Arquivo de Fevereiro, 2009

The Wrestler (2008)

“The Wrestler” (2008)

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honestidade

Este filme é um Aronofsky desapontante e uma grande actuação de Mickey Rourke.

O que temos é um filme sobre um actor. A luta livre tem tudo que ver com actuação física, assim como o striptease. Por isso Rourke e Tomei representam actores. Actores que fazem de actores, é aí que estamos.

Sobre Rourke: o seu personagem reflecte a sua vida pessoal, provavelmente é por isso que o escolheram, e certamente que é por isso que ele estava tão entusiasmado com o filme, como ele admitiu. Uma estrela antiga, alguém que criou impressões duradouras nas mentes de quem o viu em anos dourados, mas que eventualmente se torna uma estrela gasta, que representa em shows modestos, com uma vida pessoal arruinada. Estes factos são provavelmente a chave do sucesso da actuação. Mickey Rourke não é tão sofisticado como actor como outros e porque passou boa parte dos anos 90 a fazer outras coisas e a viver uma infância tardia, ele não progrediu como outros da sua geração. Mas no entanto ele provavelmente viveu coisas tristes e feias na sua vida. Por isso agora temos este. A razão porque confiamos aqui tanto na sua actuação é porque ela é tristemente honesta. Aqui ele é tripas e coração, está tão comprometido com o seu trabalho como o lutador que representa, cuja vida está no ring. Rourke tem uma mente directa – só temos de conhecer os seus comentários políticos para o perceber – mas também o lutador a tem. Assim, temos um casting perfeito, e comprometimento verdadeiro. Estas actuações honestas devem ser realçadas, porque é raro vê-las. Vejam a primeira cena depois dos créditos condensados e significativos, quando Rourke está sentado sozinho num quarto vazio, nos bastidores de uma actuação. É uma síntese perfeita de tudo isto.

Agora, isto faria um filme simples de algum realizador menor suficientemente bom. Mas este foi realizado pelo homem que nos deu “Pi” e “Requiem for a Dream”. Por isso não é suficientemente bom. Ok, é um estudo de personagem, a forma como a câmara segue constante e ostensivamente as costas de Rourke mostra-o. Este deveria ser um filme sobre Rourke, e até admiro que Aronofsky se tenha apagado para o realçar. Mas no final das contas, não há muitas coisas para admirar aqui. Assim, como muitas vezes acontece, não é uma questão do que Aronofsky faz aqui, antes uma questão do que ele poderia ter feito, porque eu vi os seus outros filmes. Algumas cenas de luta são boas, porque ele denuncia a falsidade de todo o espectáculo, e ao mesmo tempo coloca-nos dentro das cenas, contribuindo para fazê-las reais para nós.

A minha opinião: 3/5 por Rourke.

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Fantasporto 2009

The Curious Case of Benjamin Button (2008)

“The Curious Case of Benjamin Button” (2008)

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Regresso ao passado

David Fincher é uma mente interessante. Por aventuras anteriores eu já sabia que ele se interessa pela forma dos seus filmes, com criar uma estrutura coerente com a narrativa pretendida. Com Seven, Fight Club e Zodíaco, senti que essa estrutura já existia antes da linha narrativa ser vertida para ela. Esse é o recreio dele, e é interessante porque há mais nos filmes dele do que a estrutura que os suporta. Assim temos ideias visuais, que representam emoções.

Aqui ele tenta algo novo. Bem, ele ainda se preocupa com a criação de uma estrutura sólida onde inserir a história. Na verdade este é a sua forma mais longa, não tanto pelo tempo que o filme dura, mas pelo tipo de desenvolvimenteo que tem. Um filme que segue o tempo de uma vida deve ser uma das coisas mais difíceis de fazer em cinema. Porquê? Porque esse tipo de história está totalmente enraizada na literatura, não no cinema. É difícil comprimir a evolução emocional de alguém ao longo de uma vida em imagens. A literatura tem a capacidade de criar canais instantâneos para a mente de alguém. Tentar fazer isso em filme normalmente resulta num desastre. Por isso é que é tão difícil encontrar bons filmes que representem biografias (o chamado biópico).

Tendo dito isto, creio que este filme tem sucesso porque lida com as desvantagens que referi acima. Tenta evitar as coisas previsíveis, a preguiça que leva ao consequente falhanço de colocar as palavras como a legenda de imagens desinteressantes. Não é um filme perfeito e ainda está por vir (ou pelo menos ainda não vi nenhum) o film que represente a vida de alguém e que mude a minha vida.

Aqui há um conceito lindo que faz o filme para mim. Isto é uma história de amor, tudo bem. Mas lida com tempo e espaço como as adversidades que os amantes têm de enfrentar. É uma questão de duas pessoas que têm de encontrar o seu espaço comum, as condições para estar juntos, seja contra a guerra ou a rejeição social (o modelo Titanic). Mas, mais interessante, lutar pelo tempo certo. As linhas de vida opostas (uma que fica mais velha, outro que fica mais novo) permitem isto. Por uns poucos anos, por um certo período de tempo, os amantes podem partilhar o seu amor.Que ideia linda, que um casal tenha de viver em proximidade sem se tocar, sabendo todo o tempo que estão a ver o amor das suas vidas e ainda assim têm de esperar pelo momento certo, e depois terão de ter a coragem para se separar outra vez. Essa é a ideia que despedaça o coração e que move este Benjamin Button. Fincher nunca tinha feito um filme assim, tão baseado em concentrar emoções, um filme feito com uma estrutura clara que no entanto podemos descartar porque o que interessa é o que está dentro dela. Nos seus outros filmes, a estrutura e o conteúdo não se separavam.

Esta é uma história de amor, notável, um conto sensível, que aparece numa altura anti-romântica. Talvez por isso tenha tanta simpatia das audiências. Ventos de mudança? Tempo invertido?

A minha opinião: 3/5

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Blindness (2008)

“Blindness” (2008)

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Fantasporto
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branco espacial

A determinado momento nas suas vidas, muitos artistas sentem a necessidade de descer aos abismos da degradação humana, da ausência de humanidade (ou trocas de valores radicais). São as catacumbas de Piranesi, o inferno de Dante. Creio que o objectivo básico deste tipo de viagens não é tanto o imaginar uma realidade possível onde poderíamos viver, mas espelhar a nossa própria realidade, os pedaços podres das nossas existências tantas vezes ridículas. O exagero é um truque que os artistas usam bastantes vezes para realçarem o que querem passar. ‘Ensaio sobre a cegueira’, o romance, foi a descida de Saramago a essas catacumbas, o pedaço de escrita mais negro de um pessimista já negro e irónico (ou um optimista de um outro tipo de humanidade). Meirelles, que tinha já feito dois filmes negros, usa o romance para fazer a sua própria descida. Como curiosidade, ele admitiu que queria ter adaptado o livro antes e não o pôde fazer, e eventualmente acabou por adaptar Cidade de Deus. A mistura de ideias e mentes criativas aqui é poderosa, e o filme resulta como se pretendia. Esta é uma representação bem conseguida de um inferno possível, de uma realidade possível, da nossa própria realidade (?).

Antes de avançar para o filme, deveria dizer algo. Há um pequeno documentário brasileiro, praticamente desconhecido. Chama-se “Janela da Alma”. Tem a ver com visão, claro, é sobre observar, e o que significa para uma quantidade de artistas esse conceito, ver. Usar os olhos para conquistar o mundo, e expressar sentimentos. Entre outras pessoas e artistas interessantes que colaboram, refiro 2. Um é Saramago, que escreveu o romance deste filme. O outro é um fotógrafo cego (esqueci-me do nome) que fotografa por intuição, obviamente não se preocupando com o resultado final que ele não pode ver, mas fazendo fotografias como um meio de chegar ao mundo. É um conceito fantástico se pensarem nisso. Recomendo que vejam esse documentário, antes ou depois deste filme. Poderão encontrar coisas interessantes nele. No filme existe mesmo um momento em que o personagem de Ruffalo fotografa, “intuição de cego”, diz ele…

(possível spoiler)

Aqui os arcos dramáticos são semelhantes ao que temos em Irreversível. Aterramos directamente no inferno, na maior escuridão possível, desde o início, e subimos as escadas em direcção à luz à medida que avançamos. Por isso é que neste filme não temos exactamente um prelúdio dos acontecimentos. É um truque poderoso porque não nos permite ser racionais, como espectadores estamos tão no escuro (branco) como alguém que de repente perdeu a sua capacidade de ver.

Basicamente, o filme torna-se um estudo do que a civilização seria sem um dos seus pilares básicos, a visão. “what would happen if…?”. É um dispositivo simples e eficiente e, porque lida com a visão, e o jogo de a retirar, é puramente cinematográfico, literalmente visual. Meirelles obviamente percebeu-o, por isso é que ele queria adaptar o romance desde o início. Tudo o que acontece é a consequência de não ver. Várias coisas podem ser concluídas: depois do choque inicial da perda de visão, as pessoas adaptam-se, e criam conflitos, hierarquias, novos conflitos e novas hierarquias, mas é suposto identificarmo-nos com o que vemos (e se têm uma consciência, vão-se identificar). Novos grupos são formados, novas amizades, novas “famílias”.

Meirelles é um realizador extremamente visual. Aqui, ele faz muito mais “enquadramentos” que nos anteriores, onde as suas capacidades concentravam-se mais no ritmo (edição). Claro que aqui também temos pedaços fantásticos de edição, logo desde o início. Mas é muito mais arquitectónico na sua abordagem. Afinal, o tema de perder a visão e relacionar-se com o mundo é puramente espacial. É uma questão de como relacionar-se com um mundo concebido para ser visto. Sendo um arquitecto, Meirelles certamente aprecia esta questão melhor que outros realizadores.

Assim, o jogo visual que ele joga é espaço, e cores (p&b). A fotografia é altamente depurada, contrastante quando tem de ter contraste, mas sobretudo desenvolvida com imagens sobre-expostas, quase brancas, e a total escuridão, que até existe literalmente durante 30 segundos numa cena específica, quando Julianne Moore procura comida na cave.

As actuações são boas, Julianne Moore está no topo do jogo na forma como é intensa sem explodir demasiado, e na forma como nos mostra uma face enquanto nos sugere que o seu personagem tem outras faces. Assim, ela é líder, literalmente na história, já que é a única que vê. Todos os outros jogam o jogo, excepto McKellen que demasiadas vezes é apenas arrogante como actor, do tipo que acredita que todo o filme (e todos os filmes) têm que ver acima de tudo com actores. Estranho tendo em conta que ele também foi argumentista neste filme. O personagem de Glover foi interpretado por Meirelles como um alter-ego de Saramago. A sua actuação é bastante boa apesar de ter tempo limitado, e a voz off tem o tom certo. Uma curiosidade interessante é que quando o vemos pela primeira vez, ele ouve o rádio, e o que ele ouve é português europeu. A voz off e o rádio são os detalhes que Meirelles usa para nos indicar quem é o seu narrador designado, a presença de Saramago no ecran.

Meirelles refere que cortes anteriores do filme tinham um efeito mais repulsivo, mais negro e chocante e que, por influência do estúdio, ele suavizou a versão final. Creio que ele poderia ter carregado um pouco mais do que o que fez. Também era sobre isso que tratava a história.

A minha opinião: 4/5 o filme não mudou a minha vida, mas certamento criou uma marca duradoura em mim.

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Revolutionary Road (2008)

“Revolutionary Road” (2008)

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encher de vazio

Para mim Sam Mendes faz pouca coisa mal. Ele vê as coisas cinematograficamente, e consegue sempre propor um ambiente, e transcrevê-lo para o filme. Por isso os seus filmes são sempre sobre um ambiente, e o que ele tenta fazer é algo que aprecio imenso: basicamente o filme, como meio, deverá reflectir o filme, como conteúdo. O filme as desilusões, urgências e expectativas dos seus personagens para nós.

É isso que temos aqui: vazio. O filme é sobre personagens pálidos, vidas ridiculamente hipócritas, pessoas infelizes, com medo de enfrentar a sua infelicidade (“no one ever forgets the truth, you only learn to lie better”). A história é desprezável pelos factos em si (talvez o romance tenha tido um impacto social nos seus dias), o que a faz valer a pena é o ambiente que sugere, e que o filme completa.

Assim o esquema é simples. Mediocridade, estilos de vida burgueses de uma classe média ridícula. Falta de ambição assumida e aceitada. Paris como o sinónimo de auto-superação (“it didn’t have to be Paris”). O personagem de Kate descobre as suas próprias frustrações, e isso alimenta todo o drama. Agora, vejam como esta simplicidade está transcrita para linguagens visuais: -muito poucos cenários; a casa, o mato, o local de trabalho, e poucos mais com pouco tempo de ecran. -a estupidez e palidez sublinhada em cada diálogo, excepto pelas linhas de Winslet e Shannon. -a simplicidade nas escolhas da cinematografia. O resultado é muito muito eficiente. Vejam o filme, e verifiquem o que vos fica dele, apenas algumas horas depois de o verem… nada, apenas um sentimento de desconforto, inquietude, frustração por algo que parece faltar no filme. Tal como o personagem de Kate se sentia. Percebem? Kate Winslet é uma das melhores actrizes dos dias de hoje, o papel dela aqui era uma luta entre personalidade e submissão, vontade de transcender e rotina. Ela compreendeu-o tão bem.

Duas coisas interessantes:

Kate e Sam: casal actriz/realizador. Ambos são interessantes como artistas. Há amor. Podemos observá-lo, em cada frame. Ted Goranson sempre realça os realizadores que dirigem as suas esposas, e eu percebo. É uma espécie de motivação extra. Para lá das necessidades artísticas e intenções que despertaram a necessidade do realizador criar o filme, temos uma camada de paixão porque ele quer ligar a sua arte ao seu amor. É um conceito bonito, realmente bonito.

Não temos Conrad Hall aqui. Senti a falta dele. Ok, a intenção era fazer um filme altamente simplificado, por isso imagens fortes e icónicas não são tanto o jogo que Mendes queria jogar aqui. Mas senti falta da poesia da luz, da poesia dos corpos, e da colocação de corpos, e das caras que Hall tinha. Ele deixou-nos muito que apreciar, mas ele e Mendes estiveram tão perfeitamente ligados nos 2 projectos em que trabalharam juntos, que tenho a sensação de que algumas páginas não foram escritas e deveriam. Pena. Roger Deakins fez um trabalho competente, a minha referência a C.Hall não é uma desapreciação pela cinematografia deste filme.

A minha opinião: 4/5

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The Ice Harvest (2005)

“The Ice Harvest” (2005)

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Calor gelado

Acabei de comentar um filme notável, ‘Caramel’. O motivo pelo qual digo isto agora é porque creio que esse filme lindo funciona de uma forma totalmente oposta a este. Aí tínhamos um ambiente, o filme em si tinha a sua própria “personalidade”, como um organismo vivo, e todos os personagens (que procuravam ambientes semelhantes nas suas vidas) estavam inseridos nesse contexto. Aqui temos personagens que tentam construir o ambiente do filme, pelas suas acções. O filme é um cartucho vazio, que os personagens deverão encher com o que eles são como personagens mas, sobretudo, como actores. O sucesso deste tipo de abordagem depende, claro, das escolhas de actores. Aqui temos Cusack, que é um valor acrescentado à partida. Admiro o que ele faz. Ele tem menos amplitude do que outros bons actores, como Depp, mas é muito flexível dentro do seu tipo de actuação. A sua maior qualidade é a forma como ele lê com antecedência o que é preciso dele para que as coisas funcionem, e como se encaixa para que a máquina funcione. Ele encara-se como uma peça do jogo. Connie Nielsen também é interessante, e curiosamente encaixa melhor aqui do que em “Advogado do Diabo”. Todos os outros actores cumprem apenas o papel, sem terem noção da maquinaria maior exterior a eles, excepto Billy Bob, que na verdade pensa que isto tem alguma coisa q ver com personagens e com como ele actua, e como ele aparece, e como ele, ele, ele…

Estas questões à parte, creio que há uma ideia interessante aqui. Nada que não tenha sido tentado já, mas mesmo assim interessante. Não tem uma construção narrativa especialmente inteligente, na verdade é bastante previsível com a excepção de uma reviravolta no final, mas consegue ultrapassar essas predizibilidades, ao bater na tecla que interessa mais a Ramis: a comédia. Aqui, ela acontece quando sentimos que os personagens se desviam do tema aparentemente principal, e esse é o aspecto interessante. O filme é aparentemente sobre um roubo, mas na verdade Cusack passa a maioria do seu tempo com temas paralelos; o polícia não tem a mínima ideia do que se passa e até tenta valorizar-se perante Cusack, para subir na consideração da máfia local, que até são os que estão a ser roubados. Os temas de família também entram neste campo. Assim, o que se passa aqui é uma questão de estabelecer um tema principal, e depois disso focarem-se nos temas envolventes “menos” importantes.

O que sabe mal é a sensação de que tudo poderia ter muito mais força do que na verdade tem. Parou a meio caminho de algo realmente bom.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve