Archive for the '2/5' Category

Brave (2012)

“Brave” (2012)

brave grande

IMDb

passado vermelho

As crianças raramente escolhem os filmes que vêm. Num mundo normal e livre, uma criança vai muito provavelmente ser vítimas das leis do momento, daquilo que está na moda. Claro que há a influência que os educadores podem ter, mas isso vai variar de criança para criança, e cada uma vai ainda assim contactar com as modas do seu momento. Eu tive a sorte, penso, de ter sido parcialmente alimentado pela Pixar ao crescer. O Toy Story fez parte do meu desenvolvimento. Mais tarde quando comecei a ver filmes seriamente, e especialmente quando comecei a associar a minha vida aos espaços que habito (como estudante de arquitectura), compreendi a importância das apostas cinematográficas que a Pixar fez aquele tempo todo. O espaço, o movimento, a câmara.

Parece que tudo isso está suspenso, pelo menos por agora. A Pixar agora é Disney, e isso nota-se. Os temas estão alinhados com aquilo que a Disney sabe que vende, e isso condiciona todo o processo criativo que costumava ser inovador em todos os projectos Pixar.

A narrativa espacial foi abandonada, e isso é visível especificamente neste filme, porque o espaço tinha potencial. Tínhamos o castelo, e as highlands. Fora e dentro, e infinitas possibilidades. Mas o enquadramento, o movimento da câmara, a qualidade do espaço cinematográfico, tudo isso desapareceu, sacrificado para que possamos ter a criança arrependida a tentar corrigir o mal que fez à sua mãe, a tentar pôr o mundo no final feliz que a Disney precisa para manter os seus compradores de bilhetes alinhados e satisfeitos, e com a sensação de que levaram as suas crianças a ver um filme com uma “moral”, algo que dê que pensar.

Todos os aspectos criativos parecem estar investidos no personagem principal, a rapariga, que é interessante. Ela vive do cabelo dela, e a cena em que ela recebe os pretendentes à sua mão é notável, porque muito do personagem desaparece quando tapa o cabelo. A madeixa que desliza é uma piscadela de olho, suponho.

Essa vermelhidão, e a expressão do personagem através dela, será talvez a única característica redentora deste filme. Mas sinto-me enganado, sinto-me como se uma daquelas pessoas que me visitava em criança para me dar sabedoria já não existisse mais. Resta esperar por capítulos melhores.

A minha opinião: 2/5

This comment on IMDb

Anúncios

Notorious (1946)

“Notorious” (1946)

IMDb

pré-Rope

Hitchcock é um dos realizadores mais importantes de sempre, alguém que mudou as regras e os códigos dos filmes, e introduziu um grande número de elementos na gramática cinematográfica.

Ele dominou e construiu novas coisas que têm que ver com o uso cinematográfico do movimento de câmara, e manipulou a narrativa de formas brilhantes. Os seus melhores resultados podem e devem ser estudados por nós hoje, foram marcos de muito do que se seguiu, e em termos narrativos, algumas coisas que ele fez são inultrapassáveis.

Mas mesmo que hoje, quando vejo os filmes mais antigos de Hitchcock, consiga detectar neles pedaços daquilo que a intuição dele provavelmente estaria a captar, acredito que os anos 50 foram a década em que ele desenvolveu todas as coisas pelas quais eu o adoro hoje, e pelas quais o vejo como um dos mestres. Com Rope temos a primeira vez em que ele realmente construiu algo totalmente novo, naquele caso manipulando o movimento de câmara, criando um olho cinematográfico, brilhante e novo. Dial M… Rear Window, Vertigo, e mesmo Psycho; todos esses são trabalhos que temos de ver.

Mas antes de Rope, o que temos são apenas pistas. Neste filme, há alguns pedaços de enquadramento e movimento de câmara que são concebidos de forma inteligente. A chávena de café envenenada, enquadrada enquanto um diálogo ao seu redor acontece. O plano grua que começa no espaço aberto de um hall, e que fecha na mão de Bergman, que segura a chave. Esses momentos são bons e fazem algo hitchcockiano: uma cena onde aparentemente nada acontece (um diálogo banal, a chegada de convidados), mas através do movimento de câmara e enquadramento, todo um significado é atribuído a um detalhe da cena. Puramente visual, poucas pessoas têm uma mente assim tão acentuadamente visual como a de H..

Mas o grande quadro, aqui e em quase todos os filmes antes de Rope, não é assim tão bom. Como noir, o filme falha, porque o mundo dele está totalmente exposto, todo o tempo; é uma história de espiões simples, que seguimos baseando-nos na tensão do “será que ela vai ser apanhada?”. O noir requer um mundo bizarro e inexplicável, algo que tem a ver com nós não sabermos o que está a acontecer. Aqui o que temos é uma construção tipo mcguffin, aquela história das garrafas de vinho, que só servem para nos pôr atrás delas. E Hitchcock sempre dominou esse truque, mas os melhores resultados dele vêm quando ele usa essa distracção para nos dar uma apresentação incrível para ela. Aqui não.

É verdade que temos Grant e Bergman, um casal quente naquela altura. Eles dão uma boa actuação, e espalham alguma magia de cinema. E Ingrid era uma mulher real, e uma actriz real. Mas este filme está sobretudo baseado em estilo. E o estilo, é sabido, desvanece-se no tempo. Por isso o filme não nos dá muita coisa hoje, porque o mestre ainda não tinha atingido a perfeição das suas manipulações posteriores da nossa mente visual. Por algumas vezes antes de Rope ele esteve perto de atingir isso. Mas aqui, ele está apenas a tentar algumas soluções. O filme em si é um exercício puro de estilo, um estilo que já não procuramos hoje.

Mas Ingrid Bergman era uma grande mulher.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

Melancholia (2011)

“Melancholia” (2011)

IMDb

cavalo, seios, colisão

Há uma ideia de filme como criação colectiva, em que cada mente criativa (actor, cinematógrafo, escritor, realizador…) trazem as suas próprias visões ao resultado final, depois de serem revistas por um “produtor”, o subordinado de uma “indústria”. Depois há autores, um tipo, ou um número reduzido de mentes em cooperação, que criam tudo o que vemos. Mas depois há ainda filmes que são totalmente a cara do seu criador, por dentro e por fora, como se realmente estivessemos dentro da cabeça dele. Os filmes de Trier são desse tipo. Experiências assim podem mudar a nossa vida, ou ser profundamente aborrecidas, dependendo da capacidade de sedução da mente que estamos a entrar.

Sempre tive uma relação complicada com Lars von Trier. O homem tem capacidades nas ferramentas visuais puras do cinema, enquadramento, edição, timing. Ele estudou os mestres suficientemente bem para produzir experiências visuais válidas quase sempre. Ele entende o filme como uma experiência absoluta, do som ao diálogo, do enquadramento ao ritmo. E isso merece admiração, é tão raro encontrar um realizador que realmente se interesse por todas as dimensões do filme. Nunca me interessou muito a história do Dogma. E não me parece sequer que alguma vez Trier tenha feito um filme que obedecesse a essas premissas. E isso não é necessariamente mau.

Mas depois ele tem perversões que são simplesmente vulgares e aborrecidas. Ele é auto-cêntrico de uma forma que o faz assumir que cada pequena obsessão ou fobia que ele tenha merece ser contada, e que somos obrigados a apreciá-la. Ele tem esta ideia wagneriana de ser um mestre cujas excentricidades têm de ser toleradas em nome do génio que ele necessariamente espalha sempre que liga a câmara. Por isso é curioso que ele tenha tentado integrar Wagner neste filme. O pedaço que ele escolheu é a abertura de um trabalho realmente fracturante e transcendente. E isso expõe precisamente as fraquezas de Trier. O ponto mais forte dele e o que liga tudo o que vemos aqui é um pedaço do génio que ele pediu emprestado a Wagner. É muito interessante que a sequência inicial esteja tão relacionada com a Árvore da Vida de Malick, já que é claro que os nenhum filme terá sido influenciado pelo outro. É curioso pensar de onde surgirão estas modas.

Mas depois, o conceito é aborrecido. 2 planetas que vão colidir, 2 irmãs que colidem, o mundo ao redor delas a desfazer-se, como dano colateral. Os homens das vidas dessas mulheres que se supõe representarem papeis importantes, quando na verdade são apenas 2 peões, e totalmente ignorantes acerca do que está a acontecer. O personagem de Kiefer supostamente até “sabe” sobre estrelas, mas fica muito longe de realmente compreender a sua magia, reduzindo tudo a uma questão de números.

Tudo isto se localiza num local especial, isolado mas vivo, concreto mas indefinido. O sentido de lugar é importante, e bem explorado, e sublinhado pela forma como o cavalo nega atravessar a ponte.

A relação estranha entre Dunst e o seu cavalo tem uma sexualidade assumida que escapa a compreensão do seu noivo. E os seios de Dunst parece estar no topo das preocupações de Trier todo o tempo. Vejam o vestido da noiva, vejam como a câmara sempre foge para o decote dela, mesmo quando ele não deveria ser mais que um simples elemento do cenário. E vejam como a música e o climax existem no momento em que a vemos pela primeira vez totalmente nua, banhada em luar.

Admito que tudo isto está bem enquadrado pelas sequências inicial e final. Mas tudo o resto é simplesmente inconsistente, e toda a experiência em última análise é inútil. Mesmo que Trier, com toda a sua vontade de ser polémico, não o ache.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

The Imaginarium of Doctor Parnassus (2009)

“The Imaginarium of Doctor Parnassus” (2009)

IMDb

as caras no ninho

Nada em cinema deveria ser mais celebrado do que uma imaginação enraizada totalmente num ambiente visual. Filmes cujo propósito é criar imagens, em que as imagens são o meio e o fim. Emoção? Significado? Metáforas? Sim a tudo isso, mas embebido em imagens, todas essas coisas Como imagens, e não Suportadas por elas. Se começamos a pensar nesses termos, então Terry Gilliam vai figurar alto na sua atitude em relação aos filmes. Praticamente todos os conceitos que ele nos dá são eminentemente visuais.

O problema é que sobre isso, ele parece ser incapaz na maioria das vezes de ultrapassar limitações práticas ou técnicas, e por isso a execução quase sempre não consegue atingir o que o conceito prometia.

Aqui temos uma coisa muito interessante e visual: a ideia da imaginação de alguém aninhada no subconsciente de outra pessoa. O atravessamento de um portal visual que leva à nossa própria mente. Empatia como uma coisa profundamente enraizada, que acontece do outro lado da cortina. Dois mundos separados por uma fina cortina, como a velha fachada abandonada separa Londres do refúgio dos nossos personagens (espaço magnífico, aquele quarteirão vazio).

Somado a isso, a morte trágica de Heath Ledger e a subsequente solução encontrada para o problema levantaram ainda mais as minhas expectativas. Agora íamos ter 4 dos actores mais interessantes de hoje em dia a representar o mesmo personagem no mesmo filme! Isso era uma ideia realmente fascinante, se pensarem bem. E ainda que eu admita que em termos de continuidade os escritores fizeram um bom trabalho ao ultrapassarem a falta daquilo que Ledger não filmou, a forma como colocaram os 3 voluntários ficou realmente longe daquilo que eu esperava ver.

Depp representa o seu tipo “casualmente sensual”, algo que ele tem feito bastante ultimamente. Jude Law é inócuo e só Colin Farrell faz algo minimamente interessante, mas apenas se considerarmos a sua performance isolada, não a de Ledger e as possíveis ligações entre as diferentes caras do personagem.

Se considerarmos que os mundos visuais dentro da cabeça do Parnassus simplesmente não são interessantes, simples deviações digitais sobre cenários virtuais banais, então ficamos com uma má sensação. E como em outros filmes de Gillian, sabemos que poderíamos estar a ver um filme poderoso, mas há algo que simplesmente sofre de limitações severas. E neste caso não é só a execução, embora isso ajude.

Fico-me com Lily Cole, uma actriz muito intrigante, realmente notável na sua estranheza muito própria.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

 

Monsieur Verdoux (1947)

“Monsieur Verdoux” (1947)

IMDb

ver e adivinhar

Há 2 filmes óbvios que podemos ver e imaginar aqui.

A história a famosa: Orson Welles propôs a ideia a Chaplin, e queria dirigi-lo num filme que não seria uma comédia. As coisas correram mal, Chaplin não quis ser realizado por Welles, comprou-lhe a ideia, e transformou-a numa comédia.

Aquilo que hoje temos é um mau filme. Chaplin nunca se adaptou realmente ao sonoro. O melhor filme dele é já do tempo dos filmes falados, mas o filme era silencioso. Depois ele fez o Grande Ditador que é um bom filme, mas se colocado no seu contexto, pela coragem e a forma como nos conta hoje como estava o mundo moldado naquela altura. Depois deste Verdoux temos 2 filmes interessantes pela auto-referência, não porque são bons. E este é apenas mau. Conseguimos sentir quando Chaplin está a falar dele próprio. O tipo que trabalha num banco durante uma vida, apenas para ser substituído pelos ventos de mudança, forçado a usar o seu “génio” de outras formas. Chaplin nunca levou a bem que o seu brilho fosse substituído pelo de novos talentos brilhantes (como o do próprio Welles). Aqui já não temos o charlot, as piadas já não funcionam, e suponho que já não funcionavam naquela altura. O ritmo frenético dos melhores filmes silenciosos de Chaplin desaparece, ele não controla o ritmo da palavra, a excitação dos diálogos. Para mim, ele nunca foi um grande realizador, excepto por alguns momentos transcendentes (Luzes da Cidade sendo o mais brilhante de todos), mas ele sempre foi um incrível actor, com uma sensibilidade humanista no centro. Mas aqui, nem o momento moralista final funciona.

Mas há algo realmente fascinante que podemos fazer. Podemos e devemos imaginar que filme veríamos hoje se Welles o tivesse realizado. A esta altura ele estava a desenvolver algumas das suas ideias mais poderosas. Narrativa e Espaço, apoiados por Enquadramento e Edição. Tudo conduzido por uma visão unificadora. Era nisso que ele estava a trabalhar. O que teria ele feito aqui? Como é que lidaria com os diferentes níveis das diferentes amantes de Verdoux? Será que mudaria a personalidade da câmara? Quebrar a linearidade dos episódios? Enquadrar cada um de uma forma diferente? Como é que ele equilibraria os diálogos com a actuação física de Chaplin? Qual seria o centro deste projecto?

Se Chaplin e Welles conseguiriam trabalhar juntos, nunca saberemos embora eu pense que não. Mas vale a pena imaginar. Aqui podemos ver um filme que nunca existiu, isso é o fascinante. Aquele que podemos ver não vale a pena. Por isso, aqui temos um sempre interessante caso de um filme que não é bom mas que vale a pena ver.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

A Life Less Ordinary (1997)

“A Life Less Ordinary” (1997)

IMDb

expectativas

Este não é um bom filme. É divertido de acordo com um conjunto de aspectos que podemos recolher em muitos outros filmes. Os valores convencionais de comédia construídos ao redor de uma história romântica. Escapismo numa forma reconhecível por qualquer pessoa vagamente familiarizada com Hollywood.

Mas temos um pouco mais que isso aqui. Este filme é parte de uma trilogia de filmes onde entra uma trilogia de artistas interessantes: Boyle/Hodge/McGregor. Este conjunto de filmes foi importante para estabelecer a base de 2 carreiras interessantes e importantes (Hodge, entretanto, parece ter-se desviado das coisas interessantes, vamos esperar que regresse). O que eles fizeram foi o que poderemos chamar de experimentalismo, ou mesmo de experiências teóricas vertidas para um produto prático final. Dos 3 filmes, este é provavelmente o menos interessante. Não é especialmente apelativo, ou interessante como experiência. O objectivo era pegar num género específico, a comédia romântica, e manipulá-lo até termos uma nova perspectiva dele. O resultado fica bastante aquém do que, por exemplo, os Coen fizeram com Intolerable Cruelty.

Ainda assim, McGregor tornar-se-ia um actor poderoso, um dos melhores, e Boyle vale sempre a pena independentemente do que faça, e ele já fez coisas muito impressionantes desde então. Por isso este filme torna-se uma espécie de artefacto histórico se querem fazer arqueologia das carreiras destas pessoas.

O que aprendemos aqui é que desde o início que Boyle confia na sua intuição, e essa veia prevalece sobre a forma como ele racionaliza os seus conceitos. Essas intuições podem ser realmente poderosas ou resultar em nada (como aqui), mas ele está sempre disposto a correr o risco, e aprecio-o por isso, vou querer ver o que quer que seja que ele tenha para mostrar. E aprendemos que McGregor, já nesta altura, era um actor auto-consciente. Ele sabe que está a actuar, por isso a questão não é tanto a de parecer “real” (como uma quantidade obscena de actores sempre tentam parecer), mas sim entregar a actuação enquanto a reconhecem como tal. Esse provavelmente é o tema mais importante desta arte, no último século. No que toca a actuação para cinema, Ewan McGregor é uma espécie de estado da arte.

Mas este filme, a não ser que o coloquem na perspectiva do futuro dos seus criadores, é basicamente inútil.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

 

Marquis de Sade: Justine (1969)

“Marquis de Sade: Justine” (1969)

IMDb

frigidez espacial

Acreditem ou não, escolhi ver este filme depois de ver a Árvore da Vida de Malick. E fi-lo não porque queria algo totalmente diferente, mas porque procurava algum tipo de abordagem semelhante ao cinema. Não confundam. O filme de Malick mudou a minha vida, e este é apenas lixo total e deliberado. Mas aqui como no outro, temos realizadores que filmam o que querem, fora de convenções. Ambos confiam fortemente na intuição, no caso de Malick suportada por uma pesada bagagem de estudo e reflexão, e no caso de Franco apenas pelo puro prazer de filmar, ou melhor, de filmar como atitude de vida.

Os filmes lixo são fantásticos, porque por momentos saímos das convenções habituais. O sexo é um dado adquirido na maioria destes filmes, chamam-lhes exploitation, porque supostamente estamos a “explorar” corpos, e o sexo como voyeurs. Poderia argumentar que não sei em que medida isso difere da maioria do nosso mainstream hoje em dia e desde há algum tempo, mas isso é uma conversa diferente. Em todo o caso, a garantia que temos é que dentro dos constrangimentos da produção, veremos o que um tipo ou um número reduzido de pessoas realmente queriam fazer. Isso é reconfortante.

Aqui temos provavelmente o maior orçamento de sempre de um filme de Franco, e por isso provavelmente aquele em que ele esteve mais constrangido, pelo menos em termos de casting. O resultado não é tão visceral, não tão loucamente alucinante como alguns pedaços de outros filmes conseguem ser, mas tem alguns aspectos que recompensam:

-cinema auto-reflexivo: o personagem de Kinski escreve a história das duas irmãs à medida que avançamos. Por isso temos um realizador que faz um filme sobre um escritor (aprisionado) que inventa 2 narrativas paralelas sobre 2 irmãs sem esperança, que espelham 2 atitudes distintas: uma é maliciosa, a outra aprende a retirar prazer das humilhações. Justine é aquela que seguiremos;

-no seu caminho pela humilhação, intriga, e todos os tipos de cobiça sexual por todos os tipos de pessoas, Justine vai passando por um conjunto de cenários. Alguns são perfeitamente olvidáveis, meras árvores em bosques filmados de forma incompetente. Alguns são apenas ordinários, alguns são lugares bem escolhidos de Barcelona (a praça S.Felipe Neri é o mais sedutor desses), e alguns são Gaudí. Isto é interessante, porque os cinematógrafos, talvez o próprio Franco, tiveram interesse nestes cenários. Em termos gerais, a fotografia neste filme é bastante boa comparando com o que podemos ver neste género. Nos locais Gaudí, há a intenção de filmar espaço (veja-se o uso denunciado das grandes angulares em alguns sítios, até ao ponto de distorcer a forma e o foco dos limites da imagem) e, nas cenas do parque, filmar o percursos arquitectónico ao longo dos arcos. Sexo e espaço, essa é uma ideia engraçada e compensadora. Mas Romina Power não faz ideia do que se pede dela, e tudo acaba por se tornar um passeio no parque, em última análise desinteressante na sua maior promessa.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve