Arquivo de Dezembro, 2010

Big Bang Big Boom (2010)

“Big Bang Big Boom” (2010)

Vimeo

parkour cinematográfico

O nascimento de qualquer novo meio, um novo canal para exprimir as mesmas sensações de sempre de uma nova e fascinante forma é algo que devemos sempre aplaudir. É uma coisa tão rara que quando assistimos a ela, não podemos evitar gozá-la com todos os prazeres de uma iniciação. Nas últimas décadas, tivemos uma panela de culturas urbanas em ebulição pelas melhores cidades do mundo: Nova Iorque, Londres, Berlim, Paris… em Paris assistimos ao nascimento de um novo tipo de dança, todo um conjunto novo de movimentos criados para estabelecer uma relação entre o corpo e o ambiente, o humano e o ambiente urbano, humano também mas descontrolado. Isto realmente foi um feito cultural espontâneo e notável, sendo a cultura seja o que for que as pessoas façam para conquistar o seu ambiente. É arrojado, é radical, e aprecio o parkour, como tem sido chamado.

Em relação ao parkour, algumas pessoas ficam entusiasmadas com as qualidades físicas necessárias para a sua execução, outros com a suavidade dos movimentos de dança. Eu reparo nesses dois aspectos, mas para mim o que é realmente bom é a forma como o conjunto de movimentos dos praticantes lhes permite contornar qualquer contexto: escadas urbanas de betão, muros altos, telhados. É o ambiente que sugere os movimentos que observamos.

É isso que temos neste filme. Podemos ficar fascinados simplesmente com o feito de o filme existir. Imaginem a logística impressionante que permitiu a estes tipos pintar e fotografar cada uma das imagens necessárias para produzir o efeito stop-motion. Observem a qualidade individual dos desenhos. Considerem até a qualidade e imaginação inerente a cada uma das narrativas desenvolvidas por essas imagens. Eu faço isso, e acho que é uma experiência muito boa. Mas depois coloco isso contra o controlo de vários espaços, sobretudo urbanos. Muros que se pintam, pintas que se movem ao longo de tubos, caranguejos que começam como desenhos no chão até chegarem à areia, e aí se tornam desenhos numa praia. E uma cena de mestre que representa uma versão da evolução do homem ao redor de um cilindro enferrujado.

Considerem as possibilidades, considerem este filme. É uma grande experiência.

A minha opinião: 4/5

Piercing 1 (2009)

“Piercing 1” (2009)

Cinanima 2010

Flagey

Questionar

É sabido ou previsível que num futuro não muito distante todos teremos de olhar para a China tal como até há pouco ainda olhávamos para os Estados Unidos: os espirros deles definem as doenças que o mundo sente. Por isso, é importante sabermos quais as narrativas que a China está disposta a oferecer ao mundo. Obviamente temos um versão oficial, tal como com qualquer governo de qualquer país do mundo. A narrativa americana actual, que a esta altura já está descalça, conta-nos que embora obviamente os americanos façam muitas coisas desumanas, até ilegais segundo as suas próprias leis e condenáveis segundos os seus próprios princípios, eles têm de fazê-las em nome de um determinado conceito de mundo livre que envolve todos aqueles com poder real para contestar essas opções. Alianças económicas e outros tipos de interesse mantiveram a história em pé, mesmo que atropelando limites que a grande maioria dos elementos pensantes das sociedades ocidentais não estão dispostos a tolerar. O caso do fundador da wikileaks é o último capítulo desta negra narrativa, em que de repente um caso de assédio sexual parece suficiente para afastar a discussão do tema fundamental, o da fuga de informação e o que daí se soube. A China oferece uma versão menos subtil, mais bruta, provavelmente menos inteligente, da mesma postura. As censuras existem, a manipulação também, mas é mais assumida, mais autoritária. Eu prevejo que a postura chinesa vai-se aproximar nos próximos anos da atitude que funcionou durante décadas com os Estados Unidos. As pressões vão aumentar, cedências terão de ser feitas. Mas para isso, os primidos terão de protestar, levantar questões, eventualmente morrer. O “outro lado”, o ocidente, contribui para essa pressão, à sua maneira. Por isso o prémio Nobel da paz deste ano é quem se sabe. Pergunto se Assange ganharia o prémio se o Nobel fosse chinês…

Uma das melhores formas de vermos que tipo de narrativas conduzem determinado colectivo é pelo cinema que se produz. O cinema é ainda o maior construtor de histórias, onde todos os dramas que se vivem transpiram transformadas em ficção. Este filme é um produto interessante. Não sei exactamente o contexto desta história na China. Se foi feito desde o exterior, ou se apareceu tolerado pelo sistema chinês. Mas é um filme interessante acerca de como o contexto condiciona quem nele vive. Vidas amputadas por totalitarismos castradores. Sobrevivência. Este é um produto afastado das grandes massas pelas suas próprias características: animação de autor não é um dos tipos de filme com mais saída. Mas eu suspeito que teremos uma grande quantidade de filmes chineses feitos sobre esta temática.

E há cinema aqui, há um domínio interessante, ainda que não transcendente, sobre ritmo edição. Vale a pena ver.

A minha opinião: 4/5

Pivot (2009)

“Pivot” (2009)

Sítio oficial

ir atrás

Este é um filme interessante. Há filmes que importam, porque nos afectam, porque trabalham temas importantes. E há outros que nos agarram, que nos entusiasmam, e que nos transportam por um fio condutor decidido pelos criadores/manipuladores. Este filme cai nesta segunda característica. Cada elemento da história é um pretexto para que acompanhemos quem fez o filme a visitar cada proposta visual que nos fazem. E cada um desses elementos é totalmente visual, ou seja, as propostas que devemos seguir existem todas no mundo visual que o filme inventa. Esse mundo vive de iluminação e de nos fazer perder conscientemente no labirinto urbano e abstracto que nos é proposto. A luz virtual conta aqui, sobretudo na forma como as esquinas dos edifícios desenham trapézios no chão. A narrativa cíclica, que termina onde começa é um truque natural e eficiente para garantir um fecho coerente para uma história sem outro pretexto de existir a não ser o de se suportar a si mesma, assim como o de garantir a unidade espacial e a coerência de uma realidade sem muitos pontos de apoio.

É tão intencional esta ideia de nos guiar pela visão que o objecto que despoleta todas as perseguições é uma câmara fotográfica. Significa isto que os realizadores somam à história um comentário sobre a própria história. Este filme é auto-referencial tanto como é visual.

A minha opinião: 3/5

Teclópolis (2009)

“Teclópolis” (2009)

IMDb

imagem vs filme

Para mim, nem sempre é recompensador ver filmes de animação. A mim interessa-me a narrativa, suportada por imagens, ou o contrário, imagens que suportam uma narrativa, que possa ser (e na verdade é-o muitas vezes) uma desculpa simples para construir um entusiasmo pela imagens. Esta última situação é o que Hitchcock chamava “cinema puro”. Agarra-nos.

Com curtas de acção real, normalmente o contexto dos criadores está ligado ao cinema, por isso temos todos os tipos de experimentação sobre a forma, não apenas sobre as imagens como metáfora, ou como doces visuais. Mas as curtas animadas são um campo onde muitos contextos convergem.

Este filme tem uma narrativa, mas que é usada simplesmente como desculpa para desenvolver as imagens, não como “cinema visual puro” como Hitchcock o definia, mas sim da mesma forma que um artista plástico o faria. O foco está na forma como a combinação de objectos relacionados com computadores com objectos pré-digital funcionam como um todo visual. Claro que há uma história, sobre uma velha câmara de 8mm que luta para sobreviver num mundo de (já obsoletos) objectos da era digital, que tomam o poder e constroem um novo e preenchido mundo. Claro que essa história suporta uma metáfora de tempos modernos vs velhos dias. Mas o que eles queriam, o que lhes tirou o sono, é a forma desse mundo.

Tudo bem para mim, e este filme tem a sua própria força, e interesse visual. Mas eu estou focado no cinema, e tenho alguns problemas em colocar esta excelente animação nessa classificação.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb

 


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve