Arquivo de Outubro, 2008

Sliding Doors (1998 )

“Sliding Doors” (1998 )

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Atravessar a porta, destinos

Este é um pequeno, reconfortante e inteligente filme. Joga com as ferramentas e peças que aprecio mais: criar um ambiente, inventar um mundo ou dar uma visao pessoal de um mundo próximo da mente, e inovando na narrativa, novas formas de contar uma história. Fá-lo competentemente, é um filme equilibrado em praticamente todos os aspectos.

Temos uma linha clara considerada: a vida de uma mulher infeliz, que perde o emprego e tem um companheiro infiel. Esta linha tem um início e dois finais possíveis. Algures sobre essa linha curva, o escritor poe uma alternativa, uma segunda linha que se desvia da primeira apenas até ao ponto de a voltar a intersectar mais à frente; ou seja, uma linha com final e início definidos. O enredo está centrado totalmente no personagem de Gwyneth. As linhas narrativas distintas sao seguidas em paralelo e isto vai dando as versoes alternativas, que seguimos, alternando também nós entre elas. O momento em que as duas linhas se cruzam é relativamente banal – morte de uma das Gwyneths alternativas que reestabelece o curso normal das coisas. Mas o momento em que o tempo quebra é um momento lindo de filme. A cinematografia é bonita, a forma como as portas do metro sao filmadas e como é feita a ediçao da Gwyneth a viver as duas versoes no mesmo momento. Lindo. Curiosidade: a miúda que, numa das versoes, faz Gwyneth perder o metro e na outra é afastada para a permitir passar tem uma boneca, loira, e brinca com ela. Como uma marioneta. O destino guia a vida dos personagens aqui. Delicioso.

Gwyneth Paltrow é uma actriz formidável, que consegue actuar personagens distintos em ambas as versoes, tendo em mente que alguma vontade superior e estranha está a jogar aos dados com o destinho dela. Eu senti isso. Foi bom. Assim, temos alguns jogadores neste tabuleiro, e todos têm as suas vidas dramática e profundamente mudadas pelo acontecimento único que dividiu o tempo do personagem de Gwyneth.

A cinematografia, e o tom da história marcam o ambiente. O que mais me impressionou foi a sensaçao clara de que o filme cria um pequeno sítio que posso visitar e onde me posso esconder um pouco, como se estivesse a visitar a possível realidade das portas de correr criada para Gwyneth. Isto é trabalho de topo, e uma recriaçao quase perfeita de intimidade em cinema. No ecran e fora dele. É óptimo estar neste filme.

A minha opiniao: 4/5

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Tropic Thunder (2008 )

“Tropic Thunder” (2008 )

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Actores que actuam, representando actores

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Tenho de confessar que nao sou um grande admirador de Ben Stiller. Apesar de, por vezes, ele econtrar conceitos interessantes que explora nos filmes em que tem um envolvimento mais activo (como escritor, sobretudo, as suas actuaçoes parecem-me relativamente vulgares, apesar de eficientes, e isso dá-me a impressao de que estou a ver um artista menor.

Bem, aqui nao. Aqui ele abraça uma reflexao e uma desconstruçao do que um actor faz, e sobretudo do que pode significar ser um actor. Um filme sobre actuaçoes, onde os actores representam vários papéis, um sobre o outro em alguns casos. Gosto deste material. Nesta viagem para uma selva de actuaçoes, ele leva Downey Jr. Escolhê-lo é uma das coisas mais inteligentes que temos aqui.

Assim, temos um grupo de actores que vao para a selva para gravar um filme. Pelo caminho, por uma série de eventos, eles eventualmente confundem localizaçoes ‘reais’ com cenários, e pessoas ‘reais’ com actores. Eles continuam a actuar, mesmo quando já sabem que nao estao na realidade do filme dentro do filme a que assistimos. Talvez estejam a actuar para nós.

O escritor do filme dentro do filme é, ele mesmo, um actor que representa um papel que inventou para si mesmo. Percebemos isso quando descobrimos que ele é uma farsa, e inventou todo o enredo do filme interno. O que toda a gente no filme que vemos considera ser eventos reais é na verdade uma ficçao que o escritor falso, supostamente maneta, cria. Assim ele cria também os lugares que cada actor no filme interno vai ocupar. Nesse filme, todos actuam de forma diferente e papéis exagerados: Stiller tenta ultrapassar-se, por isso tenta ter o papel princiap que naturalmente (na realidade que nos é dada) pertenceria â ‘estrela’ Downey Jr. Ele acaba por encontrar um papel de estrela num palco improvisado. O estrelato é o seu tema, e o que motiva a sua actuaçao.

Downey Jr. é o personagem mais interessante e complexo, pela própria cosntruçao do guiao e pela sua própria profundidade como actor. Ele representa um actor australiano, loiro e de olhos azuis. Nós sabemos quem é Downey Jr e ele nao é assim, por isso já percebemos logo aqui que ele está a actuar. No filme, ele pinta a pele de negro, muda o cabelo e a cor dos olhos para parecer negro, afro-americano e urbano. Isto é outro papel, que representa um certo estereótipo que na verdade é uma actuaçao em si mesma, sempre que os negros representam o seu personagem urbano. O enredo contém mesmo um personagem realmente negro que tem problemas com Downey Jr por ele fingir que é negro sem ser um quando na verdade os dois representam esse papel; algures no filme temos a noçao da sensibilidade gay do tipo negro real. A piada está nesta contradiçao entre as duas faces do personagem, e como um se esconde no outro.

Jack Black é o personagem mais plano. Também o mais desinteressante, para mim. Isso porque ele actua apenas como uma personalidade ‘pública’ na realidade do filme que vemos. Um ídolo de crianças e adolescentes que na verdade é viciado em drogas, e uma pessoa totalmente desinteressante na vida real. É uma versao do Krusty, o palhaço, de Groening. Black tem um grande potencial para comédia e para criar jogos interessantes com ela, pena que isso nao tenha sido usado aqui.

Um personagem discreto mas interessante é o representado por Baruchel. Isto porque ele é o único que nao representa nada, na realidade louca da selva. Ele sabe onde está, ele nao entra no mundo alucinado que os outros abraçam a ponto de confundirem as suas próprias personalidades, e provavelmente por isso ele é, no filme, o pior actor. Ele actua para ter sexo, nao tem qualquer tipo de relaçao com a profissao.

Toda esta louca e bonita peça com actores que representam personagens que representam personagens que… está bem encaixada no início e no final pela realidade de ‘celebridades’ desses actores. Isto é sublinhado pela cerimónia de óscares onde o filme acaba e pelos boatos e vidas passadas desses actores nas quais entramos até um certo limite. O início dá-nos um número de trailers falsos de filmes onde os actores entraram. Participaçoes como a do Tobey Maguire estabelecem a credibilidade de tudo. O filme começa sem créditos, e os trailers aparecem-nos como se fossem de facto os trailers que vemos nos cinemas antes de começar o filme que esperamos. Adorei o detalhe.

Pela primeira vez desde Magnolia, Toma Cruise actua. Ele nao foi anunciado, ou muito pouco mencionado na promoçao deste tropic thunder, e isso foi propositado para nos causar a surpresa. Dupla surpresa. Nao só ele está aí, como também ‘nao’ está aí. Ele actua… Esse é um factor surpreendente no tema dos ‘actores que actuam’. Ele é vibrante, realmente engraçado porque nao esperávamos vê-lo fazer as coisas que faz. Que pérola.

Suponho que as audiências americanas vao apreciar as piadas relacionadas com os personagens australianos e ingleses. Eu estou fora.

Dou a minha marca mais alta a este filme, apesar de isso poder mudar com base em futuros revisionamentos e, sobretudo, como ele se vai acomodar na minha cabeça; mas achei isto tao inteligente e bem executado, que me pareceu que merece o lugar.

A minha opiniao: 4/5

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Repo! The Genetic Opera (2008 )

“Repo! The Genetic Opera” (2008 )


Festival Sitges 2008

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narraçao progressiva

Uma coisa que me incomoda, e outras que apreciei: o ‘filme de culto’; para mim, filme de culto é algo que reúne a atençao de um número ou uma legiao (ou muitas legioes) de fas que, fascinados pelos símbolos e/ou personagens de determinado filme, seguem buscando novos signigicados, procurando sequelas, inventando histórias ao redor do filme, etc. Pelo menos, culto no tipo de sentido de um filme como este pode produzir. Nao me interessa especialmente essa noçao, prejudica a claridade de ideias que se pode ter ao ‘ver’ um filme, em vez de o venerar. Mas tudo bem. O que temos aqui é a ideia de lançar um filme etiquetado já como ‘de culto’? Isso é um estatuto que o tempo e a dedicaçao dos fas deveria dar, ou nesta altura essa noçao está tao arruinada que ‘culto’ se tornou um género? Que estratégia comercial barata…

Tirando isso, o filme está relativamente bem feito. Ainda nao vi as sequelas de Saw que Bousman dirigiu, mas provavelmente este é um projecto muito mais pessoal para ele, logo onde podemos compreende-lo melhor. Houve um esforço enorme na criaçao e credibilizaçao de um mundo detalhado, e eu sempre aprecio isso. Mundo futurista, inumano, horrível, paranóico e pos-caos. Nao há uma visao especialmente inovadora no lado narrativo (a nao ser por uma coisa de que falarei), ou em assuntos puramente cinematográficos. Todos os esforços foram apontados para a imagem. Gostar ou nao dessa imagem é uma questao de gosto pessoal, creio. Eu gosto de espreitar estes ambientes gore de vez em quando, apesar de me sentir aí como um turista: gosto de ver, gosto de os viver, gosto de tentar, mas depois gosto de voltar para casa.

No entanto, encontrei um elemento de grande relevância, um aspecto narrativo interessante: o ladrao de campas (o personagem de Terrance Zdunich). Ele forma totalmente parte desse mundo, apesar de ser um marginal nele (criminoso, rouba campas para lucrar com isso), e dá-nos um balanço interessante, uma espécie de ligaçao entre nós e o mundo absurdo em que estamos a entrar. Ele conta-nos coisas, ele ‘narra’ muito do que vemos, e fala (canta) directamente para nós, na maioria das vezes. Isto é muito interessante, há já algumas experiências que trabalham este tipo de ligaçao audiência-filme; Cusack em Alta Fidelidade ou Willis em Die Hard, entre outros. Este trás algo novo, e nao depende tanto da abilidade do actor para o fazer, mais do dispositivo musical, no qual Zdunich teve uma particiaçao como compositor. Interessante…

Essa música aproxima-se do metal progressivo que os Dream Theater dominam hoje em dia, e desde há algum tempo. É um tipo de música que estabelece um ambiente e o ajuda a construir, mas que tem substância. Eu gosto, pelo balanço que trás e pela ambiguidade entre mundos musicais. Logo, em coerência com o que se passa neste filme. Coincidência ou nao, eu gostei disso.

A minha opiniao: 4/5

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Kurôzu zero (2007)

“Kurôzu zero” (2007)


Festival Sitges 2008

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be cool

Tudo aqui é baseado numa ideia de estilo. É uma exploraçao do que significa, num determinado momento, numa determinada cultura (discutivelmente global…), ser ‘cool’

Tudo aqui está concebido para parecer fixe. Na verdade, sempre que ouvimos alguém que quer ‘mandar’ na escola, o que está na verdade em jogo é quem tem mais estilo aí. A luta é um elemento essencial desse estilo, os melhores lutadores ganham admiraçao, nao pelos feitos físicos mas pelo estilo com que conseguem sair das situaçoes – mesmo quando Genji é derrotado depois de lutar com dezenas ao mesmo tempo, ele cai de uma forma fixe. Para sublinhar isto, acabamos por perceber que na verdade o tipo mais forte da escola está o tempo todo de fora das disputas principais, provavelmente porque nao é fixe, nao na noçao que têm os gajos fixes (ele tem estilo na sua forma sem estilo).

Esta é uma noçao pobre, que provavelmente apela a uma mente adolescente (com 24 anos ainda nao tenho a certeza se já fui adolescente). Este filme passa com esta ideia única porque é capaz de a suportar visualmente. O realizador compreende algo de enquadramento e ritmo, mesmo que nao corra muitos riscos (ou nenhum, na verdade) na forma como filma as lutas.

Num certo sentido, isto nao é diferente, na raiz, de séries como Rambo, a filmografia de Chuck Norris ou as actuaçoes/poses urbanas do hip-hop. Diferentes momentos no tempo, e diferentes locais no planeta, e um elemento importante: este filme nao se leva a sério, como os outros ‘tipos’ que referi se levam. Tudo é encenado aqui, e isso é claro para nós, e tudo bem. Os momentos cómicos sublinham isto. Também a paródia dos Yakuza o faz, aparecendo como os tipos inferiores que apanham porrada dos putos da escola.

A minha opiniao:3/5

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Ekusute (2007)

“Ekusute” (2007)


Festival Sitges 2008

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Manipulaçao e cabelo

Divirto-me bastante a ver trabalhos como este. Filmes assim usam códigos visuais e simbólicos especificamente dirigidos a um certo pedaço de audiência, que está disposta a viver uma vida em filmes fora das convençoes mais espalhadas, e aceitar o que vêm com isso. Uma das coisas que mais aprecio quando vejo uma coisa assi num recinto público (normalmente atestado com os fas absolutos do tipo de produçoes em questao) é observar como essas pessoas reagem a certas convençoes dentro do género. Para mim, porque apenas faço visitas ocasionais, é o equivalente a visitar um país estrangeiro, gosto de observar como as pessoas se comportam, qual é o ambiente do sítio que estou a visitar.

Dentro dessas convençoes alternativas, este é um bom filme, creio. Pelo menos funcionou para mim, ao ponto de me fazer querer mais trabalho deste realizador. Ele tem uma visao, no meio deste terror capilar, ele tem um conceito interessante que se extende claramente e abraça o filme, tanto como o cabelo abraça os personagens.

Cabelo como canais. Cabelo como elemento de contacto entre pessoas, entre vidas, vidas passadas. E que distribui a morte. É um estratagema eficiente. A rapariga morta que produz cabelo funciona como uma espécie de agente noir, alguém que controla a acçao, mas todo o tempo nós estamos dentro do esquema (temos que estar para fazer tudo isto credível, e também porque era importante para o género explorar a rapariga morta com um olho). Ela manipula através do cabelo, e tem uma marioneta humana que entrega cabelo e faz todo o sistema funcionar. Esse homem ridículo é as suas maos na rua, distribuindo a morte ao acaso. Esse agente acredita o tempo todo que está em controlo da rapariga, mas acabamos por compreender que é ao contrário.

Esta estratégia clara de construir uma história faz o filme suficientemente agradável para mim. Tem um trabalho sólido de producçao, os momentos de stop-motion foram feitos com competência, e vao apreciar este filme se se interessarem por sistemas de contar uma história interessantes e estiverem dispostos a aceitar, pelo menos por 2 horas, as convençoes deste canto do universo cinematográfico (isto se nao estiverem já dentro dele).

A minha opiniao: 3/5

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Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson (2008 )

“Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson” (2008 )


Festival Sitges 2008

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deitar vinho num copo

Vi este filme inserido num festival. Os festivais sao grandes ocasioes. Ha um ambiente no ar, que nos convida a ver coisas novas, coisas ambíguas. Na maioria das vezes, deve ser dito, vejo falhanços, alguns gloriosos, outros lixo completo. Mas a possibilidade de ver algo novo, surpreendente, que altere a minha vida, compensa todas as eventuais provas aborrecidas que tenhamos de passar. Este pequeno documentário é uma excepçao a estes tipos que descrevi.

Como filme em si, tem muito pouco valor. É uma colecçao de fotografias, testemunhos, velhos vídeos e testemunhos feitos para o documentário, com um extra, Johnny Depp a narrar Thompson. Está concebido como um documentário em série que o Discovery ou o História normalmente fazem. Mas na verdade eu gostei. Por uma razao: eu ignorava bastantes aspectos da sua vida, nomeadamente os seus envolvimentos políticos, que sao uma contradicçao, entre outras, na vida de um ícone da contra-cultura.

De qualquer forma, sao os factos da vida de Thompson que mexem tudo isto, e despoleta o interesse que possa ter. Mas há algo que me desagradou, um tipo de contradiçao formal que no entanto é divertida de notar: H.Thompson foi importante como um escritor, fundamentalmente porque ele quebrou formas, e no processo criou um género de direito próprio. O seu tipo de escrita é essencialmente visual, o que significa que também é potencialmente cinematográfica – Gillian compreendeu isto, mas no seu ‘Fear and Loathing…’ ele ou se tornou demasiado literal na sua interpretaçao, ou demasiado agarrado à sua própria visao e por isso, apesar de ter feito um bom trabalho, nao foi totalmente fiel a Thompson. A qualidade visual da sua escrita pode ser testada neste documentário sempre que Depp lê. É poderosa, e provavelmente mais eficiente do que qualquer das imagens antigas usadas. Aí está a contradiçao. O documentário em si é vulgar, usa uma fórmula gasta de documentários em série, equivalente ao tipo de jornalismo aborrecido a que Thompson tentava escapar. É esse o meu ponto de vista.

Provavelmente Hunter vai durar pelo que escreveu, e nao pelo que foi. Afinal, nao é assim tao pouco comum ou especialmente excitante o tipo de coisas que ele efectivamente fez. Apesar de esses factos terem contribuído com o sumo e a energia do que escreveu, nao sao as orgias, ou as armas, ou os ácidos que fazem valer a pena conhecer a sua vida.

No entanto, Thompson encarnaria perfeitamente o espírito de um festival de cinema. Isso é um elogio.

A minha opiniao: 3/5

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Your Name Here (2008 )

“Your Name Here” (2008 )


Festival Sitges 2008

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realidades coaguladas

Esta foi uma visita morna a uma mente muito quente.

Antes de ir ao que Phil Dick escreveu, os seus escritos chegaram até mim na forma dos filmes que foram feitos sobre eles. É provavelmente comum que isso aconteça, como o é com vários outros escritores. Blade Runner é, até este momento, o melhor e provavelmente um dos poucos (muito) bons filmes que trabalham o seu sentido de um sentido de realidade(s) inventado e a sua exploraçao de paradoxos de identidade, e deslocamentos de realidades. O que ele mais apreciava era provavelmente jogar com a ambiguidade e construir mundos a partir daí. Ele usa linhas narrativas, histórias, para agarrar essas noçoes. No caminho, ele cria ficçao científica meditativa e auto-reflexiva. Lamentavelmente, as suas histórias sao feitas de tal maneira que podem ser apropriadas como meras histórias, sem aproveitar o sumo real por trás da estrutura básica e visível. Por isto temos tantos filmes maus feitos sobre os seus escritos.

Agora temos este. Gostei da experiencia, mas nao pude ignorar as suas falhas. O filme está escrito com um personagem central que é um alter-ego de Dick. Mas a escrita do filme em si também é um espelho da escrita de Dick. Assim, o guionista (que também é o realizador) tenta ser Dick a brincar com Dick, no seu jogo, fazendo o que ele fazia melhor. Para isso monta uma mente complexa, multidimensional, e leva-nos numa viagem com ela. Ele pega na ideia de realidades paralelas que Dick obsessivamente explorou, e circula dentro e fora delas. Lança ambiguidades em relaçao a se estamos dentro ou fora de um mundo ficcional forjado pela mente ou se estamos numa realidade ‘real’, e vai misturando elementos de cada realidade, em última análise fazendo-nos recebê-los todos misturados. Cada realidade surge envolvida em alguma história de Dick. O problema é que apesar de aqui se tentar muito jogar com manipulaçao visual, através da ediçao, e através de dispositivos visuais, no final as histórias só valem pelo seu valor como linhas narrativas. Nao há a verdadeira ambiguidade que Dick colocaria e que, idealmente, nos faria funcionar racionalmente, e funcionariam como estimuladores cerebrais. Esta foi uma (por vezes) agradável viagem à mente de um personagem ficcional. É entretenimento, e nao era suposto ser.

Bill Pullman foi mal escolhido. Ou pelo menos representou um personagem mal moldado. Ele faz lembrar profundamente o Robin Williams de ‘o bom rebelde’. Esse era um tipo seguro, alguém que jogava direito, que nao corria riscos, porque a vida o tinha tornado medroso. Nao o tipo de pessoa que se drogaria para chegar ao fundo de novas realidades, e conhecer o sentido da vida. Ele simplesmente nao passa a energia certa.

Por fim, o que realmente me aborreceu: a conclusao. Depois de todo um filme construído sobre um mundo indefinido e que muda constantemente as suas regras e pressupostos (realidades) e a diluir as diferenças entre si, temos um médico que literalmente explica em termos científicos claros absolutamente tudo que tínhamos assistido, e desmistifica todo o jogo, tirando assim qualquer interesse por qualquer meditaçao posterior ao filme.

A minha opiniao: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve