Arquivo de Janeiro, 2011

In Bruges (2008)

“In Bruges” (2008)

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Bosch, anões

*** spoilers ***

Há quase dois anos, vi e comentei um filme belga, chamado Moscovo, Bélgica (Aanrijding in Moscou). Apareceu-me do nada, num festival de cinema, e agradou-me imenso no diferente que era como experiência cinematográfica. De algum modo, era um filme afastado das convenções, relativamente afastado das regras do género onde se inscreve, pelo menos segundo as regras de Hollywood. Mas tinha o apelo das audiências, e se fosse falado em inglês ou espanhol, teria certamente tido um impacto diferente. Despretensioso, foi o título que dei ao meu comentário. Agora vejo este filme e ele produz-me um efeito semelhante. E tem lugar na Bélgica também. E porque este é falado em inglês, e tem algumas caras bem conhecidas, cai nesse canto agradável que eu penso que poderia ter pertencido também a Moscovo. Pergunto-me se a Bélgica, como lugar, tem alguma coisa a ver com isso.

Este é, no entanto, um filme bastante diferente. Tem uma escrita muito forte e condensada, tão controlada como o ambiente em que o filme se desenrola. Tudo tem lugar dentro desse contexto, e a primeira coisa realmente interessante aqui é a forma como, com uma (importante) excepção, todos os pontos importantes do enredo que acontecem ao longo da história são relacionados com os lugares da cidade a que tínhamos sido introduzidos antes, quando os assassinos eram apenas simples turistas. A torre, o hotel, o cenário onde estão a filmar. Entramos na cidade com os personagens, e vemos essa cidade pelos olhos deles. O ponto fundamental que nos é contado através de flashbacks é o que permite à história derivar para o mundo do noir onde o filme termina. O assassinato da criança é o que descobrimos. O que esse facto faz é despoletar todos os eventos que fazer os personagens encontrarem o seu destino, como é suposto. Por isso, o que é interessante aqui é a forma como o filme deriva entre géneros. Desde as leis da comédia (fucking Bruge) até ao ponto das perseguições duras finais. O câmbio dramático é subtil e realmente raro de assistir, e magnifica a força do final.

O elemento crucial que permite isto acontecer é, claro, o filme dentro do filme, o filme que estão a filmar em Brugges. Este intersecta a narrativa várias vezes ao longo do filme, e até temos actores desse filme interior (o anão) que interagem com os actores principais. O tema anão é, de resto, bastante referido. Passamos pelo cenário, Farrell até conhece lá a rapariga, e é-nos dito que o filme que está a ser feito tem alguma coisa a ver com Bosch. E claro, no final, o filme exterior a que nós estamos a assistir entra literalmente no cenário do filme interior, e nesse momento é já quando não vivemos mais no mundo da comédia, e os dois personagens restantes encontram o seu destino num mundo dramático totalmente diferente, no cenário do filme interior, levando o anão com eles.

A escrita é notável aqui que no entanto funciona apenas por uma sólida realização que permite que os actores tenham margem de manobra, sob um ambiente controlado.

A minha opinião: 4/5

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Angels & Demons (2009)

“Angels & Demons” (2009)

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hercule

Nunca espero muito de um filme de Ron Howard, que são pouco atractivos e sem vida, apesar dos efeitos sofisticados que muitas vezes envolvem. As ideias cinematográficas dele são básicas e desinteressantes, como por exemplo aqueles efeitos de câmara que temos nos filmes Dan Brown – câmara que se move através das paredes como que para mostrar a “verdade escondida” por trás do que é aparente. Aborrecido. O maior desastre foi o código Da Vinci, porque foi feito quando o livro era incrivelmente consensual por todo o mundo, consensual até nas supostas revelações chocantes que continha. O filme é tão pobre que não serviu sequer como ilustração do livro como, por exemplo, os filmes Harry Potter fazem com os livros.

Este aqui era um falhanço previsível. Se eles não tinham sido capazes de quebrar uma única regra do género no primeiro filme que já era adorado pelo público antes mesmo de ser filmado, não seria aqui que o iam fazer. Este aqui tinha de manter os espectadores que ainda continuaram a seguir Langdon mesmo depois do desastre cinematográfico do código. Por isso este filme usa o esqueleto do primeiro, e coloca-lhe uma pele diferente. Agora já não é sobre o Graal, ou o sangue de Cristo, é sobre um enredo político qualquer dentro do Vaticano. O código tinha uma história muito mais interessante, naquilo que ao livro diz respeito, mas ambas as histórias resultam-me pouco cinematográficas, porque a piada deles está em ir adquirindo os detalhes que Brown inteligentemente escolhe para construir a sua narrativa. O que ele apresenta são narrativas, versões, histórias que poderiam ser verdade. Isto é feito por associação de factos, não por imagens. É adequado a um livro, não tanto para um filme.

A única alteração significativa aqui é que, mais do que no Código, Langdon é um detective aqui, mais que um investigador. No código, a piada era compreendermos a narrativa que nos era contada no plano histórico, ao juntarmos as peças do puzzle que nos iam sendo mostradas. Aqui tinha a ver com descobrir o “infiltrado”, descobrir quem estava a manipular as coisas. Por baixo da apresentação maciça de factos históricos há uma simples história de detectives, na tradição Agatha Christie. E por baixo dessa tradição há toda a herança que o noir americano nos deixou, para apreciar e explorar. Se Ron Howard e as pessoas envolvidas aqui tivessem percebido isto, podiam ter feito um filme decente. Assim, não fizeram.

A minha opinião: 1/5

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L’illusionniste (2010)

“L’illusionniste” (2010)

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o truque

Há algumas coisas estranhas que as leis e peculiaridades do mercado fazem acontecer de vez em quando. Este é um filme que pertence ao canto dos seguidores da animação, não a animação mainstream, na tradição dos grandes estúdios, mas a animação na tradição mais meditativa das chamadas belas artes. Animação como uma forma válida pela sua própria materialização. Por outras palavras, os desenhos valem apenas por existirem, podemos apreciar um filme assim pelo próprio sabor do seu próprio mundo, tanto como podemos apreciar um esquisso de Miguel Ângelo independentemente daquilo que ele esteja a mostrar. As características particulares de cada líder criativo passa quase inalterado para o écran onde vemos o filme. É isso que me faz procurar animação de autor de vez em quando: os mundos visuais são viscerais e directos, como se o filme estivesse a ser desenhado ao mesmo tempo que o vemos.

Chomet é um cineasta cujo mundo vale a pena visitar. A sua abordagem meditativa está totalmente alinhada com as narrativas que ele escolhe. Aqui essa meditação encontra um cenário perfeito nas colinas chuvosas de Edimburgo, uma cidade que nunca visitei mas que imagino que pode ser bastante mais dura do que a que vemos no filme. A narrativa começa com o mágico a vaguear por lugares diferentes, países diferentes, até encontrar a cidade que encaixa naquilo que o realizador quer contar.

A auto-referência é clara aqui: Chomet é o mágico. O sósia de Tati está para as pessoas que o rodeiam no filme como Chomet está para nós, espectadores. Pensam que o truque tem a ver com o coelho e o chapéu? Não, o truque tem a ver com quem o executa. Pensam que a história tem a ver com um guião de Tati? Não, a história tem a ver com o que Chomet faz com esse guião. O toque de mestre na auto-referência aqui é, claro, o momento em que o nosso mágico animado entra num teatro para ver uma projecção do Mon Oncle de Tati. A distância, metafórica e visual, entre a animação e o filme de acção real que temos no écran atesta a importância semiótica deste pedaço. O facto de vermos o Tati animado e real no mesmo enquadramento atesta a vontade que Chomet tinha de nos fazer comparar os dois.

Muito se tem falado sobre a ligação Tati, a forma como daí nasce este personagem animado, e como esse personagem emula Tati. Não me interessa muito essa ligação, pelo menos não nos termos que em geral têm sido colocados nisso. Certamente que Tati é uma referência para o personagem, e inspira os movimentos, mas o manipulador é Chomet, não Tati. O que vemos são os movimentos dele, não os de Tati. E o ritmo, e a narrativa visual, tudo isso pertence ao mundo de Chomet. Mas somos levados a crer que vamos ver Tati a sair da campa. É esse o truque, é essa a ilusão.

A minha opinião: 4/5

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Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1 (2010)

“Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1” (2010)

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Deslocalizado

Há que admitir; não é assim tão difícil manter um franchise destes. Os livros são best-sellers, e os adolescentes são dos fãs mais resistentes de qualquer tipo de fenómeno pop que escolham seguir. Os livros batem num canto sensível das almas contemporâneas: a falta de magia na forma como as vidas de hoje acontecem, guiadas por uma visão do mundo que tem excluído o poder do misticismo, o verdadeiro misticismo, nascido das ligações mais básicas entre humanos e o seu ambiente, e intrahumanas. Os livros desenvolvem pequenos pedaços de velhas mitologias, e devolvem-nas num embrulho apelativo, cheio de elementos visuais e metafóricos com ressonância na nossa consciência colectiva ocidental. Fénixes, varinhas mágicas, poções, feitiços…

Mas estas histórias só me interessam porque foram transformadas em filmes, os livros em si não me atraem, os filmes talvez. E a opção principal na construção dos 8 (que afinal serão 9) filmes que traduzem os livros foi que a série deveria evoluir tal como os seus personagens principais, que eram crianças no início. Por isso começamos com filmes de crianças, evoluímos para filmes adolescentes de escola secundária, e agora os filmes foram associados a uma espécie de género híbrido, que oscila entre a história de detectives e o filme de acção. Esta 8ª tentativa cai nesta última categoria, tal como o anterior já caía. Parece-me que o último será mais tipo “o regresso do rei”: épico e visceral.

Para lá desta evolução dos filmes, temos em alguns deles conceitos cinematográficos que são explorados, com mais ou menos sucesso. É aqui que as coisas se tornam interessantes para mim. O terceiro filme foi o melhor: tinha a ver com uma manipulação do tempo e espaço (e a história do livro ajudava a isso) e confiava com inteligência num dos melhores exploradores de espaço (pela câmara) dos dias de hoje para realizá-lo. Por isso temos os planos mais profundos das séries, a melhor Hogwarts, os ambientes mais mágicos. O príncipe mestiço confiava em princípios semelhantes, mas em vez de explorar o espaço, a arquitectura era encenada de forma inteligente, dependendo do ponto de vista, o enquadramento e a mise-en-scéne. Foi inteligente e o melhor filme da era pos-Columbus.

Chegamos assim aqui, a este filme, que representa uma mudança radical naquilo que vinha sendo feito. Uma vez mais, a história dá as pistas para a materialização visual do filme: os nossos personagens principais são náufragos, vagueando entre múltiplos mundos, múltiplas realidades, todas elas desprovidas de elementos humanos onde ancorar a acção: neve, matos, rochas. Por isso puxam-nos o tapete, e o ritmo relativamente frenético do filme tem a ver com o facto de nós sermos incapazes de agarrar a nossa visão aos cenários que Não vemos: não vemos Hogwarts. Isso poderia até ser considerado uma decisão de risco, mas parece-me que a esta altura, os fãs só querem ver as ilustrações no ecran dos factos que sabem que vão acontecer, por isso os tipos podem quase literalmente fazer o que querem.

Uma vez mais, como no filme anterior, apreciei o tema visual: tempo linear, mas cenários descorporizados. Mas os cenários não são suficientemente interessantes, e os efeitos desvanecem-se com a multiplicação de cenários.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve