Arquivo de Janeiro, 2012

Carnage (2011)

“Carnage” (2011)

IMDb

Repulsion, em grupo

Aqui temos um filme bastante alinhado com aquilo que Polansky fez ao longo da sua carreira. Encontramos aqui muitos dos elementos superficiais, e não só, pelos quais adoramos o que ele faz.

A contenção espacial. Polansky é um dos mestres absolutos da exploração de um ambiente, de fazer um filme dentro de um único espaço, multiplicando as possibilidades para o nosso uso desse espaço, e misturando isso com a narrativa, até ao momento em que o Espaço se torna narrativa. Ele tem um sentido perfeito de enquadramento, movimento de câmara, e timing de corte. O problema neste filme é a banalidade desse ambiente, obviamente requerido para ser a casa do que é suposto ser um casal ordinário, mas que simplesmente não é suficientemente interessante para que as qualidades deste mestre atinjam um nível superlativo.

Há o sentido de absurdo no material original que espelha totalmente o próprio sentido de humor retorcido de Roman, aquele tipo de bizarria estranha que encontrávamos em Vampire Killers, ou o Inquilino. *spoilers pequenos* Aqui até temos algo interessante, porque começamos a ver um filme e acabamos a ver outro. A premissa é uma de simples drama, relações pessoais, a aparente discussão sobre a educação, violência entre as crianças, etc. Mas depois isto toma caminhos estranhas, e entramos num mundo de total absurdo, especialmente a partir do momento do vómito de Winslet. É como se Polansky estivesse diluído no whisky que os personagens partilham, e eles se tornassem cada vez mais possuído pelo seu espirito. Viajamos de um filme, com uma realidade relativamente normal, para outro, fabricado sobre o olhar cinematográfico incrível de Roman, que ele desenvolveu há muitos anos, e que agora tem uma abordagem bastante distinta.

Todos os actores colaboram positivamente na viagem. Os 4 são, no mínimo, competentes. Waltz surpreende, ele tem um sentido de timingo nas suas frases notável, e boa postura, sempre. Jodie e Kate são actrizes fantásticas, entre as melhores, gostava que pudéssemos ter mais Jodie em projectos interessantes.

Polansky agora filma de uma forma mais relaxada. É como se ele se tivesse reformado oficialmente, e agora apenas filmasse para ele mesmo, como se estivesse a ter um jantar entre amigos. Espero que possamos ter ainda mais alguns destes passeios relaxados. Este é mais um capítulo bom da sua vida artística.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb

The Big Knife (1955)

“The Big Knife” (1955)

IMDb

espaço que respira

Por casualidade vi O Deus da Carnificina, o novo Polansky, pouco depois de ver este. Polansky é um mestre dos espaços pequenos, e de mover-se dentro deles, e fazê-los parte da textura dramática do filme. Espaço como drama, como metáfora, essa é uma das coisas que me fez querer ver filmes seriamente, um dos conceitos que me são mais queridos. Robert Aldrich também é um tipo espacial, um arquitecto do cinema, que também leva em conta e manipula o espaço para retirar dele seja o que for que ele está a filmar. Isso está especialmente bem feito em Kiss me Deadly, um filme essencial a muitos níveis, mas também aqui neste filme menor. Aqui temos teatro filmado, um filme de um cenário. O primeiro problema é que o cenário soa demasiado a estúdio, e é por isso mais contido, dando a Aldrich menos possibilidades para quebrar os ângulos da câmara e para movimentos da câmara.

Filmar em estúdio era a norma, e tinha vantagens como o controlo da luz, etc, mas as desvantagens são más para o tipo de trabalho visual que Aldrich gostava de tentar. É um pouco como o personagem de Palance, preso dentro de uma gaiola dourada, vivendo lucrativamente a custo de uma cedência artística.

Mas este filme é uma experiência que vale a pena, mesmo assim. O texto ajuda. As tensões interiores de Charles Castle, sobrepostas à abordagem Método de Jack Palance, e tudo isso envolvido pela visão brilhante de Aldrich, suportada pelo também brilhante Laszlo, um cinematógrafo muito bom. Temos muitos grandes filmes materializados pela câmara dele. Este filme é de um espaço só, mas também um protagonista só. Tem tudo a ver com a forma como o ambiente espelha a forma como Palance reage ao mundo. Nesse sentido, o filme é uma espécie de noir, na forma como ele apenas reage às adversidades, um peão num mundo estranho, no qual ele é o centro, também estranho. Mas isto não é noir no sentido mais largo, na definição que Ted Goranson lhe aplica, e que eu aprecio. Ida Lupino era uma artista inteligente, e que sabe o suficiente para suportar a actuação de Palance. Ela realmente ajuda. Toleramos os excessos de Steiger porque o personagem dele não está demasiado exposto, mas ele exagera.

De qualquer forma, apreciem a câmara, a forma como ela reage a Palance. Os movimentos dos personagens, aquilo que normalmente se define como mise-en-scène, é notável, na forma como está reflectida também na forma como a câmara se move. Isto é algo que começou com a Corda de Hitchcock. Sidney Lumet atingiu o topo deste jogo com o seu Angry Men, mas este filme tem uma forma interessante de usar a câmara a esse respeito.

A minha opinião: 3/5, um trabalho muito interessante e menos importante de um muito bom realizador.

Este comentário no IMDb

Notorious (1946)

“Notorious” (1946)

IMDb

pré-Rope

Hitchcock é um dos realizadores mais importantes de sempre, alguém que mudou as regras e os códigos dos filmes, e introduziu um grande número de elementos na gramática cinematográfica.

Ele dominou e construiu novas coisas que têm que ver com o uso cinematográfico do movimento de câmara, e manipulou a narrativa de formas brilhantes. Os seus melhores resultados podem e devem ser estudados por nós hoje, foram marcos de muito do que se seguiu, e em termos narrativos, algumas coisas que ele fez são inultrapassáveis.

Mas mesmo que hoje, quando vejo os filmes mais antigos de Hitchcock, consiga detectar neles pedaços daquilo que a intuição dele provavelmente estaria a captar, acredito que os anos 50 foram a década em que ele desenvolveu todas as coisas pelas quais eu o adoro hoje, e pelas quais o vejo como um dos mestres. Com Rope temos a primeira vez em que ele realmente construiu algo totalmente novo, naquele caso manipulando o movimento de câmara, criando um olho cinematográfico, brilhante e novo. Dial M… Rear Window, Vertigo, e mesmo Psycho; todos esses são trabalhos que temos de ver.

Mas antes de Rope, o que temos são apenas pistas. Neste filme, há alguns pedaços de enquadramento e movimento de câmara que são concebidos de forma inteligente. A chávena de café envenenada, enquadrada enquanto um diálogo ao seu redor acontece. O plano grua que começa no espaço aberto de um hall, e que fecha na mão de Bergman, que segura a chave. Esses momentos são bons e fazem algo hitchcockiano: uma cena onde aparentemente nada acontece (um diálogo banal, a chegada de convidados), mas através do movimento de câmara e enquadramento, todo um significado é atribuído a um detalhe da cena. Puramente visual, poucas pessoas têm uma mente assim tão acentuadamente visual como a de H..

Mas o grande quadro, aqui e em quase todos os filmes antes de Rope, não é assim tão bom. Como noir, o filme falha, porque o mundo dele está totalmente exposto, todo o tempo; é uma história de espiões simples, que seguimos baseando-nos na tensão do “será que ela vai ser apanhada?”. O noir requer um mundo bizarro e inexplicável, algo que tem a ver com nós não sabermos o que está a acontecer. Aqui o que temos é uma construção tipo mcguffin, aquela história das garrafas de vinho, que só servem para nos pôr atrás delas. E Hitchcock sempre dominou esse truque, mas os melhores resultados dele vêm quando ele usa essa distracção para nos dar uma apresentação incrível para ela. Aqui não.

É verdade que temos Grant e Bergman, um casal quente naquela altura. Eles dão uma boa actuação, e espalham alguma magia de cinema. E Ingrid era uma mulher real, e uma actriz real. Mas este filme está sobretudo baseado em estilo. E o estilo, é sabido, desvanece-se no tempo. Por isso o filme não nos dá muita coisa hoje, porque o mestre ainda não tinha atingido a perfeição das suas manipulações posteriores da nossa mente visual. Por algumas vezes antes de Rope ele esteve perto de atingir isso. Mas aqui, ele está apenas a tentar algumas soluções. O filme em si é um exercício puro de estilo, um estilo que já não procuramos hoje.

Mas Ingrid Bergman era uma grande mulher.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

Ukradená vzducholod (1967)

“Ukradená vzducholod” (1967)

IMDb

voar para longe

A animação checa dos anos 60 é interessante. Havia talento, e uma vontade interessante de explorar, tentar coisas novas. Para além disso, os checos eram provavelmente o povo mais activamente descontente de todos os estados soviéticos satélite. Quando este filme saiu, a primavera de Praga estava quase a acontecer, o país fervia com tensão e vontade de mudança.

As mentes criativas normalmente fervem a temperaturas mais altas em contextos desses. Por isso, assumo que alguma metáfora de procura da liberdade pode ser entendida com esta história. Voar para longe, território de escapatória, a procura de lugares onde podemos experimentar aquilo que em casa é impensável. Os intelectuais que não colaboram com os regimes do outro lado da cortina estavam a ter maus momentos. Isto seria uma metáfora adequada, na linha daquilo que Svankmajer também estava a fazer.

Para além disso, escolher Júlio Verne, tão adorado por este realizador, é em si mesma um comentário ao tipo de efeito que ele estava a tentar alcançar. O motivo pelo qual adoramos Verne é a inventividade da ficção científica que ele propõe. Ele não escrevia f.c. como Philip Dick, em que o outro mundo científico é o enquadramento para uma exploração inteligentemente concebida das coisas próximas a nós, no nosso mundo “real”. Pelo contrário com Verne tem tudo a ver com o mundo que ele descreve, em termos físicos, a verosimilhança da proposta científica, viver nesse mundo, como definido pelo escritor. Ele dá-nos a sedução do hiper realismo, a sensação que aquilo que estamos a ler poderia ser possível (na verdade muito do que ele escrever acontece hoje em dia), envolvido na fascinação por um mundo paralelo fantástico. Sobre tudo isto, experimentar é basicamente o que conduz este tipo de criadores.

O problema deste filme é que os códigos que usa estão ultrapassados. Não me relaciono com a apresentação visual do filme. Este mundo soa plano e nada fascinante hoje. Há sensibilidade visual aqui, na forma como a animação e a acção real são misturadas, a forma como a tonalidade amarela é aplicada para unir todos os pedaços. Houve muito esforço aplicado aqui, e pode ter funcionado nos seus dias. Mas agora não. É um grito de liberdade, e sentimos isso ainda hoje, e nesse aspecto, é bom. Como filme, penso que há outras aventuras que merecem mais ser vividas, outras viagens mais úteis para fazer.

A minha opinião: 1/5

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve