Arquivo de Março, 2013

Brave (2012)

“Brave” (2012)

brave grande

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passado vermelho

As crianças raramente escolhem os filmes que vêm. Num mundo normal e livre, uma criança vai muito provavelmente ser vítimas das leis do momento, daquilo que está na moda. Claro que há a influência que os educadores podem ter, mas isso vai variar de criança para criança, e cada uma vai ainda assim contactar com as modas do seu momento. Eu tive a sorte, penso, de ter sido parcialmente alimentado pela Pixar ao crescer. O Toy Story fez parte do meu desenvolvimento. Mais tarde quando comecei a ver filmes seriamente, e especialmente quando comecei a associar a minha vida aos espaços que habito (como estudante de arquitectura), compreendi a importância das apostas cinematográficas que a Pixar fez aquele tempo todo. O espaço, o movimento, a câmara.

Parece que tudo isso está suspenso, pelo menos por agora. A Pixar agora é Disney, e isso nota-se. Os temas estão alinhados com aquilo que a Disney sabe que vende, e isso condiciona todo o processo criativo que costumava ser inovador em todos os projectos Pixar.

A narrativa espacial foi abandonada, e isso é visível especificamente neste filme, porque o espaço tinha potencial. Tínhamos o castelo, e as highlands. Fora e dentro, e infinitas possibilidades. Mas o enquadramento, o movimento da câmara, a qualidade do espaço cinematográfico, tudo isso desapareceu, sacrificado para que possamos ter a criança arrependida a tentar corrigir o mal que fez à sua mãe, a tentar pôr o mundo no final feliz que a Disney precisa para manter os seus compradores de bilhetes alinhados e satisfeitos, e com a sensação de que levaram as suas crianças a ver um filme com uma “moral”, algo que dê que pensar.

Todos os aspectos criativos parecem estar investidos no personagem principal, a rapariga, que é interessante. Ela vive do cabelo dela, e a cena em que ela recebe os pretendentes à sua mão é notável, porque muito do personagem desaparece quando tapa o cabelo. A madeixa que desliza é uma piscadela de olho, suponho.

Essa vermelhidão, e a expressão do personagem através dela, será talvez a única característica redentora deste filme. Mas sinto-me enganado, sinto-me como se uma daquelas pessoas que me visitava em criança para me dar sabedoria já não existisse mais. Resta esperar por capítulos melhores.

A minha opinião: 2/5

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Scarlet Street (1945)

“Scarlet Street” (1945)

scarlet

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twisted perspective

Não há um único filme americano de Lang que eu não considere ser, no geral, um falhanço. No entanto parece-me que é relativamente importante, de vez em quando , procurar um destes filmes, vê-lo e tentar perceber o que aconteceu para que estes filmes funcionem tão mal, pelo menos hoje. É que Lang deu-nos o Metropolis que é um prodígio visual de cenários, não tanto de narrativa. Mas depois ele fez o M, que é um filme realmente bom, que começou algo que ele poderia ter transportado para o noir americano.

Ele também faz parte da geração de realizadores germânicos que inventou a iluminação básica que seria integrada no noir. E parece-me que o problema começa aqui. Na sua mudança mental em direcção aos filmes e audiências americanas, Lang decidiu manter e reafirmar aquilo que sempre tinha feito melhor: encenação visual. Mas ele nunca compreendeu as dinâmicas da narrativa noir, a textura do mundo. A forma como as sombras, luzes e chapéus só funcionam realmente quando estruturam (ou são estruturados) pela narrativa.

(spoilers) E have interesse narrativo aqui!, pelo menos dentro dos limites destes filmes. Claro que é superficial (tal como quase todos os filmes) mas tinha potencial para ser explorado através do meio visual. Tem a auto-referência do personagem principal ser um criador de imagens (um pintor). O tipo comum arrastado pela tentação (a mulher) para um mundo que não compreende e ao qual acaba por sucumbir. Mas também a mulher não controla o jogo, porque está apaixonada. E até o mau, que é suposto supervisionar tudo acaba por perder totalmente o controlo. Por isso o destino comanda tudo. No meio disto tudo temos uma diversão interessante e bem explorada (em termos de argumento) pelo sempre denso tema da troca de identidades: o nosso sucedâneo no ecran tem os seus quadros assinados com outro nome, sem o seu consentimento. Ao descobrir isto ele não reage como suporíamos, pelo contrário aprecia e encoraja isso. Por fim ele acaba por assassinar o seu próprio trabalho, ao matar a pessoa que tinha assumido a sua identidade artística. Por isso quando ele mata a rapariga, ele está em parte a cometer suicídio. Isso transforma o suicídio real mostrado numa cena mais tarde perfeitamente inútil, e arrasta o filme mais do que ele pedia (apesar dessa cena ser visualmente interessante isolada, pelo uso da luz, lá está o Lang!). Suponho que algum produtor assustado e conservador pediu esta cena, para o caso das pessoas não terem percebido a anterior.

O problema é que Fritz não faz basicamente nada com o material que tem, em termos de adequação visual. Ele recebe o argumento, e depois considera cada cenário, cada sequência, isoladamente, não como parte de uma conspiração narrativa integrada, simplesmente como uma cena que se desenvolve por si própria. É como se Fritz, diante das possibilidades do argumento fosse como o comum mortal em frente dos quadros de Robinson: incapaz de ver para lá da perspectiva danificada, incapaz de perceber o essencial.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve