Arquivo de Setembro, 2010

Paris – When it Sizzles (1964)

“Paris – When it Sizzles” (1964)

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pôr do sol na torre

Este é um caso de estudo interessante:

Como filme, não há muitas coisas boas aqui. Realização simples, edição banal, nada relevante, é um produto de velhos tempos, mas pior que outros que seguiam o mesmo modelo.

Como entretenimento, perdeu todo o valor que possa ter tido nos seus dias. E isso não é algo específico deste filme. A comédia romântica é seguramente o género que fica mais facilmente datado, porque lida com necessidades exigências das audiências muito próprias de determinado momento. Por isso, este filme está tão desactualizado hoje como qualquer uma das comédias românticas de hoje estarão em 50 anos.

As actuações dos actores principais são toleráveis, ainda que tenhamos visto Hepburn, Holden e Curtis fazer melhor em muitos dos seus outros filmes. E apesar deste papel não estar tão adequado ao personagem de Audrey, ainda assim temos a classe dela, a mais sublime na filmolândia.

Mas há algo que torna este filme notável e uma peça única que eventualmente terás de ver se te interessa o cinema e as mudanças que os franceses lhe imprimiram no início dos anos 60. Temos aqui um filme sobre escrita de filmes. Desde o início que nos é permitido sabermos que vamos ver um filme que se faz a ele mesmo, que se vai inventando à medida que evolui. Naturalmente os personagens principais teriam de ser um escritor, e uma dactilógrafa, que sem querer se torna ela mesma uma escritora. Temos 2 níveis: o da realidade do quarto de hotel de Paris, que já é ostensivamente artificial (por isso é que Holden diz que mandou colocar ali a torre Eiffel para que ele soubesse que estava em Paris) e o nível do filme dentro do filme, uma realidade provisória, sempre em mudança, e afectada pelo que se passa no quarto. Estas mudanças constantes no filme interior daria a parte de entretenimento (Tony Curtis actua para parecer engraçado, e consegue).

Mas onde as coisas se tornam realmente interessantes é na ligação francesa: há um conjunto enorme de referências explícitas à nova vaga que atingia Paris e o cinema francês desses dias. Essas referências surgem sempre como paródias, algo que tem que ver com filmes onde “nada acontece”. E recebemos este filme como o oposto disso, um festival para o olho, onde a narrativa é recheada de eventos, independentemente do quão ridículos pareçam, mesmo no contexto do filme, e mesmo no contexto do filme dentro do filme! O que temos é a moda antiga, e isso é assumido. E o campo de batalha é literalmente Paris, ao mesmo tempo o palco da nova vaga, onde as mudanças profundas ocorrem, e uma das localizações mais acarinhadas dos “velhos tempos”, um dos lugares mais usados na história do cinema, com todos os seus lugares icónicos, carregados de simbolismo no cinema americano pós-guerra. É isso que está em jogo aqui: o surgimento de novos paradigmas, que ameaçou o que o “cinema americano” para as massas signficava. Por isso é que o título provisório do filme dentro do filme é “A mulher que roubou a torre Eiffel”.

A decadência do personagem de Holden (que espelha o que o próprio Holden estava a passar a esta altura) pode ser vista com um peso simbólico. Os anos 60 foram uma década de cinema europeu brilhante, que Hollywood só conseguiria seguir liderado pela chamada geração Vietname.

O beijo que vende pipocas, é a cena que melhor resiste neste filme, na forma como cumpre os seus próprios clichés assumidos, e é o crepúsculo de um certo tipo de filme. Ah, e tínhamos a Audrey…

A minha opinião: 3/5 um filme mau que realmente deviam ver.

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O Último Voo do Flamingo (2010)

“O Último Voo do Flamingo” (2010)

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sem asas

Há uma sensação de transição permanente inerente a muitas culturas africanas. Apesar das violências obtusas que muçulmanos e cristãos foram infligindo sistematicamente sobre religiões nativas brilhantes, esses estados de mente transitórios são ainda palpáveis em África, se quiserem senti-los. Almas que oscilam entre os mortos e os vivos, e que pertencem a nenhum. Ligações puras com o ambiente, quero dizer o ambiente geográfico físico. Concepções originais de religião como uma ligação entre o Homem e o seu contexto (algo que os celtas trouxeram para a Ibéria e que sobreviveu pelos cristianismos gnósticos). A relação da África negra com a sua verdadeira espiritualidade é tão visceralmente poderosa como é subtil e despretensiosa. As coisas são como são, e todos são peças da maquinaria natural. Este deveria ter sido o primeiro nível deste filme.

Mia Couto tem como paixão encontrar uma identidade para o seu povo, enraizada nas manifestações genuínas que fluem por todo o território da sua nativa Moçambique. O que ele faz, na sua escrita, é colocar o coração de um verdadeiro poeta no meio da espiritualidade da terra. Ele é um observador, apaixonado e pouco neutro, mas ainda assim um observador. O que ele faz é re-escrever o infinito fluido de narrativas que são a matéria espiritual dos povos moçambicanos. Essas narrativas que nunca foram compreendidas ou acarinhadas pelos portugueses em geral (e ainda não são!). Por isso, a tarefa dele é uma das mais nobres que alguém pode ter: nas últimas décadas, ele (e não só) tem inventado o que significa ser um moçambicano, e um africano, hoje em dia, como se pode alguém sentir moçambicano depois do sangue, depois de todas as mestiçagens (no plural, como Mia gosta). Quase casualmente, enquanto ele (d)escreve uma alma possível para o seu país, ele reinventa a língua portuguesa para todo o mundo que a usa. Essa transgressão, esse sentido de reinvenção tranquila que tem Mia Couto deveria ter sido o segundo nível deste filme.

O terceiro nível teria de ser o refazer dessas narrativas refeitas que Mia Couto tem escrito e transportá-las para uma visão cinematográfica. Sim, cinema; eu sei que o cinema pode transportar-nos, qualquer pessoa que já tenha experimentado um filme profundamente sabe que o cinema pode mover-nos, quase literalmente, para mundos que não sabíamos que existiam. Mas temos de poder confiar nas pessoas que fizeram o filme, elas têm de conquistar-nos. Este filme tinha de fazer-nos levitar, quase como os 2 personagens no final.

Mas não. Eles confiam nas convenções, o pior tipo de convenções, as da televisão. Quem fez este filme assume que espiritual é o mesmo que pitoresco, que escolher um conjunto quase aleatório de palavras do livro é o mesmo que compreendê-lo. Somam-lhe um conjunto de paisagens de contexto, e já está. Não ha ideias reais sobre nada. As actuações são de uma mediocridade inacreditável, todo o tempo, com todos os actores. Entre todos, o italiano é o pior, porque ele não actua bem, e porque não pode confiar na língua para disfarçar isso.

Que desperdício, que pena. Espero que alguém venha a fazer este filme bem. Mia Couto, e Moçambique, merecem-no.

A minha opinião: 1/5

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Inception (2010)

“Inception” (2010)
Origem

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o despertar da mente, com um salto

Isto é um virar de página, uma declaração importante de um realizador importante de hoje. É também o topo (para já) de quaisquer coisas interessantes que Nolan tenha explorado até agora. Di Caprio está nesta viagem e provavelmente este é o melhor esforço dele para se tornar um actor sério no mundo dos filmes. Ele conquistou-me aqui.

Eu sou um espectador perfeitamente definido. Interessam-me emoções, sentimentos (de amor ou outros), e a sua representação visual. E realmente importam-me muito os dispositivos narrativos e a construção narrativa de um filme. Realmente desprezo os filmes que banalizam as emoções simples e reais. Por isso aprecio mais filmes que concebem uma estrutura narrativa coerente mesmo que não atinjam tanto uma tensão emocional, do que filmes que mostrem o amor, a amizade, a empatia, como pornografia sentimental. Por isso, o topo deste jogo para mim naquilo que diz respeito ao cinema é a sensibilidade e histórias honestas, suportadas por estruturas narrativas inteligentes.

É isso que temos aqui, brilhante e lindo como vi poucas vezes. O próprio conceito abstracto daquilo que está a ser contado mistura-se com o adn do filme. O filme em si constrói o conteúdo que é suposto termos na história. A estrutura do filme É a história. A forma como entramos em todas as sub estruturas mimetiza a forma como os personagens o fazem. É tão simples como isto para explicar, e tão complexo como este filme para compreender.

Há várias noções aqui, que me são caras, e que me emocionaram. Temos camadas Óbvias (sonhos dentro de sonhos) que nos são literalmente e constantemente explicadas por muitos personagens no filme. Mudarmos de camada é literalmente ir mais fundo, num sentido espacial. Cada camada tem autonomia, mas é severamente afectada pela forma como as outras camadas evoluem. Por isso, um espirro numa camada pode equivaler a um terramoto noutra.

A noção mais bonita é a de que temos pessoas no interior de pessoas. Temos pessoas que alteram a alma de outras, tocando-se intimamente, tocando num sentido mais profundo do que alguma vez tivemos em cinema. Nolan quase consegue que o cinema funcione como literatura na forma como atingimos o interior de um personagem para lá daquilo que conseguimos ver. A esse nível, a melhor sequência é provavelmente a visita a Paris. Di Caprio e Page. Como ela manipula as memórias que ele tem de Paris, como ela literalmente manipula o cenário. E a sequência final, a cidade em colapso, uma reinvenção das memórias que di Caprio tem das suas próprias memórias. Uma das melhores coisas aqui é a forma como a emoção surge colada ao espaço. Cada cenário é o próprio retrato de uma memória, de uma sensação. Pela forma como está feito, esta é uma forma original de associar filme com o uso visual do espaço. Vou marcar este filme.

Marion Cotillard como o personagem que, por aquilo que nós podemos ver, é apenas uma memória (inventada ou não) e dificilmente uma pessoa real. A performance dela é incrível, eventualmente a melhor do filme.

Jogamos o jogo das memórias inventadas/partilhadas, que existem sobre a realidade, e vamos descendo até ao nível onde essas memórias podem ser manipuladas e mudadas, criando-se ou inventando-se novas. Essa é a origem. Consegues criar a memória deste filme? Consegues recrear os seus níveis quando sonham com ele? E mais importante, consegues inseri-los nos níveis da tua própria vida tão naturalmente como se eles tivessem sido criados por ti?

A minha opinião: 5/5 experimentem este.

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La marche de l’empereur (2005)

“La marche de l’empereur” (2005)
A marcha do pinguim imperador

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construir uma narrativa

A beleza da Natureza está em como todas as coisas encaixam umas nas outras para construir um todo coerente. o contexto e os seus actores são únicos e unitários, totalmente interdependente: eles constroem-se mutuamente. É simbiótico e o aquecimento global permite-nos compreender dramaticamente até que ponto. Por isso, o objectivo de quem observa a Natureza é construir uma narrativa que nos permita compreender os mecanismos naturais. Contar uma pequena parte da história, que vai caber num contexto mais largo. É isso que precede este filme e que o informa: a narrativa dos pinguins no processo de reprodução. O truque é estabelecer essa narrativa empurrando-nos para o meio dela, e fazendo-nos encarar os animais não como sujeito observado, mas como personagens verdadeiros e quase com densidade dramática. Por outras palavras, o que eles fazem é dar-nos um documentário disfarçado de ficção.

A ideia em si é suficientemente apelativa para gerar o entusiasmo que este filme gerou. Para lá disso, ele está notavelmente bem executado, desde a qualidade da cinematografia, produzida sob condições duras, temperaturas extremas e ambientes adversos aos humanos. a forma como isto está montado não tem falhas, apesar das narrações em off pressionem demasiado na sentimentalidade de ficção para o meu gosto.

esta narrativa, a dos pinguins, é realmente agradável para seguirmos porque o animal tem um aspecto humanóide nele. as fronteiras entre documentário e ficção são mais facilmente cruzadas porque também o são as fronteiras entre estes animais e a nossa realidade como humanos.

O sítio onde os pinguins se reúnem, onde os bebés nascen, esse é um sítio especial, com uma força incrível. Valorizo os cineastas por o evocarem com tanta força. Esta foi uma viagem valiosa e poderosa.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve