Arquivo de Fevereiro, 2010

Re-Animator (1985)

“Re-Animator” (1985)

Fantasporto 2010

IMDb

homenagem reflexiva

Esta foi a primeira parte de uma sessão dupla que terminou com Braindead. Teve piada, muita piada. O motivo porque nos rimos com filmes destes tem a ver, creio, com o facto de compreendermos de que forma são quebradas as convenções cinematográficas. por outras palavras, se eu nunca tivesse visto nenhum filme gore “sério” antes, este pareceria simplesmente estúpido.  Isto significa que temos uma comédia agarrada a um género específico, e que joga com ele. Bem, são-nos dados absolutamente todos os elementos que é suposto termos neste género: zombies, montes de sangue, representações gráficas de tripas, a mulher objecto, que necessariamente terá de perder as roupas e ser o catalisador dos desejos de basicamente toda a gente (menos o inventor). São-nos dados esses elementos no sítio certo, e ordem certa, e com o peso certo, de acordo com o que esperamos do género. Mas nós simplesmente rimo-nos deles, tal como os realizadores ao fazer o filme. Este filme não brinca com o género (como por exemplo o novo Thirst, de Park Chan-Wook faz), ao invés desenha uma caricatura do género, e isso também é uma boa experiência.

Este re-animator tem um interesse especial, básica e simplesmente porque está bem feito. Ao contrário da vasta maioria dos tipos que fizeram este tipo de filmes, Stuart Gordon tem um olhar cinematográfico. Interessa-lhe a forma como cada plano está construído, e isso acaba por beneficiar a experiência. Uma vez mais por outras palavras, o filme interessa como cinema, em vez de ser apenas um artefacto para os amantes do sangue gore apreciarem a forma como alguém modelou os intestinos que ganham vida na cena final. Alguns momentos, intencionalmente ridículos quando descritos, resultam incrivelmente engraçados pela forma como são filmados. O melhor exemplo é um plano em que temos, num único enquadramento, a metade do corpo nu da protagonista. Vemos os seios dela, a serem manuseados pelas mãos do corpo sem cabeça. Mesmo ao lado da rapariga vemos a cabeça, numa travessa, com olhares de prazer! é incrivelmente visual, tanto que estou a rir-me só por me lembrar desse frame. Para lá disso, a fluidez da câmara ajuda todo o filme.

Por isso no final, este filme não tem o sumo de outros filmes que jogam, torcem e voltam a dar-nos um género, em vez disso cai num grupo maior de filmes que são “homenagens”. Este é uma homenagem bastante decente, e certamente vão-se rir com ele.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb

Anúncios

Braindead (1992)

“Braindead” (1992)

IMDb

ketchup reflexivo

O que motiva estes filmes de série b é, antes de tudo mais, pura paixão. Paixão pela concretização deles, paixão no processo, o de inventar formas simples e baratas de representar ideias loucas. Parece-me que é aí que o enamoramento pelo gore começa, no como representar adereços que obviamente não podem ser reais. No início, tudo isto pode realmente ter nascido da frustração de querer fazer um filme sem ter o orçamento para isso. Mais tarde, o aspecto barato desses filmes criou uma base de fãs, e uma tendência. Por isso, da mesma forma que alguns tipos hoje em dia (incluindo eu) filmam super8 porque querem o grão, o aspecto, e um processo obsoleto na idade do vídeo, também muitos realizadores procuravam (e ainda procuram!) o estilo série b, porque adoravam os antigos, queriam apaixonadamente fazer um filme, e não tinham dinheiro suficiente para isso.

Eu vi este Braindead, em sessão dupla com o brilhante Re-animator. Juntos, estes dois filmes, mais o ambiente de festival na sala onde os vi, deram-me uma das minhas noites de cinema mais divertidas de sempre. Uma dessas em que ver um filme tornou-se tanto uma actividade colectiva como o próprio processo de o fazer. Risos colectivos, não planeados, espontâneos, uma sensação de relaxe diante das piadas. Tudo foi realmente memorável. Por isso suponho que o espírito dos criadores dos filmes foi totalmente transposto para a audiência naquela sala, eu incluido. significa que ambos os filmes funcionam.

Há, no entanto, algumas coisas interessantes a considerar: este filme é de uma série b consciente, ou seja, quem o fez sabia que estavam deliberadamente a fazer um filme temático, de aspecto barato. Isto foi em 1992, por isso faziam-no para audiências que a essa altura já estavam desabituadas da pobreza que seria tolerável quando, digamos, Corman, ou mesmo Ed Wood, faziam filmes. Por isso, desde o início que os cineastas estão a pistar o olho ao estilo que emulam, eles planeiam piadas baseadas no efeito que sabem que terão nas audiências. É sobre essa base sólida que toda a (imensa) piada está. Isto não é do tipo “oh não temos dinheiro suficiente para todos estes efeitos, vamos tentar o melhor e ver o que sai”. Isto é mais do tipo “sim, vamos fazer uma coisa que parece falsa, bizarra, ketchup, as pessoas vão-se rir”. Por isso num certo sentido, Braindead, Re-animator, ou as séries Evil dead, fazem ao filme zombie de série b o que Leone fez ao western americano, ou Besson aos filmes de acção. Estes filmes colocam-se naquele mundo doce da ironia e auto-consciência. Muito bem. o resto, terão de ver, uma sinopse de um filme como este soaria totalmente ridícula, assim como a descrição de praticamente todas as cenas.

Ainda assim, realço dois pedaços: um é a primeira cena. Que grande cenário que usaram. Nunca estive na Nova Zelândia por isso não sei o difícil que foi encontrá-lo, ei se calhar até está em todos os guias turísticos. Mas realmente apreciei a forma como o Peter Jackson filmou a sequência, no meio daquelas rochas enormes.

As caras. A forma como ele filma os poucos planos de intimidade entre os personagens principais. Dá a sensação que usou grandes angulares, próximas das caras. Em todo o caso, ele conseguiu grandes momentos, de intimidade cinematográfica, e a câmara segura à mão permite-o. Surpreendentemente bom, no meio deste banho de sangue.

a stop motion com o rato macaco é incrível. E o padre ninja também! E a actuação facial de Timothy Balme.

o que não funcionou tão bem foi o controlo do arco maior do filme. Algumas sequências são demasiado extendidas, e num filme de zombies, demasiadas pernas e braços cortados tornam-se aborrecidos a determinada altura.

A minha opinião: 4/5

Este comentário no IMDb

X-Men: The Last Stand (2006)

“X-Men: The Last Stand” (2006)

IMDb

conteúdo zero, efeito ainda pior

é triste quando um franchise como este confunde as próprias fundações da mitologia da banda desenhada ao ponto de a fazer irreconhecível nos seus elementos gerais. Sinto-me tranquilo a escrever sobre isto porque nunca segui a bd, o meu contacto com os x-men sempre chegou das séries de tv, e dos filmes.

Os x-men estão baseados numa metáfora da diferença. Porque temos características diferentes, isso não significa que seja mau. Temos de nos conhecer, e viver com isso. Em última análise, todos somos mutantes, que temos que assumir quem somos. Compreender a nossa “diferença”, e as nossas fraquezas, e explorá-las. Por isso, o ser humano normal nas séries é o tipo que normalmente não lida bem com a diferença. Simplesmente não a vai compreender. É aí que aparece a história mutante vs humano. E claro, mutante vs mutante, porque alguns mutantes também não compreendem nem lidam bem com a rejeição. No caminho, temos montes de efeitos, características diferentes, asas, adamantium, poder de controlar o clima, mutantes psíquicos, magnéticos, etc etc. as possibilidades são intermináveis.

Mas aqui, está tudo misturado, mutantes manipulam mutantes, e aparentemente cada facção está “apenas” a cobrir as suas próprias costas. Não há aspirações mais largas, não há intenções maiores. É-nos inclusive retirado o mentor da “ideologia da diferença” relativamente perto do princípio, Xavier. Tudo é transformado numa simples versão de acção, esvaziada na sua cosmologia original, bastante pobre em termos de sequências visuais, mas ainda assim tão caro que não podemos olhar para ele como o trabalho honesto de uns amantes da série b. Por isso, não nos resta nada aqui.

A minha opinião: 1/5

Este comentário no IMDb

How to Lose a Guy in 10 Days (2003)

“How to Lose a Guy in 10 Days” (2003)

IMDb

diamantes baços

Deve ser muito ingrato para alguém com alguma ambição artística em cinema fazer uma comédia romântica que apele a uma larga audiência (aqui está um pleonasmo). Isto porque a comédia romântica é provavelmente o género com mais regras a seguir. Tudo tem de ser totalmente concebido para que a audiência acredite que estão a ver algo fresco, que pareça novo, mas que no entanto corresponda ao que se espera. No que toca à minha experiência pessoal com este tipo de filmes, há 2 coisas que conseguem redimir filmes destes: ou as linhas e momentos cómicos são excepcionalmente bem feitos e cativantes, ou os personagens ou actores/figuras públicas estão envolvidos numa aura de glamour e personalidades interessantes, do tipo Cary Grant ou Audrey Hepburn ao longo das suas carreiras, ou Roberts em Pretty Woman. Há uma terceira opção, que é tentar abalar o género, como por exemplo os Coens fizeram em Crueldade Intolerável, mas isso é bastante difícil, e quase nunca tentado.

Para mim este filme não funciona bem em nenhum dos 3 níveis que descrevi acima, e por isso desvanece-se e falha. É um filme onde ambos os personagens são actores. Ambos fingem para o outro, e aí está a piada. Até é um ponto de partida interessante, mas os actores têm de colaborar. O problema é que McConaughey é um desastre absoluto em todos os pontos. Ele simplesmente não sabe actuar, e tenta disfarçar isso sob o seu sotaque exagerado e o seu próprio sentido de personalidade pública, que é, para mim, um enorme vácuo. Kate Hudson é dona de algumas poses, e sabe sorrir e mostrar a cara bonita. Para lá disso, também não podemos contar com muito dela. Resta-nos alguns pedaços engraçados, permitidos pela escrita, pelas próprias situações em que os personagens se encontram.

Alguns pedaços funcionam bem para encher tempo, mas não vale a pena ver este filme.

A minha opinião: 1/5

Este comentário no IMDb

O Xangô de Baker Street (2001)

“O Xangô de Baker Street” (2001)

IMDb

comédia por camadas

Quando temos boa escrita, não é preciso muito mais para termos um bom filme. E este filme tem uma escrita excelente. Estou a falar dos diálogos, são perfeitos na forma como evocam a sociedade pequeno burguesa desprezível do Rio de Janeiro imperial, que na verdade espelha a mentalidade contemporânea de brasileiros (e portugueses!). Jô Soares é uma bom escritor de comédia, que aborda temas e contradições grotescas da sociedade, e refá-los sob a forma de caricaturas interessantes.

Ele não é um verdadeiro argumentista de cinema, e a sua grande experiência (e qualidade) é como escritor para televisão, que basicamente significa que ele escreve episódios, sem uma forma maior. Mas aqui esses episódios que ele escreveu no romance funcionam porque ele usou inteligentemente alguns poucos elementos na história que ligam tudo, e esses elementos são em si engraçados de uma forma indirecta, ou seja, se souberem algo sobre o Holmes, o Estripador e a Caipirinha, vão sorrir com isto.

Por isso tudo aqui é uma piada. Os “crimes” são uma caricatura, a história do Stradivarius é crítica social, o serial killer é engraçado, e as deduções intermináveis e inúteis do Sherlock são tão estranhas e ridículas como as próprias situações que ele investiga. Se Holmes era na origem uma caricatura de um certo tipo de forma ultra lógica de ver o mundo, então este Holmes é a caricatura de uma caricatura. Watson é o que é suposto ser. A ligação ao estripador é inteligente, e a voz off que narra tudo completa a ligação entre cada episódio cómico solto. O assassino escreve literalmente a história, este é sempre um truque confiável.

Uma nota importante é a forma como os realizadores investem o filme com um sentido de lugar. Porto, Portugal, a funcionar como o centro histórico do Rio no século XIX. Há em geral localizações interessantes, e uma em particular; a livraria, é um grande espaço. É realmente uma livraria, localizada no centro do Porto. Tem umas escadas incríveis em serpente bicéfala, que poderiam até ter sido melhor usadas, mas o espaço está cheio de um sentido romântico e eclético. Tem um ar de mistério. Na verdade poderá até ter sido usada para modelar alguns cenários Harry Potter (Rawling viveu no Porto). Apreciei as escolhas.

A minha opinião: 4/5 vejam este.

Este comentário no IMDb

U Turn (1997)

“U Turn” (1997)

IMDb

Oliver às portas do país das maravilhas

Não tenho grande consideração por Stone, e a maioria dos seus filmes. Ele parece ser um desses tipos aborrecidos que só falam para serem ouvidos, que só acham significativo que outras pessoas estejam à sua volta para que possa concordar com o que ele está a dizer, acenar afirmativamente, dando-lhe a ovação que o seu intelecto brilhante merece. Na verdade penso que há um número significativo de realizadores (e outros artistas) que caem neste tipo de categoria. Suponho que estar permanentemente a tentar formar uma opinião acima das mentes médias fá-los pensar que eles mesmos são diferentes das massas banais. Bem, algumas vezes eles são, e assim justificam a arrogância: Wenders, e Tarantino (por vezes). Outros são simplesmente personalidades egocêntricas. Stone é um deles. Todas as suas divagações políticas são teorias da conspiração que ele retrata como verdades inquestionáveis. Platoon é uma grande experiência, mas há pouco mais para lá disso.

Este filme, no entanto, merece alguma atenção. Não se enganem, a personalidade de Stone está aqui, e isto prejudica uma enorme parte da experiência. Mas há pessoas interessantes a trabalhar aqui, e foram corridos alguns riscos, mesmo por parte de Stone. Por isso apesar de no final este filme ser um falhanço, eu acho que é um falhanço valioso, quase glorioso, porque havia ambição aqui, e verdadeiro comprometimento para chegar lá.

Temos um contexto Coen, um em que um mundo normal nos dá respostas bizarras para situações estranhas. Começamos, junto com Penn, fora desse mundo. No início somos literalmente conduzidos para esse cenário físico louco, e também literalmente ficamos lá pendurados. E para lá da história que liga Penn a Lopez a Nolte, todos os personagens paralelos garantem-nos que o mundo é cheio de truques, bizarro, e não confiável. Isto é totalmente cinematográfico e é a melhor tentativa que se faz aqui. Os Coens são os actuais mestres disto, já o eram nessa altura. Penn faz um grande trabalho, como costume, neste caso representando a ambiguidade de se sentir fora desse mundo louco e ter de se deixar sugar por ele. O que quer que funcione aqui tem certamente a ver com ele. Jennifer Lopez na verdade não sabe actuar, mas eu até acho que neste caso isso jogou a favor do filme, porque ao não controlar a sua actuação, ela não nos permite ver através dela, e isso é uma coisa boa dado o personagem dela. Claro que ela é também um personagem físico, o corpo dela conta. Phoenix, Danes, Billy Bob, Voight. Cada episódio que os envolve depende deles como actores, por isso este é um filme sobre actuações, ainda que Stone não o quisesse assim tanto.

O que arruina isto é ver como Oliver Stone coleccionou tantos truques visuais, que usa indiscriminadamente, em cada momento. Aqueles truques todos de edição, de separar o que ouvimos do que vemos, mais os truques no filme para mudar cores por vezes. Stone pensava que isso seria suficiente para dar ao filme o ambiente que ele queria. Na verdade, alguns desses truques podiam ter sido muito poderosos, mas era preciso uma mente sensível para usá-los, não alguém que se olha ao espelho enquanto concebe o seu trabalho. Stone fez uma boa tentativa, quase conseguiu fazer-nos cruzar para o mundo que nos propõe, mas estragou tudo porque não conseguiu apagar-se do filme, o que permitira que tudo fosse totalmente uma experiência colectiva.

A banda sonora é o elemento mais focado que temos aqui.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve