Arquivo de Outubro, 2009

Driven (2001)

“Driven” (2001)

driven

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não é F1, é nascar

Corridas de carros e filmes. Desporto e filmes. Se pensarmos um pouco, é uma mistura poderosa. Desporto tem a ver com movimento, é como uma dança, e isso é cinematográfico, na verdade é um dos campos cinematográficos mais ricos. Tem emoção directa, o que significa que não sabemos o que esperar, mesmo que tomemos partidos. Há um aspecto forte de suspense que rodeia cada jogo, cada desporto, e as corridas de carros não são excepção. Mas há um enorme senão: ninguém (supostamente) sabe até onde chegará. Tudo pode acontecer no desporto, vive do momento, mais do que qualquer performance, ao vivo ou gravada, musical, teatral ou qualquer outra. Por isto, para manter a emoção do desporto viva e verdadeira, não podemos encená-lo. E não podemos fazer um filme sem termos praticamente tudo encenado. Aí está a diferença. Dança, música, teatro, tudo é performance, tudo tem a ver com fazer algo que estava já combinado. O cinema herda isto. Por isso é que precisamos de mentes interessantes (ou intuitivas) para termos arte interessante, quando mesmo os mais talentosos desportistas podem perfeitamente ser uns pacóvios intelectuais. Também é por causa disto que para mim é impossível, pelo menos com os meios que temos hoje, criar um filme (não documentário) que eficientemente junte desporto (qualquer um) e filme. Provavelmente por isso também é que os Wachovsky exploraram as corridas de carros confiando em novas tecnologias, porque sabiam que as ferramentas normais não seriam eficientes (ainda não vi “speed racer”). E sim, temos Chariots of Fire, mas aí o desporto é uma casualidade, e funciona como uma performance congelada, que a música realça. Filmes de desporto puros, não conheço nenhum que seja remotamente interessante.

Ainda menos quando temos a atitude deste filme. Isto é uma desgraça tão grande, muito para lá dos problemas da mistura entre desporto e filmes. Por isso temos Reynolds, a representar um ex macho herói das pistas, que é provavelmente o único papel que ele já representou. Temos Stallone, que é o velho herói de guerra, que volta à acção, para salvar o dia quando precisam dele. E temos um conjunto de outros personagens cliché, estrelas ascendentes, tipos que lutam para ser eles mesmos, e para se sentirem livres. Em todo o caso, vejam isto: todos os arcos pseudo dramáticos existem num mundo de relações humanas. Amor vs Sucesso, Orgulho, afirmação pessoal. Aborrecido, vulgar, feito num nível abaixo do tolerável. Não há a menor tentativa para filmar as corridas de uma forma interessante. É tudo explosões e lesões, moedas que ficam nos pneus, colisões, aborrecido, inútil.

Ah, a cena de salvamento pelos dois líderes do campeonato consegue parecer ridícula mesmo no meio deste filme ridículo.

A minha opinião: 1/5

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Suknickár (2005)

“Suknickár” (2005)
(Skirter)

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tecidos

Este é um filme feito por um tipo que não é um cineasta assumido. Ele gosta de tentar meios diferentes, que vão desde a rádio até ao filme, da colagem à palavra escrita. Por isso deveremos esperar uma certa liberdade, ou independência dos códigos cinematográficos normais, que os cineastas reais seguem. Isso é algo que me fazia logo querer ver este.

Gosto do que foi tentado aqui. Uma espécie de sensualidade, alcançada a partir de visões parciais do corpo feminino. Provavelmente essa é a própria definição de sensualidade, e foi tomada literalmente aqui. O facto de que o filme é uma curta, e não obedece a um guião linear ou completo protege esta visão, já que não há na realidade personagens (femininos) para serem desenvolvidos. O resultado é que podemos imaginar seja o que for, e será sempre mais perfeito do que a realidade (independentemente do que fosse) de termos caras para corresponder aquelas pernas tão cuidadosamente fotografadas, meio tapadas por tecido também meticulosamente fotografado, de diferentes texturas e vistos com diferentes níveis de pormenor. Pelo é tecido, e torna-se tecido em muitos momentos.

Por isso a ideia básica era boa. Mas já o vi melhor feito, por este mesmo realizador. “Prílepeck”, que eu vi há 2 anos num grande ecran, é mutio mais eficiente, e creio que isso tem a ver com duas coisas: -a história básica era mais carinhosa em prilepek, porque ele aí centrava as coisas num tipo que incidentalmente procura o amor, nas pernas das mulheres q passam. Por isso ali ele alivia a obsessão pelas pernas, e isso realça a sensualidade. -aqui o filme é acção real, pequenos planos, algumas vezes abstractos, mas acção real. Em “prilepek” tinhamos stop motion. Cenas reais captadas com uma câmara fotográfica. Nada de 24fps, ao invés tínhamos pedaços de realidade, que nos davam ainda menos para ver, e mais para imaginar. É um truque eficiente, que não temos neste filme, e isso quebra o efeito, para mim.

A minha opinião: 3/5

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Being John Malkovich (1999)

“Being John Malkovich” (1999)

malkovich

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viagem ao teu (outro) eu

Há filmes que definem o que o que os meus sonhos vão ser. Outros ajudam-me a persceber de que são esses sonhos feitos. Talvez estas duas ideias sejam mais parecidas do que eu penso. No entanto, este filme é do segundo tipo. Pelo menos para mim. Eu sou um romântico, incurável. Choro perante o amor, incorrespondido, verdadeiro. Para além disso, estes últimos meses têm sido um período difícil na minha vida, tempo de mudança, indecisão, não sobre amor, mas tudo o resto. Por isso automaticamente eu sou o personagem de Cusack, alguém a quem não deixam controlar as minhas marionetas.  Tudo isto já torna este filme especial para mim.

Mas isto é cinema, e é isso que faz o filme para mim, aqui. Assim, naquilo que toca ao cinema, o que temos é uma mistura entre um realizador inspirado e competente, dois dos melhores actores a trabalhar hoje (Cusack e Keener), uma mente interessante, que até se empresta para ser o palco do filme, literalmente (Malkovich), e um dos melhores argumentistas de sempre.

Até um certo limite, a escrita de Kaufman assemelha-se à de Medem. Ambos concebem o mundo como um céu negro infinitamente polvilhado de pontos estrelados luminosos. Depois, sobre esse céu, pegam num marcador e unem pontos, até que tenham desenhado as suas constelações pessoais, até que tenham desenhado as suas almas no céu. Se estivermos dispostos a perceber o que eles pretendiam com cada ponto que escolheram tornar seu, vamos saber que estamos num mundo diferente, não separado do nosso, porque o intersecta, mas estaremos realmente “dentro” da cabeça de alguém. Não a vamos controlar, não vamos manipular, mas seremos abensonhados. A diferença, no entanto, entre Medem e Kaufman, é que o primeiro dirige sempre os filmes que escreve. Por isso temos sempre uma visão coordenada que toca cada pedaço do que vemos. Kaufman colabora, e no processo ganha o que os realizadores têm para dar, mas corre o risco de ser mal compreendido. Neste filme, todas as compensações e interpretações pessoais por parte dos intervenientes principais parecem-me perfeitamente balançadas. Esta é uma experiência doce, algo que não vão esquecer.

Spike Jonze tem uma carreira como realizador de video clips, e isso reflecte-se, ele leva a representação das dramatizações das marionetas de Cusack para um nível alto, e essa é uma peça fundamental da metáfora. Marionetas, a ilusão de uma vida criada no palco, levada para vidas encenadas no mundo real. A forma como Schwartz tem de se tornar outra pessoa para poder ser ele mesmo, para poder expressar-se livremente. Para poder ter a ilusão de amor verdadeiro! Que drama profundo, este. A forma como Maxine controla os controladores, engana os enganadores, manipula todos, mesmo os que supomos serem manipuladores; apenas para descobrir que não o deveria ter feito. A forma como Lotte é definitivamente a mais manipulada, e por isso é a única não corrompida. A forma como, em última análise, Malkovich não existe. A forma como Lester é o mais próximo de Deus que temos no filme.

Indecisões, meio caminho entre lugares, meios pisos. Canais entre pessoas, pessoas como recipientes que podem conter várias personalidades. Criar literalmente a nossa própria realidade, ao atenuar as definições do Eu. Isto tem tanto a ver com amor como com o processo de viver esse amor. Tanto a ver com a verdade como com o que a verdade significa. Tanto a ver com uma história como com a forma como se contam histórias. Isto é tanto um filme como é um ensaio sobre filmes, sobre cinema. Isto é uma obra prima de auto-referência.

A minha opinião: 5/5 provavelmente “o despertar da mente” supera este, mas este filme fará parte de ti, se o deixares.

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America’s Sweethearts (2001)

“America’s Sweethearts” (2001)

sweethearts

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vidas falsas falsificadas

Há um cliché comum nos comentários a filmes, normalmente feito pelo espectador médio, os alvos para filmes como este, que é algo como: é bom ver o filme porque me permite não pensar e esquecer o mundo real. Algo assim. Isto é um engodo, claro. Ninguém que pense vai parar de pensar mesmo em frente a um pedaço de entretenimento banal como este filme, e aqueles que normalmente não questionam as coisas, não o farão independentemente do filme que se ponha em frente a eles. Mas compreende-se o significado do conceito de “não pensar”, e este filme tem um lugar de ouro no (imenso) armazém de filmes concebidos não serem interessantes, apenas entretenimento. Isto acontece porque os criadores não puseram pistas interessantes para nós seguirmos, não há nada aqui.

Mas a verdade é que mesmo nos pântanos crescem flores, por isso há duas coisas em que reparei:

Uma é John Cusack. Ele é bom, e trás algo novo até a papéis desgastados como o que tem aqui. Ele tem uma forma estranha de se colocar entre a narrativa do filme e nós, audiências. Nem é uma pessoa real (como nós, espectadores) nem um personagem totalmente integrado no filme. Em vez disso, parece que ele é uma espécie de David Attenborough do cinema, alguém que está na cena de acção, mas confortavelmente protegido por uns arbustos, enquanto comenta a perigosa refeição dos leões. Ele é excelente.

Pegando nesta situação de Cusack creio que encontramos o cerne do filme. Temos 2+2 personagens que oscilam todo o tempo entre duas realidades distintas dentro do filme: a do estrelato, e a da “vida real” no filme. Absolutament etudo, todas as piadas, todos os pedaços de romance, todas as discussões, todos os pontos do enredo giram à volta da ideia de que actores famosos como os personagens de Cusack e Zeta Jones têm duas faces, duas vidas; uma que se mostra a todo o mundo, brilhante e polida, e a realidade aborrecida, infeliz, e não integrada. No final, Zeta Jones agarra-se à falsa realidade da fama, e por isso é que ela fica com o personagem espanhol, igualmente falso; e Cusack fica com o personagem de Julia Roberts, alguém que viveu na sombra do estrelato toda a vida, vendo e vivendo os ambientes das estrelas todo o tempo sem se tornar parte deles. Há um palco público onde todas as hipótese (por parte do público e dos personagens) tomam lugar. É uma regra de ouro deste tipo de filmes.

Assim, na minha maneira de ver, temos isto: a vida “real” dos personagens de Jones e Cusack está para o seu perfil como estrelas como este filme está para ideias cinematográficas interessantes. Aborrecido, mortiço, vazio, mas que tenta parecer brilhante, polido, e atractivo. Mas ele entretém, e mesmo se começamos a pensar nele, não vamos tirar muito dele, por isso creio que cumpre os objectivos.

A minha opinião: 1/5

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La noche del terror ciego (1971)

“La noche del terror ciego” (1971)

noche terror

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bate na mulher, e espera que te mordam

Em nenhum outro género como a “série b” temos a paixão original dos criadores tão directamente transposta para as audiências. Está tudo ali. Talvez porque há pouca mediação na produção destes filmes, eles são a cara dos criadores, vê-los é como estar lá quando eles foram feitos.

Outra coisa incrível nestes filmes é a quase total liberdade dos seus criadores, em relação às audiências. O que quero dizer é que, dado um determinado género, “terror” neste caso, sabemos que as pessoas que o procuram querem um certo número de elementos. Mas depois desses elementos (normalmente visuais) estarem garantidos, os realizadores podem fazer o que quiserem. Claro que temos de levar com os baixíssimos valores de produção, mas isso é parte da experiência. É a paixão que importa, o facto de que o filme Tenha sido feito conta. E claro, especialmente após tantos anos, todos os aspectos falsos da produção, das vozes à caracterização são adoráveis, um trabalho de amor de pessoas que adoram o que fazem.

Assim, considerem o género terror, estes filmes vão desde o “susto no escuro” até ao trabalhar de um ambiente. É isso que temos aqui. O filme investe tudo em atribuir uma aura misteriosa à aldeia abandonada, que é na verdade um convento. Cada cena fora do local fala sobre o próprio local, a forma como todos parecem ficar assustados com a simples menção do nome da terra faz-nos querer descobrir os seus mistérios. Assim, temos paisagens campestres bonitas, personagens que circulam por elas por razões aparentemente incompreensíveis, uma história passada incongruente que envolve as duas personagens femininas principais, e que implica lesbianismo, certamente para motivar a filmagem do flashback (aí estão as tais demonstrações sexuais que as audiências querem). Sexo, velhos mitos, contos esotéricos, velhas múmias a circularem.

E o convento. É aqui que as coisas começam a desiludir para mim. Isto porque eles escolheram um grande tema, templários, mas não conseguem levar a exploração visual ao nível da promessa. Os templários têm uma tradição profunda de esoterismo, do oculto, e isso reflecte-se em vários níveis, e para os nossos olhos contemporâneos, a face mais visível desse esoterismo é a arquitectura deles, o que sobra dela. Agora, se não o sabem, a certa altura os templários foram perseguidos e mortos e oficialmente extintos e rechaçados por todos os países da Europa, com a excepção da Escócia e de Portugal. Sob diferentes nomes, eles continuaram em Portugal a sua actividade, e na verdade tornaram-se anonimamente fundamentais no que se seguiu, as empresas marítimas e o início da globalização moderna no século XV. O que eles fizeram foi enorme. Por isso, mais do que qualquer outro sítio, Portugal tem uma grande concentração de lugares mágicos, locais esotéricos, arquitectura de influência templária. Confiem em mim, já estive em muitos desses sítios e senti-os lucidamente, são incríveis. Mas neste filme, Ossorio escolhe filmar tudo em Portugal, excepto o único sítio que interessa, o velho convento, que ele filma em Espanha, e que não tem nenhuma relação com os templários. Que pena. É essa a minha queixa. Excepto pelos velhos arcos de uma igreja degradada que ainda se seguram, não tem interesse o sítio, são velhas pedras e velhos pedaços de paredes, sem aparente significado. Em Portugal, e filmou perto de locais incríveis, como pôde não usá-los? Isso seria algo de “culto”. Mas não, não temos nenhum do ritualismo circular da arquitectura templária. Imaginem aquelas múmias cegas a representarem os rituais dos cavaleiros originais. isso seria assustador, independentemente da falsidade das vozes, ou da artificialidade dos bonecos.

O machismo é gritante, e seria cómico se não correspondesse mesmo à realidade das sociedades espanhola (e portuguesa!) há 40 anos. Cada homem existe para dominar as mulheres que o rodeiam. Temos o tipo rude, bigode, bate nas mulheres, viola-as, e ainda consegue ser desejado por elas. E temos o playboy retro que seduz duas ao mesmo tempo. As mulheres são objectos, as camisas são rasgadas para que os seis possam aparecer. Bem, isto é exploitation básica, mas parte do macho não é. Era mesmo assim.

A minha opinião: 2/5

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The Dancer Upstairs (2002)

“The Dancer Upstairs” (2002)

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conhecer uma alma

Pela forma como mexem comigo, creio que os têm 3 categorias: -aqueles que me deixam indiferente, incapazes de tocar qualquer dos butões que estimulam a mente e as emoções, este é o pior tipo; -outros simplesmente dão murros no estômago, chocam-nos, forçam-nos a encarar situações sem nos obrigar a ir até ao cerne delas; -o melhor tipo de filmes mexe com tudo dentro de nós, faz-nos descobrir partes da nossa alma que não conhecíamos antes. Agarram-nos onde interessa, e levam-nos para territórios desconhecidos.

Não podia adivinhar que este filme fosse cair na terceira categoria. Mas cai, apesar das falhas, que não são poucas. Pelo seu trabalho como actor, sempre achei que Malkovich fosse uma pessoa interessante. Há um tipo de lucidez perturbada que sombreia até as suas actuações de orientação mais comercial. Para além disso, se virmos as escolhas que ele faz, ele é um daqueles que entra em filmes rasca para ganhar a vida, e depois arranja tempo para trabalhar nas coisas que o motivam. Por isso é que temos 3 participações dele em filmes do Oliveira. Aqui ele tentou realizar.

Aparentemente, a história é uma má escolha. O que acontece e como acontece é desinteressante, previsível e até incoerente. Mas há algo muito bom: somos levados a crer que vamos assistir a um thriller político, altas conspirações que afectam as vidas das pessoas pequenas. O herói solitário que fará a coisa certa. Não tendo lido o livro, adivinho que ele aponta para aí. O início do filme dá essa impressão também. Mas depois Malkovich engana-nos, e empurra-nos discretamente para uma camada mais profunda de emoções pessoais, desenvolvimento de personagens através das relações entre pessoas. No final, temos uma história sobre um personagem interessante, aprisionado num mundo corrupto e vazio, que tenta viver uma vida honesta, “looking for a more honest way to practice the law”. Um pouco como a carreira de Malkovich. Temos o personagem representado por um Bardem muito concentrado, um actor método muito interessante. O personagem dele vive polarizado por 3 mulheres, a sua estéril mulher, a filha apaixonada pela dança, e a perturbada professora de dança. Como ele oscila entre cada uma delas é o que interessa. Pela forma como o contexto político intersecta a vida emocional de Bardem, creio que a história ajuda, mas achei uma falha incrível que Malkovich não fosse capaz de fazer-nos compreender quando deveríamos desistir de seguir o afinal inútil thriller e focar-nos naquilo que certamente ele queria fazer, que era centrar-nos na cabeça do personagem de Bardem. Sei que Malkovich queria fazê-lo melhor, mas também era só a primeira tentativa dele.

A direcção é desigual. Temos diálogos mal editados que prejudicam os actores e a fluidez da história, e algumas más escolhas na sequenciação das cenas que perturbam a compreensão do enredo. Erros básicos. Pior que isso, por vezes Malkovich perde o controle e deixa-nos a pensar para onde deveríamos ir. Um filme tenso e concentrado como este requere uma direcção apertada que Malkovich não nos dá com consistência. Mas também temos pedaços de cinema puro e honesto, que inclui performances.  Entre estas temos uma aula de dança, alternada com o assassínio de 3 pessoas numa performance de teatro, com a audiência a pensar que as execuções são uma parte da performance. E temos a cena final, uma performance da criança, em que Bardem se apressa para a ver. Esses pedaços e alguns outros foram poderosos, sinceros e comovedores. Se tivessemos esta consistência ao longo do filme, teríamos algo realmente poderoso.

Há algo particularmente bem escolhido: as localizações. É sabido que Malkovich frequenta Portugal bastante, por isso imagino que escolheu pessoalmente algumas delas. Em todo o caso, os sítios sempre trazem algo de novo ao que ele quer, são um personagem permanente que enquadra o que é suposto vermos. Neste ponto específico, o filme é consistente todo o tempo. Imagino que bastante tempo foi gasto a escolher os sítios.

A minha opinião: 4/5 há uma alma verdadeira por trás deste filme, apesar das suas falhas como filme.

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Death and the Maiden (1994)

“Death and the Maiden” (1994)

deathmaiden

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rodear uma ideia

Esta é uma das casas cinematográficas deste realizador. Ele nada confortavelmente nestas águas. Polanski necessita de muito poucos elementos para introduzir uma grande tensão em qualquer filme. Por isso é que ele procurou várias vezes na carreira guiões como este.

Isso é uma grande qualidade, a capacidade de pegar em muito poucos elementos do cenário, neste caso uma casa pequena e a paisagem que a rodeia, e construir uma narrativa sobre isso. É isso que temos. A história é suficientemente simples para não produzir distracções, e a paisagem é vasta e suficientemente deserta para fazer o mesmo. O que temos é todo um contexto que rodeia uma certa ideia de verdade incerta, realidade provisória (para os nossos olhos). Por isso é que nunca paramos de nos questionar se Weaver está certa ou errada, se Kingsley é um violador ou uma vítima. Também Stuart se questiona, que tem de ultrapassar as mesmas dúvidas que nós, espectadores, e isso fá-lo o nosso representante no filme. Nós somos juízes das nossas sentenças. Toda a crueldade de um regime inventado de um suposto país sul americano existe apenas para credibilizar o mundo do filme. Isto não tem a ver com a denúncia de crimes, nem com uma discussão política, como tem sido dito. Também muito tem sido discutido acerca da verdade que o diálogo final revela, ou não; para mim ele deixa as possibilidades abertas, embora sugira sinceridade.

Como ideia, esta é tão simples como parece, e como todas as ideias simples, é difícil de formalizar, mantendo a simplicidade. É aí que as coisas se tornam interessantes, quando vemos os dispositivos cinematográficos que rodeiam e colaboram com a simplicidade da dúvida pura que este enredo teatral sugere.

Primeiro, temos o núcleo da história enquadrado, no início e no fim, pela música nuclear, um quarteto que dá nome ao filme, e que dá consistência ao drama do personagem de Sigourney.

Temos a manipulação da paisagem, com o seu farol. O sentido de isolamento verde, a poética do local, que vai crescendo em nós, já que nos é dada em pequenos pedaços, até se tornar o palco final do drama real.

A casa. Esta parte interessa, já que este é um filme de um realizador que realmente sabe manipular o espaço e inclui-lo no drama. Isto vale para um quarto de hotel, um barco, ou uma pequena casa. É isto que ele tem feito ao longo da sua vida, em “a faca na água”, a triologia dos apartamentos, bitter moon e este. É algo que admiro imenso, a capacidade para incluir o espaço que rodeia os personagens nos seus dramas e discussões. Essa é uma das formas mais profundas de incluir o espaço (arquitectónico) em cinema. Orson Welles, Hitchcock (às vezes), Polanski… todos eles confiam na sua câmara para isso.

Temos as actuações no centro do sucesso deste filme. Cada um dos 3 actores envolvidos estão no seu melhor aqui, cada sabe exactamente como se deve colocar, e interpreta perfeitamente o que lhe é pedido para fazer as coisas funcionar. Ambiguidade, para Ben Kingsley, cabeça perturbada para Sigourney Weaver, inacção e indecisão para Stuart Wilson.

Este filme é menos conseguido do que outros, mas Roman nunca deixa de nos dar o seu olhar especial, e isso vale sempre a pena ver.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve