Arquivo de Maio, 2009

Great Expectations (1998)

“Great Expectations” (1998)

expectations

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narrativa espacial

Este filme foi realizado por uma das mentes visuais mais interessantes a trabalhar hoje. Cuarón sabe como trabalhar o espaço, sabe movimentar-se nele, sabe como encontrar e/ou criar espaços que ele pode explorar, encontrar os melhores pontos de vista. Neste tema, ele provavelmente herda as investigações de Orson Welles nos dias em que ele dominou a exploração espacial e o enquadramento da arquitectura. É aí que a mente de Cuarón se centra, creio. Enquanto Wenders explora imagens bidimensionais numa forma pura, enquanto Kubrick molda os seus filmes ao redor da narrativa, Cuarón fá-lo com espaço.

Tendo dito isto, este filme específico não é aquele em que ele o faz de forma mais intensa. Não vi este filme quando ele saíu, e neste momento já vi Children of Men e o terceiro Harry Potter. Aqui ele estava provavelmente mais limitador e tinha menos margem de manobra para trabalhar as suas capacidades. No entanto há momentos, agarrados a espaços, que são puras pérolas visuais. Assim, pensem nas cenas da casa do Paraíso Perdido. Vejam como esse espaço está construído para ser explorado, como as salas grandes existe para merecer a pena a câmara dançar com os personagens. Vejam como a escadaria que desce até à fonte do primeiro beijo está ali para permitir à câmara seguir os personagens e explorar o espaço. Estes momentos na escadaria são especialmente wellesianos. O outro espaço explorado é o estúdio de Hawke em Nova Iorque. O espaço é claro e denunciado na forma como o lemos. Por outras palavras, compreendemo-lo com uma única imagem, é aberto, e a sua composição perfeitamente legível. Mas é interessante, pela iluminação e pela escala, e Cuarón compreende-o. Imagino que este espaço é real, e o Paraíso Perdido um cenário.

Estes momentos, que claramente foram os mais impressionantes no filme, para mim, estão pendurados numa história. Seguindo Dickens, essa história tem a ver com a história em si. Os personagens são manipuladores ou manipulados (ou ambos, no caso de Paltrow). É uma história sobre quem está a contar a história. Na construção cinematográfica (não na do livro), os personagens existem para servir a construção narrativa, e pessoalmente creio que, em cinema, é mais eficiente que seja dessa forma. Por isso temos dois narradores principais, mas só temos consciência de um, e Hawke também. É esse o truque, é inteligente e funciona.

Não gosto de Ethan Hawke, admito. Para mim ele não tem talento e, pior, ele actua de forma arrogante. Isto significa que ele não faz nada, mas realmente acredita que nos está a dar algo duradouro. Bem, normalmente esse tipo de actuações afastam-me (na linha de Freeman, Redford, o Cruise mais recente…) mas aqui, considerando que o papel do seu personagem na história, de duplamente manipulado, admito que é uma escolha perfeita. Tal como o actor, o personagem pensa que comanda, mas é na verdade usado. Gwyneth Paltrow é concentrada, iteligente, e parece-me que trabalha duro para integrar os seus personagens, mas o seu trabalho é invisível no produto final. E isso é fantástico…

A minha opinião: 4/5

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2 anos

Faz agora 2 anos que comecei a ideia deste blogue. Há um ano atrás remarquei o facto de que nunca pensei que pudesse durar tanto tempo esta experiência, sobretudo pela proposta de a fazer em 3 línguas. Tenho conseguido, e isso tem-me satisfeito, em alguma medida.

Tenho neste momento 180 filmes comentados (99 no último ano). Não é o número de filmes que estabelece a eventual qualidade daquilo que tenho vindo a fazer, mas acabei por aumentar o número de comentários neste segundo ano de vida do blogue, o que também me deixa satisfeito.

Sobretudo tenho usado, como sempre referi, o pretexto de comentar filmes para aprender sobre eles, aprender sobre cinema e, consequentemente, aprender algo sobre mim. É uma aventura poder explorar realmente filmes, sem medo, como o têm a maioria daqueles que vão vendo filmes. É uma aventura porque entrar num filme, seja bom ou seja mau, é sempre uma experiência em que encontramos aquilo que levamos connosco, aquilo que somos. Há filmes que mudam a minha vida quando os vejo, e são esses que sempre procuro, mesmo quando não encontro.

As estatísticas do wordpress (que contam infelizmente apenas as visitas “on site”) são neste momento:

7Olhares:___ 27 827 visitas (14 290 no último ano)

7Eyes: ________6 700 visitas ( 3 989 no último ano)

7Ojos: _________8 596 visitas ( 4 422 no último ano)

_________43 123 visitas (22 701 no último ano)


Ser visitado dá-me força para continuar, nas 3 línguas. Agradeço sempre sugestões, no site, ou por mail, como vou recebendo. Sobretudo acredito na possibilidade que a internet dá de aproximar opiniões, conhecimentos, pessoas.

Lisboa de Hoje e de Amanhã (1948)

“Lisboa de Hoje e de Amanhã” (1948)

e agora?

Este documentário é terrivelmente significativo para todos os portugueses, certamente mais agora do que quando foi feito. Colocado no contexto adequado, e com a informação certa para o suportar, poderá levar-nos a concluir coisas assustadoras e terríveis. Creio que ver agora o filme e reflectir ao mesmo tempo sobre os últimos 35 anos em Portugal pode ser mais clarificador do que qualquer filme, documentário, livro ou o que seja feito depois do 25 de Abril e que trate o tema.

O filme é um exemplo de propaganda. Isto significa que vamos ver um ponto de vista totalmente parcial, em todo o momento favorável ao regime em questão. Neste caso temos todo o tipo de elogios às políticas urbanas de Lisboa há 60 anos. Basicamente, o planto de que se fala é a obra de um homem notável, Duarte Pacheco, que não era um visionário, porque não previu nada que não estivesse já a ser feito noutros sítios, mas que teve o mérito de actualizar as políticas urbanas de Lisboa que é como quem diz, criou uma. Esse plano é notável, apesar de desactualizado hoje, especialmente nos conceitos de habitação em cidade, em termos de tipologia (casas únicas ou geminadas em contextos altamente urbanos é terrível política hoje) e aglomeração social (casas de baixo custo, que agrupam todos os desfavorecidos, também é um conceito desactualizado). Claro que o sucesso e eficiência do plano dependia de Pacheco (que morreu 5 anos antes deste documentário ser feito) ter o poder absoluto para construir e destruir, sem ter de negociar com as popularções envolvidas. Mais interessante do que tudo é a ideia de “pulmão urbano”, materializada no enorme Monsanto. Alguns projectos de bairros são muito interessantes, nomeadamente Alvalade. E claro, os anéis que rodeiam a cidade, é algo contemporâneo e planeado a uma escala visionária (sim, aqui foi visionário), mas creio (sem certeza), que nem todo o plano veio a ser cumprido.

O documentário tem uma grande qualidade: realmente explica o plano, a ideia, no local, em plantas, com maquetes. Não depende de demonstrações conceptuais inúteis, porque as pessoas naqueles dias não dependiam tanto das imagens como ícones como dependemos todos hoje. Mas muito do que vemos e especialmente muito do que ouvimos é perfeitamente ridículo, e era já ridículo e até cómico para alguém naqueles dias que pensasse. A ideia de fazer “monumental” para que ninguém se pudesse “envergonhar” da capital é ridícula, assim como é ridículo o orgulho demonstrado no agrupamento de pessoas pobres como gado nas partes mais desinteressantes da cidade, enquanto “belas vivendas” são construídas junto à água. Bem, talvez devêssemos apreciar esses comentários, são ingénuos e, por isso, muito menos hipócritas do que os que ouvimos estes dias.

Uma coisa muito mais triste é pensar que o documentário está totalmente centrado na capital subdesenvolvida de um país então terrivelmente subdesenvolvido e que os trabalhos que vemos para modernizar a cidade foram insuficientes para fazer a cidade ter as condições de outras cidades europeias e, pior que isso, foram os únicos feitos aquela escala em todo o país. Temos, por isso, aquele princípio fascista odioso de fazer um único empreendimento representar todo um país, que morria lentamente entretanto.

Mas a coisa realmente triste é esta: estes tipos, há 60 anos atrás, tinham o mesmo discurso que os inconsequentes que hoje vão governando o país. Eles tinham o discurso de “tu isto estava mal antes, agora estamos a limpar o país”. Basicamente, desviam a responsabilidade da sua inabilidade e falta de ambição para os erros que “alguém” cometeu no passado. Assim, se eles actualizaram o que não foi feito antes deles, e nos últimos 35 anos nós temos actualizado o que esses tipos deixaram, quem irá actualizar as coisas que nós Não estamos a fazer agora? Vêm o triste disto? Quando é que começaremos a fazer coisas boas, em vez de apenas “compensarmos” o que outros fizeram? Que ciclo vicioso.

A minha opinião: 4/5

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Die Gebrüder Skladanowsky (1995)

“Die Gebrüder Skladanowsky” (1995)

skladanowsky

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movimento abstracto

Wenders diverte-se, e enquanto o faz reflecte sobre alguns princípios gerais do cinema como arte. Por várias vezes ele fez filmes interessantes que são em si mesmos objectos cinematográficos e reflexões sobre a natureza do objecto cinematográfico. A sua preocupação primária está nas imagens. Sempre que ele aprofunda a complexidade das suas narrativas, ele quer realçar as imagens. Esses são os casos do recente Palermo Shooting e do notável Amigo Americano: imagens que ilustram uma história sobre imagens. Quando ele não constrói essa narrativa inteligente e directamente sensível ao meio, ficamos com meditações puramente baseadas em imagens. Por vezes elas funcionam, outras arrastam-se.

Aqui funciona parcialmente porque o projecto, intencionalmente, não tem uma forma maior para lá da entrevista que a velha Skladanowsky dá. Todos os pedaços a preto e branco são construídos como episódios e dentro deles encontramos outros episódios (os filmes originais dos Skladanowsky). Aparentemente tudo começou como um projecto académico, e isso explicaria a falta de uma forma maior, assim como o falhanço de alguns troços pequenos. Isso não explica, contudo, o final quase insuportável.

Mas há algo que me interessa aqui. Wenders pega em algo que ficou esquecido quase no início do cinema: Imagens como movimentos abstractos, abstraídos de uma narrativa. Isso é algo que eu penso que merece algum tempo de exploração, e obviamente também Wenders o pensa. Assim, entre os velhos pedaços dos filmes pioneiros, interessou-me o troço da dança. Curiosamente, esse é o pedaço que recebe mais atenção mesmo na história infantil dos flashbacks em preto e branco. É o filme que teve de ser refeito. A roupa da bailarina ajuda ao efeito. É notável, como funciona no olho. Tenho gasto tempo a ver experiências como esta. Para além disso, há pouco mais que ver aqui. E achei totalmente mal utilizado o contraste entre o material a preto e branco e os pedaços a cor da entrevista, que tem um aspecto desconfortável de vídeo que me afastou. O p&b já tinha um aspecto granulado e velho, não era preciso promover um contraste tão acentuado para que se percebesse a ideia.

A minha opinião: 3/5

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Contrato (2009)

“Contrato” (2009)

CARTAZ FILME CONTRATO (final)

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a Ética e a Estética

É difícil sentir-me mais triste com um filme do que aquilo que me sinto com este. Queria tanto que este fosse pelo menos tolerável, mas queria ainda mais que conseguisse agarrar a dimensão da literatura que o suporta. Este filme é terrivelmente cego e não o esquecerei, pelas piores razões.

Dinis Machado era um homem notável. Um homem que viveu e, incidentalmente, escreveu. Era inteligente e a sua escrita, para além do Molero, preenche sempre os espaços que é suposto preencher. Ele sabia que as histórias de detectives e os filmes noir têm tudo que ver com a forma como construímos a história, e não com a história em si. Não é suposto preocuparmo-nos (e não o fazemos) com os personagens de um filme noir para além do papel que eles têm na narrativa. São seres abstractos, ali para cumprir um objectivo, fora da sua existência como personagens. Que feliz fico quando leio Machado, que bem e irónico ele era quando compreendia que era indiferente assinar McShade ou Pato Donald. Que bem ele distinguia entre os ossos e a carne.

Agora, se outra pessoa qualquer estivesse envolvida neste projecto terrível, eu não me importaria muito. Estou habituado à inabilidade comum em transportar a profundidade de certos escritores para cinema, na verdade acho notável quando isso é bem feito. Mas envergonha-me profundamente ver o notável Nicolau Breyner falhar totalmente nesta tarefa. Ele é um homem que compreende a actuação em cinema como apenas um grupo muito restrito de pessoas em Portugal compreendem. Claramente ele não compreende a realização, não controla o arco narrativo maior, e a prova disso é que os muito poucos momentos toleráveis nesta confusão estão centrados em pequenos pedaços de boas actuações (lideradas pela sua própria). Ele constrói um lugar para o seu personagem aparecer como a mente rejeitada, um homem que teve de viver da estética para secretamente gozar a sua própria ética. Que perto isto está da vida de vários bons actores portugueses. Nem tudo é mau, e fiquei contente que Cláudia Vieira acabasse por aparecer simpática, sem ser uma actriz. Talvez ficasse bem num bom projecto.

O filme é baseado numa história baseada em D.Quixote. Este livro é um monumento, Dinis Machado compreendia-o, assim como muitas gerações de escritores que enraizaram a sua escrita naquilo que Cervantes materializou. Borges certamente o fez, assim como Cortázar – apesar de Machado ser sempre muito mais associado ao primeiro, eu penso que ele é bem mais parecido com o segundo. De qualquer forma, as ideias de Borges de escrever sobre escrita (levada a proporções infinitas), histórias sobre contar histórias, são as águas em que Machado mergulhava. É aí que deviam encaixar as memórias deste hitman, é essa a importância simbólica da antiguidade neste filme. Não tem a ver com a história, tem a ver com as histórias com que tem a ver. Pensem nisso. Não é apenas a estética da história que se questiona. Fundamentalmente, isto tem a ver com a ética e os significados de contar histórias. Georgios Thanatos fala disso, é um dos pouquíssimos pedaços de diálogo que até contempla algo que interessa, neste guisado de reminiscências de guerra doentias, sobreexposição de corpos e mortes inúteis. Como pôde Nicolau Breyner não ver isto?

Um espectador português médio vai desprezar este comentário como inútil, pseudo-intelectual e vai suportar essa posição baseado no facto de que estou a avaliar uma peça de entretenimento como se fosse uma peça de cinema “sério”. Antes que votem “não” no IMDb, tenho a dizer que creio que não há entretenimento real sem pensamento sério por trás. Agora votem não.

Incidentalmente, em Outubro passado estava fora do país e não soube que Dinis Machado morreu nesse mês. Só o descobri ao ler sobre este filme. Dupla tristeza. Ele estava entre nós, agora não está. Este é um dia triste na minha vida de filmes.

A minha opinião: 1/5

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Zigeunerdans af troubaduren (1906)

“Zigeunerdans af troubaduren” (1906)

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dispensável

Este é outro filme muito velho, de Peter Elfet, que captura pedaços de dança de bailarinos clássicos profissionais, através do então novo meio de “imagens em movimento”.

A principal coisa que havia que lidar aqui, nesta fase, era a reconversão das coreografias para serem representadas para a câmara. Isso significa que eles tinham de actuar num espaço reduzido, comparado com o palco de um teatro, e actuar para um ponto específico, em vez de toda uma sala.

Este exemplo específico não funciona, os cenários concebidos não são minimamente cinematográficos, já que reduzem o espaço (apesar das árvores pintadas tentarem aumentá-lo) e trazem um ruído à composição que reduz a importância da bailarina e dos seus movimentos, que seriam certamente a única razão de ser do filme.

Vejam “Tarantellen af ‘Napoli'” para algo melhor do mesmo criador, ou vejam as experiências de Paul Nadar com os mesmo temas se quiserem ficar impressionados com estas experiências pioneiras. Para mim, este é dispensável.

A minha opinião: 1/5

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Tarantellen af ‘Napoli’ (1903)

“Tarantellen af ‘Napoli'”  (1903)

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a outra opção

Ver estas velhas tentativas, o início do movimento por imagens, é sempre um privilégio. Estes filmes frágeis tiveram de viver 100 anos para chegar até mim por isso, independentemente do que contenham, devem ser mantidos como documentos vivos de tempos não tão filmados.

No entanto há questões fundamentais que devemos colocar ao ver estes filmes. Tínhamos aqui uma arte nos seus inícios, apesar de eu suspeitar que muitos dos pioneiros envolvidos não adivinhassem que estavam a começar mais que uma revolução técnica. Como arte, esta inovação tinha de lidar com a relação entre um criador, intermediado pela sua arte, e um observador. Nesse sentido, quais eram os temas? Hoje em dia, a maioria dos filmes parte da ideia que tem de contar uma história. Muitas das boas coisas feitas hoje lidam com a reinvenção das formas de contar essas histórias. Mas estes filmes primários e rudimentares normalmente lidavam com outra coisa: movimento visual. Literalmente, sem outras desculpas. O que tenho observado é que o cinema é uma arte inicialmente herdada e começada por pessoas que eram já artistas visuais, ou técnicos com preocupações visuais. Poetas, não romancistas. Por isso eles procuraram temas que fossem visualmente adequados à ideia de movimento. Nesse contexto, a dança era um motivo bastante usado.

Esta pequena peça é um filme desse tipo. Vi-o junto com outro do mesmo realizador, um filme de Wenders que explora o trabalho de 3 pioneiros alemães, e uma colecção de filmes do notável Paul Nadar. Todos estes filmes partilham a presença de números de dança como a chave para uma reacção visual. O incrível é que, apesar destes filmes terem bandas sonoras adicionadas, todos funcionam no total silêncio, sem a ajuda da música. Dança, ballet clássico, neste caso, funcionam no olho mais do que o fazem no ouvido. Isso é fantástico.

Neste número específico, não temos uma história para lá do contexto da própria dança, que trata a infatuação de um casal. Em vez disso temos pés, coreografia, que já não é representada para uma sala de audiência, mas para um ponto fixo, e compreendemos como isso afecta a dança. Para mim, esse é o interesse deste filme. Suponho que se é um bailarino ou alguém especialmente interessado em ballet clássico poderá encontrar aqui algum motivo de interesse em perceber o que mudou nesta área no último século. Eu vi-o pelo simples prazer de observar movimento abstracto, como uma pintura viva; este não é o melhor exemplo que vi ultimamente, mas é bastante interessante.

Estranho pensar que os “contadores de histórias” ganharam a batalha pelo estabelecimento das convenções nas mentes dos espectadores. Estranho mas compreensível. As pessoas gostam que lhes contem histórias, e o espectador comum lida mal com as abstracções quando elas os atingem como abstracções e não como abstracções disfarçadas (histórias!)

A minha opinião: 3/5

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Das Blaue Licht (1932)

“Das Blaue Licht” (1932)

blaue licht

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sensual, iluminado, profético

Qual é o cúmulo do espanto por ver como uma história ficcionada pode metaforicamente predizer a vida de alguém? Ainda para mais quando é a própria pessoa que inventa a história do seu destino? Este filme tem de ser a resposta.

Aqui temos um génio da composição e ritmo visuais, na sua primeira tentativa, que adivinha tudo que se seguiria.

O que pensaria esta deusa, em vários sentidos, ao partir para esta aventura? Lenni era uma estudante do corpo humano, estudou o seu próprio corpo. Estudante da harmonia dinâmica helénica, que compreendia o poder que o movimento podia ter aplicado à arte do cinema. Ela compreendeu-o tão bem que pagaria toda a sua vida por isso. Neste filme, ela é simultaneamente o observador e o objecto observado. Ela, o corpo, é um dos motivos de ser deste filme. Simultaneamente temos uma história sobre uma mulher “especial”. É especial porque tem acesso a um
segredo, conhece um caminho. Esse segredo tem uma identidade geográfica, há uma divisão entre o mundando e o sagrado, a cidade e a montanha. O precioso, rodeado de uma aura de inacessibilidade, alcançá-lo, um privilégio da beleza, do comprometimento e, no final, do amor. E Lenni no centro dessa sacralidade, e aí no momento em que ela
se quebra. E condenada a ser rejeitada por guardar tão grande segredo, sempre. Esta é a situação de Junta, como é a situação de Lenni. É essa a profecia, esta história escrita por Riefenstahl, que é uma história dentro do próprio filme, um livro com a sua foto na capa!

Esta mulher mudou mais do que a história do cinema, fez mais do que ampliar as possibilidades da contemplação visual e, por conseguinte, dos conceitos de beleza. No seu trabalho maldito, maldito porque tem qualidade (!) ajudou a mudar a face do mundo, sendo ela mesmo elemento ambíguo sempre. Neste filme a temos, entre o monte (sagrado) e a cidade, a ligação entre os dois mundos. Agora vejam a geografia do local. A montanha, o poder dos planos variados dela, a força que o objecto por si tem. A mulher ao subir a montanha, o poder dos contrastes. Junta sob o efeito da lua cheia transpira sensualidade, que funciona ainda hoje (em que estamos totalmente viciados por imagens que apontam a ser sensuais) porque é genuína, de uma mulher com mais do que parece à primeira vista. De notar como a camisola decotada está descaída no ombro, sinal inequívoco de uma provocação, de um desejo de que o centro seja o corpo, e a relação do homem com a natureza.

Nesta mitologia por metáforas, germânica e nórdica, vejam como os símbolos são materializados, e filmados. A composição nos planos de subida à montanha e sobretudo quando Vigo entra no recinto sagrado dos cristais é genial, o cenário é uma Valhala potencial, e a expressão de Junta quando descobre a invasão é totalmente reveladora.

Este filme obedece ainda demasiado aos códigos do cinema mudo. Eu vi a versão sonora, mas aparentemente existe uma versão também muda, por nessa altura a transição ainda estar a ser feita. Seja como for, o som neste filme aparece de forma desconfortável e o diálogo realmente não faz mais do que substituir directamente os intertítulos do mudo. E a montagem ainda não existe no sentido supremo que Lenni lhe daria, anos mais tarde e isso prejudica o ritmo, porque o trabalho destes mestres da montagem (Eisenstein, Kalatzov, Vertov…) depende totalmente no ritmo que as próprias imagens conseguem atribuir, pela acção dentro do plano, e pelo corte entre planos. Essa dinâmica não existe aqui, e os códigos são hoje desactualizados, e suponho que seriam já ambíguos no momento deste filme. Mas Riefenstahl é corpo, é cara, é expressão. É movimento, é dinâmica, é ritmo. Mas é-o simultaneamente como observadora, sensível e visual, e como intérprete, sensual (sexual!) e intensa. Esse é o génio dela aqui.

A minha opinião: 4/5 vejam este, várias vezes

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Gake no ue no Ponyo (2008)

“Gake no ue no Ponyo” (2008)

ponyo

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esquisso

Qualquer abordagem simplista ao trabalho de Miyazaki cairá na armadilha que atravessa todo o seu trabalho. O que ele faz nunca é o trabalho de uma mente infantil ou de qualquer tipo de imediatismo. Os mundos que ele explora infinitamente são profundos porque ele os pinta de forma sublime, e dá-nos imagens tão detalhadas e significantes como poderíamos esperar.

Aqui as texturas são atenuadas pela vontade que ele tem de nos dar um produto para crianças, no melhor sentido do coneito. Por isso, apesar de os cenários serem algo complexos na sua representação, todos os personagens são altamente simplificados, excepto por um notável, Fujimoto, que tem um tratamento bastante texturado, na roupa, cara, pele, detalhes, o mesmo tipo de tratamento dos filmes visualmente mais complexos de Hayao. Interessante, ele também representa o papel pivot na história, já que media entre a terra e o mar, o mundano e o divino. Ele é o feiticeiro que evoca e liga as coisas, e junta diferentes forças, uma espécie de Miyazaki no ecran. Estes personagens são capazes de, pela sua simples presença, capturar-nos com as suas expressões indefinidas, a ambiguidade expressa, tanto como pelos estranhos contextos e ambientes em que surgem, um pouco como os personagens de Paula Rêgo, que pertencem ao mesmo tipo de criações gráficas.

Neste filme vemos outra vez Miyazaki a meio caminho entre o este e o oeste. O seu óbvio fascínio pelos valores artísticos do Ocidente discute presença com a sua capacidade japonesa para criar imagens aguareladas paradas, mas viscerais. Isto é algo que ele tem feito toda a carreira. Aqui, para além da ligação óbvia da história, uma variação sobre uma história da Disney, até a música se soma à confusão, já que é uma banda sonora de inclinação pos-romântica, tonal mas que escorrega interminavelmente para campos mais indefinidos de cadeias tonais, um pouco como a música tardia de Richard Strauss. A música pode ser exagerada por vezes, mas ajuda a criar momentos visuais poderosos.

De qualquer forma, prefiro quando Miyazaki confia na sua linda imaginação; com as imagens que ele cria a suportar a mitologia que ele inventa, é aí que ele é realmente forte. Para mim, este filme é apenas um esquisso, delicioso, mas não suportado por uma forma maior.

A minha opinião: 3/5

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Mummies: Secrets of the Pharaohs (2007)

“Mummies: Secrets of the Pharaohs” (2007)

mummies

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imax 3D

Esta foi a minha primeira experiência com IMAX, e com 3D. Ando uns anos atrasado, eu sei.

Ter essa experiência foi o único motivo porque fui ver este filme. Fiquei, e ainda estou, abismado com as possibilidades do meio. Não poderia saber o que esperar, apesar de ter pensado várias vezes nisso. O que me fascinou não foi o “real” que a experiência pode ser, mas o “hiper-real” que ela se pode tornar. O cinema vive de realçar sensações comuns até níveis em que nós reagimos. Em cinema, as cores e os contrastes devem ser realçados, tal como as dinâmicas narrativas e dramáticas (como no teatro). O 3D, associado com o mega ecran abre novas possibilidades, é um potencial técnico que inventa toda uma área de lugares negros que os cineastas inteligentes podem explorar. Não é excitante? Desta experiência, recordo 2 aspectos que penso poderem ser de grande interesse.

Um é o poder de uma paisagem, não porque surge alargada, não porque é “real”, mas porque a imagem certa, editada na sequência certa, pode ter um impacto superior. Imaginem as explosões no Zabriskie Point do Antonioni, com todos aqueles pontos de vista, realçadas até ao limite que nos faz explodir a cabeça. Espero que a indústria e o mercado cinematográfico tornem o IMAX suficientemente viável para que seja utilizável para que os nossos “autores” possam pensar especificamente para ele, para explorarem a profundidade do meio, em vez dos efeitos superficiais que imagino foram usados até agora.

O outro aspecto é como este meio poderá revolucionar as relações entre espaço e cinema. Como poderemos reformular a forma como fazemos um filme tornar-se “espacial” através da forma como nos movemos num espaço. O que quero dizer é, mesmo num documentário com imagens mundanas como este eu senti o poder de nos movermos ao redor de um espaço. Claro que aqui temos a exibição da arquitectura egípcia, que vive do mistério, da exploração, e isso é altamente cinematográfico. E o filme por sua vez foi pensado para produzir alguns efeitos associados ao formato. Mas não pude deixar de pensar nas possibilidades. O que fariam os melhores realizadores? Que faria Orson Welles, se tivesse tido a possibilidade de filmar IMAX? Ou Hitchcock, ou de Palma, que ainda está por aqui e a trabalhar, quem sabe…

O documentário em si está nivelado pelo modelo do canal História, com a voz off que debita factos, imagens do que resta da velha civilização, e encenações de antigos acontecimentos. Mundado, excepto pelos efeitos pensados especialmente para funcionarem no formato, que são novos para mim, mas que suponho que se tornarão vulgares assim que repita a experiência suficientes vezes, com outros filmes.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve