Arquivo de Maio, 2007

Escrevendo beleza, “Lucía y el sexo”

“Lucía y el sexo” (2001)

Realizador: Julio Medem

Argumento: Julio Medem

Link IMDB

*** Este comentário pode conter spoilers ***

“a primeira vantagem é que no final a história não termina. Cai num buraco e recomeça do meio […] a segunda e maior vantagem é que nós podemos mudar o rumo a partir daí.”

Isto resume basicamente as “vantagens” do cinema de Medem. O que obtemos com Lucía y el sexo é do melhor. Argumento fantástico, quente, bonito em todos os aspectos, visuais ou escritos. A escrita é o tema. Realidade (des)descrita. O cinema evoluiu para explorar este tema. Aqui, a realidade é escrita pela escrita de Lorenzo. Vou tentar explicar. O título é enganador. O foco não estão no sexo, nem em Lucía. O sexo é o despoletador de todas as outras emoções/eventos e (des)encontros (por isso Lucía e sexo surgem aqui ambos em relação a Lorenzo). A preocupação está na escrita como criadora da realidade. Contudo, todas as mulheres são lindas, como é todo o ambiente do filme. Como havia já feito notavelmente com “Los amantes de lo círculo polar”, Medem joga com uma enorme complexidade espacio-temporal. Ele é um mestre da chamada narrativa não-linear, tem consci~encia plena dos seus efeitos no espectador (esse é, afinal, a razão e a definição de ser artista, controlar o que se mostra e se provoca). Coincidência? Acaso? Destino?. O drama em Medem vive destes aspectos, as pontas soltas que eventualmente se ligam, às vezes por pura coincidência, que adquire uma credibilidade impressionante quando trabalhada por este realizador. O fio condutor da atenção do espectador é chegar ao final de todas estas coincidências e descobrir o que está aí (uma vez mais como a sua outra grande experiência, “los amantes…”). Isto é contar histórias numa forma contemporânea, é o mas avançado que temos neste momento.

O truque, no caso de Medem (e é aqui que ele se distingue dos outros realizadores importantes de expressão espanhola, como Iñarritu ou Cuálron) é trabalhar com realidades que podem ou não ser provisórias. Como espectador, nunca se sabe se se está a assistir à realidade do filme ou à ficção dentro da ficção de Lorenzo. Também é bastante pouco claro (ou tem a claridade que Medem permite) onde e quando as acções tomam lugar. Ele cria lugares, na imaginação, não físicos (o filme torna-se ele mesmo o seu próprio lugar, em tempo indefinido, num mundo desenhado por Medem). A própria ilha tens os seus próprios contornos indefinidos, não sabemos se é deserta ou ocupada, ou a que distância fica da “realidade”.

A banda sonora é discreta mas eficiente. O tema é lírico por princípio, coerente aliás com o resto, e transporta o filme para alguma relação com o cinema lírico italiano (a realização de Tornatore, e a música de Rota ou Piovani). Esta é uma mistura interessante de noções, que tínhamos já visto em “La teta i la lluna”, de Bigas Luna (espanhol, catalão para ser preciso) com a banda sonora de Piovani (italiano). Isto mistura uma produção concebida para ser bela em cada momento (a italiana) com a procura permanente no inconsciente na mente humana (Medem estudou psiquiatria), o desconhecido da alma e o drama absoluto, numa visão contemporânea.

Obviamente a fotografia é excessivamente exposta propositadamente (ambiente de sonho), mas isso é uma escolha que eu não sublinho. Mas realmente é uma falha menor, considerando todas as outras “vantagens”.

A minha avaliação: 4/5. Acredito que Medem produzirá brevemente algo merecedor de quotação máxima, creio mesmo que poderá ser o seu próximo “Caótica Ana”. É por isso que escolhi comentar neste como abertura para este blogue. Não o percam.
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7 olhares, uma ideia

no quadro 11 de Vivre sa Vie, Anna Karina mantém uma conversa de vários minutos com o homem a quem, como prostituta, se insinuou. no decurso dessa conversa, ele relembra Platão quando refere, há 2500 anos, que pensamento e palavras são um só, e que as palavras existem para fixar as ideias. Quando me decido começar um blogue escrevendo (penso eu) sobre cinema, procuro precisamente, fixar ideias que me passaram pela cabeça quando via um filme e que, sem as palavras, acabarão por se perder. Os meus comentários não são, por isso, descrições completamente abrangentes de cada filme de que falo, são os aspectos que achei importantes naquele momento e que, na minha cabeça, fazem aquele filme. Tenho a esperança, mais, tenho a ambição de ser lido e, talvez, ser comentado. É esse o meu convite.


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve