Arquivo de Julho, 2007

30 de Julho 2007

Bergman / Antonioni

Não sei porque tinham de morrer no mesmo dia, até já ouvi dizer que o Antonioni morreu de choque ao ouvir que o Bergman tinha morrido. Seja como for, são dois dos últimos… não sei últimos de quê, mas tive a sensação que eram dois dos últimos a ir.

No meu caso pessoal, como amante de cinema, liguei-me sempre mais à obra do Antonioni, sem questões pessoais são dois mestres-génios-pessoas que a partir de 30 de Julho de 2007 ganharam o direito a ser imortais.

Para mim não é este o momento dos discursos longos. É o momento de quem tiver acesso agora mesmo, pegar no primeiro filme que estiver na superfície da memória de cada um e rever, 1 minuto, 2 minutos, dois planos ou o filme todo, ou todos os filmes. É provavelmente o que vou fazer.

Ingmar Bergman (1918-2007)

Michelangelo Antonioni (1912-2007)

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A Dália Negra (2006)

“The Black Dahlia” (2006)

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O problema com enredos pesados e uma visão cinemática

Eu coloco Brian De Palma num lugar alto na minha lista de realizadores com interesse. Isso significa que faça ele o que fizer, eu quero ver, mesmo que eventualmente me venha a desiludir. Isto acontece porque ele tem uma forma altamente cinemática e pessoal de ver as coisas e de contar histórias, e parte sempre dessa visão. Assim, eu discordo da opinião de muitos apreciadores de cinema que desprezam De Palma por ser uma “fotocopiadora” de vários outros estilos de cinema. Eu penso que ele denota, sim, várias influências, claras como água, mas no final todas elas surgem filtradas pela sua magnífica forma cinemática de ver. E sublinho esta última palavra, porque com De Palma tudo se relaciona com “ver”… COMO, mas do que O QUÊ.

Dito isto, considero este filme como um projecto menor. Não significa que não valha a pena ver mas é pior que um filme médio do realizador e está a milhas dos seus melhores momentos. Já o vi fazer melhor com pior material. E falo de “pior” ou “melhor” na relação com o que melhor serve o estilo do realizador. O problema aqui parece ser a extrema complexidade do enredo, que ao invés de ser simplificado para realçar os complexos movimentos visuais que ele aprecia, torna-se mais e mais espesso. De Palma necessita que a audiência esteja sempre elucidada acerca das questões de argumento para poder gozar o seu trabalho visual (isso porque o espectador médio não desistirá de seguir a história, e sempre a colocará em primeiro lugar em relação a outros elementos mais específica e profundamente cinemáticos).

Este será facilmente relacionado com Chinatown e LA Confidential e naturalmente assume-se como “neo noir” ou outro nome estranho que lhe queiram chamar. O noir desenvolveu-se em torno de personagens que actuavam no escuro, guiados pela coincidência ou o destino, ou ambos, de qualquer forma, sempre forças superiores a si mesmos que os ultrapassavam. Aqui, acima dessa concepção tradicional, temos a câmara como deus e um plano memorável que eu relaciono (lá estão as influências) com o plano inicial do “Touch of Evil” de Welles. Esse plano acontece na cena em que o corpo da pretendente a actriz é encontrado e um tiroteio toma lugar. Isto é exploração espacial, realizada por um olho ao qual tudo é permitido, vê sozinho a soma do que todos os personagens vêem. Este é o melhor momento cinemático do filme, mais aproximado do que De Palma gosta, e por isso isoladamente merecedor de análise cuidada.

A outra referência que me ocorreu tem a ver com a estrutura narrativa de Sunset Boulevard. Este era um exemplo fantástico de como construir uma história multifacetada, uma obra prima de escrita para cinema; e continha um filme dentro do filme, o projecto de juventude de Gloria Swanson, dirigido por Stroheim, que era visionado pelos seus respectivos personagens em Sunset Blvd. Aqui não temos esses simbolismos, nem a intenção de os ter mas temos um filme que conduz o enredo e cria uma personagem bastante interessante que nunca surge viva no filme com a excepção dos pedaços de película que restam (a personagem de Mia Kirshner) e vai-nos ensinando (assim como ao nosso detective noir) elementos que necessitamos saber. Mesmo a loucura da personagem de Fiona Shaw (representada do alto de uma escada, lembram Sunset Blvd?) reporta para uma ligação entre os dois filmes. Recentemente assisti a “Professione: Reporter” de Antonioni e creio que no filme do italiano, o “filme dentro do filme” teria um efeito semelhante ao que De Palma faz aqui.

Isto e uma interessante inversão de papéis que transformam em “femme fatale” a morena (Swank) em vez da comum loira (que seria Johanson) são os bons elementos. A ligação frágil entre o enredo pesado e a vontade que De Palma sempre tem de pesquisar livremente elementos e mexer-se com liberdade (recordar Blow Out) é a principal falha e a sua consequência é que o filme quase nunca captiva, quase sempre falha em levar ao público elementos que justifiquem os bonitos planos de De Palma.

A minha avaliação: 3/5

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Blade Runner (1982)

“Blade Runner” (1982)

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Impressionismo de contornos distópicos

Primeiro que tudo, é importante compreender que Blade Runner não tem que ver com uma história ou personagens, não é sobre ser concreto. É um filme sobre paisagem, sobre a cidade, como reflexo da civilização. É sobre corrigir o nosso presente, sabendo o que aconteceu no passado. E por isso o futuro é usado, por isso a ficção científica é chamada. Por paradoxal que possa parecer, o modo futuro dá ao espectador a distância necessária em relação ao que ele é suposto “ver”. E o que se vê aqui é fundamental, não por causa dos cenários espectaculares, não pela espantosa previsão do que a cidade será em anos vindouros mas porque mostra o que já está agora defronte de nós. Praticamente todos os filmes de ficção científica tentam prever uma cidade completamente nova baseada no que é “futurista” no momento da criação do filme, de obras-primas visuais como Metropolis a versões comerciais de um mundo futuro como “Demolition Man”. Ridley Scott propõe uma cidade que existe já, hoje, agora. Nós chegamos ao futuro através do presente, o nosso presente, e isso liga-nos ao que vemos onde o tempo futuro nos dava distância. Tudo é deliberadamente atirado num ambiente distópico, caótico, que faz tremer, não porque é escuro e chuvoso, mas porque é numa cidade que já existe, em edifícios com mais de 100 anos agora. Sebastian vive num edifício neoclássico de provavelmente final do século XIX, as raízes de tudo o que claramente está mal e distorcido neste futuro de Scott estão agarradas ao nosso presente. Evidentemente um realizador de ficção científica é, antes de mais, um habitante da Terra, assim a sua base será sempre a sua realidade como terráqueo mas aqui ele faz o esforço de atirar isso ao espectador.

Por isso, tudo é clássico, Sean Young, uma replicante que não o sabe, tem uma beleza clássica, a caracterização, a forma como se mova, a forma como fala. Ela toca piano. Ela tem memória. Ela é humana, excepto pelo facto de ser replicante, criada pelos homens e é nesse ponto que os homens são elevados à categoria de Deus, já que criam com a mesma perfeição que Ele. A câmara é Deckard, a câmara é o observador e este observador trabalha no topo dos edifícios, acima da humanidade, trabalha no último piso do complexo industrial reminiscente do Olímpo de Tyrell. O que se faz aqui é uma mudança na noção de escala temporal para nos trazer a nós, espectadores, para baixo, para a terra: Se Deus é eternidade e a vida de um homem um segundo nessa eternidade, o que vemos aqui é a vida de um homem a transformar-se na eternidade relativa e os 4 anos de vida dos replicantes apenas uma pequena passagem na realidade. Sempre que os replicantes são referidos em Blade Runner sou na verdade eu que sou referido. Em última análise, este filme poderá ter como tema cair na terra com a noção de que o tempo é precioso, e 4 anos pode ser muito tempo, se bem usado. “todos esses momentos serão perdidos no tempo como lágrimas na chuva”, diz o personagem de Rutger Hauer. Isto refere-se a conservar a memória para a eternidade, seja a eternidade o que for.

O Homem reflecte-se na sua criação, as suas imperfeições, mas também as suas qualidades, aparecem naquilo que ele cria. Assim, ao longo do filme, acabamos por mudar a nossa opinião dos replicantes, de sentimento de ameaça a empatia, de desejo de eliminar (por instinto de sobrevivência) a desejo de abraçar e logo acabamos por sentir o vazio pela sua perda. É nesse ponto que os replicantes se tornam homens, que nós sabemos que não se fala aqui de robots, mas de nós próprios. “pena que ela não sobreviva, mas por outro lado, quem sobreviverá?” esta é a frase final, nada vive para sempre, criação ou criador. Apesar de tudo, enfrentar a inevitabilidade da morte não impede Deckard de correr para a vida, ou os replicantes de tentarem viver.

Outro aspecto é que não temos aqui “banda sonora”, não há “música”, apenas “paisagens sonoras”, tão distópicas como a cidade, tão negras como o futuro, tão vazias como a ausência de futuro. Esses sons são a história dessa cidade, são a história do nosso passado, como contado no nosso presente, onde não há memória, onde as memórias são esquecidas, ou inventadas como, uma vez mais, dispositivo de sobrevivência. A memória é uma almofada para as emoções, diz Tyrell, ele é deus, ele sabe que as emoções são necessárias para que se possa existir, mas ele também sabe que não pode eternizar mentiras, ele sabe que morrerá.

Em última análise, este poderá ser uma ficção científica ancorada na noção de filme noir que, se bem explorada, poderia tornar-se um género de direito próprio. Se se verificar, encontram-se aqui praticamente todos os elementos do filme noir. Por todos os aspectos que referi creio creio que este é um filme essencial de ficção científica, preenchendo completamente o papel que a ficção científica deveria ter, mas raramente tem. Entre 1979 com Alien e 1982 com este, Ridley Scott avançou definitivamente na compreensão do que trata a ficção científica e no modo como isso deveria invadir a realização cinematográfica. Todos os artistas têm o seu limite para a inovação e criação, aparentemente o limite de Scott ficou definido aqui. O seu trabalho posterior nunca chegaria a ser tão influente ou bom como estes dois filmes mas o que ele nos deu aqui é mais que suficiente.

A minha avaliação: 5/5 Esta classificação não era necessária, o que disse deveria bastar.

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Entre inimigos (2006)

“The Departed” (2006)

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Martin olhando para o seu passado

Scorcese voltou ao seu passado como realizador. Nos seus últimos projectos ele vinha explorando as possibilidades de movimentar a sua câmara, a meu ver em dois aspectos fundamentais: -explorar espaço, arquitectura, a envolvência; -provocar sensações, neste caso agarrando-se a um personagem (ou vários) e transmitindo essas sensações a nós, audiência. Estou naturalmente a falar aqui de “Gangs de Nova Iorque” e “O aviador”. O primeiro foi bastante mais arrojado nestes aspectos, o segundo foi mais reflectido, talvez mais refinado e multi-facetado (introduziu o tema das cores, da evolução do tempo e reviveu a “câmara que segue um personagem”). Eu valorizo esses projectos porque Scorcese correu neles alguns riscos e tentou evoluir como realizador. Não chegou a “terra firme” ou conclusões reais. Mas esse é o objectivo de experimentar: tentar soluções.

Com este filme, ele coloca algumas dessas experiências de lado. Isto aparentemente. Neste filme, Scorcese volta à sua forma de desenvolvimento de personagens. Tudo tem a ver com os personagens. As acções desenrolam-se baseadas no estado mental, nos medos, de cada personagem. Fal, claro, de Damon e DiCaprio. Nicholson já não é o personagem assustado de The shining, nem o detective astuto de Chinatown (e especialmente Two Jakes). Ele trouxe no entanto para aqui alguma da actuação tendencialmente cómica que desenvolveu nos seus projectos menores dos últimos anos (isto é uma nota paralela). Assim, a sobreposição de personagens principais permite a Scorcese tornar mais complexo o seu anteriormente bastante simples (e muitas vezes desinteressante) jogo de Goodfellas ou Casino. É portanto um “refrescar” da sua “fórmula” baseado, creio, em tentar estender a sua forma comum de desenvolvimento a partir de personagens às experiências dos projectos referidos anteriormente.

Suponho que este deveria ser um projecto paralelo às suas novas tendências, mas espero que o grande sucesso que este teve não façam Martin desistir dessas tendências que vinha conduzindo… De qualquer forma, até este momento, The Departed é de Scorcese o melhor exemplo do tipo de construção que ele melhor domina: o que usa o personagem como fio condutor.

Em termos técnicos este filme não tem quase falhas, naturalmente; e eu quis vê-lo sem ter visto primeiro o original que foi refeito aqui. Não quis basear este meu comentário nesse outro filme.

A minha avaliação: 3/5, mesmo assim, espero que Scorcese continue a sua evolução dos últimos 5 anos, ele poderá chegar a algum sítio novo para os seus padrões.

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E Deus criou a mulher (1956)

“Et Dieu… créa la femme” (1956)

Realizador: Roger Vadim

Argumentistas: Roger Vadim and Raoul Lévy

Género: Drama

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auto-biografia cinematográfica

“o problema com o futuro é que está sempre a arruinar o presente”, diz Bardot no princípio. A minha intuição relaciona esta frase com o papel que este filme viria a ter no cinema em anos posteriores.

Este filme é realmente importante. De um ponto de vista sociológico e cinemático. Apesar disso, este não é um bom filme.. Não tem enredo forte, ideia forte ou actores fortes. Mas tem BB e uma revolução no cinema que surgiria apenas 4 anos depois e que mostra as suas garras aqui.

Fenómeno Social

Brigitte Bardot apareceu aqui. A primeira cena garante-lhe um lugar na imaginação colectiva da sociedade ocidental. O resto do filme define uma nova personalidade tipo para um símbolo sexual, que não é assim tão diferente da pessoa vulgar, apenas mais bonita. Este é o filme dela, e ela é a única que se recordará apenas após um pequeno espaço de tempo após o seu visionamento. (ela, não o seu personagem).

Questões cinemáticas

(1) Não posso dizer exactamente até que ponto Vadim estava consciente do que estava a fazer aqui, ou se ele previa que estaa, provavelmente, a começar algo que traria consequências até aos nossos dias. De qualquer forma, o que ele queria contar neste filme era a sua própria história, na qual Bardot era, até esse momento, a personagem principal. Carradine (Jürgens) era, suspeito, o próprio Vadim. Bardot é liberal, faz o que quer, por inocência e juventude. Carradine é experiente, vê tudo ou, pelo menos, sabe tudo, permite tudo, mas sempre controla à distância, sempre preocupado com o que acontece e sempre fazendo planos sobre isso.

(2) A composição já não é antiquada, ainda que o enredo e os temas tratados possam relacionar-se com um ambiente de comédia clássica “ligeira”, usada até à exaustão nesse momento. Os movimentos de câmera são arrojados, apesar de inconsequentes na maioria das vezes. Vadim tenta inovar, apesar de não ser suficientemente competente para o fazer com importância (esse trabalho iria caber a Godard, principalmente, e Truffaut). Também a forma de desenvolvimento-clímax-conclusão não se aplica tão claramente aqui.

Assim, este é (1) auto-referencial ao seu autor e (2) procura uma forma pessoal e inovador de expor uma história (filme sobre cinema). Isso torna-o, talvez, o primeiro filme construído de uma forma “nouvelle vague”, 3 anos antes de “4 cents…” e 4 antes de “a bout de souffle”. Aqui, como em Barbarella, Vadim introduz elementos inovadores, que mudariam o pensamento e cultura pop, sem produzir realmente bons filmes, por vezes quase ao contrário.

A minha avaliação: 3/5 Este é um filme importante não tão bom para se ver.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve