Arquivo de Junho, 2008

You Only Live Once (1937)

“You Only Live Once” (1937)

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um alemão em Hollywood

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme é de uma altura em que Fritz Lang ainda queria (ou pensava que podia) continuar na América com o tipo de filmes que estava a fazer na Alemanha. Temos um tema com anotações sociais, um ataque fútil à moralidade do sistema e ao preconceito. É vazio, e é superficial. Lang era bom na manipulação de imagens, e em criar cenários poderosos que pudessem, por eles mesmos, transmitir um ambiente, normalmente opressiovo, talvez uma antevisão do que o nazismo se tornaria e o que simbolizaria para a civilização ocidental.

Mas aqui ele tem de se submeter ao seu novo ambiente. Por esta altura, as diferenças que Lang poderá ter encontrado em relação ao seu contexto anterior tinham provavelmente sobretudo que ver com um certo controlo efectivo que ele terá perdido em relação às escolhas dos seus filmes. Este é um filme americano, mais do que um filme de autor, e vê-lo implica compreender o que isto significa. O resultado, neste caso, é um desastre total, para mim. Há apenas umas poucas coisas que merecem ser vistas, mas mesmo essas podem ser encontradas com uma envolvência muito maior, e logo com um efeito muito mais poderoso, noutros filmes:

– uma dessas coisas é quando sentimos a capacidade de criação visual de Lang. Aqui temos dois momentos particularmente interessantes: um é quando Fonda está encarcerado e esperando a sua execução. A prisão está concebida para termos a luz a passar por ela e produzir o efeito claro-escuro que vemos. Isto é sublinhado pela posição superior que Lang dá à sua câmara, como ele gostava de fazer, para nos dar a sensação de que alguma força exterior/superior controlava o que está por detrás do que vemos. O outro momento é o nevoeiro com vultos que caminham indefinidos na cena da fuga da prisão. Tal como com a jaula, este é um momento de tensão e de importância neste enredo sem importância. Suponho que Lang, não tendo podido cobrir todo o filme com as suas ideias visuais, tentou pelo menos reter estes momentos. Vale a pena ver estes excertos, mas eles existem em melhores contextos.

– a outra coisa que vale a pena é ver Fonda. Antes de Marlon Brando, ele é um dos poucos que compreendeu o que era necessário um actor fazer para fazer um filme funcionar. Ele é muito contido, mas ele caminha, fala, e expressa-se para a câmara, para o filme. É um prazer vê-lo mas uma vez mais, há melhores sítios onde podemos apreciar plenamente as qualidades dele.

A minha opinião: 2/5

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The Woman in the Window (1944)

“The Woman in the Window” (1944)

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imagem fraca

*** Este comentário contém informação sobre o enredo ***

Tenho passado tempo com Fritz Lang. Bom tempo. Gosto dele. Mas ele perturba-me por vezes. Ele é em parte um mestre incompleto. Enquanto trabalhava na Alemanha, ele esteve ligado ao expressionismo. Isso significa que ele procurava criar imagens, ou sequências, que fossem tão poderosas em si que pudessem colocar o espectador em contacto com a sua consciência profunda. Ele fez isso praticamente em todos esses filmes alemães, raramente com uma visão integrada, raramente com uma unidade de todos os elementos poderosos que ele conseguia cria. Mas ele sempre criou momentos que duravam.

Ele tinha uma crítica social que suportava a sua visão, e ele explorava personagens, tentando realçar o que estava para além da sua aparência. E suportava tudo isso num imaginário visual poderoso. Imagens, basicamente. Aqui ele faz exactamente o contrário. Aqui temos uma imagem que gera uma história. Isso podia ter sido interessante e na verdade, como conceito, é lindo. Mas não está bem resolvido.

O filme foi feito quando Lang já estava completamente imerso no contexto de produção americano e mais que isso, num tempo em que o filme policial noir tinha já estabelecido as suas regras (o noir que foi forjado visualmente no expressionismo alemão dos anos 20/30). Isto é importante. Aqui ele descarta o comentário social (que era muitas vezes vazio e apenas uma desculpa para as imagens). Temos, sim, alguma exploração dos limites/definição de moralidade, mas isso é secundário. Em vez disso, o foco está (tenta estar) no enredo. Temos a mulher, o homem, o detective e o cadáver. Levantam-nos todo o tipo de questões sobre o crime, e analisamos, primeiro com o assassino incompetente, e depois com o polícia, todas as possibilidades, todas as pistas. Mas o filme é um falhanço. Não temos nenhuma dúvida sobre as intenções de cada um dos personagens. Sabemos o que aconteceu, e com a excepção de como vai terminar, sabemos tudo sobre cada personagem. A mulher não tem segredos, ela surge enigmaticamente associada a uma imagem, mas ela é realmente o que diz ser. O protagonista é um peão no jogo, mas apenas devido à sua inaptidão, não porque há um jogo maior que ele não controla. 3 anos depois de ‘o falcão do maltês’, este tipo de construção narrativa estava melhor estudado do que o que se mostra aqui.

E a imagem da mulher, ou o contexto em que ela aparece, não é suficientemente poderoso… não nos transporta para outra dimensão como deveria. não nos leva para um sonho, como levou Robinson…

A minha opinião: 2/5

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Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull (2008)

“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” (2008 )

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memórias queridas

É interessante ver este tipo de sequelas, ou prequelas, de heróis passados, filmes clássicos. É interessante porque podemos fazer um balanço das mudanças, o que era e o que é, mudanças em quem criou os filmes, nos espectadores, e em nós próprios.

Cresci a ver vezes sem conta alguns filmes (e algum tipo de filmes) que moldaram, em maior ou menor grau, os gostos cinematográficos da minha geração, em geral. Estes filmes incluíam os velhos filmes do Indiana Jones. Eles eram novos, devem ter chocado positivamente as audiências desses dias – eu nasci no ano do segundo filme por isso não posso avaliar como as coisas eram então; de facto estou demasiado ligado a esses filmes para os poder comentar com justiça como filmes, apenas tenho a minha memória pessoal deles. Mas enquanto tínhamos então novas ideias, criadores frescos que criavam um novo ambiente, novo entretenimento cinematográfico, agora não temos nada disso, claro. Agora temos o mesmo grupo de criadores, mas sem coisas novas a dar. Por isso usam as suas memórias pessoas do que fizeram, e usam a relação carinhosa entre as audiências e os filmes – o público alvo jovem dos anos 80 ainda vai aos filmes hoje em dia, mais as gerações mais jovens, como a minha.

– assim, é interessante ver o que temos aqui, apesar da sua pobreza relativa como filme ou mesmo como entretenimento: nos últimos 20 anos aconteceram novas coisas em cinema, novos códigos foram implementados e aceites por audiências regulares. Die Hard, Arma Mortífera, a influência do estilo de luta de Bruce Lee nos filmes de acção ocidentais, ou mais recentemente a série Bourne, tudo foram séries que progressivamente mudaram o que as audiências esperam dos novos filmes que saem. Se virmos os filmes Bond todos, cronologicamente, vamos verificar como essas expectativas foram mudando ao longo dos anos. Isto significa que os filmes Indy dos anos 80 são clássicos, extremamente bem feitos, mas entretanto coisas foram acrescentadas ao que tinha sido feito aí, e um ‘novo’ indiana jones não consegue ser agradável para as novas audiências como os antigos. As audiências mudam.

– as pessoas envolvidas também mudaram. Sim, temos Spielber, Lucas e Harrison Ford na aventura. Temos até Karen Allen, a amante original do Indiana, que fecha o círculo, e liga gerações, e os filmes. Mas eles já não são novos. Neste momento parece-me que eles estão sobretudo a divertir-se, e a dar-se a oportunidade para reviver velhos dias, mais do que realmente tentarem fazer o melhor filme possível. Por isso é que temos todas as referências aos velhos filmes: o armazém do início, a Arca, Marion Ravenwood, o pai de indy, Marcus, a cena da bicicleta na biblioteca (Indy diz exactamente o contrário sobre como ser um arqueólogo do que tinha dito em ‘a última cruzada’) etc… os fãs de indiana jones podem encher esta lista com pormenor. Aparte dessas, temos referências a outros filmes. Isto é interessante. Spielberg referencia a cabeça do seu ET de 82, o cadáver do corpo do extraterrestre parece-se muito com o outro. Uma ligação interessante é a Brando: Mutt Williams é, claro, o Brando de ‘the wild one’ na primeira vez que aparece no ecran. Esse filme é de 1953, este supostamente acontece em 1957. A luta do café também foi buscar as partes em conflito do ‘the outsiders’ de Coppola, de 1984. Assim, em vez de termos uma pesquisa sobre as roupas desses dias, etc, tiradas de fontes confiáveis, temos aspectos visuais históricos retirados de outros filmes. É bem conhecido que Indiana Jones, na sua origem, era suposto ser um herói antiquado, baseado em velhas histórias de aventuras. Nunca foi baseado na vida, antes na fantasia. Apreciei a coerência.

– Por último, algo mais mudou nos últimos 19 anos: eu. Eu estava disposto a Não questionar certas coisas que agora posso não aceitar. As aventuras de Indiana Jones sempre tiveram que ver com auto sublimação, enraizadas em histórias irreais, ficcionais, historicamente não suportáveis. Tudo bem. Aceitava isso. Aqui questionei coisas, creio que perdi parte da minha inocência (fé?).

Devo dizer que uma coisa realmente me impressionou aqui, que foi o trabalho de câmara. Spielberg sempre foi bastante competente na forma como a move e nos faz encontrar/seguir/sentir o que ele quer. Aqui ele tem momentos brilhantes, alguns mesmo melhores que os dos velhos filmes. A explosão nuclear foi fantástica neste aspecto, e a sequência inicial no armazém também.

A minha opinião: 3/5

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Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988)

“Mujeres al borde de un ataque de nervios” (1988 )

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Intenções dobradas

Todos os verdadeiros artistas confiam, em maior ou menor grau, na sua intuição. Há aqueles cuja magia repousa inteiramente nas escolhas intuitivas que fazem. É maravilhoso podermos confiar na intuição de alguém (ainda mais quando a nossa própria intuição funciona também). Depois temos aqueles que começam numa base racional, e só depois de criarem uma rede de segurança em que possam confiar é que colocam algo dos seus sentimentos mais profundos aí. Creio que este segundo tipo corresponde à maioria das mentes criativas. Por um longo período de tempo, pensei que Almodóvar pertencia ao primeiro tipo de realizador. Depois de ver este filme, definitivamente coloco-o no segundo tipo. Para um espectador desinformado, como eu era quando entrei no mundo dos filmes de Almodóvar, ele pode surgir como se não existisse uma estrutura especialmente reconhecível por trás do que vemos. Os meus visionamentos recentes dos seus filmes convenceram-me do contrário, especialmente este. Este é um filme em que (ao contrário dos outros) a mecânica da história tem a ver com como ela se desenvolve. É uma comédia, tudo bem, e constrói um mundo de coincidências e factos ligados que vêm sempre a ser importante, com o desenrolar da história.

Assim, temos uma narrativa de histórias circulares, intersecções, e coincidências. Os primeiros 5 ou 6 minutos do filme, incluindo os créditos iniciais, são especialmente fantásticos na forma como vemos isso. Temos uma montagem pop de pedaços de revistas, pedaços de vidas, caras, pedaços coloridos. Isto introduz-nos no ritmo do filme, que é frenético em sentido de comédia (isto mostra-se pela história, não a edição). Depois somos introduzidos à nossa personagem principal, ao redor da qual tudo se desenvolve: ela dobra filmes, o que significa que ela empresta a voz a outros corpos. Ela era (vimos a compreender) a amante de um homem que faz o mesmo. E temos aí um fantástico pedaço de filme, em que seguimos esta voz off a dobrar, e o filme que ela está a dobrar, já com o som dobrado. Ela está a dobrar sozinha, a voz masculinha está silenciosa (ouvi-la antes, no início da sequência, também desacompanhada da voz feminina aí). Isto é um trabalho minucioso. Uma sequência fantástica. Colocou-me no ambiente, pensei eu. Isto porque somos enganados por esta primeira cena. A seguir a isto, tudo se transforma num ambiente de comédia (que segue as comédias screwball americanas, isto é assumido por Almodóvar).

As maiores preocupações cinematográficas de todos os filmes de Pedro Almodóvar caem em trabalhar a narrativa de formas que sejam novas, sedutoras, e visuais. Todos os seus films (especialmente os dos anos 80) eram puras experiências, completamente diferentes da experiência anterior. Aí, Pedro estava ligado a um certo ambiente, uma forma psicadélica de vida, certamente derivada da sua experiência dentro da Movida, o underground madrileno dos anos 70. Apesar disso ele estava já a tentar construir novas formas narrativas. Há uma certa característica recorrente em todos os seus filmes: ele gosta da ideia de ter actores cujos personagens actuam. Actrizes que representam actrizes, personagens que pretendem ser algo diferente. Os seus modos narrativos têm muito que ver com isto. Aqui ele foi muito inteligente em como realçou este aspecto. A primeira cena que mencionei estabelece esta ordem, a mãe louca que tenta passar por sã para cumprir a sua loucura, e o filme tem uma conclusão numa cena em que todos estão a actuar e a mentir à polícia. Perto do início, a mulher louca (que finge viver 20 anos antes do seu tempo) diz ao seu pai: “Mentes tão bem, papá! Por isso é que gosto de ti”. Almodóvar escreveu o guião…

A falha aqui está em tudo ser mecânico. Este desenvolvimento por coincidências circulares, e um enredo escondido que acaba por se revelar e nos revelar a verdade não está exactamente em linha com os melhores esforços visuais de Almodóvar. Creio que ele sabe isso, ele chegou mesmo a dizer que este guião foi bastante mais fácil de escrever do que, por exemplo, o de Kika (que tem um conteúdo narrativo bem mais implícito). Assim, narrativamente, isto É Almodóvar, mas não o seu melhor. Mas tem pinceladas lindas, intenções sublinhadas (e sublimadas), e levarei aqueles minutos iniciais onde quer que vá.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve