Arquivo de Fevereiro, 2012

Murder, My Sweet (1944)

“Murder, My Sweet” (1944)

IMDb

Detective, o epicentro

Chandler é um tipo manhoso, porque constrói todas as suas histórias de uma forma enganadora. Ele cria uma linha simples, que podemos inicialmente seguir sem dificuldade. Procurar uma rapariga desaparecida, ou uma moeda antiga, ou encontrar algum chantagista. Começamos a fazer isto sempre com o detective, normalmente Marlowe, como nosso representante. Sabemos o que ele sabe, a partir dos factos que obtemos dele, e dos seus pensamentos – facilmente transmissíveis nos livros, mas muitas vezes colocados de forma atabalhoada nos filmes, como voz off. Mas em todas as vezes, o desenvolvimento da investigação inicialmente simples acaba por se preencher de eventos contraditórios, uma quantidade inacreditável de novos personagens, e possibilidades infinitas para a explicação da história. Perdemo-nos. E também Marlowe se perde. E é esse o objectivo. Encontramo-nos de repente manipulados por todos, todos os nossos mecanismos de compreensão da história são traídos em cada momento. Caímos no buraco negro, como Marlowe quando o atingem na cabeça. Como se experimentássemos o efeito alucinogénico das drogas que retiram a Marlowe a noção de tempo e espaço.

Isto é um tipo de escrita muito poderoso, quando pensamos no conceito. Não é grande literatura em termos das qualidades intrínsecas da literatura como arte da linguagem, mas são conceitos narrativos muito bons. Estas histórias de detectives nunca são exactamente sobre como tudo aconteceu. No final a explicação é tão complicada que se torna impossível que seja credível, ou então simplesmente não tem interesse. Isto não é Agatha Christie, onde os mecanismos intelectuais da história são aquilo que nos conduz até ao fim dela. Aqui o que interessa é o mundo em que a história acontece, as regras do universo em que os personagens vivem. Isto são personagens literários, que vivem num mundo literário próprio, com regras muito específicas.

Quando pegamos nestes conceitos poderosos e os misturados com o cinema, então temos algo que realmente vale a pena. Foi o que aconteceu quando os realizadores que trabalhavam em Hollywood, apoiados por ideias visuais desenvolvidas na Alemanha 10 anos antes, começaram a usar esta literatura, de outra forma menor. Em 1941 tivemos o Falcão do Maltês, o primeiro noir realmente desenvolvido, neste sentido narrativo. Isto significa que quando chegamos a este filme, 3 anos depois, o género ainda se está a desenvolver, mas existe já totalmente inscrito na mente do espectador.

Este filme compreende tudo isto. É competente na forma como é capaz de nos lançar no caos de um mundo inexplicável. Marlowe é um peão, desde o início, quando encontra Moose dentro do seu escritório, sem ser capaz de o pôr fora ou de recusar o pedido dele. Na verdade, parece-me interessante como este Marlowe é mais vulnerável às manipulações de que é vítima por toda a gente do que o Marlowe de Bogart. Suponho que sem Bogart no barco, os escritores foram capazes de tomar liberdades maiores com o personagem. O que temos aqui não é o personagem dos livros de Chandler, mas é interessante ver Marlowe como um pobre manipulado, permanentemente à beira do abismo.

O problema é, na verdade, o actor. É muito raro para mim desinteressar-me de um filme por uma actuação má, mas num filme como este, com o papel central do detective na narrativa, se o actor falha tão profundamente como Powell falhou aqui, o filme corre sérios riscos. Bogart sempre foi limitado como actor, mas pelo menos tinha uma auto-consciência suficientemente desenvolvida para projectar o seu único personagem e transportar o filme com ele. Powell não, com todos aqueles trejeitos faciais, e expressões denunciadas. O realizador não ajuda, a edição não é justa para os actores (especialmente os homens), mas isso não é desculpa para tantos elementos na actuação de Powell que nos distraem. E Anne Shirley brilha muito mais do que Claire Trevor. Difícil acreditar que alguém fosse ignorar a primeira para ficar enfeitiçado pela segunda

A minha opinião: 3/5

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Pickup on South Street (1953)

“Pickup on South Street” (1953)

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narrativa flutuante

Este filme não é revolucionário e não te vai mudar em nenhum aspecto fundamental. Mas é profundamente noir, e isso é algo que vale sempre a pena ver.

Temos uma história centrada num personagem que é o que sabe menos sobre o que se está a passar de todos os personagens. Ele é o único totalmente fora do enredo complexo pelo qual acaba por ser sugado, e no entanto é também o único que todos (polícia e comunistas) pensar que está em total controlo. Tudo lhe acontece a ele, e ele luta para controlar os eventos, mas acaba por ser varrido por eles.

Reparem nisto: ele entra literalmente na história ao escolher casualmente a bolsa de uma rapariga, roubando assim um filme muito importante. Ele não faz ideia da importância e valor do que tem, e actua segundo isso. Entretanto, ele tenta fintar tanto a polícia como os comunistas, usando a rapariga como mensageiro, como escudo. Ele acaba por perder o controlo da história (em parte), ao apaixonar-se pela rapariga. Por isso temos aqui um sentido agudo de caos na história, uma narrativa agitada onde nos sentimos perdidos, tanto como o nosso representante detective, neste caso o carteirista.

Fuller tem um grande sentido de ritmo e ambiente, e este filme tem uma coisa especial extra: a cabana flutuante onde muitas das reviravoltas fundamentais na narrativa acontecem. Esse é um grande cenário que vou levar comigo durante muito tempo. Como espaço explorado é suficientemente bom, no contexto do estúdio. Como metáfora para o ambiente instável da narrativa funciona bem. No final, este espaço torna-se o centro estranho do mundo noir bizarro do filme, e agarrar um filme com tanta força a um lugar é algo que sempre aprecio.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve