Arquivo de Novembro, 2011

Harvie Krumpet (2003)

“Harvie Krumpet” (2003)

Fakts

Vi este filme quando ele tinha acabado de sair. Lembro-me que me atingiu como uma coisa fresca e imaginativa. Parte desta força poder ter vindo de eu estar nessa altura numa fase diferente da minha vida em filmes. Mas agora, 7 anos depois, o filme ainda retém muita da sua frescura. Não passou assim tanto, mas o filme ainda funciona em todos os seus objectivos, de humor e visuais.

O virtuosismo com que o filme está feito é incrível em todos os aspectos, claro. Os personagens, e filmes assim têm tudo que ver com personagens, são incríveis na forma como as especificidades da plasticina são usadas para atingir todas as nuances emocionais.

A história é boa escrita, usando a sempre poderosa combinação de tragédia e comédia, algo que Chaplin entendia tão bem. Penso que choramos mais quando sentimos que não deveríamos estar a rir. Esse contraste é que é poderoso. Somos levados a extremos de comédia, permitimo-nos rir, e de repente é-nos puxado o tapete dos pés, e os escritores deixam-nos num estado de vergonha interior, que interpretamos como desconforto. Ou é simplesmente a sobreposição de pedaços de comédia a um ambiente trágico. Mas parece-me que é mais a primeira possibilidade.

Geoffrey Rush é fantástico como actor, e transporta as suas subtilezas para a narração.

Mas aquilo que provavelmente me cativou e faz o filme para mim é o enquadramento inteligente que é usado. Os “Fakts”, como aparecem soletrados no filme. Harvie passa a vida a registar pontos de vista bizarros do mundo, em pequenas frases que ele chama (ensinado pela sua mãe) de fakts. Estes pensamentos espelham aquilo que vai acontecendo na sua vida, filtrado pela mente deficiente e linda dele. A piada está na forma como cada Fakt nunca reproduz correctamente o que realmente acontece, e por isso torna-se uma espécie de comentário à própria história. Nascido dela, mas exterior a ela, um elemento separado, claramente representado pelo livro que Harvie transporta pendurado ao pescoço sempre, mesmo quando está nu. Muito bom.

A minha opinião: 4/5

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The Adventures of Tintin (2011)

“The Adventures of Tintin” (2011)

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o ponto de vista do falcão

A animação está a tomar caminhos interessantes. A tecnologia está a ser conquistada pelo pensamento criativo, e isso está a dar-nos novas formas de ver. Suponho que foi sempre assim ao longo da história.

Há várias coisas boas sobre este filme, fiquei contente com as coisas boas que vi. Primeiro, temos Spielberg de volta, o melhor dele. Há um Spielberg que tem uma vontade incontrolável de entreter, com inteligência. Isso é fantástico, o tipo que nos deu Indiana Jones, ET, Minority Report, etc. Depois há o Spielberg que quer pôr o nome no livro dos realizadores sérios. O tipo da Lista de Schindler e do desastre AI. Não gosto desse realizador. E depois temos o produtor multimilionário, que por vezes realiza o que em princípio só iria produzir. Isso é negócio, tudo bem. Este filme é fantástico na forma como revive o 1º Spielberg, aquele que cresci a adorar. Aqui está ele, sem preconceito ou falhas, brilhante na concepção visual do grande arco da acção. Agora ele está junto com Peter Jackson, que tem vindo a construir um mundo de brinquedos interessantes para a criação de mundos cinematográficos e visuais, uma coisa que ele começou a fazer com LOTR. Os dois fazem algo positivo aqui.

E por fim temos o Tintim. Conheço perfeitamente os livros. Conheço todos decor. Não tenho a personalidade para me tornar um geek sobre seja o que for, mas sei muito sobre os livros, o seu contexto, o autor, etc. Adivinho que vai haver um número grande de fãs rigorosos que vão despachar todas as mudanças feitas às histórias originais, assim como as misturas entre elementos de diferentes álbuns. Para mim não há problema, porque me parece que as mudanças foram feitas sobretudo para favorecer as ideias visuais que eles queriam completar. A partir da primeira meia hora, o filme está concebido como uma sucessão de grandes sequências de acção. Estas requeriam diferentes cenários. Por isso eles incluíram as sequências do Karabudjan, que nos levam para o mar, e depois para o deserto, e finalmente para a cidade marroquina. Aí temos a sequência menos credível do filme em termos dos acontecimentos físicos em si, mas também aquela em que as possibilidades do olho virtual são levadas mais ao limite neste filme: temos uma sequência extendida de perseguição, que usa vários meios de transporte, e atravessa vários cenários. O personagem a quem perseguem é um falcão, que está obviamente livre em termos de movimento. Espaço vertical, múltiplos pontos de vista (ele nao está preso ao solo), e são esses os elementos que fazem a sequência, em que a câmara e a edição escolher mudar de ritmo e de pontos de vista, e onde a concepção espacial do lugar o revela a nós. Pessoalmente gostava de ter tido mais do ponto de vista do falcão, mas fiquei satisfeito. Essa e as outras sequências de acção são o motivo pelo qual este filme foi construído.

A primeira meia hora do filme até parece de outro universo fílmico. É uma sequência noir tensa, de pistas e alusões, sombras e mistério. Na verdade até é muito mais perto do que o personagem Tintim é, em termos do seu núcleo dramático. Ele é um personagem de aventuras, mas dificilmente um personagem de acção. Vou recordar essa primeira meia hora como aquilo que o filme deveria ter sido, se não houvesse todo um mundo de oportunidades visuais para a animação segundo a WETA.

A necessidade do 3D, para lá do seu apelo comercial (discutível) ultrapassa-me. Gostava de rever este filme em 2D, apenas para confirmar que o 3D não traz nada novo. E isso é pena.

Claro que há ainda a possibilidade de argumentarmos sobre se a representação plana dos desenhos de Tintim na banda desenhada está bem transportada para o ecran. Eu por acaso penso que sim, já que a dinâmica dos desenhos está mantida com competência, mesmo com o uso de diferentes personalidades visuais. Os velhos desenhos animados de Tintim que tentaram a transição para a televisão resultam bem pior, embora tentem ser exactamente os livros.

Os créditos iniciais são incríveis por direito próprio, estilo Pantera Cor-de-rosa.

A minha opinião: 4/5 boas notícias, temos um novo realizador chamado Spielberg.

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How to Train Your Dragon (2010)

“How to Train Your Dragon” (2010)

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movimento – por baixo, por cima, através

Vi este filme há quase um mês. Estou a comentá-lo agora como prefácio para o Tintim de Spielberg/Jackson. Quero ver esse filme, porque acho que o Spielberg é um realizador válido quando se mexe dentro dos seus géneros nativos, o do filme aventura electrizante, sendo aventura um termo lato. Quero ver ver o que ele tem a dizer sobre motion capture, o conceito que tanto está a defender, e que o seu amigo Zemeckis começou a explorar há uns anos.

Ver filmes é, como muitas coisas na vida, uma questão de escolhas pessoais. Escolhemos o que procuramos quando vemos um. A animação está também sujeita a essas escolhas. Eu fiz as minhas. Procuro animações porque uma câmara virtual pode fazer coisas que uma real não pode. Claro que depois vemos o Soy Cuba e esta afirmação torna-se perfeitamente obsoleta. Mas esse filme é um alien.

Como arquitecto, interessa-me o espaço. Espaço construído, integrado ou não, mas sempre construído. Em animação, tudo é espaço construído. Cada montanha e paisagem, o mar e as cavernas. Tudo é escolhido e desenhado para aparecer como o vemos. E é construído para aparecer também num determinado enquadramento, concordando com o movimento dos personagens nesse espaço. Por isso, é a liberdade total. Claro que isto é um filme de muitos milhões de dólares, e tem de apelar a uma certa audiência, por isso penduramos uma história nisto tudo, e esta até está bem montada. Mas eu não venho a estes filmes pelos personagens, embora o dragão negro seja sedutor, assim como alguns outros personagens. Este filme é rico nas suas texturas e desenvolvimento de personagens, dentro das limitações do género. Mas não me apetece falar disso.

Aquilo que é realmente bom aqui, para mim, está nas cenas de movimento. No céu, e na caverna. Utiliza-se um movimento fluído, seguindo o caminho dos dragões ou inventando um caminho virtual para a câmara, que dança com os dragões. Na caverna, o uso da câmara é mais convencional, mas a concepção do espaço é inteligente. A Pixar fez os maiores progressos dos últimos anos, mas este filme tem uma visão muito própria, talvez uma consequência ou até um desenvolvimento de Avatar. Vale a pena ver por isso.

A minha opinião: 3/5

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Der Baader Meinhof Komplex (2008)

“Der Baader Meinhof Komplex” (2008)

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memória

A história da Alemanha do pós-guerra é uma peça importante de um puzzle complexo. A forma como a República Federal se inventa e contesta quase até ao ponto da implosão é uma boa síntese de muitos dos conflitos ideológicos internos que a Europa enfrenta hoje. Por outro lado, os pontos de vista radicalizados que vemos neste filme são o produto da forma como os alemães ocidentais lidaram com a memória da sua própria (então recente) história. É um tema delicado, que me parece de extrema importância, saber como uma nação se reinventa quando certas partes do seu passado aparecem vergonhosas no presente, e nada no presente indica como nos podemos ver ao espelho como membros dessa nação. Como português nascido depois do século XVI, e depois da explosão colonial do século XX, sei alguma coisa sobre o que significa crescer num país desfigurado na ideologia.

Com isso em mente, o que este filme faz é reduzir ao essencial o tema complexo que enfrenta: estas pessoas desinteressantes, Baader, Meinhof e amigos, representam o desencantamento que mesmo os alemães menos radicalizados sentiriam naquele momento: a Alemanha foi, afinal, esvaziada de toda a sua força como nação cultural, entregue ao seu próprio valor, também intrínseco, como poderio tecnológico e material. Na sua busca louca por uma nação superior, Hitler forçou o mundo germânico a um suicídio cultural, o fim abrupto de um longo caminho de enriquecimento artístico de todos nós. A Alemanha Federal comprou literalmente a saída do seu passado, apostando tudo na qualidade da vida material. O que sobrou foram as feridas para cicatrizar, o desencanto e o desespero como forma de prosseguir. Quando misturamos essas noções com políticas radicais de extrema esquerda, inseridas na cabeça de pessoas desinteressantes, temos o tipo de cocktail que explodiu nos anos 70.

Por isso temos Baader/Meinhof, os mais divulgados de uma série de radicais do mesmo tipo. E provavelmente o que eles fizeram foi exprimir com demasiada intensidade o que outros alemães não politizados estavam igualmente a sentir. Eles são personagens desinteressantes, cujas acções são em última análise pouco importantes no grande quadro das coisas. Hoje eles importam apenas como símbolos dos conflitos dos quais fizeram parte, que são suficientemente reais para causar verdadeira dor na alma dos alemães. A resolução destes conflitos, levantados pelos filhos da guerra, definiria aquilo que a Alemanha é hoje. A queda do muro apenas serviu para levar esta versão da Alemanha ao outro lado. E o grande e crescente peso que a União ganhou em todos os países europeus estendeu essa noção (misturada com algumas noções antiquadas de política francesa) ao resto do continente – O Reino Unido decidiu cedo estar fora do núcleo europeu.

Estou certo que muito mais coisas especificamente dirigido a temas mais alemães. Estou fora dessa discussão.

É importante realçar como o fenómeno Baader/Meinhof não foi um caso isolado na Europa. Há poucos dias atrás, a ETA anunciou o fim das suas acções armadas. Provavelmente foi o fim do último fóssil da revolução mental que varreu a Europa naquela altura.

O mérito deste filme é que permite este e outros comentários, e a reflexão sobre o tema. Lembra-nos disto, e isso é importante. Como filme, é uma experiência normal.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve