Arquivo de Setembro, 2007

Chaplin (1992)

“Chaplin” (1992)

IMDb

Mais cinema, menos informações…

As curiosidades do IMDb relativas a Attenborough diz em relação ao seu pensamento cinematográfico: “As filosofias incluem acreditar no conteúdo em detrimento do estilo e na sinceridade mais do que na inteligência.”

Por vezes estes aspectos resultam nos seus filmes, mas o facto é que, na arte, a sinceridade é quase sempre obtida por meio da inteligência e a honestidade tem pouco que ver com a verdade. Chaplin sabia-o e por isso nenhum dos seus filmes são “verdadeiros” no sentido estrito da palavra, mas todos são, acima de tudo, honestos. Por isto não gostei deste filme: porque falhou em chegar ao “conteúdo” do trabalho de Chaplin. Attenborough é, apesar de tudo, muito competente, assim como o seu trabalho de câmara, muitas vezes bastante interessante (apesar de, neste tema, assim como na edição, ser melhor ver A bridge too far) e esse aspecto torna parcialmente interessante o tempo gasto.

“-o que fazemos? – Sorrimos”

Para mim, Chaplin é um dos sinónimos de emoção em cinema. Os filmes fazem muitas vezes parte das vidas das pessoas. Muitos chegam a essas vidas condicionados pelo contexto, ou seja, são os que as pessoas tiveram a oportunidade (boa ou má sorte) de ver. Chaplin entrou na minha vida bastante cedo e, por muito tempo, nunca entendi exactamente o que ele fazia, não me lembro na minha infância de ver um filme completo dele, mas muitos excertos são parte das minhas memórias visuais (Chaplin para crianças). Crescer e compreender como todo o drama, toda a emoção (para além do “engraçado”) existe no seu cinema foi uma verdadeira revelação para mim e o portal para o cinema como arte. O “efeito palhaço”, o charlot sempre a sorrir às adversidades é sempre capaz de mostrar o belo e o horrível, o escuro e o brilhante, escuro no que mostra, brilhante no que consegue provocar. Isto é humanismo em cinema, na minha visão pessoal. Pelo que sei, Chaplin está no topo daqueles que dominaram esse aspecto (ou tentaram).

Neste filme em particular, a emoção é deixada para o fim; que é no entanto feito completamente seguindo Cinema Paradiso. Mas a sua força (do final) existe porque simplesmente mostra excertos de filmes de Chaplin. A opção melhor aqui seria, no meu ponto de vista, realçar o “conteúdo” em vez dos “factos”. Assim, de volta à citação no IMDb, o que creio que há aqui é uma diferente noção de “conteúdo” (diferente da minha) que, para Attenborough, resultou numa colecção (que eu creio ser um pouco aborrecida) de factos, levando o cinema para segundo plano. Neste filme Chaplin diz “se me querem conhecer, vejam os meus filmes”. Essa seria a chave.

Apesar de tudo, Downey Jr é muito muito forte aqui e a sua actuação física é realmente notável.
No entanto, como filme biográfico, a minha escolha pessoal ainda vai para o muito recente e relativamente desconhecido “life and death of Peter Sellers” já que chega bem mais fundo à alma do artista.

A minha avaliação: 3/5 em geral um falhanço, apesar de não ser muito mau de assistir (basicamente devido à actuação de Downey Jr e algum trabalho de câmara).

Este comentário no IMDb

Mary Reilly (1996)

“Mary Reilly” (1996)

IMDb

Malkovich, Jekyll e Hyde

Este filme causa-me desconforto. Suponho que seria esse o objectivo. Mas o que se passa é: com a distência do tempo tenho uma boa impressão dele, e a minha memória retém boa opinião. Mas enquanto o vejo, e já o fiz algumas vezes, não encontro razões que justifiquem as minhas recordações. Pensei sobre isso e creio que tudo se resume a um elemento, que é Malkovich. Julia Roberts é inútil, um ornamento, a rapariga que está ali para se assustar e representar o “caminhar no escuro enfrentando os seus próprios medos e vencendo-os”. Tudo bem com isso. Não tão bem quando ela supostamente deveria fornecer ao nosso Hyde o suporte e emprestar-lhe os seus medos e más memórias, ela falha completamente e esse é um ponto fraco. A direcção de Frears é correcta, ele compreende ritmo e como construir um filme respeitando o modo do enredo. Tudo bem.

Depois temos Malkovich. Ele tem uma forma de actuar que muitas vezes dá a sensação que ele não está a actuar de todo, quase como se ele estivesse sempre a ser ele próprio. Isto é uma sensação falsa e, na maioria dos casos, creio que resulta como aspecto positivo das suas actuações. De uma certa forma dá-lhe uma sensação de várias camadas, a dos personagens que representa, ele mesmo e a forma como ele compreende esses personagens, quase como se estivesse sempre a fazer anotações pessoais sobre o que sente sobre os seus personagens (estranhamente isto desvanece-se nos filmes de Oliveira, mas isso é outra história). Aqui neste filme este aspecto resulta de forma diferente. Por um lado ele não estabelece a oposição radical entre Jekyll e Hyde que poderíamos precisar de assistir. Por outro lado isto realça a ligação interior entre os 2 e a observação de que qualquer um contém Jekyll e Hyde em si, e a definição da nossa personalidade é a resolução desse conflicto interior. Este mesmo conflicto é o que Malkovich leva para a sua actuação (actor vs personagem comparável a Jekyll vs Hyde). Isto foi o que me confundiu e provavelmente o elemento mais importante a observar no filme.

A minha avaliação: 3/5, trabalho sólido, pontos fracos mas elementos interessantes, como referido.

Este comentário no IMDb

Girl with a Pearl earring (2003)

“Girl with a pearl earring” (2003) (A rapariga do brinco de pérola)

IMDb

Hiper-realismo e luz

Luz como um manto: a janela foi aberta e a luz entrou. Cobriu superfícies, cobriu alguém. Com Vermeer, tudo é sobre realçar as personalidades através de sombras e superfícies que definem almas. O século XVII holandês produziu Vermeer e Rembrandt. Ambos mudaram o significado da luz na composição e conteúdo e escreveram um capítulo fundamental da construção visual (composição). Mas enquanto com Rembrandt temos a luz como um foco, que domina e conduz os outros elementos, cuja personalidade e significado são moldados e submetidos a essa luz que o pintor escolhe, com Vermeer temos outra situação: luz como um manto, tranquila, pacífica luz, aquele que atravessa um copo numa manhã de sol e nuvens. Normalmente ele usa o mesmo tipo de luz, e permite-lhe descobrir o que há para descobrir no modelo (“you looked into my soul”). O resultado final é como uma fotografia abaixo da superfície do modelo (como a câmara escura que “mostra” a pintura). Este é um tema muito fascinante, e no que diz respeito ao cinema é, a meu ver, ao mesmo tempo bastante complicado de trabalhar e bastante tentador. Isto acontece porque o cinema é, por princípio, e até este momento, sobre imagem e este tema é também imagem, o que o torna completamente cinemático. Assim, esqueçam-se histórias, esqueça-se narrativas convencionais, para fazer este, tem de se fazer visualmente. E pedir uma ajuda à luz. É aqui que entra Eduardo Serra. Não é comum para mim concordar com a maioria das opiniões relativamente a quais são os pontos mais altos das carreiras das pessoas, mas aqui acredito realmente que este filme tinha as medidas perfeitas do trabalho de Serra. E ele cumpre. Toda a equipa e actores (obviamente isto é exagero) está aqui para fornecer a Serra algo para ele fotografar. E ele representa Vermeer tão bem… a fotografia é a presença mais forte de Vermeer no filme, a sua luz é um personagem. Não “existe” realmente, mas é tão física aqui. Assim, isto seria hiper-realismo no cinema; mais verdadeiro que a verdade. Aparentemente Firth seria uma falha, mas ele aguenta-se bem aqui, e Johanson é toda sobre cara, lábios, cabelo e olhar aqui. É assim que ela encaixa.

A minha avaliação: 4/5 Um filme muito bom sobre pintura que de facto é coerente com a arte que pretende trabalhar.
Este comentário no IMDb

Nick of time (1995)

“Nick of Time” (1995)

IMDb

espaço e tempo

Gosto deste projecto particular, gosto muito de Badham, em geral. Normalmente ele é capaz de construir os seus filmes em torno de ambientes muito contidos, quer em termos de espaço quer em termos de tempo. Mesmo em Saturday night fever esta característica era visível, de uma forma subtil: aí tínhamos um filme sobre uma época, uma certa juventude e uma certa parte do mundo, podemos falar de contentor espacio-temporal num sentido de cultura pop. WarGames também era sobre isto, correr atrás do tempo era a desculpa para aumentar a tensão, e construir cinematicamente o modo de suspense. Aqui temos os mesmos pressupostos que em WarGames, um tipo tem de fazer algo num curtíssimo espaço de tempo, de contrário algo terrível vai acontecer. A coisa terrível e a acção que ele tem de cumprir estão ambas localizadas no mesmo quarteirão de cidade, assim tudo se desenvolverá ao redor disso.

Neste, Badham tem um elemento mais forte, comparando com WarGames: ele tem Depp. Estamos a olhar para um dos melhores actores actuais, aqui num tempo em que ele arriscava (ainda mais) que hoje. Ele tentou várias coisas, aqui está outra. Ver Depp é razão suficiente para ver este filme. Ele é um dos poucos actores que cosnegue, sozinho, “transportar” a audiência e tornar credível o que poderia ser questionável, e aprofunda a sua actuação com a sobreposição de questões interiores, aqui maioritariamente associadas com a decisão Completar a missão vs Tentar abortá-la: a sua filha vs fazer “a coisa certa”. É material bastante repetitivo, mas a questão com Depp (e bons actores) nunca é “O quê” mas “Como”.

Não pude deixar de pensar o que De Palma poderia ter feito aqui. 3 anos após este, ele dirigiu o seu muito pessoal Snake Eyes, um dos seus ensaios sobre o comportamento/movimento do olho cinemático. Aí, a sensibilidade de De Palma estava a colher os frutos das experiências da sua carreira em movimento de câmara e trabalho visual, mas tudo o resto era tão amador, actuações, mesmo alguma escrita (toda a que não interessava a De Palma) que a experiência perdeu algo. Esse mesmo guião melhorado com Depp poderia ter lançado a experiência para outro nível. Pena. De qualquer forma, Badham é suficientemente competente para tornar este merecedor de atenção, e ele sabe mover-se. Walken é (como costume) exagerado, ele é o durão “esperto com as palavras”, normalmente tem reconhecimento das audiências, mas não é o que eu aprecio. Apesar de tudo, este filme é uma boa experiência. Tente, se ainda não tentou.

A minha avaliação: 3/5
Este comentário no IMDb

North by Northwest (1959)

“North by Northwest” (1959) (Intriga internacional)

IMDb

James “Hitch/Grant” Bond

Penso que é fantástica a atitude de alguns artistas em relação à sua actividade. Falo daqueles que, numa vida inteira de criação perseguem vários objectivos, várias ideias diferentes, muitas vezes indefinidas e nebulosas no princípio e quando finalmente focalizam essas ideias com precisão e criam algo importante daí, partem para explorar novas ideias deixando muitos outros artistas tirando conclusões do que ficou. Hitchcock sofreu influências, evidentemente, mas o que ele permitiu acontecer depois dele coloca-o entre os mais memoráveis inventores na história do cinema. Assim, Hitch foi influente através de vários dos seus trabalhos:

. Rope (a Corda) – e seguindo este, o muito notável “Dial M for Murder” e a obra-prima absoluta “Rear Window” (a Janela indiscreta); aqui foi onde ele explorou ao máximo o seu olho da câmara, tão influente em anos posteriores, realmente adoro esta fase.

. Vertigo – o trabalho em que Hitch reflect sobre o papel que o actor pode ter e a sobreposição de papéis (papel dentro de papel, actor dentro de actor) e a forma como o observador lida com isso; também reflecte sobre o modo como um cenário pode influenciar uma acção ou modo apenas por existir.

. North by Northwest – o primeiro filme James Bond, Hitch e Grant são os pais do personagem no cinema, é interessante como anos mais tarde Hitch usaria Connery, o primeiro Bond factual, no seu tardio “Marnie” .

Eu sou um fã de James Bond, ele fez parte da minha infância e adolescência, e ainda tem um lugar na minha imaginação, contudo, de um ponto de vista cinemático, esta última “revolução” é, para mim, a menos interessante. Apesar disso, que grande filme este é. Hitchcock introduz aqui com uma qualidade cinemática sem precedentes o tema do filme de perseguição, onde cada dia seguinte é indefinido em acções e locais, onde o sexo sempre surge sob a forma de uma bela mulher com objectivos incertos (a loira de Hitch!). Cary Grant era já o primeiro Bond antes de Fleming criar a personagem por isso, num certo sentido, este é provavelmente o primeiro filme de Hitch em que o que realmente interessa é o estilo. A história está cheia de problemas e incoerências, não faz sentido em muitos pontos, mas isso acontece a 90% dos filmes (especialmente de acção). Herrmann alcança aqui uma das suas mais subtis e melhores bandas sonoras para Hitchcock, e tudo tem um bom gosto irresistível, mesmo que cheio de clichés “hitchcockianos” (o local icónico para o momento importante da acção, neste caso Rushmore, a aparição de Hitch logo no início, a mulher loira…)

Muitas vezes, gostar ou não de um realizador tem que ver com questões pessoais, nesse sentido, eu realmente adoro o trabalho de Hitchcock, mas aparte disso, todos os méritos imensos que ele teve devem ser reconhecidos e no meu ponto de vista, este é um dos seus (neste caso não tão brilhantes) feitos.
A minha avaliação: 4/5 a sua piada tem que ver, suponho, com o ritmo e energia.

Este comentário no IMDb

Le Mari de la coiffeuse (1990)

“Le Mari de la coiffeuse” (o marido da cabeleireira, tradução livre)

IMDb

Intimidade e uma cena de amor

este comentário pode conter spoilers

Tudo isto é sobre intimidade. A cena de amor não tem nada que ver com sexo, apesar de ele entrar nela. O momento em que Mathilde se atira da ponte, toda essa sequência, do acto de amor na cadeira até à sua súbita escapada no meio da tempestade é tão aparentemente casual que se torna incrivelmente confrangedor. Tem um lugar nas minhas memórias como uma das cenas mais fortes que já vi.

Este filme retrata a espontaneidade, apesar de utilizar enredos completamente irrealistas, cenas, diálogos, etc. Como é isso feito? Através da mente. O que acontece é espontâneo não na vida real mas nas nossas imaginações. Pedir uma mulher em casamento, fazer amor com ela enquanto ela lava o cabelo de alguém, essas são fantasias, enfatizadas pelas danças indianas espontâneas, e a completa obscuridade lançada sobre o passado do nosso personagem

Os franceses são bons neste tipo de dramas/comédias do dia-a-dia, que aparentemente são naturalistas mas racionalmente são irrealistas (este tipo de filme está na origem do fenómeno Amélio Poulain). Suponho que estes filmes se seguram com base em 3 elementos fundamentais:

. personagens femininos sedutores (Audrey Tatou era sedutora de uma forma inocente, Anna Galiena é misteriosa, pessoalmente prefiro Galiena)

. capacidade cinemática de lidar com a abstracção nos elementos do enredo, abstracção nas definições dos personagens e com os aparentemente absurdos elementos (isto motiva a imaginação em filmar as cenas de novas formas, a nova vaga francesa era boa nisto, estes realizadores posteriores como Leconte aprenderam bem a lição, creio.

. uma imagem que confira uma unidade que se relembre após o visionamento (aqui tem que ver com luz, o cenário interior e cabelo, que unem todas as cenas). A luz aqui é, uma vez mais, o fruto do trabalho magnífico de Serra. A sua abordagem tem tudo que ver com o modo cinemático; eu elogiei o seu trabalho em Blood Diamond, reafirmo aqui a minha admiração por ele; ele realmente consegue adaptar-se às circunstâncias, ser ele mesmo e resolver os problemas sem ser excessivamente notado.

A minha avaliação: 4/5 Este é o equivalente francês de “la teta i la lluna” (que aconteceria 4 anos mais tarde) e recomendo o seu visionamento.

Este comentário no IMDb

The Fountainhead (1949)

“The fountainhead” (1949)

IMDb

Arquitectura (e Cinema) à superfície

Este filme foi um terrível desapontamento, uma má experiência em absoluto. Sendo um estudante de arquitectura, quase graduado, naturalmente relacionei-me com o tema de uma forma mais próxima do que o normal espectador.

Aparentemente este Howard Roark foi vagamente inspirado no mestre americano Frank Lloyd Wright. Em primeiro lugar, Wright não foi tão radical em relação à arquitectura do seu tempo como os europeus daqueles dias (como Le Corbusier, Van Der Rohe, Loos ou mesmo Taut). Ele foi um génio de direito próprio mas o seu trabalho, apesar de fantástico, é hoje datado e bastante mais agarrado à tradição do que o dos nomes que referi, e os seus projectos mais arrojados (formalmente falando) surgiram já na segunda parte da sua carreira, num ambiente cultural diferente. Assim, provavelmente, o personagem de Cooper poderá ser antes (mais) um reflexo do crescimento do (super) ego americano, como consequência da recente “vitória” na segunda guerra mundial (esta arrogância atingiria o seu máximo no princípio dos anos noventa, mas isto é uma nota à parte).

Cinema e Arquitectura:
De qualquer forma, o que realmente incomoda é que este filme pode ser acusado exactamente com as mesmas falhas apontadas aos detractores de Roark. Não li o livro, aparentemente representou um marco na juventude americana desse momento, relacionado com individualidade e espírito criativo. Não posso falar sobre o entendimento da autora sobre o que é arquitectura (não apenas a dos últimos 100 anos). Mas posso justificar que as pessoas envolvidas neste filme nada sabem sobre o tema: o que os arquitectos modernos fizeram foi separar a arquitectura da decoração e noções de escultura em que os românticos estavam imersos. Estes arquitectos entenderam que arquitectura é, antes demais, sobre espaço, sobre movimento, sobre a quarta dimensão, e rejeitaram a ideia de submeter os seus edifícios exclusivamente ao seu interesse como objectos. A primeira cena na qual Roark mostra o seu arranha-céus e vê-o ser arruinado pelos elementos neoclássicos de fachada juntamente com uma outra em que Roark desenha, ele mesmo, uma fachada neoclássica provocando assim Wynand são a prova de que o modernismo na arquitectura não era de todo entendido por quem concebeu este projecto, e que eles o viam meramente como “estilo” a ser usado no mesmo nível como o “neogótico” “neoclássico” “neo qualquer coisa”… Isto representa conceber arquitectura por superfícies, eventualmente volumes, não espaço, não como esse espaço é vivido. Linhas “direitas” e volumes puros não são nada se não estiverem contidos em noções mais profundas. E é imperdoável que isto não tenha sido considerado, especialmente 9 anos depois de Welles fazer Citizen Kane (O mundo a seus pés) e introduzir (algumas) noções de como compreender um espaço através de uma câmara. Welles devia ter feito este. Ele teria transformado a arquitectura num tema (Hitchcock, apenas um ano antes, assinou a sua brilhante exploração espacial que foi Rope (A corda) ).

Lloyd Wright compreendia completamente o que o espaço era, não estes, não Roark. Ele é um personagem romântico, cheio de sentimentos melodramáticos, esperando o seu amor “perdido”, a mulher perdida, ele tem precisamente a personalidade daqueles que no século XIX escolheram reviver todos os estilos passados contra os quais Roark supostamente se revolta.

Também a ideia de “génio”, de criador é, eu diria, perigosa aqui. A arquitectura destaca-se das outras artes precisamente no ponto em que tem uma responsabilidade social, impacto social e assim, o maior drama e glória de um arquitecto é, simultaneamente, ser capaz de fazer coexistir as suas convicções pessoais com as necessidades de uma audiência (cliente) e assim criar verdadeira arte (arquitectónica, não escultura, não decoração) que com sucesso junte concepções individuais com necessidades colectivas.

A minha avaliação: 2/5, uma das minhas maiores decepções, eu estava realmente a querer ver este… a não ser que seja especialmente interessado em arquitectura (e aí poderá retirar algum interesse histórico em relação a quando algumas expressões chave da arquitectura moderna surgiram) fique longe. Poderá sair danificado se não conhece suficientemente o tema.

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve