Meu Tio Matou um Cara (2004)

“Meu Tio Matou um Cara” (2004)

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a sobreposição da descrição

A narrativa é a alma de um filme não é? Mesmo quando essa quase evidência é contestada pelo realizador, parece que queremos sempre encontrar uma história. Isso está gravado na nossa imaginação? É uma aquisição cultural? É-me indiferente. Nós procuramos histórias, e isso é importante se queremos perceber de onde vem muita da nossa arte.

O cinema é, para já, o meio narrativo do momento, aquele onde as transformações mais profundas foram usadas, em termos de contar histórias, invenção narrativa, etc. Isso acontece porque o cinema é um aglomerado de outras actividades, com milénios de existência, mais o poder da imagem em movimento, algo sempre desejado, mas nunca atingido até ao aparecimento do cinema (algumas gravuras rupestres já tentavam representar movimento!).

Por isso, se tiverem uma postura séria em relação a ver filmes, e compreender o meio, terão de investigar como evoluiu a história do contar histórias. Alguns nomes são fundamentais, outros nem tanto. Jorge Furtado é fundamental para mim. Ele é relativamente desconhecido fora do Brasil, mas parece-me que todos deveriam contactar com o seu trabalho. Ele é um dos guionistas mais inteligentes de sempre. Sim, de sempre. Há mais de 20 anos atrás, quando ainda não fazia longas metragens, Furtado criou uma curta memorável, Ilha das Flores. Aí ele pegava numa forma de construir histórias que Welles tinha usado nos anos 70, e que já intuía desde os anos 50. Aquilo que é normalmente conhecido como “filme ensaio” é o ponto em que Furtado deixa a publicidade e entra em cinema. E ele nunca mais deixou esse mundo, escreveu páginas douradas e fez o cinema dar um salto adiante. É essa a extensão da minha admiração pelo trabalho dele, admiro-o assim tanto.

Este filme é mais um exercício em sobreposições narrativas, tempo narrativo, e auto-referência. Tudo num. Começamos com uma história normal, aqui sobre um suposto assassinato. Esta história já vem cheia de versões, que vamos conhecendo com o desenvolvimento do filme. A versão do tio está cheia de buracos, e vamos tendo um conjunto de evoluções da frase inicial “matei um cara”. Sobre isto, Furtado centra o filme num personagem, estranho à linha principal lançada no início. Nós ouvimos a voz interior desse personagem. Ele vai ser o nosso detective designado, o nosso representante no écran. Mas essa voz nunca narra o que vemos. O que ela faz é comentar no que vemos, intersectando-o e misturando-o com referências externas, cinematográficas ou não. Uma voz que comenta a história principal e os seus personagens. Já temos então 2 níveis, um deles puramente auto-referencial. Somem a isso a história deste personagem narrador, algo que tem a ver com desventuras e amores adolescentes. É uma 3ª história, uma terceira sobreposição, que vai pontualmente intersectar a primeira, e até coincidir com ela a partir de um determinado momento. A segunda sobreposição, a da voz interior, vai cobrindo tudo, contaminando as outras duas e a forma como vemos o filme.

**spoilers** O final convincente (desde um ponto de vista cinematográfico) vem da sobreposição bem sucedida de todos os níveis, que permite uma conclusão engraçada, que é em si mesma auto-referencial: o que revela todo o enredo é um conjunto de fotografias, que descobrem tanto o Kid como a Soraia. Essas fotografias, que documentam um evento que nunca vemos, a não ser por pequenos excertos que surgem após a conclusão, têm uma ordem que interessa e que conta uma história, um quarto nível narrativo que conclui os outros 2. Há um jogo engraçado com as fotografias, que contam uma história diferente quando a sua ordem é mudada, ajudando o tio a manter o seu estatuto de idiota.

O filme é superficial em termos do que significa. Cómico e suculento, mas não profundo. Como um exercício cinematográfico de sobreposição narrativa, por outro lado, é profundamente poderoso, como qualquer coisa concebida por Furtado.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve