Archive for the 'Fantasporto 2011' Category

Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec (2010)

“Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec” (2010)

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mergulhar na piscina

No mesmo festival, pude ver os 2 filmes mais recentes de 2 dos meus realizadores franceses favoritos actuais. Jeunet e Besson estimularam a minha imaginação, e por isso os meus sonhos, com o trabalho anterior deles. Agora, com o seu trabalho mais recente, eles tiraram os 2 umas férias. Ambos os filmes são relativamente inúteis, comparando com aquilo que eles já fizeram. Mas no Micmacs de Jeunet, ainda temos muitos dos elementos que superficialmente construíram o estilo dele, e que nos fizeram em parte apaixonarmo-nos pelo seu trabalho em primeiro lugar: a fotografia filtrada, o uso das cores, o uso insuperável do espaço, a estranheza do mundo. Tinha falhas e em última análise é inútil, até moralista, mas o seu exagero compensava a falta de um conteúdo real.

Aqui não. Tenho medo que tenhamos perdido Besson como um realizador sério. Digo mais, parece-me que os efeitos especiais contaminaram a sua forma em tempos puramente visual de conceber os planos, que construíam um ambiente, normalmente para suportar uma forma poética de ver o mundo, e as obsessões pessoais de Besson. Tivemos isso desde cedo, desde Dernier Combat, até aquela carta de amor ao oceano que é Atlantis. Léon está lá em cima na minha lista, por vários motivos. Em anos recentes ele tem trabalhado com animação, na série Arthur. Provei o primeiro, e não gostei, porque as animações são, como muito, banais segundo os padrões de hoje, e porque a fluidez que nasce da narrativa, e se prolonga com a câmara até nós, espectadores, essa fluidez que sempre foi a maior força dos filmes de Besson, desapareceu. Não há rasto do homem que em tempos foi mergulhador, e que levou as sua visão de mergulhador para o mundo dos filmes.

Este Adèle é algo que vem depois de Arthur (ou no meio). Como enredo, como história, dá a Besson o mesmo tipo de possibilidades visuais que, por exemplo, o Quinto Elemento. Muitos cenários, muitos sítios, cenas de acção. Tudo pretextos para fazer a imagem oscilar e levar-nos com ela. Parece haver uma obsessão fora do filme pela actriz principal, e esse é o elemento mais valioso do filme. Vemo-la ser repetidamente acariciada pela câmara, que a eleva, a torna poderosa, faz-nos adorá-la um pouco. Essa é a parte boa. Mas os dinossauros, as múmias, tudo isso escapa ao controlo de Besson, tudo isso é o trabalho dos especialistas do computador, e para já pelo menos, parece claro que Besson não consegue manipular a animação como consegue manipular os movimentos reais das câmaras, como já provou por mais de 2 vezes. Mas ele parece interessado em explorar isto, para lá do seu papel de produtor. Se ele conseguir controlar estas ferramentas, poderemos ter algo memorável. Se não conseguir, então perdemos um realizador inteligente. É ele a jogar.

A minha opinião: 2/5

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The Resident (2011)

“The Resident” (2011)

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espaço formatado

*** este comentário pode conter spoilers *** 

Primeiras obras são sempre um tema delicado para quem as faz. Devem correr muitos riscos? ou devem apenas tentar ser competentes e deixar altos voos para depois? Os princípios dos grandes realizadores não nos ajudam a decidir. Welles ou Godard começaram com abordagens fracturantes. Mas os Coen ou Kubrick começaram a trabalhar com narrativas deliberadamente convencionais, desenvolvendo qualidades, explorando territórios conhecidos, antes de quebrar as regras. Começar numa produção de relativo alto orçamento como esta, no meio do poço de fazedores de dinheiro de Hollywood pode piorar as coisas para aqueles que querem experimentar. Resta-lhes tentar realizar bem os clichés do género no qual vão trabalhar.

É aí que temos este filme. Uma produção menor de uma indústria maior, protagonizada por um nome bem conhecido, uma estrela, que também produz, e que certamente permitiu que este filme avançasse. Os produtores não correm riscos. Nenhum. Isto é cinema segundo a cartilha. Passo por passo, desde os créditos iniciais à Saul Brass, até ao desenvolvimento previsível do enredo, sabemos exactamente onde estamos e para onde vamos, em cada momento. É mais ou menos competente nisso. O suspense é mecânico, as actuações apenas toleráveis, mas o arco aparece como deve, e por isso este filme enche bem o tempo que gasta.

Dois conceitos poderiam ter sido interessantes, mas foram desperdiçados. Um é como Christopher Lee é colocado aqui. Temos aqui um tipo associado a um certo papel. Ele é o que recordamos dele. Colocado como ele foi no início do filme, podemos adivinhar o twist (ele ser inocente), mas a forma como isso nos é revelado deveria ter sido um ponto alto do filme. Mas não, ele simplesmente está lá… até deixar de estar. Que pena, incluir Lee apenas para o incluir.

A outra coisa é a oportunidade perdida de fazer da arquitectura uma parte da textura. O apartamento, o lugar na cidade É sedutor. O edifício não é especialmente bom, mas as entranhas aparecem interessantes no olho da câmara. Mas o espaço não tem absolutamente nenhum papel no enredo. E deveria ter… confiem nisto: a actuação é importante, a edição é fundamental. Mas não conseguimos criar suspense eficiente e durador sem considerarmos o espaço físico das acções. É uma questão de agarrar a audiência e colocá-la Na cena. Isso falhou aqui, e o pior é que parece que quase conseguia acertar.

A minha opinião: 1/5

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Micmacs à tire-larigot (2009)

“Micmacs à tire-larigot” (2009)

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seduzir pelo canhao

O que quer que Jeunet e a sua equipa façam, eu quero ver. O tipo tem um conjunto único de talentos que poucos ou nenhum outro realizador vivo tem.

Ele possui uma imaginaçao única, que investe e constrói cada um dos mundos cinematográficos que ele propoe. Esses mundos sao bizarros, estranhos, como um freak show vitoriano, mas onde nos identificamos com a aberraçao. Isto traduz-se num investimento nos personagens, e as suas acçoes. Aqui também se aplica ao mundo físico. O refúgio da nossa equipa de super-heróis é um cenário onde percebemos que Jeunet gastou bastante tempo. Aproximamo-nos dele desde o exterior, e ele seduz-nos. Os truques, a tecnologia retro do inventor. Tudo excelente. Um grande sentido de espaço. Espacialidade. Pessoas No espaço. Acçao onde sao considerados a câmara, o espaço, e o actor entre os dois. Jeunet é fantástico a fazer isto.

O tema nao interessa. É uma história banal sobre uns maus de desenho animado, a quem os debilitados de coraçao puro ensinam uma liçao. Há uma liçao de moral simples implícita (as armas sao más, a paz é fixe). Já vimos isto, com mais ou menos variaçoes, em centenas de outros filmes. Isso é pena. Nao porque agora tenhamos outro filme desses, ou seja, este pelo menos é melhor do que a maioria, mais cinematográfico, mais bem executado, com algumas coisas realmente boas. Mas estamos a ver Jeunet, o facto de que ele tenha tirado férias ao fazer este filme significa que perdemos um grande acontecimento como os que ele já nos deu. Ou talvez ele cumpra o modelo Soderbergh, e use o sucesso comercial deste filme para arranjar dinheiro para um filme realmente bom. Mas a verdade é que mesmo os bons filmes dele sempre ganharam bastante dinheiro para justificar o seguinte. Por isso este filme nao tem objectivo. É ainda assim excelente como passatempo. Era bom que todos os filmes de domingo à tarde fossem assim. Mas nao há nada mais aqui. E podia haver.

A minha opiniao: 4/5

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Miyoko Asagaya kibun (2009)

“Miyoko Asagaya kibun” (2009)

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viver, contar, cativar

Assumir a biografia de alguém como o tema central a tratar, e verter isso para um filme deve ser uma das coisas mais difíceis de fazer em cinema. Digo isto baseado não em experiência pessoal, mas na quantidade de projectos que tentam tal feito e que falham completamente, alguns de forma gloriosa, outros de todo sem graça. Parece-me que há várias abordagens que podemos considerar:

-consideramos os factos da biografia, especialmente aqueles mais reconhecíveis pelo público, se a vida em questão tem alguns, e encenam-se esses factos. Esta é a abordagem mais preguiçosa, e mais comum. Qualquer “vida de Cristo” produzida para a televisão para ser exibido na Páscoa faz isto;

-transformamos a vida num épico. Exageramos os factos, e dramatizamo-los para os tornar questões de vida ou morte. Normalmente isto é feito ao atrair-nos a um mundo muito específico, onde a vida retratada é central na vida de todos que o rodeiam. A vida que se retrata deve permitir esta abordagem, mas é uma visão cinematográfica, porque são as especificidades do cinema como meio que permitem a abordagem. Mas não me parece que seja uma forma de o fazer especialmente interessante. Gandhi cai aqui. Ali também. O recente “king’s speech” também entra neste grupo, ou em parte entre este e o primeiro;

-consideramos a vida pelo que aconteceu nela. Há uma vida ou pedaços dela para ser contados, o sujeito realmente viveu num sítio qualquer, durante um certo tempo, casado com uma certa pessoa, etc etc. Consideramos tudo isso, e depois esquecemos tudo., e fazemos um filme intuitivo sobre o que se poderia chamar a essência da personalidade em questão. Supõe-se que é alguém que importa não? Alguém que significou algo, em alguma área específica, não? Por isso, o que é que ele mudou? Como é que ele agitou as coisas? Se quiseres, como é que ele chegou a essas coisas, tendo em conta o que viveu e o que era? Esta é a abordagem mais válida. Muitos dos filmes que vejo que tentam este ataque falham, e por isso me parece extremamente difícil de fazer bem, mas aprecio muito esses falhanços, aplaudo os responsáveis, pessoas com coragem, realizadores válidos, todos os que o tentam. “A vida e morte de Peter Sellers” funcionou, parece-me que por causa de Rush. “your name here” falhou gloriosamente a apresentar a mente de Dick. Este aqui, suponho que falha, pelo menos a mim não me cativou, mas não conheço a pessoa apresentada aqui, não conheço os mangas dele. O filme realmente toca a alma de um homem, mas como filme não funciona para lá dos truques inteligentes que usa:

A vida dele como obsessão sexual. Essa obsessão apaixonadamente concentrada na namorada dele. Essa obsessão é tão grande que muda e molda as vidas das pessoas que os rodeiam: a amante, e o amigo que ele conduz a sexo com a namorada. Voyeurismo, que se escapa para histórias de manga. Um contador de histórias que força as histórias a acontecerem com ele e os seus amigos e a sua namorada, mais do que coleccionar as histórias que naturalmente lhe vão acontecendo. Ele perigosamente tira as histórias das pessoas. E os realizadores retiram este filme da biografia deles. Aplaudo. Este filme poderá funcionar com outras pessoas, falhou comigo, mesmo que houvesse material aqui. Vou procurar mais deste realizador.

A minha opinião: 2/5

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The Kinematograph (2010)

“The Kinematograph” (2010)

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Açúcar com cobertura de caramelo

É suficiente ser muito bom tecnicamente? É suficiente que te sentes para ver um filme e percebas que as pessoas que o fizeram são incrivelmente competentes em todos os aspectos técnicos do filme, desde a técnica de animação, passando pela cinematografia virtual, realização, edição, movimento de câmara? Se isso suficiente para ti, este filme funciona. A vila nesta curta é muito bem concebida no seu ambiente melancólico intencional. Os 2 espaços interiores usados são contrastantes de forma clara: o laboratório semi-obscuro e preenchido do cientista vs a pureza limpa da cozinha. Cada espaço está associado com um dos dois personagens. Aqui temos um mundo bem criado.

Mas não gosto do que está dentro. É demasiado doce, até ao ponto de diabetes. Aborda a homenagem ao cinema, como um mundo, exactamente da mesma forma que Cinema Paradiso o faz, e esse filme sofre dos mesmos problemas deste. Estes personagens, estas histórias São apelativas, mas o guião é escrito com mão pesada, é suposto reagirmos de determinada forma em determinados e exactos momentos. É como os estudantes novos de arquitectura que quando nos descrevem o edifício que estão a projectar isolam cada sensação específica que os utilizadores deveriam sentir ao passar em cada ponto. Eu gosto da minha liberdade para me sentir como a minha vida, ambiente, experiência me permitam sentir.

A minha opinião: 2/5

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Exodus (2007)

“Exodus” (2007)

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filhos de orwell

Outro mundo derivado de Orwell. Este tipo de filme irrita-me um pouco. Estou sempre fascinado pelas possibilidades visuais puras da invenção de um mundo, em que podemos fazer praticamente tudo. Podemos recriar a tecnologia, podemos inventar a roupa das pessoas, como se mexem, como pensam. Podemos estruturar todo um contexto social. Há melhor que isso? Orwell projectou uma visão e recriou-a para audiências modernas, mas esta é uma longa tradição há muito enraizada na tradição anglo-saxónica, eventualmente começada com Moore. O problema é que, para estes mundos funcionarem, e para fazer uma audiência, ou leitor, entrar neles, eles têm de ser um espelho claro do nosso próprio mundo, traduzido em simplificações de temáticas morais. Por outras palavras, temos de exagerar as noções de bem e mal, desenhar uma linha clara, e colocar as pessoas desse mundo dum lado ou do outro. Este tem um personagem que cruza literalmente de um lado para o outro.

Aqui os escritores, tentando chegar a uma audiência televisiva, pescaram a história na Bíblia. O Êxodo é um livro riquíssimo, cheio de significações, mas aqui eles desperdiçam a carne e ficam apenas com os ossos. É uma simples actualização dos eventos da história. Tudo bem, tendo em conta o tipo de marketing que suponho q este filme deveria ter. Mas não é suficientemente bom para ser interessante. E assume como trivial um texto que é rico, e é sempre uma perda para todos nós quando alguém simplifica elementos de qualidades transcendentes.

O problema é a quantidade massiva de moralizações feitas aqui. Por isso temos os maus “nativos” oprimindo os pobres “imigrantes”. Ah, mas os imigrantes também não são inocentes, e até o profeta da paz acaba por sucumbir à violência contra a qual ele sempre se levantou. Isto é demais para mim, suponho que há uma audiência que vai tolerá-lo e até aplaudir, mas não sou eu. O último (muito) bom filme que tentou a criação de um mundo negro, à Orwell, foi Children of Men. Funcionou para mim porque, entre muitas outras qualidades, colocava um tema existencial muito mais interessante no centro da narrativa, um que excede a mera questão “bom-mau”. Este Exodus até tem uma das actrizes do outro filme, a que fazia de mulher grávida, a imigrante que de repente era a luz para todos seguirem, num papel metafórico muito bem escrito. Aqui ela representa um papel semelhante, a mulher que intermedeia 2 mundos antagónicos, mas sem o interesse que tinha Children of Men.

Admito. O mundo é credível, os bairros de lata estão bem conseguidos com (creio) recursos não muito vastos. Há uma gestão inteligente de cenários e uma ilusão de espaço. Não é a Cidade de Deus nem Slumdog, mas funciona. A escultura humanóide também é uma boa peça.

A minha opinião: 2/5

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Carancho (2010)

“Carancho” (2010)

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dentro, fora, bizarro, movimento contínuo

Nos anos 60 houve um fenómeno na literatura latino-americana que hoje é reduzida à palavra “boom”. Um muito bom número de escritores de todo o continente começaram a produzir trabalho inovador, quebraram todas as fórmulas e introduziram novas possibilidades para a literatura, desconhecidas até então. Márquez, Rulfo, Llosa e, notavelmente na Argentina, Cortázar e Borges, entre outros. Hoje essa revolução ainda tem consequências (Chico Buarque tem sido uma revelação como escritor, embora o Brasil seja um mundo à parte). Mas parece-me que ultimamente, esses que têm vontade de explorar novos territórios narrativos e e de histórias estão a trabalhar no cinema. Márquez e Borges são 2 bem conhecidos (e excelentes!) críticos de cinema e cinéfilos. Em todo o caso, o cinema latino-americano de hoje é o herdeiro dos desenvolvimentos produzidos pela literatura latino-americana dos últimos 50 anos. No caso argentino, houve um retrocesso importante do país no início deste século, a corrupção e a incompetência levaram o país à bancarrota, e a classe intelectual revoltou-se contra isso por isso (como no Brasil), o cinema argentino aparece normalmente densificado pelas preocupações sociais dos argentinos.

Literatura e contexto social são, por isso, as 2 grandes molduras que enquadram este filme.

E que bom filme. A primeira coisa que se faz aqui é o estabelecimento de um mundo estranho, de pessoas que vivem sob diferentes rotinas, fazem trabalhos diferentes, conquistam o mundo de uma forma diferente, mas que usam os mesmos cenários da vida “real”, com a qual de quando em quando se intersectam. O homem, alguém que persegue pessoas que foram atropeladas por carros para coleccionar o dinheiro do seguro, e muitas vezes chega até a simular ou forçar o atropelamento. A mulher, que vive de noite, como médica de emergência. E a visão do submundo corrupto, onde apenas pressentimos que pode haver pessoas honestas por perto. Este mundo em si mesmo é bizarro, tenso, e cinematográfico, e vale a pena visitar. Sobre ele, temos uma camada de sensibilidade poética que eventualmente sai do personagem masculino, através da paixão pela mulher. Por isso, no cerne, temos uma história comum sobre um homem fraco que se redime através do amor, mas passada num mundo estranho, repulsivo, mas fascinante. Podia ser um relato de Cortázar.

E sobre tudo isto, a roda que faz este mundo girar, é o arrojo e força visual com que o filme está feito. Praticamente todos os planos importantes são longuíssimos e sem cortes. Pela forma como a câmara a manejada, estamos a entrar na tradição longa e linda de Orson Welles (aquele do Touch of Evil) tal como interpretado pelo notável Alfonso Cuarón, nomeadamente o incrível Children of Men. Esta câmara é discreta mas consegue estar sempre onde deveria estar. Ela sabe o que vai acontecer, e brinca connosco enquanto nos mostra o fora de campo mais vezes do que esperávamos, e com isso nos coloca fora da acção, num estado de inconsciência em relação ao que se passa igual ao de qualquer personagem do filme. Isto é trabalho de topo, e não me lembro de ver este tipo de gramática visual tão bem manipulada desde há algum tempo. Muito para lá das dificuldades na produção e concepção destes planos longos, e as actuações muito boas destes actores, eu fiquei maravilhado com o nível de manipulação empregado, a forma como este realizador e cinematógrafo compreendem a subtileza dos recursos que utilizam. Vou querer ver mais coisas deles. Seja o que for.

De todas as sequências, os 8 ou 9 minutos finais são os melhores. Vejam-nos várias vezes se possível, o último plano. ***spoiler*** a câmara começa numa garagem, entra num carro, assiste a um acidente desse carro, vê um tiroteio de rua, entra noutro carro e termina em ainda outro acidente de carro. Sem cortes, com uma vivacidade e arrojo com poucos precedentes. Que viagem!

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve