Arquivo de Outubro, 2010

Beverly Hills Cop II (1987)

“Beverly Hills Cop II” (1987)

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comédia de acção

Há 10 anos atrás eu via estes filmes e tinha uma sensação diferente. É que há 10 anos os anos 80 ainda estavam demasiado próximos para os sentirmos com a nostalgia que lhes pomos hoje. Mas agora isto é vintage. E desde a banda sonora, às roupas, à construção visual do filme, isto é tão anos 80 como, por exemplo, o Top Gun. Todas essas noções de estilo, que agora estão ultrapassadas, eram fortíssimas aqui. Aquelas silhuetas colocadas contra crepúsculos laranjas, isso era tão típico. Estilo é uma das noções principais exploradas aqui. Penso que funciona, tanto que ainda hoje nos conseguimos relacionar com esse estilo à distância, mesmo se já não funcione com a nossa forma contemporânea construir estilo.

A outra ideia forte aqui era a de misturar acção e comédia, que penso que nunca tinha sido tentado antes desta série. Mas no primeiro era mais comédia que acção. Este realmente faz a mistura. E funciona porque temos Eddie Murphy no seu melhor, explorando a comédia facial e explorando noções de raça (“is this a black thing”). E funciona porque construiu uma fórmula tão bem sucedida que foi muitas vezes usada depois deste (neste mesmo ano tivemos a Arma Mortífera). É esse o mérito deste Beverly Hills Cop. Tudo o resto são truques normais para encher. Mas esta noção é suficiente para o apreciarmos.

A minha opinião: 3/5

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Made of Honor (2008)

“Made of Honor” (2008)

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sem disfarce

Estes filmes têm tudo que ver com a sua própria forma. Filmes de romance, comédias românticas, como queiram chamar-lhes.

Eu nunca procurei realmente a origem da fórmula como ela tem sido apresentada nos últimos, pelo menos, 20 anos. As suas raízes vêm certamente de antes disso e podemos descobrir algures onde tudo começou. Esta tendência de que falo faz as coisas acontecerem de forma linear, e desta forma: homem conhece mulher, eles apaixonam-se, e são felizes. Algo acontece e eles ficam separados e destroçados; algum desentendimento, alguma discussão. No final eles reencontram-se, depois de quase se perderem para sempre, e reafirmam o seu amor, quase sempre num local público (estádio, rua cheia de gente, igreja…). Este é o esqueleto básico, e sobre ele, os produtores normalmente fingem mudar alguma coisa, para que possam dizer que estão a fazer algo novo, enquanto nos dão rigorosamente aquilo que já foi feito milhares de vez antes e que é, na maioria dos casos, o que as pessoas querem ver.

Nos últimos anos, tivemos alguns filmes que, apesar de obedecerem mais ou menos à fórmula, fizeram experiências realmente interessantes sobre ela (O Amor Acontece e Across the Universe vêm à mente). Isso foi muito bom, porque começamos a ter uma pequena plataforma de experimentação construída em torno de um género tão quadrado, onde as audiências não admitem a menor surpresa. Por isso, o que choca neste filme, não é que seja totalmente formulaico, mas sim que nem sequer o tente disfarçar. Isto não é o esqueleto do género comédia romântica coberto com alguma pele inventada, isto É o esqueleto, como se fosse um vídeo educativo mostrado na “escola de comédias românticas” para ensinar aos estudantes os rudimentos do ofício.

Há um único desvio do esquema, que na verdade até podia ser bastante interessante: o homem e a mulher Não se apaixonam até quase ao final. Apesar de sabermos desde o início que eles estão destinados, eles não sabem, e vivem o seu amor como uma amizade pura até que ela encontra um amante (a forma como ela o conhece é tão ridícula que eles nem mostram a cena). Isto poderia ter sido bonito e carinhoso, mas o período de tempo entre que eles se conhecem até ela ficar noiva está comprimido nuns 10 minutos de filme.

Gozam com os escoceses aqui. Muito. Normalmente é um desporto nacional de antigas colónias gozar com os seus maiores colonizadores. Estranhamente, apesar de os ingleses serem gozados também pelos americanos, são os irlandeses, os escoceses e os franceses(!) os que levam com maior agressividade. isso é estranho. suponho que os ingleses fizeram bem o seu trabalho de lavagem cerebral.

A minha opinião: 1/5

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Zelig (1983)

“Zelig” (1983)

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Citizen Puzzle

Esta é uma grande experiência, que oscila entre território woody allen puro e as ideias sérias sobre filmes que ele sempre tem por trás de todos os filmes dele, mesmo os falhados.

Aqui ele coloca-se aparentemente no meio de uma exploração narrativa que Welles começou com Kane. Mas apenas aparentemente. Em Kane, tínhamos vários pontos de vista da mesma história, naquele caso a história era a vida de um homem. Cada ponto de vista vinha da perspectiva directa de um narrador específico (um filme noticioso, a ex-mulher, o melhor amigo…). Quebrou uma data de regras e, junto com o trabalho visual impressionante de Toland/Welles, mudou o rumo do cinema, todos sabemos isso.

Este Zelig também usa elementos visuais de fontes aparentemente distintas para montar uma história. Também tem uma colaboração com um dos melhores cinematógrafos de sempre, cuja parceria com Allen produziu um número de filmes de qualidade inultrapassável (incluindo o incrivelmente sensível Manhattan, rejeitado pelo próprio Woody!). A história aqui também é a vida de um homem. E essa vida é também altamente auto-biográfica em relação ao seu autor/actor, tal como em Kane.

Mas há algo aqui fundamentalmente diferente. Cada meio diferente, cada tipo de linguagem visual está aqui para nos dar mais sobre uma história. Cada pedaço completa os outros, nunca compete com eles. Por isso a estratégia narrativa é que o narrador (um único narrador) colabora aparentemente com a audiência para mostrar a história que se propôs contar. Por isso é que a forma do documentário falso encaixa perfeitamente. São utilizados todos os tipos de documentários de televisão banais, desde testemunhos de pessoas agora velhas a velhos filmes de notícias dos anos 20. Visualmente, está bem cosido tudo, e admito que provavelmente foi muito difícil manter o ritmo de um filme assim, porque esta forma serve perfeitamente quando temos histórias reais, onde o interesse de querer saber a história faz-nos querer continuar a ver. Mas isto está bem feito.

Sempre que nos desviamos destas regras que Woody estabeleceu para este filme, entramos no território da comédia dele. De todos os pedaçoes, as sessões do quarto branco com Mia Farrow são os mais engraçados, também porque saímos da ficção e vemos a paixão de Woody nesses dias.

A minha opinião: 4/5

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Arena (2009)

“Arena” (2009)

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grande forma na embalagem pequena

Este filme é especial em Portugal, para os portugueses. Porquê? Simplesmente porque ganhou um prémio em Cannes. Ninguém conhecia o realizador, muito novo. Por outras palavras, alguém fora de Portugal considerou que um português fez um bom trabalho, suficientemente bom para receber a palma de ouro para melhor curta. Isto atinge em cheio as cabeças e os genitais dos portugueses: o gajo tem de ser bom! Estranhamente, o frenesim criado à volta do prémio não foi suficientemente forte. Um ano depois já ninguém falava de Salaviza em Portugal. Muito poucos viram o filme. E no entanto aqueles que ainda se lembram do nome do tipo “sabem” que ele é bom. É assim que funciona por aqui. Por isso é que o trabalho criativo interessante tem uma dificuldade imensa de sair da obscuridade e conseguir algum tipo de visibilidade: simplesmente não há palmas de ouro suficientes para premiar tudo o que tenha um mínimo de interesse em Portugal.

Provavelmente, eu não teria sabido da existência do filme se não tivesse sido pelo prémio. E definitivamente ele não teria sido passado nos cinemas antes de um filme de massas se não fosse por isso. Isso é triste. Mas em todo o caso, quis vê-lo. Não quis ser um membro da manada do frenesim sem saber de que é que estava a falar.

O filme É interessante. Realmente acho muito difícil criar uma estrutura interessante numa curta. Parece-me que é mais difícil construir um enredo curto que conduza as audiências do que uma longa. Isso porque as histórias são normalmente o que faz o espectador seguir o filme. E as curtas simplesmente têm de enveredar por muitos atalhos, faz parte da sua natureza. Por isso muitas delas simplesmente desistem de tentar “contar uma história” e tornam-se filmes “conceito”, ideias abstractas exploradas através de alguns temas visuais apelativos. Nesse contexto, este filme tem o valor de possuir uma verdadeira narrativa. E a sua força está em como, em forma curta, segue a sua história ao mesmo tempo que cai num ambiente meditativo, contemplativo, que certamente era uma preocupação aqui. O tema é pesado e as actuações são surpreendentemente impressionantes!: controladas mas intensas. Isso foi o melhor.

Visualmente parece-me que o filme foi um laboratório para o realizador/equipa. Entre vários planos inteligentemente concebidos, destaco um, no topo do edifício, quando a vâmara baixa e move-se lateralmente de forma ligeira; começamos com um enquadramento que é sobretudo construção e um pouco de céu (e o nosso personagem no meio) e o movimento subtil da câmara faz o enquadramente alterar-se até termos apenas o céu azul e o torso/cabeça do personagem. Muito bom.

A minha opinião: 3/5 bom dentro dos limites que as curtas têm para os contadores de histórias.

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The Expendables (2010)

“The Expendables” (2010)

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durões

Em geral, isto era o que se esperava. É um filme sobre tipos duros, apropriadamente velhos e antiquados, de acordo com os padrões de hoje. Segue cada cliché dos filmes antigos, e mesmo as cenas de acção de cada actor espelham o que nos lembramos de os ver fazer no passado. Conseguimos até perceber qual era o personagem que era suposto ser representado por Van Damme!, baseado nas sequências de acção (o pontapé voador, saído do fogo). Temos as motivações de amor que eram bastante comuns em todas as raças da acção dos anos 80, desde Chuck Norris até Stallone. Mas era isso que todos esperavam não? Aqueles que foram ver este queriam ver a falsa dureza destes gajos, agora velhos. Foi uma viagem no tempo, não estávamos a ver os velhotes, estávamos a ver a memória deles, uma caricatura deles. E ter esta espécie de “velhas glórias” foi como ver o Batman, o Super Homem e o Homem Aranha na mesma história.

Mas para lá disso, houve coisas interessantes aqui. Uma delas, a menos notável, foi a adaptação de estilos de acção antigos (grandes músculos, poses físicas, murros duros) a um olho moderno para a acção, em que somos levados para o meio da luta. Num certo sentido foi uma espécie de Statham versus Stallone. Isto foi bem feito, parece-me, embora seja um pouco impossível juntar os dois. É como pôr o Chaplin num filme dos Monty Pyton. Mas é interessante ver como Stallone, o realizador, se actualiza.

Mickey Rourke é o único actor verdadeiro aqui. Todos fazem o que se espera deles, e arriscam zero, fora daquilo que todos sabem que eles farão. Mas Rourke teve uma vida verdadeira, e os pedaços dele são o melhor do filme, aqueles em que sentimos que estamos a ver um filme, e não uma colecção de clips de porrada. Por isso é que ele estava aqui, para termos uma dimensão de actuação real no filme. Também por isso é que eles não puseram o personagem dele a lutar, nem o fizeram morrer por qualquer estúpida vingança. Gostei que não o tivessem feito.

Stallone+Willis+Arnold. Funciona, porque é o que sabemos que é: a colagem do mundo real do político Schwarzenegger, que invade o espaço do antigo actor Schwarzenegger, e isso activa algo nos espectadores que causa risos irresistíveis mas estúpidos (eu ri-me). O filme aguenta isso, como um troço isolado.

Podia ter tido Van Damme, Seagal, Snipes… e mais alguém que me estou a esquecer. Provavelmente teria sido uma caricatura melhor, mas um filme pior. Como está, é equilibrado.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve