Arquivo de Fevereiro, 2011

The King’s Speech (2010)

“The King’s Speech” (2010)

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a voz contra a parede

Este filme é mais ou menos o que eu esperava, para bem e para mal, e na verdade isso não é um muito bom elogio. Quando vou a um filme, vou sempre de mente aberta, esperando ser surpreendido.

Isto é um filme para e sobre actores, da raíz até às folhas. O enredo principal é sobre um homem pouco importante que tem de aprender a actuar, para poder ser convincente diante de uma audiência, e para disfarçar a sua condição de gago. O truque que usar é uma coisa comum em drama: a busca pessoal de um homem para ultrapassar a sua debilidade é sobreposta às aspirações colectivas de um grupo, neste caso uma nação à beira de uma guerra. Por isso, ao focarmos no drama pessoal de um grupo de pessoas: o futuro rei, o seu irmão gago, a mulher dele, e o terapeuta de voz; enquanto nos são dadas pequenas visões daquilo que se passa no mundo, o conflito iminente entre a Inglaterra e a Alemanha; temos a sensação de que o que vai acontecer ao mundo depende da capacidade do rei falar claramente ao seu povo ou não. É um truque que normalmente se usa em épicos ou filmes de guerra. Neste caso não me parece que o “discurso” seja um álibi suficientemente forte para credibilizar toda a história, mas suponho que funciona como truque dramático.

Dentro desse drama, o ponto principal é a relação entre o terapeuta de voz e o rei. Por isso, aqui temos um filme sobre amizade, em si um género totalmente diferente que já vimos várias vezes. Isto é interessante aqui, porque os actores são competentes e o guião ajuda. Colin Firth faz bem as coisas, ele tornou-se um bom actor, que sabe como se integrar na textura do filme e ser uma parte dela. Mas Geoffrey Rush é alguém que vale a pena ver, independentemente do que faça. Ele é um actor impressionante, e os seus níveis múltiplos de actuação aqui valem a pena ver: ele representa um terapeuta de voz muito bom, que esconde o seu lado de actor frustrado, permanentemente rejeitado em castings para teatro. Ele consegue corrigir o discurso dos outros mas é incapaz de fazer o seu discurso de forma convincente. Ele transporta a sua actuação não conseguida para o rei, e projecta a sua frustração como actor incapaz de convencer para o sucesso do rei quando ele convincentemente incita a sua nação à resistência. O rádio é o meio escolhido, e é perfeito para este enredo porque a sua magia reside unicamente nas palavras, e na forma como elas são ditas.

Há um cenário interessante que vale a pena mencionar: o escritório de Rush. O ambiente é curioso, a velha mobília, tecnologia daqueles dias, o gira discos, o microfone, etc. Mas o que está realmente interessante é a textura da parede por trás do sofá do paciente. Todos aqueles pontos multicoloridos, colocados no último plano de uma face que tenta ultrapassar uma dificuldade. A parede tem grande poder visual, e suporta bem o drama. Apreciei.

A minha opinião: 3/5

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The Pink Panther (1963)

“The Pink Panther” (1963)

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descentrado

Há tantas personalidades do mundo dos filmes envolvidas aqui que hoje carregam uma grande dose de nostalgia que vale a pena ver este filme só por isso. Isso se conseguirem receber totalmente essa força que essas pessoas demonstram. Capucine, Claudia Cardinale, até a espécie já extinta a que Niven pertencia. Blaker Edwards, que morreu recentemente e, claro, Peter Sellers, uma das pessoas mais genuinamente engraçadas em filme de sempre. Juntem a isso os anos 60, já por si um canal da nostalgia ocidental contemporânea, e a pantera, acabada de nascer aqui. É pesado, provavelmente tanto como ver Audrey Hepburn e Cary Grant no Charade deste mesmo ano. Se inspiramos estes aromas de outros dias e nos deixamos levar por como imaginamos que esses dias seriam, este filme vai brilhar.

O filme por acaso é incrivelmente fresco, como comédia. Não porque alguma coisa do que aqui temos seja ainda remotamente uma moda na actuação cómica de hoje em dia. Não é. O ritmo é lento, e isto arrasta-se comparado com o que faz as audiências rirem hoje em dia. Sabemos que a comédia é, entre todos os géneros, aquele que se desactualiza mais rapidamente. Esta está desactualizada, mas funciona se virmos o seu contexto.

Mas algo estranho e bizarro mata uma parte desta experiência. O filme parece-nos descentrado hoje, e suponho que isso seria notório logo que o filme saiu. Isso porque o filme foi concebido para ter Niven como a estrela, e Cardinale como o sex symbol exótico. Ela até representa uma rainha de um país exótico distante. Capucine e Sellers deveriam ser asteróides orbitando em torno das estrelas principais. Mas Sellers baralha as coisas, e desequilibra este universo aparentemente bem construído. Isso porque ele é a estrela mais brilhante deste firmamento. Aparentemente, o papel dele deveria ter sido feito por Ustinov, mas Sellers acabou por ficar com ele, e o resto nós sabemos, e o muito que ganhamos com isso. Ele é um grande actor, porque de algum modo ele faz as suas habilidades sem parecer abertamente que está a actuar de forma engraçada. E o timing dele normalmente é perfeito.

Por isso, o estranho aqui é que temos um performer brilhante a roubar o filme aos verdadeiros ladrões (ele até vai para a prisão em vez deles no final). O fantástico é que tínhamos Peter Sellers.

A minha opinião: 3/5

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The Hangover (2009)

“The Hangover” (2009)

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puzzle

A comédia é um género difícil. É difícil encontrarmos actores de comédia talentosos que nos façam rir sem nos sentirmos vazios ao fazê-los. Algo que ultrapasse o riso falso de uma situação falsa arranjada onde apenas nos rimos do ridículo da cena. A verdadeira comédia está mais próxima do drama do que de qualquer outra coisa. É isso que eu penso. Mas de vez em quando, conseguimos encontrar uma comédia decente, em que as actuações são aceitáveis. Mais raro é ver algo que faça algo interessante a nível narrativo. É o caso desta.

As actuações são rotineiras no que diz respeito à actuação física e a temporização das palavras hoje em dia. Isto é a parte da coisa que normalmente se desactualiza em pouco tempo, por isso suponho que em 15 anos já não vamos rir com o fraseado, a temporização, ou mesmo com a maioria das piadas em si. Zach Galifianakis é a excepção. Ele é realmente engraçado porque é o único personagem que não tenta ser engraçado. Ele não impõe a sua força cómica à audiência. Ele coloca-se de fora do humor do filme, literalmente, já que o seu personagem é um alien que aterra no meio de um grupo bem formado. Por isso ele fica para ali, e aí reside a piada da actuação.

A coisa boa aqui está na estrutura narrativa da. A história é sobre uns tipos que não se lembram do que aconteceu na noite anterior (drogas, bebida, etc). São-lhes dadas pistas (o bebé, o tigre, o carro da polícia) que são as ligações a esses eventos não lembrados. Seguindo essas pistas, numa espécie de história de detectives retorcida, eles acabam por conseguir recontar os eventos que não lembram. Por isso, a estrutura narrativa é a de personagens que vão revelar uma história que já aconteceu, a Eles! É um conceito engraçado, e um truque inteligente. E é raríssimo encontrar estruturas inteligentes aplicadas a comédias comerciais.

A revelação das peças do puzzle daquela noite não é tão boa como poderia ter sido. O episódio Mike Tyson aparece forçado na narrativa, provavelmente para incluir Tyson e vender mais uns bilhetes, mas parece fora de sítio, uma cena de outro filme.

A minha opinião: 3/5

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Biutiful (2010)

“Biutiful” (2010)

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Caras

*** este comentário pode conter spoilers ***

É sempre uma noite especial quando nos mexemos para ver o novo filme de um dos melhores realizadores do momento. Não vamos apenas ver algo que nunca tínhamos visto, feito por alguém cujo trabalho afecta a nossa alma, mas vamos também ver algo que pode ser a coisa mais actual na ainda recente tradição do cinema como a arte da narrativa visual. Iñarritu produz esse estado em mim. Algum do seu trabalho anterior mudou-me de formas que não consigo sequer compreender. Vou sempre querer ver o que ele tem para mim.

Aqui tínhamos um aspecto importante. Ele separou-se do seu colaborador de longa data, Arriaga. Aparentemente, as colaborações anteriores deles destruiu a relação pessoal deles. Imagino que a dureza e dor de produzir as narrativas densas e ricas da triologia que veio antes deste filme foi esgotante e esvaziou a relação deles. A ausência de Arriaga nota-se aqui. Tornamo-nos menos consciente da estrutura, menos entusiasmado pelo desenvolvimento do filme. Não há, aparentemente, uma estrutura maior que enquadre as vidas que seguimos. Arriaga dava aos filmes um sentido noir de destino, onde todos os personagens se sentavam. Bem, suponho que encontramos isso aqui, mas de uma forma mais bruta, menos assumida. Ninguém duvida que todos os personagens neste filme (mesmo os patrões chineses) vivem num mundo cujas regras não compreendem, e ainda menos controlam. Isso é a primeira coisa interessante aqui. Temos a cidade como o tabuleiro definido onde o jogo é jogado. O sentido de colocação (urbana) diz-nos que o jogo está a ser jogado, mas que nunca chegamos a ver nada mais alto que um peão. Penso que quando tomamos a história pelo que é, podemos comparar este filme com Ensaio sobre a Cegueira, pelo pessimismo, pela visão de um mundo sem esperança. A cidade, Barcelona, é mostrada com uma sujidade e escuridão que na verdade não está na sua aparência, ainda que algumas cenas (como os negros a fugirem da polícia com material falsificado) sejam na verdade uma parte da sua rotina. Mas nada do que vemos aqui existe num primeiro nível de observação, por isso não temos aqui a cidade de Gaudí, temos a cidade dos oprimidos, manipulados por um opressor desconhecido.

(spoilers aqui) Este mundo é complexo e enganador. Uxbal parece controlar os patrões chineses, mas sabemos que um deles está a ser manipulado pelo seu amante, que não é aceite pela família do primeiro pela sua homossexualidade. Maramba afoga as rejeições de Uxbal na cama do irmão dele, enquanto a sua loucura progressiva a afasta dos filhos dela. Mas Uxbal vai morrer e sabe-o, e até sabe o que está “no outro lado”. Ele está tão afogado no seu destino inevitável como os trabalhadores chineses que ele pensa que está a ajudar (até os matar!). Também Ige está afogada, que de algum modo sabe que não poderá sair de Barcelona e ter um futuro; ela está afogada no seu destino e o dinheiro não o pode mudar. E também as crianças de Uxbal, cujo destino depende da sorte e vontade daqueles que vão sendo responsáveis pela sua educação: o pai deles vai morrer, a mãe é instável, e apenas nos é sugerido que Ige se vai tornar a figura materna deles.

Mas tudo isto é apenas secundário comparado com o motivo real pelo qual penso que devíamos ver este filme: as caras. Toda a escuridão, todo o pus que sai doentiamente das feridas destas pessoas só interessa realmente porque está espelhado pelas caras “biutiful” de absolutamente todos os personagens. É isso que a incrível primeira cena nos dá: o encontro entre duas caras, a de Bardem (que actor ele se tornou!) e aquele que acabamos por descobrir que é o falecido pai dele. Reparem como os primeiros planos das caras são a chave de todas as respostas emocionais que damos a este filme. Reparem como é o sorriso destroçado de Mateo ou os olhares impotentes de Maramba que quebram o nosso coração. Reparem como essas caras são enquadradas por Iñarritu (e o seu incrível cinematógrafo!), sempre de forma diferente, de acordo com a cara de cada actor. Bardem normalmente a 3 quartos. Mas a cara que sempre vou lembrar é a de Ana. De acordo com o IMDb, este foi o primeiro filme dela, e se for o último, ainda vou ter motivos para me lembrar dela. Aposto que ela foi escolhida por causa do sorriso, de inocência desiludida, de infância destruída. Tão linda, tão triste. Tanta dor, num mundo tão caótico e noir. Isto é grande escrita, grande cinema. Quero descobrir como é que este filme se vai encaixar nos meus sonhos.

A minha opinião: 4/5

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The Tourist (2010)

“The Tourist” (2010)

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stars

*** este comentário contém spoilers ***

Este filme é uma boa experiência, um tipo de filme raro hoje em dia, e que aparentemente só pôde acontecer assim pelos imprevistos da pré-produção.

A Angelina esteve no barco o tempo todo, de acordo com o IMDb. Mas o protagonista masculino passou por várias hipóteses, que incluíram Sam Worthington. O facto de que eles tenham podido contratar o Johnny foi uma sorte de casting que permitiu que este filme resulte da forma como resulta agora mesmo. Superficialmente, isto é uma história sobre reviravoltas, personagens duplos, sobre pessoas que pretendem ser alguém, apenas para descobrirmos, várias vezes, que eles são outra pessoa. No entretanto, somos maravilhados com o estatuto de estrela que ambos os personagens exibem todo o tempo. O mundo gira em torno deles, para melhor e pior. Aqui até a história ajuda: Angelina começa o filme literalmente a ser observada de todos os ângulos, com toda a gente interessada em saber o que ela está a fazer. A cena em que ela entra no comboio e engata o tipo está construída com ela como o centro luminoso do sistema. Os movimentos dela agitam o contexto, é assim que ela é colocada, como estrela, nesta história. Procurada e desejada. Depp completa e contribui para esta colocação, e ao fazê-lo ele constrói o seu próprio canto como a personalidade pública que é: o tipo atrapalhado, casual, mas ainda assim atractivo. A estrela relutante, que procura constantemente destruir a sua própria imagem como sex symbol, e acaba permanentemente arrastado para o centro das atenções; (SPOILER) o tipo que aparentemente não sabe nem compreende nada do que lhe acontece, trapalhão e a tentar evitar atenções, apenas para descobrirmos que ele é o mestre manipulador por trás de tudo o q acontece, que manipula até a estrela mais cintilante da constelação, aquela que deveria estar no topo do jogo.

Este jogo actor/personagem requer inevitavelmente que os actores que o representam possuam um estatuto de estrelas fora do filme. Depp e Jolie obviamente possuem esse estatuto, provavelmente são as 2 maiores estrelas que temos num sentido clássico do termo, ao estilo Grant, Peck, Hepburn, Dietrich, Garbo. Só isso bastaria. Mas para lá disso, Johnny Depp é um actor real, que consegue brincar no campo da actuação por níveis múltiplos: ele apresenta a sua pessoa pública, o nerd trapalhão, que afinal é o maior manipulador neste jogo. Esperava que a actuação dele, só por si, fizesse o filme, e realmente fez. Mas a surpresa foi Jolie, na forma como ela conseguiu o que fez aqui. Aqui temos mais do que a personalidade dela, temos uma actriz.

Este realizador mudou a minha vida com o primeiro filme dele. Aqui ele imerge num mundo bastante diferente. O tema não interessa tanto como “as vidas dos outros”, mas ele está bem, espero que continue a fazer coisas interessantes.

Este é um filme enraizado no mundo dos filmes. Por isso é que somos literalmente levados para Veneza, depois de começar em Paris, 2 dos cenários urbanos mais queridos do tempo em que a América confiava nas estrelas.

A minha opinião: 4/5

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Shrek Forever After (2010)

“Shrek Forever After” (2010)

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reciclar

Eles tiveram de retroceder alguns passos para fazer esta 4ª versão. O primeiro soava novo na forma como reutilizava cosmologias populares retiradas do canto sedutor das histórias para crianças. O 2º flutuou sobre esse e fez um jogo interessante de auto-referências retorcidas. Foi o melhor. A comédia estava nas referências externas e na forma como os criadores as usaram. A forma em si era engraçada, mais que as piadas ou os personagens.

Agora esta 4ª versão precisou de fazer uma história sobre como a história romântica entre o ogre e a princesa tem de acontecer outra vez. Por isso a história é literalmente transportada ao início, antes do Shrek conhecer a Fiona, ou antes do gato ser um personagem.

Admito que o truque funcionou e fez reviver a frescura do primeiro, depois do desastre do terceiro. Se entrarmos no jogo e quisermos ser nostálgicos em relação aquele que já tem 10 anos, podemos rir-nos um pouco. A esperteza do truque permite-nos fazê-lo. Mas não há muito a acontecer aqui, para além disso.

Os personagens estão tão desgastados a esta altura como o pobre Shrek no início do filme quando esmurra a mesa.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve