Arquivo de Dezembro, 2009

Where the Wild Things Are (2009)

“Where the Wild Things Are” (2009)

IMDb

portais

Muitos críticos, comentadores, ou simplesmente cinéfilos sérios acreditam que vivemos um tempo de decadência, em que filmes sérios, inovadores e ambiciosos são cada vez mais difíceis de encontrar. Eu discordo. É possível que em nenhum outro momento tivesse havido tantos realizadores inteligentes e sensíveis como agora. Entre várias linhas, normalmente construídas em torno de raízes culturais (os mexicanos, os coreanos), temos um conjunto de criadores contemporâneos que criam colectivamente e sozinhos novas soluções, inovam de formas duradouras, enquanto produzem um tipo de filme sincero e altamente pessoal. Jonze, Gondry, Kaufman (talvez possamos extender isto a Medem). Para mim “Malkovich” e “despertar da mente” são dois marcos fundamentais deste tipo de filme. Se consideramos Medem teremos então de considerar mais alguns trabalhos.

De que é tratam esses filmes? Ligações, conexões, exploração da mente, imaginação enraizada em como funcona a imaginação. Portais, transições, terrenos pantanosos para mentes pouco acomodadas. Isto é o material essencial deste cinema pós-moderno. Como espectadores, tornamo-nos espectadores da mente de alguém, visitantes dessa mente, várias vezes literalmente, como aqui. Este filme soma a essa noção a ideia da criação de todo um mundo completo (retirado de um livro), cheio de personagens perfeitamente definidos, cada um uma fracção de um todo. Auto referência. E temos Jonze, que renova uma certa ideia lírica de cinema. Carter Burwell ajuda, muito. Jonze não carrega muito na tecla da ironia, como o faz Kaufman, nem se torna cínico, como várias vezes Gondry faz. Ele é um lírico, e investe toda a sua criatividade na visão poética das coisas, do mundo em si, de como ele se desenvolve. A estrutura nos filmes dele é-nos totalmente revelada, e não deixa dúvidas. Por isso concentramo-nos nas texturas do mundo, na forma como os sentimentos magoam, no doloroso que é ser cada uma das fracções (personagens) do mundo que ele propõe. Malkovich superou tudo, e criou algo único. Este filme é a segunda melhor coisa dele.

Aqui, o esforço colectivo de uma única mente está investida visualmente na criação de uma estrutura, arquitectónica, o forte que Max constrói na sua imaginação. Pela forma como vemos essa estrutura crescer, vemos Max desenvolver as suas ligações imaginadas com os seus eus inventados. Numa certa forma, a estrutura e a visão dessa estrutura (a maquete) é um mundo dentro do mundo que Max cria, e torna-se em si mesma um personagem. Paisagens: deserto, floresta, mar; marcam os ambientes necessários.

Este é um mundo de sensibilidades, como o interior de um corpo, onde tudo o que tocamos tem o impacto maior, como o interior de KW, onde Max se esconde. É um mundo de portas, janelas, ligações. Sexo.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb

Avatar (2009)

“Avatar” (2009)

IMDb

expectativas

Os marcos no cinema podem ser produtos fabricados, feitos à medida por corporações enormes, complexas e bem espalhadas, que lutam pelas atenções globais, e por vender um produto. Por isso agora temos este Avatar, que foi anunciado como o próximo grande evento, desde há vários meses, anos talvez. Apenas por isso, este é um produto revolucionário fabricado, não é o Citizen Kane, nem mesmo o Jazz Singer. Provavelmente é mais um E tudo o vento levou.

Mas há um filme aqui. E interessa vê-lo, para lá do embrulho do marketing e as opiniões descerebradas opostas das massas.

Há coisas fortes evidentes aqui. Uma é a forma como Cameron ultrapassou Zemeckis na forma como atinge um certo realismo que cresce de pessoas reais, abstraídos para a animação, apenas para nos serem devolvidas como personagens animados realistas; aquele jogo que Zemeckis tentou no Polar Express. Este filme ultrapassa o que tinha sido feito até agora. Não sei qual será o interesse futuro destas emulações da realidade através de meios puramente digitais, há assim tanto para ser explorado com interesse? Mas este filme é o ponto alto até agora.

Outra coisa é a forma como o filme cimenta o que Peter Jackson tinha feito com King Kong, e que vários filmes de acção trabalharam desde então: filmes de acção são peças espaciais hoje em dia. Isso já é um lugar comum, e será ainda mais no futuro. Um filme de grande escala de acção/épico/guerra(?) que não considere a ocupação espacial vai parecer datado e frágil. É aí que entra o interesse do 3d. Nas minhas poucas observações ao cinema em 3d já notei como as suas possibilidades maiores estão precisamente na forma como o 3d realça e cria espaço, espaço físico, construído com distâncias, onde a acção acontecerá. Por isso, a floresta de Pandora, está construída para ser explorada espacialmente. Desde o início, na cascata, a batalha para destruir a grande árvore, e basicamente toda a acção que toma lugar aí. O 3d é uma adição interessante para o que uma mente preocupada (ou grupo de mentes) pode fazer. Espero que se torne uma ferramenta utilizável pelas mentes de autor bonitas que há no mundo (quem me dera que Welles estivesse aqui para usá-la).

Os riscos foram reduzidos ao mínimo. A história é simplesmente clichá, reconhecível, e por isso comestível, sem se tornar gritante e insuportável. Aqui o filme segue a lógica de mercado de Selznick, a de promover produtos que são parecidos com algo já visto e aceite pelas audiências, apenas a uma escala maior e melhor promovidos.

Mas a rodear esta frágil história de bem-mal, há pedaços de reflexividade, conscientes ou sem intenção, que tornam o processo de reflectir sobre este filme delicioso. O aspecto mais visível, e assumido, é como o filme está para nós como o avatar no filme está para o seu dono. Nós escavamos a realidade do filme da mesma forma que os 3 utilizadores de avatares escavam a realidade de Pandora. Corpos falsos, realidades internas, como se descer cada nível fosse o equivalente a subir a grande árvore. Uma coisa que parece não intencional é quando consideramos os comentários no filme (sociais, ecológicos, morais) contra as contradições que o próprio filme exibe. Gira a roda do tipo bom-tipo mau. Por fim assume o “general americano” como o tipo sádico e destrutivo, que comete o mesmo tipo de crimes terroristas que um dia ele perseguia. Mas depois, as ferramentas que o filme usa para atingir o final feliz desejado, que respeita a “alternativa” da cultura nativa, são exactamente as ferramentas que os terroristas vencidos estavam a usar. O filme é em si mesmo uma história de bem-mal, não o contentor para conhecimentos acumulados, como a árvore das almas que colecciona as vidas de cada ser humano passado.

considerem a experiência visual. Não é radical mas é um ponto de situação das melhores ferramentas que temos hoje em dia, para explorar os mundos emergentes da animação digital e do 3d. Apreciem a autoreferência se quiserem, mas não se deixem guiar pelas opções pouco corajosas e inúteis.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb

Hwal (2005)

“Hwal” (2005)

IMDb

tranquilidade que grita

Somos nós que decidimos onde nos devemos apoiar, enquanto divagamos pela vastidão de filmes e arte que experimentamos. Kim Ki Duk é um dos portos que mais procuro, hoje em dia. Para mim, Bin Jip é transcendente em vários sentidos. É um esquisso de amor, uma ideia linda, de ver sem olhar, sentir sem tocar. Permite-nos tentar coisas, na mente, retirar-lhe o ruído da habitual pornografia emocional, e elevar-nos a um mundo diferente. A minha experiência, tanto de Bin-jip como com este foi realçada pelo facto de ter sido uma experiência partilhada, com alguém muito importante (bin-jip foi mesmo sugerido por ela).

Suponho que isto é uma questão pessoal, mas para mim, embora Bin-jip tenha muito que ver com este filme, supera-o em todos os aspectos. E não deveria. O que quero dizer é que este, na raiz, tem muito mais que ver com aquilo que trata. Deveria ser um passo em frente, em relação ao outro. Isolamento. o velho e a rapariga, totalmente separados apesar de partilharem o mesmo barco, a mesma vida, o mesmo quarto! O velho não toca na rapariga, mas dá-lhe banho todas as noites. As perturbações que ultrapassam a tranquilidade da visão. Metáforas, o Arco, a corda. Este filme está construído com oposições, ou melhor, contradições. Mas o resultado é semelhante nos dois filmes. O casal consuma o amor quando o velho desaparece. A mesma filosofia de não tocar, aqui alcançada com uma cena mais espectacular, em que o sexo é consumado quando o velho desaparece no mar.

Por isso, isto é um porto seguro, uma viagem bonita, e se não esperamos nada daqui, teremos muitas coisas boas. Comparado com Bin jip este filme é ainda mais depurado, e toda a imagética está mais trabalhada e desenvolvida. Por isso o filme resolve as queixas que eu tinha de bin jip. Mas é menos subtil, menos desenvolvido e, por isso, menos desafiador.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb

Moon (2009)

“Moon” (2009)

IMDb

escavação mental

Estou convencido que nenhum género está tão ligado à realidade das nossas vidas como a ficção científica. Os níveis de abstracção contextual e abstracta requeridos pelo género são tão altos que só se pode fazer boa ficção científica se a enraizarmos na essência do que somos, fora da vida do filme. É-nos retirado o conforto de reconhecermos lugares (a maioria das vezes),  de compreender ambientes, contextos, formas de viver. Mas ainda nos ficam as pessoas, ou seres que as representam (planeta dos macacos) ou ainda melhor, um ambiente, e contexto, que sugerem o estado de alma das pessoas. É essa a nossa ligação, o nosso portal para qualquer mundo de ficção científica bem construído. Méliès. 2001. Blade Runner. Agora este. Este filme é uma grande entrada na filmografia de 2009, e eventualmente o melhor acontecimento na ficção científica desta década.

O filme é uma espécie de 2001+Blade Runner, duas linhas da ficção científica que ainda não tinha visto misturadas, e duvidava que pudesse ser feito. É melhor que isso. Não se misturam. Apenas nos fazem crer que se mistura. O filme engana-nos todo o tempo, põe-nos no mesmo tipo de inconsciência que Sam Bell estaria a sentir. Por isso, o filme é aquilo que nos conta.

1 – é aqui que começamos; imagens minimalistas, à 2001, do espaço. Espaços abertos, vazio, isolamento, meditação. É o ponto de partida. o homem e a máquina (Sam e GERTY). Somos levados a crer que vamos assistir a uma batalha pelo controlo, quem ganha, quem controla? quem engana quem?. O que está a máquina a esconder? Está a esconder algo? O poder sobre o controlo narrativo da história, é do que isto trata.

2 – Mas logo são incluídos os duplos de Sam na história. Verdade ou mentira? estamos a ser enganados? São os duplos reais ou um produto da imaginação de Sam? há alguma coisa do que vemos que seja real, ou já estamos na imaginação alucinada de um homem isolado e com saudade de casa?

(spoilers aqui)
3 – a resolução do ponto anterior. Sim, os duplos são reais, fisicamente reais, pelo menos tudo indica. Por isso, se cada clone é Sam Bell, se cada clone tem o mesmo passado, quem é Sam Bell? Quem é cada um daqueles seres humanos, que partilham entre eles as mesmas emoções, os mesmos sentimentos, as mesmas recordações. Aqui entramos totalmente no território Dick/Blade Runner. replicantes. aqui temos o reverso da história de Blade Runner, o mundo segundo os replicantes. Não uma representação dúbia sobre se Harrison Ford era ou não um replicante, ao invés temos uma exploração dura daquilo que ser um significa. Memória inventada, emoções induzidas. E o que todas essas coisas significam para nós, seres humanos.

Todo o trabalho visual tem uma coerência com o que está a ser dito. Não há referências visuais que se superiorizem a outras, e isso até é uma coisa boa. Podemos ter um grande novo realizador aqui. Sem dúvida que temos um filme bom.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb

Hard Times (1975)

“Hard Times” (1975)

IMDb

o que é que foi assim tão duro?

Esta é uma representação desinteressante de um tempo e contexto fascinantes, a depressão nos EUA. É um tema totalmente cinematográfico, e várias coisas permitem isso. Foi um tema vastamente trabalho em filmes, por isso é parte de um certo nicho da memória cinematográfica, há um par de clássicos passados na depressão (intocáveis, rosa púrpura…). Por isso há uma picturização visual desse tempo, que conta para a forma como as pessoas vão reagir ao filme. Para além disso é um período dramático, porque todos os personagens potenciais são pessoas normais, cheias de dificuldades extra, pobreza, falta de oportunidades, um inferno vivo. Eles ultrapassam essas dificuldades, lutam contra a lama do desespero e lutam por uma vida melhor. Conflito, resolução, batalhas… é este o alimento do drama. E podemos colocar qualquer coisa nesse recipiente: romance, heroísmo, desporto, fantasia (woody outra vez).

Por isso, a própria descrição daquilo que para mim torna os filmes baseados na depressão interessantes por princípio, retira o interesse a este filme. Isto porque, afinal o que é que foi tão duro naquilo que vimos aqui? O tipo é forte, consegue derrubar qualquer um, todas as tímidas e vergonhosas tentativas para ultrapassar a superioridade dele fora do ring falham… Ok, ele não fica com a rapariga, mas também, na própria perspectiva de Bronson, é só uma rapariga, ele prefere estar só. Ele tem um amigo, e a amizado é testada, mas facilmente salva. Por isso, no final ele leva uns murros, muito dinheiro, e afinal a lama da depressão é uma terra fácil de oportunidades, o el dorado dos conquistadores espanhóis.

O que falhou é que eles centraram a coisa ao redor da suposta dureza de Bronson no ecran. O herói americano, trabalhador incansável, tipo duro, um John Wayne adaptado aos anos 70. A verdade é que não funciona porque ele não é um tipo interessante, ou pelo menos não foi convenientemente usado aqui, e a produção não ajuda. Até o Rocky é mais sedutor e convincente.

A minha opinião: 1/5

Este comentário no IMDb

Black Rain (1989)

“Black Rain” (1989)

IMDb

Visão e preconceito

Há várias coisas aqui, que fazem este um filme não especialmente interessante, mas um que sublinha as características do tempo em que foi feito, e de alguns dos participantes nele:

.acção dos anos 80: tenho visto uma boa dose destes filmes designados como “acção” dos anos 80. Cresci com eles, o meu primeiro modelo do que acção significa derivou daqueles filmes de heróis duros (siegel, stallone, van damme, schwarzenegger) e as aventuras fantasiosas da linha Spielberg (que inclui Zemeckis). Ao revê-los, várias vezes tenho de redefinir o que acção significa. Sobretudo porque em muitos deles, temos um par de acção física real, e uma enorme dose de diálogos engraçados. Por isso, nos anos 80, acção e comédia são uma mistura aceitável. Não tanto aqui, claro, mas o filme é ainda assim um subproduto das influências que as audiências ainda estavam a aceitar nessa altura.

.no seguimento do que digo acima, é fundamental notar como tudo aqui é submetido à visão de Ridley Scott. O tipo é fantástico e concebe visualmente as coisas, à escala mais larga que o filme permite, considerando o arco mais alargado que todos os filmes deveriam ter. Mesmo hoje, ninguém a trabalhar actualmente faz isto melhor que ele. Aqui creio que ele tentou embeber o filme numa decadência derivada de Blade Runner. Claro que é outro contexto, e definitivamente outro guião! Mas vejam como cada plano é cuidadosamente enquadrado, para não valer (apenas) por si mesmo como, por exemplo, Bertolucci poderia fazer. Cada sequência é encadeada com todas as outras. Essa é a grande forma. É o melhor deste filme.

.Douglas não é particularmente interessante como actor, mas ele é um personagem na vida real, e eventualmente conseguia passar isso para os personagens dele. O exagero da actuação terrível de Garcia (parcialmente compensada por Scott que não deixa os actores parecerem tão mal) sublinha o personagem de Douglas no ecran. Bem, este é um prazer limitado de ver, mas tem a ver com o que se pretendia.

.Hollywood, e a perspectiva deles sobre grupos étnicos ou culturais fora do mainstream americano: fico contente que, pelo menos para mim, este filme soe terrivelmente racista e sem qualquer interesse em sair por um momento dos clichés comuns. Pelo menos isto significa que eu já saí desse buraco e sinceramente, creio que isto já não se faz hoje. Temos outros clichés, outros preconceitos, que provavelmente eu estarei a detectar daqui a 20 anos. Mas o que temos aqui é triste. Então, os tipos maus são os japoneses, os da Yakuza são simplesmente malévolos, os outros, os bem intencionados, são simplesmente incompetentes. E então os 2 americanos compinchas têm de ir ali, quebrar todas as concenções japonesas, para mostrar-lhes como eles podem ser razoáveis e justos. É isso não é? “É só um film”, dirão alguns, Reflecte recantos escuros da estupidez humana, digo eu.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve