Arquivo de Agosto, 2009

I Am Legend (2007)

“I Am Legend” (2007)

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Wayne + Harry Potter

Confesso que tinha algumas expectativas em relação a este. Não vi os filmes antigos que supostamente este referencia, mas apesar disso tenho grande simpatia por filmes contidos no espaço e nos personagens. Este tinha um bom princípio: Nova Iorque, totalmente abandonada, recuperada pela Natureza depois do colapso da humanidade, e usada apenas por um homem! As possibilidades visuais são fantásticas, e o arco dramático também, apesar de aqui o sucesso depender em grande medida do que o actor fizesse. Will Smith é um artesão, não um artista, e o que se pode fazer com um personagem assim está fora do campeonato dele. Também estava fora do campeonato de Tom Hanks, e mesmo Nicholson apenas se aproximou de fazê-lo bem.

Admito, o resultado visual satisfaz, eles resistiram à tentação de exagerar nos efeitos especiais e criar uma cidade mais selvagem do que deveria. Alguns pedaços de cidade foram realmente bem imaginados. Mas eles podiam apenas ter feito isso, mostrar-nos uma exposição, não precisavam de envolver a cidade com o enredo miserável, história, etc…

O maior problema é o absurdo de um personagem meio louco, que começa sozinho e termina como o herói de toda a humanidade. No caminho ele (1) descobre a cura para o vírus, sozinho! e (2) salva fisicamente a sua descoberta para que a humanidade restante possa continuar a viver e aprenda com o seu exemplo. Que herói! Ele sofre, ele sobrevive, ele tem moral, ele é cientista, ele é um mártir. Eu acho que isto podia soar exagerado se fosse colocado num western pre-Leone, mas aqui, agora, chega a doer. É um tipo de discurso directo que eu posso aturar em filmes antigos que tenham outras qualidades, mas que não suporto aqui.

Por isso o virus não mata apenas, em alguns casos transforma os humanos em vampiros, para que possamos ter a cidade vazia durante o dia, enquanto a noite nos dá caras assustadoras e desafios físicos para Smith, assim como explosões. Demasiado forçado, demasiado desfocado.

Os sons que Mike Patton faz para os vampiros são curiosos (li algures que ele criou os sons).

A minha opinião: 1/5

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He’s Just Not That Into You (2009)

“He’s Just Not That Into You” (2009)

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caminhos preenchidos

Transversalmente a comédias populares de largas audiências (O Amor Acontece), a trabalho sério e comercial (como Babel), ou a filmes de autor (Almodóvar), tem havido uma tendência crescente para investir o mundo dos filmes com uma certa ideia de ligações finas entre pessoas que ultrapassa a própria compreensão delas. A ideia de que estamos todos ligados com graus maiores ou menores de intensidade a muitas pessoas que não conhecemos. Em vez de termos qualquer tipo de Deus sobre nós que nos controla e decide o nosso destino, a divindade neste mundo é a coincidência. Acções casuais e imprevisíveis guiam as nossas vidas, como Johanson ganhar o prémio do supermercado porque outra pessoa lhe deu a vez. O resultado narrativo destas construções é que nos torna a nós, audiências, os cartógrafos de territórios desconhecidos, já que sempre detectamos quando alguma nova ligação é revelada (muitas vezes coisas queos próprios personagens desconhecem). É uma estratégia rica e cheia de possibilidades.

Gosto do molde, gosto da estratégia, porque permite uma infinidade de situações dramáticas, e bem dominada pode tornar-se uma espécie de neo-neo-noir (já aconteceu), onde avançamos um pouco na tentativa de atirar personagens para situações impensáveis. Dessa perspectiva, a da construção narrativa, este filme não é um exemplo especialmente interessante. Todas as ligações existem para justificar a presença de tantos personagens diferentes, sem que isso signifique que eles venham a ser confrontados, mais tarde, com essas ligações que nós conhecemos. Em vez disso, funciona aqui como uma forma de nos acenar com diferentes histórias, que não têm necessariamente de estar ligadas ou de haver essa possibilidade. É como uma exposição de relações ou, neste caso, de métodos de sedução.

A história em si é sobre vidas vazias, que procuram o preenchimento emocional, aqui simbolizado pelo ter um namorado/a. O exemplo paradigmático é a vida da rapariga que narra a história, discutivelmente a que está mais perdida, e certamente a que mais desesperadamente busca a “outra metade”. Todos os casos são distintos na forma como os personagens os enfrentam, e na sua conclusão, desde a narradora que tem o romance hollywoodesco que vende pipocas, até Johanson, que voluntariamente decide ficar sozinha.

É pálido e não particularmente interessante, mas gostei da coerência entre as não tão interessantes vidas que se contam.

A minha opinião: 3/5

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Harry Potter and the Half-Blood Prince (2009)

“Harry Potter and the Half-Blood Prince” (2009)

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sobre narrativa espacial

Quem viu e continua a ver os filmes Harry Potter e pensa um pouco sobre eles sabe o rumo que eles estão a tomar (ou que é suposto tomarem). O franchising é invulgarmente longo, para filmes que trabalham uma única linha narrativa, ainda mais quando a evolução da idade dos personagens interessa. Começou há 8 anos e vai terminar (supomos) daqui a 2. Por isso temos uma década com os mesmos personagens. Mais do que isso, uma década com os mesmos espectadores. É esse o truque, cada filme não tenta conquistar novas audiências, ao invés tenta chegar às mesmas que viram os filmes anteriores. Claro que novos públicos são bem-vindos, mas reconquistar os regulares (que já começaram com os livros) parece ser o objectivo principal. Por isso é que cada novo filme é mais “negro” que o anterior, porque o primeiro deveria ser apelativo para alguém com, digamos, 10 anos, e o último deverá ser consumível por alguém com 20. É uma ideia interessante, e que aparentemente permitiu a cada novo filme ser rentável apesar da longa duração dos personagens. Também, suponho, é por isso que Chris Columbus saíu do barco depois do terceiro, ele tem uma imaginação calibrada para chegar às crianças, e “famílias”, no processo. Quando Columbus saíu, eles tiveram problemas em substitui-lo, e creio que os 2 filmes antes deste são desastres totais. O último, especificamente, é uma confusão total em todos os temas. Bem, Yates deve tê-lo visto muitas vezes e compensou em parte as coisas aqui.

O que temos aqui melhor do que tínhamos nos outros 2 é uma certa construção da tensão de cena para cena. Eles compreenderam que não têm bom drama entre mãos, os livros são demonstrações curiosas de pedaços apelativos de mitologia, mas que está enraizada em aventura e fantasia adolescentes, e isso não pode ser mudado. Por isso eles escreveram o filme de acordo com as possibilidades que tinham. Isso torna-o tolerável nesse aspecto. Bem, a grande forma é absolutamente inexistente. O filme é uma colecção de capítulos soltos, as ligações débeis que o livro (suponho) dá estão ausentes e por isso o filme funciona como pura ilustração de certos momentos da história. Mas em geral, cada episódio é minimamente competente.

Mas há algo realmente bom aqui. É a exibição do espaço através da escolha do enquadramento. O que quero dizer é que o espaço está presente, é usado como um importante (o mais importante?) manipulador da dinâmica dramática, significando isto que cada cena tem uma vida pela forma como está enquadrada, No espaço. Colecciono exemplos de como o espaço é usado em cinema e este é um bom exemplar, que usa o espaço de uma forma rara, através do enquadramento. A magia acontece pela colocação exacta de elementos no primeiro e último planos (objectos, elementos da arquitectura como portas ou paredes) assim como na forma como os personagens surgem no espaço (e onde). Este filme fá-lo bem. A verdadeira tensão nas cenas está na forma como são construídas espacialmente. Como espectadores, somos levados a crer que é a história, o diálogo dos personagens que nos faz sentir desconfortáveis, ou arrebatados, mas é o espaço, neste caso manipulado pelo enquadramento.

Até agora, nos 6 filmes que temos, há 2 que interessam pelo que fazem com o espaço: o Azkaban de Cuarón e este. Cuarón é um tipo que se move no espaço e através do espaço, seja pendurado em personagens, seja livremente, pelo espaço em si. Esta versão depende da encenação do espaço e de encontrar o enquadramento adequado e significativo (neste caso num espaço que podia e foi manipulado previamente). Pessoalmente, prefiro o que faz Cuarón, mas realmente adorei esta versão, que me surpreendeu positivamente. (Orson Welles dominou os dois tipos de exploração, e podia usar ambos no mesmo filme, mudando o modo! isso é único).

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve