Archive for the '1960' Category

Ukradená vzducholod (1967)

“Ukradená vzducholod” (1967)

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voar para longe

A animação checa dos anos 60 é interessante. Havia talento, e uma vontade interessante de explorar, tentar coisas novas. Para além disso, os checos eram provavelmente o povo mais activamente descontente de todos os estados soviéticos satélite. Quando este filme saiu, a primavera de Praga estava quase a acontecer, o país fervia com tensão e vontade de mudança.

As mentes criativas normalmente fervem a temperaturas mais altas em contextos desses. Por isso, assumo que alguma metáfora de procura da liberdade pode ser entendida com esta história. Voar para longe, território de escapatória, a procura de lugares onde podemos experimentar aquilo que em casa é impensável. Os intelectuais que não colaboram com os regimes do outro lado da cortina estavam a ter maus momentos. Isto seria uma metáfora adequada, na linha daquilo que Svankmajer também estava a fazer.

Para além disso, escolher Júlio Verne, tão adorado por este realizador, é em si mesma um comentário ao tipo de efeito que ele estava a tentar alcançar. O motivo pelo qual adoramos Verne é a inventividade da ficção científica que ele propõe. Ele não escrevia f.c. como Philip Dick, em que o outro mundo científico é o enquadramento para uma exploração inteligentemente concebida das coisas próximas a nós, no nosso mundo “real”. Pelo contrário com Verne tem tudo a ver com o mundo que ele descreve, em termos físicos, a verosimilhança da proposta científica, viver nesse mundo, como definido pelo escritor. Ele dá-nos a sedução do hiper realismo, a sensação que aquilo que estamos a ler poderia ser possível (na verdade muito do que ele escrever acontece hoje em dia), envolvido na fascinação por um mundo paralelo fantástico. Sobre tudo isto, experimentar é basicamente o que conduz este tipo de criadores.

O problema deste filme é que os códigos que usa estão ultrapassados. Não me relaciono com a apresentação visual do filme. Este mundo soa plano e nada fascinante hoje. Há sensibilidade visual aqui, na forma como a animação e a acção real são misturadas, a forma como a tonalidade amarela é aplicada para unir todos os pedaços. Houve muito esforço aplicado aqui, e pode ter funcionado nos seus dias. Mas agora não. É um grito de liberdade, e sentimos isso ainda hoje, e nesse aspecto, é bom. Como filme, penso que há outras aventuras que merecem mais ser vividas, outras viagens mais úteis para fazer.

A minha opinião: 1/5

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Marquis de Sade: Justine (1969)

“Marquis de Sade: Justine” (1969)

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frigidez espacial

Acreditem ou não, escolhi ver este filme depois de ver a Árvore da Vida de Malick. E fi-lo não porque queria algo totalmente diferente, mas porque procurava algum tipo de abordagem semelhante ao cinema. Não confundam. O filme de Malick mudou a minha vida, e este é apenas lixo total e deliberado. Mas aqui como no outro, temos realizadores que filmam o que querem, fora de convenções. Ambos confiam fortemente na intuição, no caso de Malick suportada por uma pesada bagagem de estudo e reflexão, e no caso de Franco apenas pelo puro prazer de filmar, ou melhor, de filmar como atitude de vida.

Os filmes lixo são fantásticos, porque por momentos saímos das convenções habituais. O sexo é um dado adquirido na maioria destes filmes, chamam-lhes exploitation, porque supostamente estamos a “explorar” corpos, e o sexo como voyeurs. Poderia argumentar que não sei em que medida isso difere da maioria do nosso mainstream hoje em dia e desde há algum tempo, mas isso é uma conversa diferente. Em todo o caso, a garantia que temos é que dentro dos constrangimentos da produção, veremos o que um tipo ou um número reduzido de pessoas realmente queriam fazer. Isso é reconfortante.

Aqui temos provavelmente o maior orçamento de sempre de um filme de Franco, e por isso provavelmente aquele em que ele esteve mais constrangido, pelo menos em termos de casting. O resultado não é tão visceral, não tão loucamente alucinante como alguns pedaços de outros filmes conseguem ser, mas tem alguns aspectos que recompensam:

-cinema auto-reflexivo: o personagem de Kinski escreve a história das duas irmãs à medida que avançamos. Por isso temos um realizador que faz um filme sobre um escritor (aprisionado) que inventa 2 narrativas paralelas sobre 2 irmãs sem esperança, que espelham 2 atitudes distintas: uma é maliciosa, a outra aprende a retirar prazer das humilhações. Justine é aquela que seguiremos;

-no seu caminho pela humilhação, intriga, e todos os tipos de cobiça sexual por todos os tipos de pessoas, Justine vai passando por um conjunto de cenários. Alguns são perfeitamente olvidáveis, meras árvores em bosques filmados de forma incompetente. Alguns são apenas ordinários, alguns são lugares bem escolhidos de Barcelona (a praça S.Felipe Neri é o mais sedutor desses), e alguns são Gaudí. Isto é interessante, porque os cinematógrafos, talvez o próprio Franco, tiveram interesse nestes cenários. Em termos gerais, a fotografia neste filme é bastante boa comparando com o que podemos ver neste género. Nos locais Gaudí, há a intenção de filmar espaço (veja-se o uso denunciado das grandes angulares em alguns sítios, até ao ponto de distorcer a forma e o foco dos limites da imagem) e, nas cenas do parque, filmar o percursos arquitectónico ao longo dos arcos. Sexo e espaço, essa é uma ideia engraçada e compensadora. Mas Romina Power não faz ideia do que se pede dela, e tudo acaba por se tornar um passeio no parque, em última análise desinteressante na sua maior promessa.

A minha opinião: 2/5

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The Pink Panther (1963)

“The Pink Panther” (1963)

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descentrado

Há tantas personalidades do mundo dos filmes envolvidas aqui que hoje carregam uma grande dose de nostalgia que vale a pena ver este filme só por isso. Isso se conseguirem receber totalmente essa força que essas pessoas demonstram. Capucine, Claudia Cardinale, até a espécie já extinta a que Niven pertencia. Blaker Edwards, que morreu recentemente e, claro, Peter Sellers, uma das pessoas mais genuinamente engraçadas em filme de sempre. Juntem a isso os anos 60, já por si um canal da nostalgia ocidental contemporânea, e a pantera, acabada de nascer aqui. É pesado, provavelmente tanto como ver Audrey Hepburn e Cary Grant no Charade deste mesmo ano. Se inspiramos estes aromas de outros dias e nos deixamos levar por como imaginamos que esses dias seriam, este filme vai brilhar.

O filme por acaso é incrivelmente fresco, como comédia. Não porque alguma coisa do que aqui temos seja ainda remotamente uma moda na actuação cómica de hoje em dia. Não é. O ritmo é lento, e isto arrasta-se comparado com o que faz as audiências rirem hoje em dia. Sabemos que a comédia é, entre todos os géneros, aquele que se desactualiza mais rapidamente. Esta está desactualizada, mas funciona se virmos o seu contexto.

Mas algo estranho e bizarro mata uma parte desta experiência. O filme parece-nos descentrado hoje, e suponho que isso seria notório logo que o filme saiu. Isso porque o filme foi concebido para ter Niven como a estrela, e Cardinale como o sex symbol exótico. Ela até representa uma rainha de um país exótico distante. Capucine e Sellers deveriam ser asteróides orbitando em torno das estrelas principais. Mas Sellers baralha as coisas, e desequilibra este universo aparentemente bem construído. Isso porque ele é a estrela mais brilhante deste firmamento. Aparentemente, o papel dele deveria ter sido feito por Ustinov, mas Sellers acabou por ficar com ele, e o resto nós sabemos, e o muito que ganhamos com isso. Ele é um grande actor, porque de algum modo ele faz as suas habilidades sem parecer abertamente que está a actuar de forma engraçada. E o timing dele normalmente é perfeito.

Por isso, o estranho aqui é que temos um performer brilhante a roubar o filme aos verdadeiros ladrões (ele até vai para a prisão em vez deles no final). O fantástico é que tínhamos Peter Sellers.

A minha opinião: 3/5

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Paris – When it Sizzles (1964)

“Paris – When it Sizzles” (1964)

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pôr do sol na torre

Este é um caso de estudo interessante:

Como filme, não há muitas coisas boas aqui. Realização simples, edição banal, nada relevante, é um produto de velhos tempos, mas pior que outros que seguiam o mesmo modelo.

Como entretenimento, perdeu todo o valor que possa ter tido nos seus dias. E isso não é algo específico deste filme. A comédia romântica é seguramente o género que fica mais facilmente datado, porque lida com necessidades exigências das audiências muito próprias de determinado momento. Por isso, este filme está tão desactualizado hoje como qualquer uma das comédias românticas de hoje estarão em 50 anos.

As actuações dos actores principais são toleráveis, ainda que tenhamos visto Hepburn, Holden e Curtis fazer melhor em muitos dos seus outros filmes. E apesar deste papel não estar tão adequado ao personagem de Audrey, ainda assim temos a classe dela, a mais sublime na filmolândia.

Mas há algo que torna este filme notável e uma peça única que eventualmente terás de ver se te interessa o cinema e as mudanças que os franceses lhe imprimiram no início dos anos 60. Temos aqui um filme sobre escrita de filmes. Desde o início que nos é permitido sabermos que vamos ver um filme que se faz a ele mesmo, que se vai inventando à medida que evolui. Naturalmente os personagens principais teriam de ser um escritor, e uma dactilógrafa, que sem querer se torna ela mesma uma escritora. Temos 2 níveis: o da realidade do quarto de hotel de Paris, que já é ostensivamente artificial (por isso é que Holden diz que mandou colocar ali a torre Eiffel para que ele soubesse que estava em Paris) e o nível do filme dentro do filme, uma realidade provisória, sempre em mudança, e afectada pelo que se passa no quarto. Estas mudanças constantes no filme interior daria a parte de entretenimento (Tony Curtis actua para parecer engraçado, e consegue).

Mas onde as coisas se tornam realmente interessantes é na ligação francesa: há um conjunto enorme de referências explícitas à nova vaga que atingia Paris e o cinema francês desses dias. Essas referências surgem sempre como paródias, algo que tem que ver com filmes onde “nada acontece”. E recebemos este filme como o oposto disso, um festival para o olho, onde a narrativa é recheada de eventos, independentemente do quão ridículos pareçam, mesmo no contexto do filme, e mesmo no contexto do filme dentro do filme! O que temos é a moda antiga, e isso é assumido. E o campo de batalha é literalmente Paris, ao mesmo tempo o palco da nova vaga, onde as mudanças profundas ocorrem, e uma das localizações mais acarinhadas dos “velhos tempos”, um dos lugares mais usados na história do cinema, com todos os seus lugares icónicos, carregados de simbolismo no cinema americano pós-guerra. É isso que está em jogo aqui: o surgimento de novos paradigmas, que ameaçou o que o “cinema americano” para as massas signficava. Por isso é que o título provisório do filme dentro do filme é “A mulher que roubou a torre Eiffel”.

A decadência do personagem de Holden (que espelha o que o próprio Holden estava a passar a esta altura) pode ser vista com um peso simbólico. Os anos 60 foram uma década de cinema europeu brilhante, que Hollywood só conseguiria seguir liderado pela chamada geração Vietname.

O beijo que vende pipocas, é a cena que melhor resiste neste filme, na forma como cumpre os seus próprios clichés assumidos, e é o crepúsculo de um certo tipo de filme. Ah, e tínhamos a Audrey…

A minha opinião: 3/5 um filme mau que realmente deviam ver.

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X (1963)

“X” (1963)

x ray man

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caleidoscópio

Parece-me que houve uma tentativa válida e honesta neste filme, de fazer algo eminentemente visual. A história tem a ver literalmente e unicamente com visão, é sobre o que as pessoas vêm, o que poderiam ver, e como isso afectará o seu mundo. Assim, temos o Frankenstein e o monstro no mesmo corpo, um médico obcecado com ver sob a superfície. A metáfora é bastante clara e básica, mas apesar disso é tolerável: aquele que quer ver tudo acaba por ver nada. Toda a luz é equivalente a nenhuma.

O problema, provavelmente, é a distância enorme entre as ideias dos escritores e a solução visual encontrada pelos realizadores. Eu sei que este filme tem um baixo orçamento, feito pelo mestre disso, mas também me parece que o dinheiro, ou a falta dele, dificilmente pode tornar-se a desculpa para tentativas desinteressantes de fazer um filme visual. Não é a pobreza de um cenário ou a fotografia básica que desviam os bons realizadores de tentar coisas interessantes. Para lá disso, este filme não é assim tão barato. Mas o problema é que os planos são concebidos de forma banal, muito ortodoxos, feitos para cumprir calendário e não para tentar ser imaginativo.

No entanto há aqui uma tentativa interessante, ainda que falhada. Suponho que, porque isto foi feito nos anos 60, o rock progressivo era apelativo para a juventude, o alvo maior deste filme, há uma tentativa de colocar o raio x de Milland como uma ilusão psicadélica. Por isso todos os planos “ponto de vista” são vistos como uma decomposição abstracta da realidade em cores, com um efeito adicional de caleidoscópio. Os momentos em que esses pedaços são inseridos são feitos como partes delirantes de Xavier. Não me parece que seja suficientemente interessante para eu dar mais atenção a este filme, mas apreciei o esforço, é o melhor que temos aqui.

Visão e transcendência. Ciência e religião. Neste caso, eu não me importaria com essa ligação, é inconsequente aqui.

Apreciei os pedaços cómicos, quando Xavier vê as pessoas nuas a dançar. Funcionaria de forma perfeita se pudessem mostrar tudo, não apenas os pedaços inúteis como aqui, mas tudo bem.

A minha opinião: 2/5

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Cape Fear (1962)

“Cape Fear” (1962)

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velhos jarrões

Remakes, ou filmes que foram refeitos, são uma boa experiência apenas por esse facto. Se vimos ambos, podemos ver 2 filmes em paralelo, e o filme reflexivo de imaginar como o segundo filme foi feito, o que estavam os “refazedores” a pensar. Foi assim que vi este. Já tinha visto o remake de Scorcese, antes de ver este, a partir desse momento nunca poderia ver este de forma isolada, no lugar que ele ocupava sozinho. Apenas posso imaginar.

No entanto, imaginei o que estaria Scorcese a pensar. Creio que a intenção dele não era outra senão uma questão de actualização, e cumprir o que na versão original era apenas sugerido. Tudo era mais gráfico em 1991, claro, por isso Scorcese actualizou a violência, e mostrou o que as audiências apenas estavam preparadas para serem levadas a crer, em 1960. Mas a grande coisa que Scorcese fez foi introduzir a tensão entre o Max Cady e a filha. Juliette Lewis realmente impressiona. Neste original temos o desejo sexual do personagem de Mitchum, mas é unilateral, uma simples atracção de uma mente suja a uma criança inocente. E esta é basicamente a questão:

nesta versão antiga tudo é uma questão de bem-mal. É uma abordagem mais pobre (até os motivos para a vingança são menos dúbios do que na versão de Scorcese). Bem, até os actores são menos flexíveis do que aquilo que pedimos a um bom actor moderno. Peck e Mitchum nasceram ambos artisticamente para um cinema em que o “personagem” era algo que era parte das suas personalidades como “estrelas” assim como dos seus papéis. Por isso a actuação deles é rígida, e muito limitada. Eles estão ali para exibirem os seus personagens públicos. Assim, por exemplo, se consideramos Mitchum, ele não está a tentar convencer a audiência de um certo tipo de maldade sofisticada. Ao invés, ele está a dar-nos um perfume de dureza maléfica enquanto tenta ser ele mesmo: o “Homem” bruto mas sedutor. Peck tem a vida mais facilitada, é suposto gostarmos dele por isso ele só tem de ser ele mesmo.

Este é um filme que perdeu as ambiguidades e buscas morais do filme negro original, mas que ainda não chegou a nenhuma nova fase, que inclui actuações modernas (o efeito Brando não se aplicou a estes tipos) e novas formas de construir narrativa. Para mim, soa simplesmente desactualizado, e não me disse muito.

A minha opinião: 2/5

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The Shoes of the Fisherman (1968)

“The Shoes of the Fisherman” (1968)

shoes_fisherman

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propaganda e vida real

Temos que admirar a forma inteligente como esta história antecipa a realidade. A compreensão de que um “infiltrado” do outro lado da cortina, colocado no sítio certo, com o poder correcto, poderia fazer a diferença no desfecho da guerra fria.

Bem, a maioria do que vemos neste filme é lavagem cerebral romântica. O cliché do homem bom, bem intencionado e humilde que, apesar de estar no topo do mundo e da liderança política, ainda se mantém o farol do amor e das vidas dos desfavorecidos. Por isso é que vemos este papa a viver uma vida normal, na cidade “real” e sobretudo, é esse o significado da última cena, que segue “O grande ditador”. Mas com Chaplin, nós Realmente tínhamos um artista comprometido, alguém que nesse momento se preocupava tanto com o que defendia que arriscou tudo o que era como celebridade e mesmo como artista, apenas para passar a mensagem, de verdadeira humanidade. Aqui, temos uma maquinação perversa da história (não li o livro, isto refere-se apenas ao filme). Por isso, aquele discurso final deveria, e eventualmente soa como o grito de rebelião de um homem que tenta e quebra as correntes do interesse maior, em favor dos desfavorecidos. Mas o filme é em si mesmo parte de um esquema que permite a lavagem cerebral desses desfavorecidos, e a colocação da Igreja como o líder espiritual, superior. Bem, os interesses da igreja em relação à Guerra Fria e depois eram políticos, eram mundanos, não eram altruístas. Nem nesta situação nem em qualquer momento dos seus 2000 anos de história.

Mas é notável (e suponho que isto vai para o escritor) a precisão da previsão. Como é que ele assumiu que um papa sairía das cadeias de sofrimento da união soviética? Ele saberia algo? Como é que ele criou a biografia de um homem que realmente se assemelha a João Paulo II? Isso realmente é notável.

As opções cinematográficas são boas. O filme é bastante texturado, tenta filmar muitas coisas no local, e joga com as cores, e as texturas dos espaços interiores do Vaticano, surpreendeu-me as preocupações visuais nesses temas. Também me interessou o uso de filmagens reais repetidamente, sempre que (suponho) havia a necessidade de mostrar pessoas “reais” na praça de S.Pedro. Se foi por necessidades de orçamento, ou uma opção consciente, não sei, mas o facto é que esses momentos com captações reais fizeram toda a construção deslizar para uma sensação deliciosa de documentário que, se lhe adicionarmos os últimos 30 anos de história, farão este um trabalho muito mais forte. Para realçar isto, temos um contador de histórias designado, um repórter que literalmente nos conta os factos, de um ponto de vista público. Esse repórter tem uma história pessoal, que seguimos, e que se mistura com a história do papa a certa altura. Isso não é inocente.

Bem, podemos escolher realçar a eficiência da construção cinematográfica, e como ela é provavelmente mais poderosa hoje do que era nos seus dias, devido aos factos que sabemos hoje. Ou podemos simplesmente ficar com o facto de que filmes como este são propaganda velada, que procuram moldar as opiniões das pessoas sem se assumirem como propaganda. Eu retenho essa nota, mas apreciei a experiência.

A minha opinião: 3/5

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Le Gendarme de St. Tropez (1964)

“Le Gendarme de St. Tropez” (1964)

gendarme

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o que me lembro, e o que sinto agora

De todos os géneros, a comédia é o que mais facilmente se desactualiza. Isso acontece porque as convenções em cada momento no tempo (e para cada cultura) são muito voláteis, mudam rapidamente. E, por alguma razão, não acumulamos novas noções sobre as velhas, é como quem diz, com humor, uma vez instituídas novas convenções, rejeitamos as velhas (ao contrário, por exemplo, do filme de detective). Isto significa que o que faz as pessoas rirem agora, não funcionará num curto espaço de tempo. Ainda sou novo, e já vi isso acontecer, com filmes que vi quando adolescente. Mas depois temos outro aspecto a reconhecer: o facto de que as audiências se adaptam a novas convenções independentemente da sua idade (desde que continuem a ver novos filmes e vivam vidas sociais activas), mas ganham uma memória cinematográfica. Assim, muitas vezes, as pessoas “sabem” que vão rever um filme que “é” engraçado, elas lembram-se que se riram quando o viram pela primeira vez.

Eu vi este filme com a minha mãe, e registei este efeito nela. Para mim, este era algo que eu tinha visto há 10 anos, para ela, é uma memória de infância, quando estes filmes do gendarme era frescos.

Agora já não o são. As críticas sociais são totalmente desactualizadas nas sociedades portuguesas, mesmo na portuguesa!, por isso essa é uma carta fora do baralho.

O tipo de expressão física que Funés usa já não é tão suportável. A actuação física agora joga muito mais com o corpo como objecto (tipo Jim Carey) mais do que com a colocação de personagens em situações engraçadas, como aqui (Chaplin fazia as duas coisas).

Na verdade eu simpatizo com o personagem detestável dele. O polícia raçudo, desprezável, sobre-protector da sua filha (isso é comentário social também), que se preocupa com aparências. É uma questão de atitude, e Louis de Funés era um representador válido.

Uma coisa é notável neste filme no seu contexto: St. Tropez. O que é notável, para além de praias bonitas e estilo de vida desejável, é como o cinema uma peça importante, mesmo fundamental na máquina publicitária que os franceses montaram para promover o local. Começando com ‘e deus criou a mulher’, e com vários outros filmes, incluindo este. Aqui até temos uma canção sobre a vila, obviamente feita para promover tanto o filme como o lugar. Por isso (como com ‘e deus…) temos elementos chave que era importante realçar: praia, areia, ambiente de verão, barcos, alta sociedade, juventude relaxada e de mente aberta, raparigas atractivas. A história existe para exibir estes elementos. Bem, se formos hoje a St. Tropez e compararmos com o que temos neste filme (e especialmente em ‘e deus…’) temos que admitir que eles fizeram a campanha muito bem.

A minha opinião: 3/5

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Marnie (1964)

“Marnie” (1964)

marnie

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Só uma aresta

Este é um filme menos apreciado de Hitchcock. Creio que falha num ponto que certamente interessava a Hitch, mas acerta noutro nível. De qualquer forma, creio que o que interessava mais a Hitchcock for precisamente o que falhou.

Quem leu as minhas outras opiniões sobre filmes de Hitch sabe que ele trabalhou em fases muito claras, motivadas por temas que lhe interessava dominar. Assim, creio que ele teve uma fase de exploração espacial que começa com ‘Rope’, outra baseada em ambiente/estilo (culminando com North by Northwest) e uma terceira fase onde coloco este filme.

Nesta fase, o mestre tenta encontrar soluções visuais/narrativas para entrar no abismo da alma humana. Imagino que, sendo já um mestre em manipulação visual e narrativa, e tendo criado ensaios sobre como o olho funciona (Rear Window, Rope, Dial M…) estava agora interessado em como poderia colocar o avesso de um personagem nos olhos de uma audiência. O curioso é que nesta fase ele conseguiu o seu melhor na primeira tentativa, Vertigo, um dos melhores filmes de sempre. O que ele fez depois nunca foi tão preciso e interessante, para mim. Nem Psycho, nem Birds, nem este Marnie.

O sucesso de Vertigo é que o personagem de Novak nos engana a nós como engana ao personagem de Stewart e por isso vagueamos nas mesmas ruas labirínticas de ignorância de Stewart. Esse é o truque que ele usa, e a sua capacidade superior para fazer as coisas desenvolverem-se visualmente completa a obra.

Por isso, o ponto onde este filme falha é onde era mais ambicioso: em tentar fazer-nos funcionar como Marnie, e ver o mundo pelos seu solhos. Não temos aqui um dispositivo narrativo que permita a Hitch usar os seus maravilhoso sistemas de narração visual para fazer a coisa funcionar. Por isso é que ele usa o ecran vermelho sempre que quer sublinhar o estado de espírito de Marnie. Excepto por esses momentos que não são suficientes para nos transportar, pelo menos a audiências de hoje, como espectadores somos meros observadores dos factos da vida de uma mulher que percebemos que está perturbada, sem sentirmos essa perturbação.

Também, e isto poderá ser culpa de Hedren/censura, não conseguimos ligar-nos (eu pelo menos não) à sexualidade distorcida e reprimida por baixo da frigidez de Marnie. Talvez o filme que o tema merecia não pudesse ser feito em 1964. O cavalo como um elemento de escape à repressão sexual da sua mãe, o comportamento de repulsa como o cerne da sua capacidade para atrair homens, ou a cena da violação (tanto pelo personagem de Sean como a violação subentendida da sua infância). Pena, mas não sei se Hedren seria capaz de conseguir o efeito pretendido mesmo sem os constrangimentos da censura. Simplesmente parece-me que ela não é esse tipo de mulher (talvez Novak ou Kelly o pudessem ter feito).

O que funciona é aquilo em que Hitchcock nunca falhou: a sua economia visual, e como ele nos agarra na visão e nos leva onde quer. Há cenas que são notáveis por si mesmas. Assim, vejam a cena inicial, como ele estabelece o que Marnie faz, o seu método, o seu disfarce, e a introdução ao personagem de Sean Connery e ao que ele sabe. Vejam a cena do roubo no escritório de Rutland, como o enquadramento é perfeito (em termos de decidir exactamente o que devemos ver) constrói uma cena tensa e puramente visual. E vejam o plano grua relativamente celebrado na festa, realmente é magistralmente económico e significativo. O filme é um falhanço relativo pelo que disse, mas estas cenas fazem-no valer.

A minha opinião: 3/5

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Two for the Road (1967)

“Two for the Road” (1967)

twofortheroad

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emoção cinematográfica

Esta é uma das experiências mais efectivas e carinhosas que já tive com filmes. Posso passar uma vida a tentar perceber porque é que funciona tão bem. E será uma boa vida.

Este é um dos grandes filmes que Stanley Donen promoveu e ajudou a criar nos seus anos em Inglaterra. Ele fez vários esforços em produções independentes que, ao mesmo tempo, tentavam vender-se e encontrar um lugar no mercado de cinema global, mas por outro lado eram projectos pessoais onde Donen podia explorar o que queria.

Pela relação entre cinema e emoções humanas, creio que creio que este é o melhor filme dele (dos filmes que vi até agora). É uma peça honesta de cinema, que tem o que eu peço: -é efectiva em formas que ressoam dentro de mim muito depois de o ver, como um eco que atravessa a mente e a alma; -funciona e explora o cinema como um meio em evolução, e propõem coisas novas; -encena uma história numa forma que eu nunca tinha visto.

Assim, o que temos (como sempre com Donen) não é uma única visão individual em jogo. Em vez disso temos o resultador de 2 mentes brilhantes coordenadas (Donen e Mancini) e de uma sincera, honesta e competente (Frederic Raphael). O que eles criaram foi uma longa peça de emoção não-explosiva concentrada, uma divagação de 111 minutos. Nunca tinha visto um filme com este efeito sem pontos quentes relevantes no enredo. Nada aqui é clássico na forma como não arqueia a história com pontos altos e baixos, mas transforma a história num modo. Mas tem uma história! Esse é o truque. A honestidade dela existe, creio, por causa de Raphael. Ele enraizou o enredo na vida real e é responsável, numa grande medida, pelo sucesso do filme. Os filmes são sobretudo sobre outros filmes, no sentido em que usam convenções, emoções encenadas, reacções planeadas, de acordo com um ‘género’. Um género é provavelmente um guia para um certo tipo de filme. Isso não se passa aqui. A vida invadiu o filme, e isso é o que o filme tem de especial.

Como está feito é o revolucionário aqui: temos uma história sobre uma vida normal, um casamento normal, cuja única razão para ser retratada no filme é porque é normal. O que fazem é tirar essa vida normal do seu contexto diário normal, e escolher as situações de excepção dessa vida. Vidas que correm como carros numa estrada. A estrada como vida. Funciona porque evitamos perguntar-nos certas questões: onde vivem eles exactamente? como é o quarto deles na sua casa? Onde é que ele compra o jornal quando acorda? O que faz ela na sua vida quotidiana? O que temos são vida e problemas diários destacados do seu contexto diário. E é realmente muito bom.

A construção cinematográfica também foi nova nos seus dias, e ainda eficiente hoje. Os 4 momentos distintos ao longo dos 10 anos retratados aqui são cortados e vêmo-los separados e em paralelo. Os penteados de Audrey e os carros que usam fazem a diferença para nós. Isto é uma questão de escrita. A edição ajuda a que tudo funcione. É um trabalho poderoso.

Audrey Hepburn deixa as coisas correrem. Que ela era relativamente limitada como actriz é um facto, mas aqui ela faz algo notável que é subtrair o seu estatuto de estrela do ecran, e jogar com o realizador. É uma prova que ela sabia o seu papel e o que era necessário fazer para que as coisas funcionassem.

Se quiserem, vejam o filme imaginando Paul Newman no papel de Finney, já que ele foi a primeira escolha de Donen. É um exercício engraçado.

Creio que todos deviam ser expostos a este pequeno filme pelo menos uma vez na vida.

A minha opinião: 5/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve