Archive for the 'Espaço contido/unitário' Category

The Hospital (1971)

“The Hospital” (1971)

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o personagem maior

Tenho um grande interesse no trabalho de George Scott. Ele é único no contexto dos actores de cinema. Ele nunca abraçou a revolução do método tão profundamente como muitos actores americanos da sua geração, mas também não era um actor antiquado. A actuação dele, mesmo quando ele está perto de chegar ao exagero, é sempre fluída, e os filmes onde ele entra, mesmo que estejam datados em alguns aspectos, funcionam ainda hoje por causa dele (pelo menos). Ele é teatral no sentido em que as palavras, e não outra coisa qualquer, comandam a actuação. O fraseado dele apropria-se do texto e dá-nos todas as nuances que ele precisa para o filme. Ele transporta o filme.

Aqui temos todos os talentos somados a um guião inteligente, e um uso fantástico de espaço, de uma forma cinematográfica. O que temos é uma história de detectives caricaturada, sobreposta à vida de um detective acidental, sobreposta ainda a um cenário único e bem explorado. Sobre tudo isto, temos misticismo nativo americano, disfarçado na forma de uma mulher interessante no ecran. Por isso, tudo isto é uma história policial casual. Alguns assassinatos acontecem, poucas pistas são dadas. Seguimos esses assassínios desde um ponto de vista perdido, sem pistas que, no entanto, não coincide com o ponto de vista do médico atormentado, que actua parcialmente como um detective, até ao ponto de manipular a conclusão da história. Por isso, o truque narrativo engraçado aqui é a forma como o olho do narrador está agarrado ao espaço do hospital, mesmo que a história tenha mais que ver com a forma como o médico lida com os factos. Vemos a versão que o médico tem do mundo desde um ponto de vista externo a ele, e isto é interessante.

**spoilers** A certa altura uma mulher entra na história, uma besta mística e sensual, que nos desvia da história principal, até ao ponto em que descobrimos que ela tem (sem saber) a chave do enigma. E depois temos a história do médico consumido, suicida, sem esperança. Estas 3 linhas começam como linhas separadas que seguimos, ligadas pela acção do médico. A piada do guião é como no final estas linhas têm uma única conclusão: o assassino é o pai da mulher, e a mulher é o elemento que cura a depressão do médico. Por isso ele protege o assassino louco e tenta fugir com a mulher.

Ah, mas temos o hospital. Agora sabemos que esse era o grande personagem, todo o tempo. O médico percebe isto, e por isso é que não consegue abandoná-lo. A sua existência como personagem depende da existência desse hospital, como espaço. É esse espaço que manipula tudo o que acontece dentro dele, como se fosse aquele personagem de um filme de terror que nunca viste mas que sabes que está lá.

Reparem como isto é sublinhado pelos manifestantes. Eles estão fora todo o tempo, e tentam entrar, e à medida que o filme termina e a história se conclui, é a invasão do hospital que nos faz ter consciência do quanto estamos envolvidos com esse personagem agora. É o hospital, o tempo todo.

A minha opinião: 4/5

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Pickup on South Street (1953)

“Pickup on South Street” (1953)

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narrativa flutuante

Este filme não é revolucionário e não te vai mudar em nenhum aspecto fundamental. Mas é profundamente noir, e isso é algo que vale sempre a pena ver.

Temos uma história centrada num personagem que é o que sabe menos sobre o que se está a passar de todos os personagens. Ele é o único totalmente fora do enredo complexo pelo qual acaba por ser sugado, e no entanto é também o único que todos (polícia e comunistas) pensar que está em total controlo. Tudo lhe acontece a ele, e ele luta para controlar os eventos, mas acaba por ser varrido por eles.

Reparem nisto: ele entra literalmente na história ao escolher casualmente a bolsa de uma rapariga, roubando assim um filme muito importante. Ele não faz ideia da importância e valor do que tem, e actua segundo isso. Entretanto, ele tenta fintar tanto a polícia como os comunistas, usando a rapariga como mensageiro, como escudo. Ele acaba por perder o controlo da história (em parte), ao apaixonar-se pela rapariga. Por isso temos aqui um sentido agudo de caos na história, uma narrativa agitada onde nos sentimos perdidos, tanto como o nosso representante detective, neste caso o carteirista.

Fuller tem um grande sentido de ritmo e ambiente, e este filme tem uma coisa especial extra: a cabana flutuante onde muitas das reviravoltas fundamentais na narrativa acontecem. Esse é um grande cenário que vou levar comigo durante muito tempo. Como espaço explorado é suficientemente bom, no contexto do estúdio. Como metáfora para o ambiente instável da narrativa funciona bem. No final, este espaço torna-se o centro estranho do mundo noir bizarro do filme, e agarrar um filme com tanta força a um lugar é algo que sempre aprecio.

A minha opinião: 4/5

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Carnage (2011)

“Carnage” (2011)

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Repulsion, em grupo

Aqui temos um filme bastante alinhado com aquilo que Polansky fez ao longo da sua carreira. Encontramos aqui muitos dos elementos superficiais, e não só, pelos quais adoramos o que ele faz.

A contenção espacial. Polansky é um dos mestres absolutos da exploração de um ambiente, de fazer um filme dentro de um único espaço, multiplicando as possibilidades para o nosso uso desse espaço, e misturando isso com a narrativa, até ao momento em que o Espaço se torna narrativa. Ele tem um sentido perfeito de enquadramento, movimento de câmara, e timing de corte. O problema neste filme é a banalidade desse ambiente, obviamente requerido para ser a casa do que é suposto ser um casal ordinário, mas que simplesmente não é suficientemente interessante para que as qualidades deste mestre atinjam um nível superlativo.

Há o sentido de absurdo no material original que espelha totalmente o próprio sentido de humor retorcido de Roman, aquele tipo de bizarria estranha que encontrávamos em Vampire Killers, ou o Inquilino. *spoilers pequenos* Aqui até temos algo interessante, porque começamos a ver um filme e acabamos a ver outro. A premissa é uma de simples drama, relações pessoais, a aparente discussão sobre a educação, violência entre as crianças, etc. Mas depois isto toma caminhos estranhas, e entramos num mundo de total absurdo, especialmente a partir do momento do vómito de Winslet. É como se Polansky estivesse diluído no whisky que os personagens partilham, e eles se tornassem cada vez mais possuído pelo seu espirito. Viajamos de um filme, com uma realidade relativamente normal, para outro, fabricado sobre o olhar cinematográfico incrível de Roman, que ele desenvolveu há muitos anos, e que agora tem uma abordagem bastante distinta.

Todos os actores colaboram positivamente na viagem. Os 4 são, no mínimo, competentes. Waltz surpreende, ele tem um sentido de timingo nas suas frases notável, e boa postura, sempre. Jodie e Kate são actrizes fantásticas, entre as melhores, gostava que pudéssemos ter mais Jodie em projectos interessantes.

Polansky agora filma de uma forma mais relaxada. É como se ele se tivesse reformado oficialmente, e agora apenas filmasse para ele mesmo, como se estivesse a ter um jantar entre amigos. Espero que possamos ter ainda mais alguns destes passeios relaxados. Este é mais um capítulo bom da sua vida artística.

A minha opinião: 4/5

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The Big Knife (1955)

“The Big Knife” (1955)

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espaço que respira

Por casualidade vi O Deus da Carnificina, o novo Polansky, pouco depois de ver este. Polansky é um mestre dos espaços pequenos, e de mover-se dentro deles, e fazê-los parte da textura dramática do filme. Espaço como drama, como metáfora, essa é uma das coisas que me fez querer ver filmes seriamente, um dos conceitos que me são mais queridos. Robert Aldrich também é um tipo espacial, um arquitecto do cinema, que também leva em conta e manipula o espaço para retirar dele seja o que for que ele está a filmar. Isso está especialmente bem feito em Kiss me Deadly, um filme essencial a muitos níveis, mas também aqui neste filme menor. Aqui temos teatro filmado, um filme de um cenário. O primeiro problema é que o cenário soa demasiado a estúdio, e é por isso mais contido, dando a Aldrich menos possibilidades para quebrar os ângulos da câmara e para movimentos da câmara.

Filmar em estúdio era a norma, e tinha vantagens como o controlo da luz, etc, mas as desvantagens são más para o tipo de trabalho visual que Aldrich gostava de tentar. É um pouco como o personagem de Palance, preso dentro de uma gaiola dourada, vivendo lucrativamente a custo de uma cedência artística.

Mas este filme é uma experiência que vale a pena, mesmo assim. O texto ajuda. As tensões interiores de Charles Castle, sobrepostas à abordagem Método de Jack Palance, e tudo isso envolvido pela visão brilhante de Aldrich, suportada pelo também brilhante Laszlo, um cinematógrafo muito bom. Temos muitos grandes filmes materializados pela câmara dele. Este filme é de um espaço só, mas também um protagonista só. Tem tudo a ver com a forma como o ambiente espelha a forma como Palance reage ao mundo. Nesse sentido, o filme é uma espécie de noir, na forma como ele apenas reage às adversidades, um peão num mundo estranho, no qual ele é o centro, também estranho. Mas isto não é noir no sentido mais largo, na definição que Ted Goranson lhe aplica, e que eu aprecio. Ida Lupino era uma artista inteligente, e que sabe o suficiente para suportar a actuação de Palance. Ela realmente ajuda. Toleramos os excessos de Steiger porque o personagem dele não está demasiado exposto, mas ele exagera.

De qualquer forma, apreciem a câmara, a forma como ela reage a Palance. Os movimentos dos personagens, aquilo que normalmente se define como mise-en-scène, é notável, na forma como está reflectida também na forma como a câmara se move. Isto é algo que começou com a Corda de Hitchcock. Sidney Lumet atingiu o topo deste jogo com o seu Angry Men, mas este filme tem uma forma interessante de usar a câmara a esse respeito.

A minha opinião: 3/5, um trabalho muito interessante e menos importante de um muito bom realizador.

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The Resident (2011)

“The Resident” (2011)

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espaço formatado

*** este comentário pode conter spoilers *** 

Primeiras obras são sempre um tema delicado para quem as faz. Devem correr muitos riscos? ou devem apenas tentar ser competentes e deixar altos voos para depois? Os princípios dos grandes realizadores não nos ajudam a decidir. Welles ou Godard começaram com abordagens fracturantes. Mas os Coen ou Kubrick começaram a trabalhar com narrativas deliberadamente convencionais, desenvolvendo qualidades, explorando territórios conhecidos, antes de quebrar as regras. Começar numa produção de relativo alto orçamento como esta, no meio do poço de fazedores de dinheiro de Hollywood pode piorar as coisas para aqueles que querem experimentar. Resta-lhes tentar realizar bem os clichés do género no qual vão trabalhar.

É aí que temos este filme. Uma produção menor de uma indústria maior, protagonizada por um nome bem conhecido, uma estrela, que também produz, e que certamente permitiu que este filme avançasse. Os produtores não correm riscos. Nenhum. Isto é cinema segundo a cartilha. Passo por passo, desde os créditos iniciais à Saul Brass, até ao desenvolvimento previsível do enredo, sabemos exactamente onde estamos e para onde vamos, em cada momento. É mais ou menos competente nisso. O suspense é mecânico, as actuações apenas toleráveis, mas o arco aparece como deve, e por isso este filme enche bem o tempo que gasta.

Dois conceitos poderiam ter sido interessantes, mas foram desperdiçados. Um é como Christopher Lee é colocado aqui. Temos aqui um tipo associado a um certo papel. Ele é o que recordamos dele. Colocado como ele foi no início do filme, podemos adivinhar o twist (ele ser inocente), mas a forma como isso nos é revelado deveria ter sido um ponto alto do filme. Mas não, ele simplesmente está lá… até deixar de estar. Que pena, incluir Lee apenas para o incluir.

A outra coisa é a oportunidade perdida de fazer da arquitectura uma parte da textura. O apartamento, o lugar na cidade É sedutor. O edifício não é especialmente bom, mas as entranhas aparecem interessantes no olho da câmara. Mas o espaço não tem absolutamente nenhum papel no enredo. E deveria ter… confiem nisto: a actuação é importante, a edição é fundamental. Mas não conseguimos criar suspense eficiente e durador sem considerarmos o espaço físico das acções. É uma questão de agarrar a audiência e colocá-la Na cena. Isso falhou aqui, e o pior é que parece que quase conseguia acertar.

A minha opinião: 1/5

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The Ghost Writer (2010)

“The Ghost Writer” (2010)

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pequenos espaços

Este filme é uma visão tão clara do seu criador, e tão reconhecível na sua forma, e família de histórias, que se torna automaticamente uma pérola.

Polansky sempre foi um realizador de pequenos espaços, de uma certa claustrofobia induzida, ainda que sempre controlada pelo realizador, que leva sempre o nosso fôlego nas suas mãos. contrastes. espaços abertos vs quartos apertados. claustrofobia nos dois tipos de espaços. A praia que vemos da janela da casa oposta à prisão disfarçada em que o personagem de Ewan trabalha (numa ilha!). Isto sempre foi um terreno fértil para este realizador. Por isso é que o primeiro filme dele foi filmado num barco, onde as limitações espaciais deste contrastavam com a vastidão do mar. Considerando esses filmes em que ele exibe este tipo de oposição, este aqui junta-se a Bitter Moon, Death and the Maiden, ou a Faca na água. É dessa família. Já agora, a casa neste filme é interessante como arquitectura, pela forma como enquadra a paisagem (uma vez mais oposição aberto/fechado) e, como costume com Polansky, isso é bastante bem usado.

Mas realmente, o poder dos filmes dele vem do seu ponto de vista. Se este termo não tivesse outros significados dentro do vocabulário técnico do cinema, eu diria que a câmara dele é sempre subjectiva. Cada plano em qualquer dos seus filmes parece nascer de um ponto de vista específico, de alguém que nem está no filme, nem entre nós, nem no meio. Vem de fora, e de cima, uma espécie de deus que observa tanto o mundo do filme como para nós, espectadores. Num filme de Polanski, o espectador está tão inseguro e desprotegido como qualquer outro personagem. Isso torna qualquer coisa que ele faça um filme noir natural. Mesmo quando a história não se dirige directamente às características do noir, o filme torna-se visualmente noir, no olho de Polanski.

Neste caso, a história ajuda. É uma narrativa interessante que fala de um peão, um manipulador enorme, e o “detective” que luta para descobrir tudo. *spoilers* Casualmente (ou não), a escolha de actores é bastante adequada aqui, já que Mcgreggor é um dos actores mais inteligentes de hoje, e por isso compreendeu a sua colocação na narrativa (tal como sempre faz), e Brosnan é tão convencido que é manipulado pelo realizador tanto como o seu personagem é manipulado no filme. Por isso o que temos é um Mcguffin, que lida com um tema de corrupção política, que nos leva à ambiguidade, que partilhamos com Ewan (noir) e que nos faz não confiar em ninguém. No final é-nos dado uma reviravolta previsível, mas tudo tem a ver com a forma como somos manipulados antes. A solução dos “inícios” é um truque bastante espalhafatoso, mas ainda assim é um final competente e, afinal, não há muitas formas novas de acabar uma história destas pois não? E Olivia Williams é uma mulher interessante no ecran, e por isso credibiliza o truque. Esperemos que Polanski, dentro ou fora da sua prisão (como a casa neste filme) ainda possa dar-nos mais algumas pérolas.

Este é o primeiro que vi lançado em 2010. Que grande forma de começar uma década de filmes!

A minha opinião: 4/5

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Palata Nº6 (2009)

“Palata Nº6” (2009)

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a parte do meio

Filme e Vida. Ficção e Documentário. Aqui estão dois pares de conceitos que poderiam, se quiséssemos, ser colocados em cantos opostos das nossas classificações. Por essa razão, estes são conceitos que se intersectam, e chegam perto de ser confundidos e considerados iguais. Cada um destes pares contém em si a magia de uma repulsão/atracção magnética. Talvez seja por isso que tanto já foi dito, escrito e filmado sobre aquilo que um filme retira da vida (e a forma como a vida pode ser afectada pelos filmes). Também sobre quão pouca diferença há entre querer documentar algo e criar uma história que venha já do olho do criador.

Shakhnazarov parece ser um tipo deslocado. Alguém nascido dentro dos valores da incrível escola soviética, mas que perdeu esse contexto cedo na carreira. Hoje ele faz filmes soviéticos descontextualizados. E também não representa nenhuma das duas grandes contribuições soviéticas para o cinema (tendências lideradas por Eisenstein e Tarkovsky). Por isto, não me parece que alguma vez venha a ver um filme dele que faça mais do que impressionar pela inteligência das intenções por trás.

Neste caso o que ele queria fazer não é novo, mas também não está muito bem feito. Ele começa o filme apresentando-nos uma série de entrevistas a pessoas doentes reais, de um hospital psiquiátrico real. A verdade é que esta é uma ideia muito inteligente. As entrevistas colocam-nos no mundo dos casos mentais, e por isso não precisamos de mais estabelecimento do mundo do filme. Assim, entramos directamente no filme e isso é algo que não vemos muitas vezes feito com esta eficiência. O problema é que depois não há nada que faça valer o tempo. Há uma aproximação muito literária à escrita do diálogo, e isso mata o filme, que também não é bem suportado pelas actuações. Diálogos ou actuações são as coisas que podem transportar um filme assim. Não temos nenhuma aqui.

A cena final é tão inteligente como a inicial. Os pacientes reais encontram-se com os pacientes fictícios, e dançam, em pares mistos. A realidade documentada mistura-se com a realidade ficcionada. A entrada e a sequência final quase redimem a falta de tudo o resto no filme.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve