Arquivo de Julho, 2008

Anatomy of a Murder (1959)

“Anatomy of a Murder” (1959)

IMDb

Advogados jazzísticos

Pelo que eu sei, este filme provavelmente definiu as regras do ‘género’ do filme de tribunal. Não que tenha sido o primeiro filme a conter um tribunal e a sala de julgamento, claro, mas foi um dos primeiros a construir dinâmicas de narrativa que se desenvolvem em torno do que advogados conseguem fazer a partir da invenção ou manipulação de certos factos. O engraçado neste tipo de filmes de disputas em tribunais, e jogos de rato e gato entre acusadores e acusados é como as palavras, e a interpretação que fazemos delas, e como essas palavras são soltas (isto inclui expressões, faciais e corporais) podem mudar completamente a realidade das coisas. O filme é, como o título sugere, a dissecção de um evento que nunca chegamos a ver, que ocorre em cenários com os quais não temos grande contacto. Por isso temos de visualizar, e fazemos isso através das palavras e das opiniões que formamos das personagens (testemunhas) que nos é permitido ver. Por isso, num certo sentido, estamos ao mesmo nível do júri. O aspecto forte deste filme, e por isso funcionou tão bem para mim é que, apesar de passarmos o filme a seguir Stewart e a defesa, nunca nos é indicado que deveríamos acreditar na história ou no personagem de Gazzara. Há muitas subtilezas, questões deixadas em aberto. Em última análise, as duas teorias expostas no tribunal fazem sentido, mas realmente ficamos sem saber qual delas (se alguma) é verdadeira:-as marcas na cara da mulher foram feitas pelo violador ou pelo marido? -as cuecas foram realmente encontradas, ou foram colocadas? -a mulher alguma vez traíu o marido?… Gostei desta ambiguidade.

O sexo esteve presente o tempo todo. Sou novo, e esta é uma boa forma para eu perceber como algumas coisas eram vistas nesse tempo: sexo e religião. Todo o espectáculo montado a volta do uso da palavra ‘panties’ na sala de tribunal, claro, mas também como o procurador tenta descredibilizar a mulher alegando o seu desrespeito à religião. Como isso poderia decidir o caso nas mentes do júri (e, suponho, das audiências há 50 anos). Temos aqui dois tipos de personagens femininos em contraponto: a abertamente sexuada Lee Remick (cujo personagem tinha o descaramento de ir a um bar sem meias nas pernas!) e a introspectiva, fechada e misteriosa Kathryn Grant. Como personagens de cinema, estou mais interessado no segundo tipo, enquanto via o filme fiz o exercício mental de trocar os papéis delas, ou pelo menos, fazer Remick parecer mais como Grant. Recomendo o exercício.

Em termos puramente visuais/cinemáticos, há dois aspectos a realçar aqui, bastante competentes e que fazem a experiência valer muito a pena, para mim: uma é o movimento de câmara, herdado do que Hitchcock vinha fazendo em anos anteriores, incluído o belíssimo “Rope” e “Rear Window”, ambos protagonizados por Stewart; isto significa que temos uma câmara curiosa, que neste caso está mais preocupado com personagens do que com espaço, apesar de normalmente o espaço se revelar como uma consequência do que os personagens fazem. Isto é muito bem feito, e tinha sido feito com um nível ainda superior 2 anos antes, com “12 angry men” de Lumet. Creio que aqui temos um meio termo entre as atitudes de Hitchcock e de Lumet. É menos consequente, não original, mas apesar disso muito competente. O outro aspecto é o jazz. Ellington, que ainda tem uma aparição com a sua banda no filme. O personagem de Stewart toca piano também, e o ritmo virtuoso do Duke realmente funciona. É uma cola cinemática, algo que transporta o filme, tanto como a actuação inflamada de Stewart ou as nossa questões internas em relação à veracidade do caso a que assistimos.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve