vê 10 vezes a sua cara nos écrans de uma loja. Ela também representa uma peça, uma comédia, dentro da peça que é o filme. Dupla manipulação. Excelente material! Ele é um actor, manipulado para aparecer da forma que este realizador visionário quer, e ele representa um actor, que é forçado a representar algo em que não está minimamente interessado, para poder continuar com as suas outras funções, que ele não controla, mas pensa que sim.

A câmara pode ser “deus”, um personagem, ou pode-se agarrar a um personagem e segui-lo. A câmara pode ser o espectador, a nossa curiosidade em movimento. Aqui, a câmara é um modo, um ambiente, uma paisagem espiritual, tal como a música. É um ponto no infinito. Por isso não interessa se foca ou desfoca, ou o que foca, primeiro ou segundo plano, carros que passam em frente, pessoas estranhas às cenas (quase todos são estranhos aqui). Enquadramentos livres, caos aparente, aparentemente uma câmara “de ninguém”. Esta é a verdadeira qualidade de Alice. Tudo tão contemporâneo, tudo tão aparentemente caótico, mas, tudo controlado, não sabemos como, nem por quem. Isto é Lisboa.

Apesar de tudo, não compartilho do optimismo (nem do cepticismo) do comum apreciador de cinema português. Não vejo este filme como “um novo caminho que melhorará o cinema português de vez”. Um filme, especialmente nesta base “de autor”, não pode mudar toda uma indústria (inexistente) de cinema. Mas penso, isso sim, que de um ponto de vista cinemático, é um filme muito interessante, que tem lugar no topo da minha prateleira.

Os diálogos são subtis, correctos, rigorosos. A música poderá ser a única aparição no filme da desaparecida Alice. Fotos, folhetes e mesmo a prórpia Alice no final não contam. Esta é das melhores bandas sonoras minimalistas de sempre. Glass teria feito Koyaanisqatsi de forma diferente se pudesse ter visto (ouvido) este primeiro. Mas também, este é tão melhor que o conto moribundo sobre a industrialização de Reggio…

A cidade é azul, também o casaco de Alice, ele sempre procura o azul… e não consegue encontrá-lo. Pensem nisso. Deveria-se assistir a este junto com “Lisboetas”. Este primeiro.

A minha avaliação: 5/5 fantástico ensaio cinemático.

P.S. – Sinto apenas pena que, ao ver o making of e os extras do DVD, tenha a sensação de que tudo isto foi sorte, e que ninguém envolvido pensou por uma vez no que acabei de dizer. Gostava que o material extra fosse mais útil que simplesmente curioso (podia ser ambos).

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Teresa, o corpo de Cristo (2007)

“Teresa, el cuerpo de Cristo” (2007)

Realizador: Ray Loriga

Argumento: Ray Loriga

Género: Drama

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Lucía com um manto

Trabalho perfeccionista, contudo ultrapassado nas ideias que transmite.

O filme tem alguns elementos interessantes, de alguns pontos de vista, apesar das suas (várias) falhas. Quem o produziu sabia o efeito que Paz Vega pode ter, e colocou-a aqui com o seu personagem de “Lucía y el Sexo” em mente (por isso, neste sentido, este filme só poderia ter a ela no papel principal). Como Lucía, ela foi (juntamente com as tensões sexuais que também ajuda a criar) um dos principais agentes geradores de todo o filme na cabeça do personagem-escritor. Num certo sentido um personagem satélite, no entanto, essencial na trama. Aqui, ela desloca-se para o centro dessa trama, as mesmas tensões sexuais são mantidas, e o que é gerado é a evolução das suas lutas interiores, e da forma como o fundo exterior a Teresa vê essas evoluções. Esse mundo também nos inclui a nós, espectadores, que colocamos os nossos próprios (pre)conceitos religiosos (ou não) a julgá-la, tal como as várias personagens no filme. De qualquer forma, mesmo alguns aspectos na cinematografia revelam algumas influências do filme de Medem (algumas paisagens excessivamente expostas à luz, ambiente de sonho, gerador de ideias).

O filme é construído por episódios, quadros, frescos biográficos. Os factos da biografianão são interpretados, a luta interior é escolhida para este efeito. Tudo bem por mim, é uma opção (até bastante contemporânea em cinema). Também há um enorme (a meu ver) convencionalismo religioso que, no entanto, tenta chegar até nós como algo revolucionário e novo. O fenómeno “Código daVinci” trouxe a uma plateia massificada a ideia de “humanizar” personagens religiosos, em tempos intocáveis nas suas biografias sagradas. O código fÊ-lo com Cristo (já não era novo então, mas por outro lado, ninguém o sabia) e o seu suposto envolvimento romântico com Madalena. Aqui verifica-se algo flagrante, nas conotações sexuais associadas ao “ser possuída” por Cristo (a cena em que Teresa representa Madalena na Pietà é absolutamente reveladora disso). Mas também aceito isso, não me chega como algo novo, mas é outra opção.

O que não me convence é a manipulação subtil que está aqui intencionada. Veja-se: temos uma personagem histórica que, no seu tempo, se tornou um dos símbolos mais sólidos da Contra-Reforma (o filme até refere o apoio que ela teve por parte dos Jesuítas, fundados pelo espanhol Loiola, eles próprios um dos agentes mais poderosos e eficientes dessa reforma, especialmente na Península Ibérica). Esse personagem, até agora visto como um marco de santidade, rigor e regresso a tradições então esquecidas, surge aqui transformado (reinterpretado?) num personagem de pensamento livre, revolucionário que, contra tudo e todos, lutaria por liberdades até então nunca sonhadas (emancipação da mulher…). O que me aborrece não é a interpretação, mas a incoerência com que esta nova personagem é colocada no seu mundo específico histórico. De qualquer forma é sempre interessante verificar como em cada momento a História é rescrita antes de ser introduzida, completamente cristalizada, nas cabeças das gerações desse momento.
O que também me ocorreu enquanto via o filme, numa sala ocupada por 8 pessoas foi o quão abstracto era o pensamento medieval. (o filme toma lugar oficialmente numa pós idade média, mas as mentes em geral levam tempo a acompanhar). A morte era decidida baseada na interpretação de crenças completamente abstractas, invisíveis, não físicas. A foi conquistada, desde então, pelo pensamento abstracto, mas as mentes comuns evoluíram cada vez mais na necessidade de objectos concretos para as guiarem

O outro elemento bastante interessante é o do manto. Um destes dias, lia a secção “I need to know” do IMDb, e o sr. Ted Goranson pedia aí ajuda para encontrar filmes que utilizem o manto como elemento cinemático. Provavelmente este é um bom exemplo para ele. A história e a evolução mental e do estado de espírito de Teresa são contados com grande precisão pelos mantos que ela veste (recordo o bordô avermelhado vívido que ela usa como Madalena junto a Cristo, as vestimentas barrocas iniciais e a textura do seu manto de sobriedade final).

Para além disto, algumas outras não tão importantes incoerências são de notar (praticamente todos os filmes estão carregados delas) como filmar episódios da vida de um símbolo religioso espanhol do séc. XVI usando um convento português de várias datas (incluindo o séc.XVII). Este convento é o coração espiritual da forte tradição dos templários portugueses, os mesmos que foram em tempos rejeitados pelo mesmo tipo de pensamento religioso contra o qual esta reinterpretada Teresa luta. Coincidência? Provavelmente sim.

A cinematografia tem uma qualidade barroca refinada, sempre realçando através da luz e sombra o mais importante que a composição tem para oferecer. Isto é muito bem trabalhado (tal como, em geral, toda a produção), sempre lembrarei a linha de perfil das caras trabalhada como uma linha de luz contra um plano de fundo preto. Muito bonito.

A minha avaliação: 3/5 vale a pena ver pelos elementos referidos, apesar do ritmo não tão bem conseguido.

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Rope (1948)

“Rope” (1948)

Realizador: Alfred Hitchcock

Escritores: Patrick Hamilton, Hume Cronyn, Arthur Laurents, Ben Hecht

Género: Crime/Drama/Thriller

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O nascimento de um “olhar”
Eu tenho este na minha lista de filmes que todos deveriam ver. Isto é, para que se possa compreender algumas questões fundamentais de criação cinematográfica dos últimos 50 anos.

O que menos me interessa aqui são as realizações técnicas. Essas representam hoje uma curiosidade, um facto “de museu”, que vale apenas relembrar e ser creditado àqueles que trabalharam nele, mas apenas isso.

Também não estou interessado nos assuntos tabu das entrelinhas, nomeadamente os relacionados com a homossexualidade. Em relação a isso, creio que toda a construçãod o filme, dos actores à escrita das cenas retirou muitas coisas do contexto. Vou mais longe. Acredito que Hitchcock na verdade desprezava essas mensagens (os escritores estavam preocupados em explorá-las, não Hitch), ele não perseguia aqui significados subjacentes ou controvérsia, ele procurava algo bem mais engenhoso e influente. Falo do “olhar” da sua câmara.

Antes deste, a produção de Hitchcock estava algures entre uma construção clássica e alguma exploração da câmara como elemento de reflexo de (algumas) emoções/sentimentos/sensações de determinado personagem (e em parte da audiência). A cena da biblioteca em “Shadow of a Doubt”, por exemplo, é o exemplo perfeito do que estou a falar. De qualquer maneira, essa vontade que Hitch tinha de fazer a sua câmara seguir personagens, cenários e revelar o que um personagem (ou “deus”) tinha a revelar já era bastante visível. Aqui, ele tornou essa vontade o tema do filme. Um único cenário, muito poucos personagens, uma história clara como água (que ele ainda tornou mais clara ao não lançar dúvidas sobre o destino do rapaz assassinado, logo desde o início). As questões sexuais também se relegam para segundo plano. O apartamento é, ao mesmo tempo, suficientemente simples para resolver as dificuldades técnicas de filmá-lo, e suficientemente largo e dividido para permitir à câmara explorá-lo, procurando elementos, diálogos e acções. A câmara é curiosa, é quase um personagem, um personagem chamado audiência. Anos mais tarde, de forma diferente, Hitch colocaria Stewart atrás da câmara e definitivamente acabava por assumi-la como um personagem físico no enredo (Rear Window). Aqui, o que obtemos é uma câmara que se move segundo os desejos do realizador. A câmara curiosa, sempre à procura, que de Palma viria a reinventar e Polanski a dominar aparece primeiro aqui.

Acredito que o trabalho de de Palma, num certo sentido (e momento) Polanski, Chabrol e mesmo algum Godard (Le mépris incluído) todo deriva do que aconteceu aqui. Provavelmente, o melhor de Hitchcock neste campo surgiria com Rear Window, mas é aqui que ele se torna um inventor.

A minha avaliação: 5/5 um dos manifestos cinemáticos.

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Blood Diamond (2006)

“Blood Diamond” (2006)

Realizador: Edward Zwick

Escritores: Charles Leavitt, C. Gaby Mitchell

Género: Aventura/Drama/Thriller

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Abrir a janela

Penso que vale a pena ver este film porque algo de novo aconteceu aqui. Não relacionado com a criação de filmes, estruturas narrativas ou outra vertente intrinsecamente cinemática, mas devido à forma como a luz de África foi captada, algo que os manuais chamam fotografia

Cinematografia:.

Estou a tentar chegar ao máximo de trabalho possível de Eduardo Serra. Acredito que estamos aqui na presença de um dos mais competentes e surpreendetnes directores de fotografia da actualidade. E aqui ele excedeu as minhas expectativas, para um filme filmado em África: o continente sempre representou um desafio para artistas, acima de tudo pelas questões da luz, cor(es) e paisagem, únicos aí. No que diz respeito ao cinema, “Out of Africa” foi uma aproximação arrojada, mas no final demasiado “lavada” e vazia de emoção. Riefenstahl, ela própria um mestre do cinema debateu-se com este fascínio em parte do seu trabálho como fotógrafa. Nenhuma destas abordagem foi, a meu ver, suficientemente interessante, comparada com o que África pode oferecer. Recentemente, “The constant Gardener” aumentou o nível e chegou perto, mas tornou-se excessivamente garrida, pouco pacífica, muito exagerada (o director de fotografia era sul americano, misturou os dois continentes, suponho). No final, soa demasiado artificial. Toda a fotografia para cinema (e não só) é, por definição, falsa, mas deverá atingir-nos como genuína.

Serra é português. Portugal esteve um pouco por toda a África (e América do Sul) em determinada altura da história, e no caso do primeiro até muito recentemente (1975). Talvez isso possa dar a um fotógrafo português o balanço e algum distanciamento necessários. Recentemente, numa entrevista, perguntaram-lhe, em relação a “Girl with a Pearl Earring”, como é que ele tinha conseguido aquela luz, tão natural, tão genuína. Ele respondeu simplesmente: “abri a janela”. Foi o que ele fez aqui. Ele entendeu a luz em África, e colocou todos os meios artificiais de que dispõe para trazer essa luz, tão intocada quanto possível, para o cinema. Por isso, o mérito deste filme, neste sentido, está em ter aberto a janela para África. Não é perfeito, mas é o melhor que temos, neste momento. Até algo melhor aparecer, isto é África.

A minha avaliação: 3/5 – apenas pela fotografia (e Conelly, grande presença, enche as cenas e como não bastasse, é linda), para tudo o resto esta é uma experiência comum, mesmo vulgar, em cinema de massas, não valendo mais do que 2 na minha escala. Se se procura algo mais inteligente, por alguém que se preocupa com as questões de realização, trabalho de câmara e estrutura narrativa, veja-se “O fiel jardineiro”.

P.S. Este filme está também inserido na recente tendência de produção de filmes comerciais que tocam assuntos humanitários, usando o entretenimento como canal para coisas “sérias”. Penso que isso merece aplauso apenas até ao ponto em que se torna mais um produto global do capitalismo. Esta “bono voxização” das questões humanitárias pode matar todo o princípio da coisa.

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Onde demasiadas ideias convergem, “Gwai wik”

“Gwai wik” (2006)

Realizadores: Oxide Pang Chun, Danny Chung

Argumento: Cub Chin, SirLaosson Dara, Sam Lung, Oxide Pang Chun, Danny Pang, Thomas Pang

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Vi este filme no Fantasporto 2007, no Porto, Portugal.

Fui ver este filme sem expectativas de algum tipo em relação a ele. Gosto de entrar em filmes assim, retira o preconceito trazido normalmente pelo excesso de conhecimento prévio sobre as pessoas envolvidas. Aparentemente, sei-o agora, os realizadores são parte de uma nova geração no cinema de Hong-Kong, e realizaram já alguns sucessos com esse estatuto. Para mim, eram desconhecidos.

O filme é complexo, mas nem sempre por bons motivos. Começa com um ambiente misterioso, retirado (creio, mas não necessariamente) dos thrillers psicológicos de “apartamento” de Polanski. Este começo foi entusiasmante e prometedor, com muito bons momentos. A personagem principal era uma escritora, eu adivinhava que algum jogo com as características desta actividade ia ser desenvolvido (o bom cinema contemporâneo adora explorar estas coisas). Mas não, assistimos a sucessivos cortes radicais entre cenários, história, etc. Desenvolve e apresenta alguns cenários fantásticos, com algo que ver com a animação japonesa, uma espécie de Miyazaki filmado em cenários reais em vez de animações.

Mas acaba por falhar redondamente em tentar produzir um ambiente de drama intenso, que teria como objectivo passar a mensagem global ambiental; em vez disso, obtemos uma dimensão cómica não pretendida a determinada altura do filme (num determinado momento, os risos eram os sons mais ouvidos na sala).

O que se passa é, em minha opinião, que reúnem-se aqui muitas formas de fazer as coisas, muitas ideias de cinema, num truque de associar a proliferação de matéria e lixo com a proliferação de “ambientes” cinematográficos, e com isso causar a sensação de sufoco em linha com a mensagem pretendida. Penso que alguma contenção e simplificação aplicar-se-iam perfeitamente neste caso.

A história é completamente irrelevante (não necessariamente má) mas torna-se cansativa e desmotivante para tentar segui-la ou compreendê-la. No entanto este é um filme com bons valores de produção, nem sempre completamente credível, mas em geral sólido.

Alguma paisagem visual é impressionante, e bem trabalhada na relação com a banda sonora (também não má), mas não considero isso suficiente para justificar o tempo que demora. A não ser que se tenha um interesse muito especial por este tipo de filmes, não o recomendo.

A minha avaliação: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve