Arquivo de Março, 2010

Palata Nº6 (2009)

“Palata Nº6” (2009)

IMDb

a parte do meio

Filme e Vida. Ficção e Documentário. Aqui estão dois pares de conceitos que poderiam, se quiséssemos, ser colocados em cantos opostos das nossas classificações. Por essa razão, estes são conceitos que se intersectam, e chegam perto de ser confundidos e considerados iguais. Cada um destes pares contém em si a magia de uma repulsão/atracção magnética. Talvez seja por isso que tanto já foi dito, escrito e filmado sobre aquilo que um filme retira da vida (e a forma como a vida pode ser afectada pelos filmes). Também sobre quão pouca diferença há entre querer documentar algo e criar uma história que venha já do olho do criador.

Shakhnazarov parece ser um tipo deslocado. Alguém nascido dentro dos valores da incrível escola soviética, mas que perdeu esse contexto cedo na carreira. Hoje ele faz filmes soviéticos descontextualizados. E também não representa nenhuma das duas grandes contribuições soviéticas para o cinema (tendências lideradas por Eisenstein e Tarkovsky). Por isto, não me parece que alguma vez venha a ver um filme dele que faça mais do que impressionar pela inteligência das intenções por trás.

Neste caso o que ele queria fazer não é novo, mas também não está muito bem feito. Ele começa o filme apresentando-nos uma série de entrevistas a pessoas doentes reais, de um hospital psiquiátrico real. A verdade é que esta é uma ideia muito inteligente. As entrevistas colocam-nos no mundo dos casos mentais, e por isso não precisamos de mais estabelecimento do mundo do filme. Assim, entramos directamente no filme e isso é algo que não vemos muitas vezes feito com esta eficiência. O problema é que depois não há nada que faça valer o tempo. Há uma aproximação muito literária à escrita do diálogo, e isso mata o filme, que também não é bem suportado pelas actuações. Diálogos ou actuações são as coisas que podem transportar um filme assim. Não temos nenhuma aqui.

A cena final é tão inteligente como a inicial. Os pacientes reais encontram-se com os pacientes fictícios, e dançam, em pares mistos. A realidade documentada mistura-se com a realidade ficcionada. A entrada e a sequência final quase redimem a falta de tudo o resto no filme.

A minha opinião: 2/5

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Bakjwi (2009)

“Bakjwi” /Thirst (2009)

Fantasporto 2010

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Pés

Por vezes, o pós-visionamento de um filme pode ser afectado por aquilo que vemos no entretanto. Com pós-visionamento estou a falar daquilo que pensamos sobre o filme nas horas, dias, semanas, depois de o vermos.

Queria muito ver este filme. O novo filme de um dos meus realizadores favoritos a trabalhar hoje. Wook Park impressiona. Ele é mestre do vocabulário visual que usa, tendo mesmo adicionado novos termos a esse vocabulário. E é um contador de histórias impressionante, o que no nosso mundo contemporâneo do cinema significa que ele se interessa (pelo menos) tanto pela história que está a contar como pela forma que ele vai escolher para nos dar essa história.

Mas no entretanto, eu embarquei num novo capítulo da minha busca pessoal para explorar Orson Welles. Ele fascina-me, impressiona, muda-nos. E para além de ser também o mestro do seu próprio reino visual, ele é um dos melhores manipuladores de narrativas de sempre e, por isso, um contador de histórias insuperável. Welles e Park são de mundos diferentes, contudo. Onde Welles projecta do seu interior, para o mundo, Park projecta-se sobre os seus filmes. Ele molda esses filmes de acordo com a intuição, enquanto Welles intui o filme dentro dele. Que eu tenha sido capaz de perceber isto já recompensou a minha reflexão.

Agora em relação a este Thirst. Park está entre fases. Ele próprio o admite. Depois da sua recompensadora e transcendente triologia da vingança, ele agora está a procurar algo novo, algumas novas formas que possa explorar, algumas novas molduras que ele possa criar. Por isso vou considerar que este e o filme anterior dele são peças experimentais, onde ele espera encontrar um filão que valha a pena seguir. Assumo que deve ter sido mentalmente fatigante trabalhar com tanta intensidade em filmes tão intensos como os da triologia, especialmente Oldboy, um filme muito importante.

Por isso ele deriva para algo que na base podemos chamar romance. Mas a um nível cinematográfico, creio que o que Park está a fazer é outra vez a jogar com as (pre)concepções que as audiências terão, e puxar-lhes o tapete no momento em que se sintam suficientemente confortáveis. Agora mesmo ele joga com o filme romântico e, neste caso, com o filme de vampiros.

Este filme, contudo, é um falhanço relativo. As cordas deste mestre de marionetas não são tão bem puxadas como em Oldboy. Aí o truque era esconder-nos que éramos nós quem estava a ser manipulado, ao mostrar ostensivamente a manipulação do personagem principal. Pensávamos que sabíamos tudo o que ia acontecer. Funcionava porque os mecanismos estavam escondidos, o manipulador não se revelava até ao momento exactamente necessário para destruir as nossas convicções. Aqui percebemos tudo demasiado cedo. Suponho que as pistas de comédia que vemos, misturadas com o romance, e o tema vampiro, são exagerados, e revelam a estrutura do filme em demasia.

Para lá disso, sinto que a intenção era tornar os pedaços sangrentos numa paródia do género vampiro, e contrastar isso com uma história de amor subtil, mas realmente interessante, uma que nasce de sensibilidades diferentes das minhas ocidentais, mas que podem ser reconhecidas universalmente.

É excelente fazer isto, seguir a carreira de um mestre enquanto ela ainda tem capítulos por escrever. Bem, também a do Orson tem, mas os tijolos dele já estão construídos. Aqui temos um novo tijolo para suportar a visão única de Park. Espero que ele consiga ir longe nesta nova fase.

Ah, há uma pequena sequência com pés. Os pés nus da rapariga são levantados pelo vampiro que tira os sapatos e literalmente coloca os pés dela neles. vemos tudo isto desde a perspectiva dos pés, no chão. Lindo.

A minha opinião: 4/5

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La belle et la bête (1946)

“La belle et la bête” (1946)

Fantasporto 2010

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Filmar a pintura

Deveria ser sempre um acontecimento ver um filme de Cocteau. Ele foi um dos bons artistas do século XX. No entanto também era alguém demasiado consciente disso para poder produzir mais trabalho importante, para lá do que nos deu. Como outros artistas verdadeiros, ele tentou nadar em águas diferentes, e experimentar meios diferentes. Isso é respeitável, assim como a vontade que ele tinha em trazer uma visão pessoal a cada um desses meios.

Esta é a minha primeira experiência com os filmes dele. Reconheço que esperava mais. Talvez porque pensei que no momento em que Cocteau quisesse entrar no mundo dos filmes, ele iria questionar o meio, e não apenas colocar lá a sua sensibilidade visual. Afinal de contas, este tipo era tanto pintor como escritor. Não é isso que alguns mestres do cinema fazem? Pintar textos? Mas não, o amigo Jean evitou pensar sobre o que ele poderia trazer ao cinema em si, como forma de arte. Em vez disso ele dá-nos imagens impressionantes e cenários incrivelmente imaginativos. Mas não nos dá cinema interessante.

A melhor coisa aqui é a própria visão do filme. Podemos isolar qualquer frame que apresente um novo canto no cenário, e teremos imagens interessantes. Há o conceito de um cenário (no palácio mágico do monstro) que ganha vida, que se move, que actua com os personagens. Por isso temos esse cenário construído literalmente com elementos humanos, pessoas que fazem o cenário. braços que saem do escuro e agarrem castiçais. estátuas com olhos revirados, mãos que surgem de parte incerta. Há um jogo que enquadra esses elementos humanos, a colocação das luzes (e mais importante da escuridão! que relembra o teatro negro checo) e os personagens humanos que descobrem o cenário, na história. Este jogo é excelente, assim como a fotografia. Há arte aqui.

Não tanto na forma como contam a história, e é aqui que as coisas esfriam. Penso que a história, tal como está, seria ainda assim aceitável para as audiências desses dias. A revolução Kane ainda estava a decorrer, e a mentalidade romântica ainda persistia nas mentes das pessoas desses dias. Hoje já não. É aborrecido, é datado, é inútil como forma de contar uma história. Não há uma faísca, não é nem atractivo o suficiente para a seguirmos. É pálida, e ainda mais pálida quando confrontada com os cenários.

Um prazer paralelo ao ver este é pensar que estavamos na verdade a ver uma daquelas ligações doces entre realizadores e amantes. Mas aqui entre dois homens, cocteau e marais, que, não por coincidência, representa o monstro e, suponho, a bela também. A mulher é apenas uma incidência, necessária para a história.

A minha opinião: 3/5

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Fausto 5.0 (2001)

“Fausto 5.0” (2001)

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a ligação que falta

Tinha uma ideia razoável do que estava a procurar, ao vir a este filme. Este foi um trabalho de colaboração, mantido entre pessoas que vêm dos filmes, e pessoas que vêm da actuação ao vivo. La fura dels baus são ao mesmo tempo um grupo muito interessante de pessoas que tentam extender e expandir as noções de performance ao vivo e, mais interessante, as noções de interacção com uma audiência. Basicamente, o truque deles é aumentar o empenhamento do público, ao trazê-los mais perto do palco, ou melhor ainda, levando o palco para junto das pessoas.

Por isso, pensei que ia ver algo semelhante neste filme. Novas formas de seduzir, novas formas de contar uma história que inclua a audiência, enquanto transporta um sentido.

Mas o filme é um meio totalmente diferente. Ferramentas diferentes, truques diferentes, resultado diferente.

A inventividade e paixão que temos ao ver uma performance é aqui totalmente substituida pelo empenhamento em construir um mundo, sobre o mundo real, que possa acomodar a história do filme.

Por isso é-nos dada a cidade como intervenção artística, com toda a estilização e artificialidade que isso implica. O edifício embrulhado à Christo, com o interior que na verdade foi roubado a um museu. A transformação de sítios na cidade, pela colocação de pessoas que simplesmente não pertencem ali. As catacumbas do hospital, um bom uso do espaço.

Tudo isto é bom, mas os problemas do filme começam aí. Apesar deste mundo perfeitamente apresentado, que considera o que podemos fazer a uma cidade para a tornar (mais) adequada para a história que estamos a contar, isto não é suficiente para nos levar para dentro do filme com a mesma intensidade com que somos levados para dentro dum espectáctulo La Fura. Por isso, apesar do esforço, o filme não consegue equivaler-se às actuações, e penso que esse era um dos objectivos.

Mas temos Barcelona, uma relativamente interessante Barcelona, e temos grandes sequências, ainda que desconexas. Dessas, aquela nas catacumbas do hospital (que é fundamental na história) é a melhor.

A minha opinião: 3/5

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Wonderful Days (2003)

“Wonderful Days” (2003)

Fantasporto 2010

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tentáculos

Quem é leitor regular dos meus comentários sabe que tenho um interesse especial pelo tema da utilização do espaço em cinema. Normalmente, na maioria das vezes, estou a falar de espaços físicos construídos, arquitectura. Planeio desenvolver o tema, e num futuro próximo conseguir algum tipo de apoio para aprofundar a pesquisa e eventualmente chegar a algum lado. Até lá, colecciono exemplos de filmes que se dirigem com clareza ao tema.

O que se passa é que tenho notado que ao contrário de outras qualidades que podemos encontrar num filme, esta adequação espaço/imagem é algo que simplesmente não vai acontecer a não ser que os realizadores tenham consciência disso. Por outras palavras, para os edifícios se tornarem personagens ou entidades espaciais, tem de haver muito pensamento e premeditação envolvidos. Ser arquitecto pode ajudar, certamente ajudou Meirelles em Blindness.

Aqui temos um exemplo relativamente interessante do tema. A história é absolutamente desinteressante, aborrecida e dispensável, excepto pelo facto que permite a ligação arquitectónica: tudo gira em torno de um edifício, o ECOBAN, onde os maus têm a sua fortaleza, de onde controlam o mundo ao redor do filme. a sequência durante os créditos iniciais é poderosa na forma como sintetiza este conceito: o herói guia a sua chopper pela estrada, e entra no edifício. É interessante compreender esse edifício: tem uma planta central, e nós até vemos uma maqueta virtual dele no filme!, quando os maus discutem a segurança do ECOBAN. desde esse núcleo central (com um interior que copia o museu de Nova Iorque de Wright) temos vários acessos enormes, vários longuíssimos corredores que ligam o núcleo ao exterior. Esses corredores são em si grandes estruturas que misturam arcos góticos sucessivos com estruturas de inspiração mais biónica, uma dentro da outra. É por um destes corredores que vemos o herói entrar, na sequência inicial. Por isso essa primeira sequência essencial acaba com ele a chegar ao interior do edifício. É a sequência mais espacial de todo o filme, e faz a experiência valer a pena, apesar do resto dos planos serem normalmente descompensados (com algumas poucas excepções). É inútil dizer que a solução final para libertar o mundo da tirania está no centro do edifício.

Por isso, temos uma história agregada a um edifício, tornando esse edifício um personagem em si mesmo. esse edifício funciona na sua concepção como metáfora (símbolo) do que representa na história. Por isso é narrativa agregada à arquitectura. Isso é interessante. Tudo o resto no filme é pálido comparado com este conceito. Mais do que isso, a história é estranhamente ineficiente. Não sei como podemos ter a inteligência de fazer a arquitectura um personagem, suportando uma narrativa tão pouco clara. É como se houvesse pessoas diferentes e incomunicadas a trabalhar em diferentes aspectos do projecto.

A produção, e aspecto visual, são bastante bons, aliás como quase tudo o que sai da Coreia do Sul.

A minha opinião: 3/5

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Cronos (1993)

“Cronos” (1993)

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Fantasporto 2010

ursinho de peluche

Querer fazer filmes é um caso amoroso. Cada novo filme é perfeito na mente de quem o imagina. Vamos para a cama à noite, e o filme está aí, tal como o sonhamos. Podemos perder essa visão, podemos comprometê-la se algum dia tivermos a sorte de avançar com ela, mas para sempre ficará a perfeição de uma ideia. Por isso, suponho que fazer filmes começa como um acto de amor. Guillermo del Toro certamente está apaixonado pelo que faz. O enamoramento provavelmente está com ele há muito tempo. ele vive nos filmes, como espectador ou criador, há muito tempo. por isso ele investe os seus filmes no próprio cinema. Cada referência, mais ou menos bizarra, que moldou a imaginação dele, aparece em cada um dos seus argumentos. Isso significa que ele nos é honesto, consistentemente, e isso por si só merece respeito.

Mas depois, há vários níveis de qualidade que podemos considerar quando vemos um filme, que variam conforme cada um. del Toro é sempre competente, em cada filme. Ele sabe como explorar uma câmara para transmitir uma ideia de suspense. Ele tem uma imaginação bizarra que lhe permite criar mundos que valham a pena visitar. E ele sabe construir um mundo que aglomere duas dimensões. Uma que é ordinária, o mundo real onde todos vivemos, e uma fantástica, onde os vampiros existem, onde as criancinhas materializam os seus jogos. É por isso que o Labirinto do Fauno foi tão adorado, não é? Por isso vão encontrar tudo isso bem feito nos filmes dele. Mas ele simplesmente não é muito ambicioso para que eu o possa realmente apreciar. Honestidade e competência não equivale a faísca. Ontem eu vi fogo real no novo e imperfeito filme de Wook Park. Os realizadores melhores jogam com mais ferramentas do que as que inicialmente têm. del Toro constrói filmes dentro de certas tradições cinematográficas, mas depois não é capaz de as quebrar. Se eu tivesse visto este filme quando ele era novo, provavelmente teria ficado excitado com a possibilidade de ver del Toro ultrapassar-se. Agora sei que ele não quebrou as regras. Ao invés, está provavelmente a deslizar para o mundo do sucesso comercial. Ou seja, também Peter Jackson o está, mas antes disso ele fez Braindead… Espero que del Toro ainda seja capaz de me surpreender, em vez de ser apenas competente.

O elemento realmente interessante que corre por este filme e pelo labirinto é a miúda. Ela é a materialização dessa ligação entre os dois mundos. Mas também é, ela mesma, um elemento bizarro que pertence a nenhum. aqui no Cronos, é-lhe dado um lugar ambíguo, como se o mundo girasse na verdade à volta dela, em vez de à volta do dispositivo que motiva tudo.

esse artefacto é, já agora, a segunda melhor coisa aqui. Um aparelho com a forma de um insecto, que contém mesmo um insecto dentro. esta é a metáfora da inserção de um mundo dentro do mundo. Um é dourado, curioso, mas frio e morto, o outro está vivo e é estranho. O insecto interno controla o externo. o fantástico invada a realidade. ideia inteligente.

a última coisa boa é o espaço pessoal da rapariga. ele concentra aquela sensação dos velhos sótãos, onde podemos encontrar praticamente tudo. Adoro isso. Este tem uma arca onde o vampiro se esconde durante o dia, e está perfurado de uma forma que permite a luz do sol entrar de uma forma bonita.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve