Archive for the '2010' Category

Brave (2012)

“Brave” (2012)

brave grande

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passado vermelho

As crianças raramente escolhem os filmes que vêm. Num mundo normal e livre, uma criança vai muito provavelmente ser vítimas das leis do momento, daquilo que está na moda. Claro que há a influência que os educadores podem ter, mas isso vai variar de criança para criança, e cada uma vai ainda assim contactar com as modas do seu momento. Eu tive a sorte, penso, de ter sido parcialmente alimentado pela Pixar ao crescer. O Toy Story fez parte do meu desenvolvimento. Mais tarde quando comecei a ver filmes seriamente, e especialmente quando comecei a associar a minha vida aos espaços que habito (como estudante de arquitectura), compreendi a importância das apostas cinematográficas que a Pixar fez aquele tempo todo. O espaço, o movimento, a câmara.

Parece que tudo isso está suspenso, pelo menos por agora. A Pixar agora é Disney, e isso nota-se. Os temas estão alinhados com aquilo que a Disney sabe que vende, e isso condiciona todo o processo criativo que costumava ser inovador em todos os projectos Pixar.

A narrativa espacial foi abandonada, e isso é visível especificamente neste filme, porque o espaço tinha potencial. Tínhamos o castelo, e as highlands. Fora e dentro, e infinitas possibilidades. Mas o enquadramento, o movimento da câmara, a qualidade do espaço cinematográfico, tudo isso desapareceu, sacrificado para que possamos ter a criança arrependida a tentar corrigir o mal que fez à sua mãe, a tentar pôr o mundo no final feliz que a Disney precisa para manter os seus compradores de bilhetes alinhados e satisfeitos, e com a sensação de que levaram as suas crianças a ver um filme com uma “moral”, algo que dê que pensar.

Todos os aspectos criativos parecem estar investidos no personagem principal, a rapariga, que é interessante. Ela vive do cabelo dela, e a cena em que ela recebe os pretendentes à sua mão é notável, porque muito do personagem desaparece quando tapa o cabelo. A madeixa que desliza é uma piscadela de olho, suponho.

Essa vermelhidão, e a expressão do personagem através dela, será talvez a única característica redentora deste filme. Mas sinto-me enganado, sinto-me como se uma daquelas pessoas que me visitava em criança para me dar sabedoria já não existisse mais. Resta esperar por capítulos melhores.

A minha opinião: 2/5

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The Artist (2011)

“The Artist” (2011)

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o sorriso

Já vimos coisas assim antes, não vimos? Filmes que não sobre filmes mas antes uma carta de amor a outros filmes.

Essas incursões ficam longe de me fascinar tanto como qualquer coisa nova que seja feita. Segundo penso, o cinema referenciado mais fascinante que existe é aquele que capta as lições de grandes filmes passados e que prolonga essas noções um pouco mais. Ou as quebra. Temos pessoas como os Coen ou de Palma que fizeram uma carreira a perverter ideias de pessoas antes deles. Se falamos de filmes mudos, então Guy Maddin é alguém que realmente pegou naquilo que deixamos de apreciar com The Jazz Singer, e perverteu todas as ideias para criar uma nova. É esse o tipo de referência que estou a procurar com essa paixão.

Este entra na gaveta Cinema Paraíso: uma paixão genuína e expansiva por um certo tipo e momento da história do cinema, moldado pela nostalgia. Compreenderás estes filmes se entenderes essa nostalgia, mas não necessariamente os filmes a que ela se dirige. Doçura desenvergonhada coroa esta atitude. Decidimos entrar nesse mundo ou não. Eu já o entrei várias vezes. Mas não fico lá mais do que alguns momentos sem sentir que estou a desviar-me de algo realmente importante que está a ser feito noutros filmes.

Dito isto, esta é uma homenagem bastante boa, nesse sentido plano. Alguns elementos funcionam muito bem aqui, e um é realmente interessante desde um ponto de vista cinematográfico:

O que funciona incrivelmente bem é o actor principal. Quem quer que o tenha escolhido compreendeu o potencial dele, e ele compreendeu o que era preciso para um actor mudo viver no ecran, e o realizador definitivamente compreendeu a cara dele, cada ângulo dela. Ele sorri de uma forma que vi poucas vezes. Aquele sorriso transporta o filme. Quando ele não sorri rapidamente entramos no ambiente depressivo do personagem. Actores que representam actores é algo sempre interessante. Fazê-lo basicamente com um sorriso apenas, fá-lo merecedor de Oscar. Já agora, ele é sempre um actor no filme. Quando ele está a actuar nos filmes mudos do filme, ele tem uma atitude semelhante em termos de consciência da câmara à que tem no mundo real do filme.

A narrativa desenvolve-se à volta de filmes, e termina com filmes, claro. Por isso é que os amantes se juntam a fazer um filme, e o amor dele por ela é reafirmado pelas cenas de outro filme que eles fizeram. É a auto-referência necessária para que estes filmes funcionem.

E há uma cena notável. O sonho “sonoro”. O nosso personagem mudo sonha que o mundo ganha som, objectos, tudo começa a produzir sons, excepto a sua própria voz. Isto é notável porque nada é explicado, tudo está no olho. A simples edição de sons numa cena de outro modo muda faz-nos compreender o drama deste personagem à beira da extinção. Esse foi um momento cinematográfico.

A minha opinião: 4/5

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Carnage (2011)

“Carnage” (2011)

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Repulsion, em grupo

Aqui temos um filme bastante alinhado com aquilo que Polansky fez ao longo da sua carreira. Encontramos aqui muitos dos elementos superficiais, e não só, pelos quais adoramos o que ele faz.

A contenção espacial. Polansky é um dos mestres absolutos da exploração de um ambiente, de fazer um filme dentro de um único espaço, multiplicando as possibilidades para o nosso uso desse espaço, e misturando isso com a narrativa, até ao momento em que o Espaço se torna narrativa. Ele tem um sentido perfeito de enquadramento, movimento de câmara, e timing de corte. O problema neste filme é a banalidade desse ambiente, obviamente requerido para ser a casa do que é suposto ser um casal ordinário, mas que simplesmente não é suficientemente interessante para que as qualidades deste mestre atinjam um nível superlativo.

Há o sentido de absurdo no material original que espelha totalmente o próprio sentido de humor retorcido de Roman, aquele tipo de bizarria estranha que encontrávamos em Vampire Killers, ou o Inquilino. *spoilers pequenos* Aqui até temos algo interessante, porque começamos a ver um filme e acabamos a ver outro. A premissa é uma de simples drama, relações pessoais, a aparente discussão sobre a educação, violência entre as crianças, etc. Mas depois isto toma caminhos estranhas, e entramos num mundo de total absurdo, especialmente a partir do momento do vómito de Winslet. É como se Polansky estivesse diluído no whisky que os personagens partilham, e eles se tornassem cada vez mais possuído pelo seu espirito. Viajamos de um filme, com uma realidade relativamente normal, para outro, fabricado sobre o olhar cinematográfico incrível de Roman, que ele desenvolveu há muitos anos, e que agora tem uma abordagem bastante distinta.

Todos os actores colaboram positivamente na viagem. Os 4 são, no mínimo, competentes. Waltz surpreende, ele tem um sentido de timingo nas suas frases notável, e boa postura, sempre. Jodie e Kate são actrizes fantásticas, entre as melhores, gostava que pudéssemos ter mais Jodie em projectos interessantes.

Polansky agora filma de uma forma mais relaxada. É como se ele se tivesse reformado oficialmente, e agora apenas filmasse para ele mesmo, como se estivesse a ter um jantar entre amigos. Espero que possamos ter ainda mais alguns destes passeios relaxados. Este é mais um capítulo bom da sua vida artística.

A minha opinião: 4/5

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A Dangerous Method (2011)

“A Dangerous Method” (2011)

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espancar

Este foi um momento muito importante na história do pensamento. Provavelmente Freud exagerou em muitas coisas. Em algumas, parece-me que ele estava tão errado que algum dia vamos ser forçados a dar-lhe razão. A um nível mais profundo, o que ele mudou foi uma abordagem mental. Racionalidade aplicada a algo considerado tão esotérico como os sonhos. O mundo mudou, e Freud tornou isso mais possível do que qualquer outro contemporâneo seu. Viena foi o palco para isto, devia ser uma cidade fantástica a esta altura. E depois temos Jung, provavelmente um personagem bem mais interessante que Freud, alguém que desenvolveu conceitos profundos e revolucionários. Subconsciente colectivo, revolução profunda na forma como nos vemos, a abertura de novas possibilidades de auto-referência. Isso mudou a auto-consciência humana, a arte, literatura, tudo. Jung encenou a sua própria revolução mental em Zurique.

O encontro entre os 2 é seguramente algo que vale a pena explorar. A minha opinião é que Jung é provavelmente o melhor discípulo de Freud, e é precisamente por isso que eles entraram em colisão, acabaram por separar-se, e terminaram como rivais.

Essa colisão é aquilo de que fala este filme, visto desde a perspectiva de Jung e centrado em sexo. Por isso Sabina é o nosso personagem central, a roda que faz girar o mundo. A simples premissa do filme, e o facto de Cronenberg ser o criativo por trás disto fazia do filme uma promessa suculenta. Mas a desilusão é que em anos recentes, os novos filmes de Cronenberg parecem ser uma descrição dos filmes antigos dele. Ele agora fala daquilo que costumava encenar, nos tempos do Existenz e do Crash. Esses eram realmente centrados em sexo, filmes como sonhos, a promessa cumprida daquilo que este filme promete.

Este é um filme de diálogos, que descreve o iceberg, e até nos mostra alguns dos seus polígonos mais agrestes, mas não mergulha para ver o que está debaixo. Estabelece o triângulo Sabina-Jung-Freud. O 1º e 2º são visceralmente relacionados, e a sua ligação estimula a relação entre o 2º e o 3º, e permite que a relação entre o 1º e o 3º aconteça. Alguns personagens orbitais aparecem ao redor deste triângulo sólido: Otto e Emma (ambos capicuas) que são profundamente afectados pelas emanações do triângulo, mas que existem também para o afectar: Otto como o subordinado sexual de Freud, Emma para afectar a forma como Jung compreende a sua relação com Sabina.

Keira Knightley tenta demasiado, e tem uma actuação exagerada, enquanto que Mortensen entrega-se ao estilo puro. Fassbender é o actor mais forte neste filme. Mas não é nas actuações que estão as debilidades deste filme, para mim. É a aresta Cronenberg que falha, e realmente sinto falta dela. Algures no percurso, ele parece ter parado de fazer filmes profundos para explorar a profundidade dos conceitos que ele costumava usar nos seus filmes. Agora os filmes dele são sobre filmes, mais do que experiências cinematográficas em si. Algo que já aconteceu com Herzog.

A minha opinião: 3/5 vejam

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Melancholia (2011)

“Melancholia” (2011)

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cavalo, seios, colisão

Há uma ideia de filme como criação colectiva, em que cada mente criativa (actor, cinematógrafo, escritor, realizador…) trazem as suas próprias visões ao resultado final, depois de serem revistas por um “produtor”, o subordinado de uma “indústria”. Depois há autores, um tipo, ou um número reduzido de mentes em cooperação, que criam tudo o que vemos. Mas depois há ainda filmes que são totalmente a cara do seu criador, por dentro e por fora, como se realmente estivessemos dentro da cabeça dele. Os filmes de Trier são desse tipo. Experiências assim podem mudar a nossa vida, ou ser profundamente aborrecidas, dependendo da capacidade de sedução da mente que estamos a entrar.

Sempre tive uma relação complicada com Lars von Trier. O homem tem capacidades nas ferramentas visuais puras do cinema, enquadramento, edição, timing. Ele estudou os mestres suficientemente bem para produzir experiências visuais válidas quase sempre. Ele entende o filme como uma experiência absoluta, do som ao diálogo, do enquadramento ao ritmo. E isso merece admiração, é tão raro encontrar um realizador que realmente se interesse por todas as dimensões do filme. Nunca me interessou muito a história do Dogma. E não me parece sequer que alguma vez Trier tenha feito um filme que obedecesse a essas premissas. E isso não é necessariamente mau.

Mas depois ele tem perversões que são simplesmente vulgares e aborrecidas. Ele é auto-cêntrico de uma forma que o faz assumir que cada pequena obsessão ou fobia que ele tenha merece ser contada, e que somos obrigados a apreciá-la. Ele tem esta ideia wagneriana de ser um mestre cujas excentricidades têm de ser toleradas em nome do génio que ele necessariamente espalha sempre que liga a câmara. Por isso é curioso que ele tenha tentado integrar Wagner neste filme. O pedaço que ele escolheu é a abertura de um trabalho realmente fracturante e transcendente. E isso expõe precisamente as fraquezas de Trier. O ponto mais forte dele e o que liga tudo o que vemos aqui é um pedaço do génio que ele pediu emprestado a Wagner. É muito interessante que a sequência inicial esteja tão relacionada com a Árvore da Vida de Malick, já que é claro que os nenhum filme terá sido influenciado pelo outro. É curioso pensar de onde surgirão estas modas.

Mas depois, o conceito é aborrecido. 2 planetas que vão colidir, 2 irmãs que colidem, o mundo ao redor delas a desfazer-se, como dano colateral. Os homens das vidas dessas mulheres que se supõe representarem papeis importantes, quando na verdade são apenas 2 peões, e totalmente ignorantes acerca do que está a acontecer. O personagem de Kiefer supostamente até “sabe” sobre estrelas, mas fica muito longe de realmente compreender a sua magia, reduzindo tudo a uma questão de números.

Tudo isto se localiza num local especial, isolado mas vivo, concreto mas indefinido. O sentido de lugar é importante, e bem explorado, e sublinhado pela forma como o cavalo nega atravessar a ponte.

A relação estranha entre Dunst e o seu cavalo tem uma sexualidade assumida que escapa a compreensão do seu noivo. E os seios de Dunst parece estar no topo das preocupações de Trier todo o tempo. Vejam o vestido da noiva, vejam como a câmara sempre foge para o decote dela, mesmo quando ele não deveria ser mais que um simples elemento do cenário. E vejam como a música e o climax existem no momento em que a vemos pela primeira vez totalmente nua, banhada em luar.

Admito que tudo isto está bem enquadrado pelas sequências inicial e final. Mas tudo o resto é simplesmente inconsistente, e toda a experiência em última análise é inútil. Mesmo que Trier, com toda a sua vontade de ser polémico, não o ache.

A minha opinião: 2/5

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The Adventures of Tintin (2011)

“The Adventures of Tintin” (2011)

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o ponto de vista do falcão

A animação está a tomar caminhos interessantes. A tecnologia está a ser conquistada pelo pensamento criativo, e isso está a dar-nos novas formas de ver. Suponho que foi sempre assim ao longo da história.

Há várias coisas boas sobre este filme, fiquei contente com as coisas boas que vi. Primeiro, temos Spielberg de volta, o melhor dele. Há um Spielberg que tem uma vontade incontrolável de entreter, com inteligência. Isso é fantástico, o tipo que nos deu Indiana Jones, ET, Minority Report, etc. Depois há o Spielberg que quer pôr o nome no livro dos realizadores sérios. O tipo da Lista de Schindler e do desastre AI. Não gosto desse realizador. E depois temos o produtor multimilionário, que por vezes realiza o que em princípio só iria produzir. Isso é negócio, tudo bem. Este filme é fantástico na forma como revive o 1º Spielberg, aquele que cresci a adorar. Aqui está ele, sem preconceito ou falhas, brilhante na concepção visual do grande arco da acção. Agora ele está junto com Peter Jackson, que tem vindo a construir um mundo de brinquedos interessantes para a criação de mundos cinematográficos e visuais, uma coisa que ele começou a fazer com LOTR. Os dois fazem algo positivo aqui.

E por fim temos o Tintim. Conheço perfeitamente os livros. Conheço todos decor. Não tenho a personalidade para me tornar um geek sobre seja o que for, mas sei muito sobre os livros, o seu contexto, o autor, etc. Adivinho que vai haver um número grande de fãs rigorosos que vão despachar todas as mudanças feitas às histórias originais, assim como as misturas entre elementos de diferentes álbuns. Para mim não há problema, porque me parece que as mudanças foram feitas sobretudo para favorecer as ideias visuais que eles queriam completar. A partir da primeira meia hora, o filme está concebido como uma sucessão de grandes sequências de acção. Estas requeriam diferentes cenários. Por isso eles incluíram as sequências do Karabudjan, que nos levam para o mar, e depois para o deserto, e finalmente para a cidade marroquina. Aí temos a sequência menos credível do filme em termos dos acontecimentos físicos em si, mas também aquela em que as possibilidades do olho virtual são levadas mais ao limite neste filme: temos uma sequência extendida de perseguição, que usa vários meios de transporte, e atravessa vários cenários. O personagem a quem perseguem é um falcão, que está obviamente livre em termos de movimento. Espaço vertical, múltiplos pontos de vista (ele nao está preso ao solo), e são esses os elementos que fazem a sequência, em que a câmara e a edição escolher mudar de ritmo e de pontos de vista, e onde a concepção espacial do lugar o revela a nós. Pessoalmente gostava de ter tido mais do ponto de vista do falcão, mas fiquei satisfeito. Essa e as outras sequências de acção são o motivo pelo qual este filme foi construído.

A primeira meia hora do filme até parece de outro universo fílmico. É uma sequência noir tensa, de pistas e alusões, sombras e mistério. Na verdade até é muito mais perto do que o personagem Tintim é, em termos do seu núcleo dramático. Ele é um personagem de aventuras, mas dificilmente um personagem de acção. Vou recordar essa primeira meia hora como aquilo que o filme deveria ter sido, se não houvesse todo um mundo de oportunidades visuais para a animação segundo a WETA.

A necessidade do 3D, para lá do seu apelo comercial (discutível) ultrapassa-me. Gostava de rever este filme em 2D, apenas para confirmar que o 3D não traz nada novo. E isso é pena.

Claro que há ainda a possibilidade de argumentarmos sobre se a representação plana dos desenhos de Tintim na banda desenhada está bem transportada para o ecran. Eu por acaso penso que sim, já que a dinâmica dos desenhos está mantida com competência, mesmo com o uso de diferentes personalidades visuais. Os velhos desenhos animados de Tintim que tentaram a transição para a televisão resultam bem pior, embora tentem ser exactamente os livros.

Os créditos iniciais são incríveis por direito próprio, estilo Pantera Cor-de-rosa.

A minha opinião: 4/5 boas notícias, temos um novo realizador chamado Spielberg.

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How to Train Your Dragon (2010)

“How to Train Your Dragon” (2010)

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movimento – por baixo, por cima, através

Vi este filme há quase um mês. Estou a comentá-lo agora como prefácio para o Tintim de Spielberg/Jackson. Quero ver esse filme, porque acho que o Spielberg é um realizador válido quando se mexe dentro dos seus géneros nativos, o do filme aventura electrizante, sendo aventura um termo lato. Quero ver ver o que ele tem a dizer sobre motion capture, o conceito que tanto está a defender, e que o seu amigo Zemeckis começou a explorar há uns anos.

Ver filmes é, como muitas coisas na vida, uma questão de escolhas pessoais. Escolhemos o que procuramos quando vemos um. A animação está também sujeita a essas escolhas. Eu fiz as minhas. Procuro animações porque uma câmara virtual pode fazer coisas que uma real não pode. Claro que depois vemos o Soy Cuba e esta afirmação torna-se perfeitamente obsoleta. Mas esse filme é um alien.

Como arquitecto, interessa-me o espaço. Espaço construído, integrado ou não, mas sempre construído. Em animação, tudo é espaço construído. Cada montanha e paisagem, o mar e as cavernas. Tudo é escolhido e desenhado para aparecer como o vemos. E é construído para aparecer também num determinado enquadramento, concordando com o movimento dos personagens nesse espaço. Por isso, é a liberdade total. Claro que isto é um filme de muitos milhões de dólares, e tem de apelar a uma certa audiência, por isso penduramos uma história nisto tudo, e esta até está bem montada. Mas eu não venho a estes filmes pelos personagens, embora o dragão negro seja sedutor, assim como alguns outros personagens. Este filme é rico nas suas texturas e desenvolvimento de personagens, dentro das limitações do género. Mas não me apetece falar disso.

Aquilo que é realmente bom aqui, para mim, está nas cenas de movimento. No céu, e na caverna. Utiliza-se um movimento fluído, seguindo o caminho dos dragões ou inventando um caminho virtual para a câmara, que dança com os dragões. Na caverna, o uso da câmara é mais convencional, mas a concepção do espaço é inteligente. A Pixar fez os maiores progressos dos últimos anos, mas este filme tem uma visão muito própria, talvez uma consequência ou até um desenvolvimento de Avatar. Vale a pena ver por isso.

A minha opinião: 3/5

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Midnight in Paris (2011)

“Midnight in Paris”

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o profundo vazio

Talvez por ser um dos meios narrativos mais recentes, o cinema é provavelmente o mais poderoso que já inventamos. Certamente é aquele que ainda mexe mais facilmente nas cabeças das pessoas hoje em dia. Sabemos que contar histórias é provavelmente tão velho como a linguagem, e a linguagem, no nosso peculiar sentido humano é tão velha como a Humanidade em si. Alguns realizadores, do nada, permanentemente nos foram lembrando o pouco explorados que estão os processos narrativos em cinema. Méliès, Welles, Kurosawa, Hitchcock, Kar Wai, Park, Tarkovsky e uma meia dúzia mais, cada um nos deu avanços sem preço, novas formas de contar as coisas, novas formas de sentir. Mas poucos questionaram os limites da narrativa como a estrutura espiritual de um filme como Woody. Muitos acusam-no de se repetir. Sempre os mesmos pseudo-intelectuais, pessoas vazias a divagar, com vidas banais, nada sério a dizer ou fazer. Casamentos partidos, adultério, etc. Tudo isso é verdade porque são esses os elementos superficiais sobre os quais Woody constrói a maioria dos seus filmes. Mas em cada um deles, ele tenta algo que nunca tinha tentado antes, por vezes repetindo experiências de outros realizadores, outras vezes tentando coisas que ninguém tinha feito ainda. Ele falha muitas vezes, e acerta outras mais, mas sabemos que ele tenta sempre. E por esse motivo vou sempre querer ver filmes dele, feitos ou por fazer.

Aqui ele faz algo que superficialmente faz lembrar o seu celebrado Rosa Púrpura do Cairo. Mas isto é duma raça bastante diferente. O que ele tenta aqui é uma experiência complexa com mundos paralelos e inter-relacionados. Realidades paralelas onde (ou quando!) o que acontece numa afecta a outra. O filme começa com um presente reconhecível, e estabelece-se num outro nível de fantasia, e descobre a sua resolução ainda num outro nível, mais profundo. Cada camada está aninhada na anterior, todas elas baseadas em Paris, e os seus clichés em cada momento. Os mesmos espaços, o mesmo personagem, diferentes dinâmicas. Uma estrutura triangular sólida, onde os típicos elementos Woody Allen encontram um novo sítio para respirar.

No caminho encontramos Marion Cotillard, que já tínhamos visto em Inception, um filme estruturado de forma semlhante, sobre descobrirmos realidades enterradas profundamente no nível anterior, aí associadas à ideia de sonhos, e quem sabe, também neste filme tudo seja uma associação dos sonhos de Owen. Inception também baseava tudo em Paris, um dos locais mais filmados de sempre, e um que tem os seus clichés mais profundamente construídos pelos filmes. E também aí Marion era a amante inventada pelo subconsciente, cuja própria existência como personagem era questionável.

A esta altura, é perfeitamente assumido e natural que cada filme é de uma forma ou outra uma piscadela de olho às audiências, pela referência a outros filmes ou ao cinema em geral. A nova vaga francesa introduziu isso no vocabulário fílmico como prática comum, tão natural que quase não conseguimos passar sem ela agora. Woody começa aqui com um personagem que É um guionista a tentar entrar no mundo da ficção literária. Ele vai para Paris, onde temos uma montagem inicial da cidade e os seus sítios reconhecíveis, menos vigorosa mas na mesma linha do que tínhamos visto na sequência inicial de Manhattan. E ele coloca os seus níveis, as suas “idades de ouro” em momentos do tempo igualmente cinematográficos. Os intelectuais e celebridades artísticas estão ali mais que nada para colorir a paisagem humana, embora a piada sobre o filme de Buñuel seja excelente.

Se precisam encontrar outro significado auto-referencial nisto tudo, suponho que o próprio woody observa a classe alta intelectual e vazia de nova iorque e vê-a como o personagem de Sheen aqui: cheios de palavras mas em última análise vazios, aborrecidos, e profundamente desinteressantes. É como se ele tivesse passado a vida a tentar subir (ou descer) à sua idade de ouro pessoal, ele, o nostálgico das big bands de nova orleães (que ele usa na banda sonora inicial). E no final, o personagem de Owen acaba romanticamente, com o cliché ao máximo, a torre Eiffel, e com a rapariga igualmente nostálgica, a idade de ouro materializada no presente. Podemos entrar por aí e explorar isso. Eu gosto de contemplar a estrutura.

Entre as pessoas com quem fui ver o filme, houve alguma discussão sobre o porquê de o cartaz referenciar Van Gogh sem que ele apareça como personagem no filme. Eu diria, talvez de forma superficial, que Van Gogh tinha aspirações semelhantes para vários dos seus quadros, às que Woody tinha para este filme: pintar o que vê, e sobrepor-lhe a sua visão distorcida disso, muitas vezes atormentada, mas sempre baseada em algum mundo inexistente. Ao fazê-lo, ele deu-nos arte figurativa transcendente (no caso dele impulsionada por absinto e a sua própria loucura). As cores era as ferramentas narrativas de Vicent. A própria estrutura narrativa é a própria textura dos filmes de Woody.

A minha opinião: 3/5 mais um azulejo no mosaico de woody. Que se segue?

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The American (2010)

“The American” (2010)

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pela culatra

A melhor maneira de apreciar este filme é estando consciente das suas referências, conhecer decor os terrenos onde ele pisa, e simplesmente deixarmo-nos ficar aí. Tomá-lo pelo que ele é, ir aos sítios onde ele nos leva.

O filme rodeia uma ideia a esta altura relativamente explorada: fazer um filme de género totalmente esvaziado do seu próprio género. Um filme que seja o seu próprio oposto. A aproximação irónica a uma ideia, tocando-a, acariciando-a, fazendo uma homenagem a ela, enquanto a inverte totalmente.

O mestre absoluto desta noção foi Leone. É aí que estamos, no edifício sólido de ironia auto-referencial que ele construiu para nós. No meu livro, Luc Besson também tem um lugar importante nesse canto. Corbijn seguramente perseguia Leone aqui, tão claramente que faz a alusão directa a um filme dele, ao passar um excerto.

Assim a ideia geral é a de um anti-filme. Um filme de acção potencial, com um personagem de acção potencial que, no entanto, passa o tempo literalmente a fugir da acção, literalmente a tentar sair do filme onde todos os outros personagens o procuram enquadrar. É essa a última reviravolta, a piada definitiva com o espectador. Podemos rir com a piada. E ter George Clooney aqui a protagonizar o filme é uma dupla piada. Ele construiu uma carreira ao redor de um tipo cool mas engraçado, engraçado mas profundo. Ele pisca o olho permanentemente à audiência, criando uma espécie de segundo nível de actuação, no qual vemos o personagem e vemos o tipo. Aqui ele desiste disso. Ele deliberadamente joga o jogo do filme, contorna a sua própria pessoa pública e provavelmente dá-nos o seu papel mais importante em filme.

*spoilers* A história inclui um símbolo muito subtil mas poderoso das suas concepções fundamentais. O personagem de Clooney tem de construir uma arma, personalizada para um determinado trabalho incerto. Vemo-lo ao longo do filme a fazê-la, a calibrá-la, fazendo-a de acordo com os desejos da pessoa que será responsável por usá-la. Vemos o fora de campo do que normalmente aparece. No vocabulário fílmico, as armas são normalmente irrelevantes em si, um mcguffin no máximo, normalmente um adereço. Aqui vemos cada fase da sua concepção e construção, e testes. Uma vez mais, Corbijn constrói algo dentro do género, a promessa de um trabalho de assassino, apenas para nos puxar o tapete no fim, quando o tiro deliberadamente sai pela culatra. O que é normalmente irrelevante (a construção da arma) é trazido para o centro da narrativa, quase acidentalmente. Isto é grande escrita, e grande cinema. Pergunto-me porque é que Corbijn só começou a realizar há tão poucos anos.

Itália é outra pequena ironia. Leone o italiano ia a Espanha para filmar as suas histórias supostamente localizadas na América. Corbijn vai para Itália para filmar os filmes referenciados a Leone que Leone nunca filmou ali.

A minha opinião: 4/5

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Blue Valentine (2010)

“Blue Valentine” (2010)

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sexo angustiado

Um filme como este é a consequência positiva de muitas coisas que aconteceram no cinema nas últimas décadas. O cinema é, claro, uma arte bebé. O seu núcleo essencial é a narrativa visual. Contar histórias em si começou há muito tempo já. as possibilidades que a imagem em movimento abriu apenas agora estão a ser descobertas. Uma das maiores revoluções visuais foi a possibilidade de quebrar a narrativa, algo que na literatura tem sido feito recentemente. Citizen Kane não foi o melhor filme de Orson Welles nem perto disso, mas agitou as coisas e quebrou praticamente todas as regras que o precederam. Desde aí, tivemos múltiplas experiências com a quebra da narrativa (algo normalmente referido incorrectamente como narrativa “não linear”). Kurosawa, Wong Kar Wai fizeram desenvolvimentos valiosos depois de Kane. Welles excedeu-se a ele próprio várias vezes. Iñarritu ou Kaufman têm feito jogos importantes com o tema. Até Haggis fez alguma coisa que importa. Por isso para já, o livro está muito longe de estar escrito totalmente, mas está aberto já. É possível fazer trabalho convincente por mera extrapolação. Este filme é isso. É uma peça sólida de narrativa moderna, perfeitamente referenciada aos seus importantes predecessores, seguindo caminhos conhecidos, sem inovar realmente. Mas é bom ver o bem que estes princípios narrativos se solidificaram.

A coisa superlativa aqui é outra. As actuações são soberbas, de Williams e Gosling, sim. Eles superam-se, fazem algo que nunca os vi fazer nas suas carreiras em termos de comprometimento, pura paixão, entrega. Funciona, e isso é relativamente raro, por isso podemos celebrar este filme apenas por isso.

*spoilers* Mas é nas subtilezas da história, a sensibilidade dos seus cantos escuros, a ironia última das suas reviravoltas e consequências que nos agitam. Começamos com um drama relativamente normal sobre uma grávida precoce, forçada a abdicar de alguns sonhos, mas que acaba por encontrar uma felicidade estável com alguém (não o pai da criança) que a ama. Os anos passam, e a relação gera conflitos profundos, eles separam-se, acaba. Tudo isto é fragmentado e contado por pedaços. A escrita é sensível, isto é cinema sólido por si mesmo. Mas o que é profundamente doloroso é a forma como o sexo é inserido no drama tradicional e as suas regras simbólicas invertidas. Temos 2 momentos de sexo no ecran:

Um é quando a criança é concebida contra a vontade da mãe, e com a indiferença do pai. Sexo por trás, sem paixão, mecânico e, no momento em que é inserido na história, doloroso para nós porque sabemos ao que levará, sabemos a dor que vai causar no futuro marido dela, sabemos a importância que terá. Um excelente exemplo de como quebrar a narrativa consegue realçar o poder dramático da história.

O segundo momento é um acto não completado, tosco e em última análise frustrado, de sexo, no motel, quando pressentimos que o casal apaixonado está à beira de romper-se. Aqui temos sexo missionário, mas mostrado de uma forma dura, da forma que um bêbedo o sentiria, da forma que 2 pessoas desesperadas o fariam. Uma vez mais, aqui arrasta-se dolorosamente a história para o fim que, sentimos, não será feliz.

Este é um dos melhores usos de sexo visível que já vi. É essa a força deste filme.

O trailer é notável.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve