Arquivo de Novembro, 2010

Stanley Pickle (2010)

“Stanley Pickle” (2010)

CINANIMA 2010

 

reflexividade animada

O stop motion é uma grande técnica. É um compromisso entre movimento contínuo, 24fps ou menos, e a estabilidade de uma imagem fixa. Parece-me que este equilíbrio entre ambas as formas de representação pode fazer a diferença em termos narrativos. Diminui a nossa capacidade para nos focarmos apenas no que as imagens “dizem” e somos forçados a aprender o que as imagens “são”

O mais interessante neste filme é um certo tipo de re-invenção da forma como normalmente este tipo de stop motion é usado: todos os elementos são reais, do nosso mundo, não são modelos de plasticina nem cenários construídos à escala. Normalmente neste tipo de animação, os objectos desse mundo real animam-se “sozinhos”. garrafas que se movem sozinhas, as mesas dançam com as cadeiras por vontade própria, e por aí fora. Os humanos podem aparecer, mas não interferem, apenas interagem com o ambiente. Svankmajer tem um conjunto incrível de experiências baseadas nesta noção.

Mas aqui temos uma mistura. Temos um mundo animado, que pertence totalmente a esse outro mundo dos objectos animados, mas também temos na história o animador. Stanley Pickle cria e mantém todos os objectos que o rodeiam na sua vida diária, desde os seus pais (que são objectos aqui) aos seus jogos e diversões. A determinada altura até vemos o seu laboratório, escondido debaixo da cama.

Isto destrói-se quando ele executa a sua magia para uma rapariga fora do seu mundo animado confinado. Não funciona, ele apenas consegue falsificar a vida do seu pássaro, não reiniciá-la.

A rapariga tem uma cara interessante, e apreciei a auto-referencialidade e como isso se mistura no produto final e na narrativa. Mas não achei que o filme fosse visualmente interessante.

A minha opinião: 2/5

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Hard Target (1993)

“Hard Target” (1993)

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Mad cowboy

Este filme cai perfeito no seu próprio género, com todos os elementos. A história está concebida para encaixar nas características vendáveis do actor, e temos todos os elementos que normalmente rodeiam este sub género de acção, que é a acção construída ao redor de uma figura da acção, na tradição Stallone (mas com jogadas diferentes). Para além disso, nunca gostei muito da abordagem estilística de Woo. É o estilo em si que me aborrece. Por isso, este filme deveria ser naturalmente algo para passar tempo, uma experiência olvidável. Algo que podíamos ver numa noite bem passada com alguns gajos de 26 anos já nostálgicos que cresceram com estas coisas.

O meu último comentário, ainda para mais, foi sobre um filme que pensava que odiaria e que até apreciei. Isto motivou um protesto de um leitor que é meu amigo e que normalmente confia nas minhas opiniões, mas baseando-se nesse comentário começou a perder a fé. Suponho que só vou piorar as coisas com este comentário, mas na verdade apreciei algumas coisas neste filme. Essas coisas boas têm todas que ver com dois aspectos: cinematografia e cenários.

A primeira grande coisa aqui é a forma como entramos no filme, os primeiríssimos planos, uma noite chuvosa numa Nova Orleães encenada, onde um homem está a ser caçado. Os planos das ruas desertas, desde o ponto de vista do homem, são grandes portas para este filme. Temos todas as referências nesta primeira sequência: Nova Orleães, o jazz ambiente, o contexto de western Leone/Eastwood (o próprio personagem de Vosloo chama-se Van Cleef!). Estes 3 elementos encontram-se com um contexto Mad Max e as regras desse mundo, sem lei, terreno fértil para foras da lei e justiceiros aventureiros. Somos transportados para este mundo nos primeiríssimos minutos, e isso é fantástico, e parece-me que temos de creditar Woo pela forma como concebeu esta entrada.

Depois, claro, Van Damme entra em cena e isto torna-se necessariamente mais um dos seus típicos filmes. Ainda assim, temos bons usos das ruas da cidade, e 2 outros cenários que levarei comigo: um é a casa de Douvee, e o seu aspecto ao mesmo tempo robusto e frágil, no meio do Louisiana. O outro é o palco final onde as cenas finais se passam. Este último cenário é sempre uma peça fundamental nestes filmes Bons-Maus. Normalmente é um cenário especialmente concebido, mas não necessariamente interessante. Este aqui é muito bom, com todos os adereços, todas as cores, todo o ambiente Nova Orleães transportado para um filme. Muito bom.

As cenas de acção em si são aborrecidas e vulgares, mesmo de acordo com o que já se fazia nesta altura.

A minha opinião: 4/5

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Twilight (2008)

“Twilight” (2008)

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romanticismo

Este filme acabou por ser uma muito boa surpresa. Estava preparado para odiá-lo. Os livros apareceram como material adolescente feito à pressão, vazios e feitos apenas para capitalizar no mundo da transcendência tal como Harry Potter o definiu para o século XXI: seres estranhos, variações estranhas sobre o nosso mundo real, e uma ligação a esse mesmo mundo, que faz a história e os personagens parecerem verosímeis, e assim agarrando mais as audiências-alvo deste material. Esta série Twilight tinha um factor de aborrecimento extra que me punha fora: revolvia clichés de fantasia e ainda lhe adicionava o mundo cinematográfico dos vampiros. Era jogo seguro a dobrar.

A coisa que realmente falha aqui é o casting do personagem principal. Robert Pattinsion é uma nódoa aqui, não tem presença de qualquer tipo. Atira as suas frases como se estivesse sentado na retrete, as expressões faciais dele são pálidas, mas não de uma forma vampiresca, a pose dele é artificial, e isso até funciona para este personagem (teve sorte). Parece-me que eles queriam também aqui capitalizar o actor que teve um personagem curto mas emocional na série Potter, e assim atrair ainda mais as audiências de Potter. Por outro lado, Kristen Stewart foi uma boa surpresa. Não sei se ela vai sair bem do mundo dos filmes adolescentes, mas vou querer ver coisas novas com ela. Ela teve uma actuação tensa de uma forma natural que normalmente não conseguimos ver em actrizes tão novas.

Mas o que eu realmente gostei foi o ambiente geral do filme. Há um sentido geral de romantismo e tensão doce que atravessa todo o filme, e que realmente me cativou. É uma melancolia genuína e não sentimentalóide, onde os sentimentos crescentes entre vampiro e humana adolescentes ocupam um lugar doce no centro da narrativa. Os meus leitores regulares sabem que aprecio esses filmes que conseguem convincentemente construir e manter um ambiente, como uma aura invisível que cobre cada elemento do filme. Wong Kar-Wai é o mestre absoluto disto. Por isso interessa-me tentar compreender o que consegue produzir esses efeitos. Aqui parece-me que a primeira âncora desse ambiente é Stewart e a sua actuação controlada e intensa (pergunto-me se terá aprendido isso com Foster). A segunda âncora é a cinematografia e a escolha muito feliz de cores e cenários. Mas a parte mais importante é o trabalho de câmara. A câmara na mão nos primeiros planos enquanto os amantes dialogam são algo de uma classe superior. A edição ajuda, mas a forma como os planos são concebidos realmente funciona bem. Alguns momentos de diálogo são dignos de alguns momentos de alguns filmes de Lumet. Isso é dizer muito.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve