Archive for the 'Cinema e espaço/arquitectura' Category

Carnage (2011)

“Carnage” (2011)

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Repulsion, em grupo

Aqui temos um filme bastante alinhado com aquilo que Polansky fez ao longo da sua carreira. Encontramos aqui muitos dos elementos superficiais, e não só, pelos quais adoramos o que ele faz.

A contenção espacial. Polansky é um dos mestres absolutos da exploração de um ambiente, de fazer um filme dentro de um único espaço, multiplicando as possibilidades para o nosso uso desse espaço, e misturando isso com a narrativa, até ao momento em que o Espaço se torna narrativa. Ele tem um sentido perfeito de enquadramento, movimento de câmara, e timing de corte. O problema neste filme é a banalidade desse ambiente, obviamente requerido para ser a casa do que é suposto ser um casal ordinário, mas que simplesmente não é suficientemente interessante para que as qualidades deste mestre atinjam um nível superlativo.

Há o sentido de absurdo no material original que espelha totalmente o próprio sentido de humor retorcido de Roman, aquele tipo de bizarria estranha que encontrávamos em Vampire Killers, ou o Inquilino. *spoilers pequenos* Aqui até temos algo interessante, porque começamos a ver um filme e acabamos a ver outro. A premissa é uma de simples drama, relações pessoais, a aparente discussão sobre a educação, violência entre as crianças, etc. Mas depois isto toma caminhos estranhas, e entramos num mundo de total absurdo, especialmente a partir do momento do vómito de Winslet. É como se Polansky estivesse diluído no whisky que os personagens partilham, e eles se tornassem cada vez mais possuído pelo seu espirito. Viajamos de um filme, com uma realidade relativamente normal, para outro, fabricado sobre o olhar cinematográfico incrível de Roman, que ele desenvolveu há muitos anos, e que agora tem uma abordagem bastante distinta.

Todos os actores colaboram positivamente na viagem. Os 4 são, no mínimo, competentes. Waltz surpreende, ele tem um sentido de timingo nas suas frases notável, e boa postura, sempre. Jodie e Kate são actrizes fantásticas, entre as melhores, gostava que pudéssemos ter mais Jodie em projectos interessantes.

Polansky agora filma de uma forma mais relaxada. É como se ele se tivesse reformado oficialmente, e agora apenas filmasse para ele mesmo, como se estivesse a ter um jantar entre amigos. Espero que possamos ter ainda mais alguns destes passeios relaxados. Este é mais um capítulo bom da sua vida artística.

A minha opinião: 4/5

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How to Train Your Dragon (2010)

“How to Train Your Dragon” (2010)

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movimento – por baixo, por cima, através

Vi este filme há quase um mês. Estou a comentá-lo agora como prefácio para o Tintim de Spielberg/Jackson. Quero ver esse filme, porque acho que o Spielberg é um realizador válido quando se mexe dentro dos seus géneros nativos, o do filme aventura electrizante, sendo aventura um termo lato. Quero ver ver o que ele tem a dizer sobre motion capture, o conceito que tanto está a defender, e que o seu amigo Zemeckis começou a explorar há uns anos.

Ver filmes é, como muitas coisas na vida, uma questão de escolhas pessoais. Escolhemos o que procuramos quando vemos um. A animação está também sujeita a essas escolhas. Eu fiz as minhas. Procuro animações porque uma câmara virtual pode fazer coisas que uma real não pode. Claro que depois vemos o Soy Cuba e esta afirmação torna-se perfeitamente obsoleta. Mas esse filme é um alien.

Como arquitecto, interessa-me o espaço. Espaço construído, integrado ou não, mas sempre construído. Em animação, tudo é espaço construído. Cada montanha e paisagem, o mar e as cavernas. Tudo é escolhido e desenhado para aparecer como o vemos. E é construído para aparecer também num determinado enquadramento, concordando com o movimento dos personagens nesse espaço. Por isso, é a liberdade total. Claro que isto é um filme de muitos milhões de dólares, e tem de apelar a uma certa audiência, por isso penduramos uma história nisto tudo, e esta até está bem montada. Mas eu não venho a estes filmes pelos personagens, embora o dragão negro seja sedutor, assim como alguns outros personagens. Este filme é rico nas suas texturas e desenvolvimento de personagens, dentro das limitações do género. Mas não me apetece falar disso.

Aquilo que é realmente bom aqui, para mim, está nas cenas de movimento. No céu, e na caverna. Utiliza-se um movimento fluído, seguindo o caminho dos dragões ou inventando um caminho virtual para a câmara, que dança com os dragões. Na caverna, o uso da câmara é mais convencional, mas a concepção do espaço é inteligente. A Pixar fez os maiores progressos dos últimos anos, mas este filme tem uma visão muito própria, talvez uma consequência ou até um desenvolvimento de Avatar. Vale a pena ver por isso.

A minha opinião: 3/5

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The Tree of Life (2011)

“The Tree of Life” (2011)

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Rayuela

Como é que vemos um filme assim? Temos de baixar todas as defesas. Temos de não nos permitirmos tentar encontrar um sentido para tudo o que vemos. Temos de receber tudo, e deixá-lo entrar, tão suavemento como o filme entra dinossauros, células, evolução planetária ou uma simples sala de uma família com problemas. Sem julgamentos, sem considerar nada a não ser a pura experiência de estar lá, onde quer que seja que o filme nos leve. Não procurem explicações, porque não houve razão racional para lá da intuição para as imagens serem como são.

Imagina um filme sobre tudo, com uma história remota que fala sobre todos os temas, em todos os tempos possíveis do mundo.

Imagina um filme sem princípio nem fim. Meta-narrativas circulares, onde podemos começar seja em que ponto (qualquer um) e podemos criar a narrativa interna que quisermos. Um céu de imagens (como o poster mosaico do filme) onde podemos fazer as nossas escolhas, e criar a história que quisermos. Ou podemos escolher enquadrar a história mais palpável do filme da forma que quisermos. Cada um é que sabe. O desafio é que temos de testar os limites da nossa própria imaginação para viver o filme na sua extensão total. Nada é predefinido. Vão onde quiserem.

Agora imagina que tudo isto é feito por alguém que passou a sua vida inteira em cinema a tentar contornar a ideia das velhas sobreposições narrativas. O mestre absoluto de narrativas não relacionadas, dos detalhes fora do ecran. O homem que filma mãos e campos de milho quando quer dizer amor. Que filma o universo para construir uma das expressões mais poderosas de intimidade, da solidão da mente, na história do cinema. Contraste.

Não sei se este é o melhor filme de sempre. Provavelmente é a experiência mais forte que recebi em primeira mão, enquanto era novo.

O que é? um filme na cabeça de Sean Penna? Uma história enquadrada no universo? parte dele? metáfora para ele?

Já ouvi bastante acerca do quanto este filme é uma espécie de 2001. Não me parece. Kubrick e Malick são 2 tipos diferentes, 2 abordagens diferentes, objectivos, processos, e resultados diferentes. Kubrick manipula a narrativa com perfeição. Obcessivo. O xadrez a inundar o cinema. Malick é a outra ponta do pau. Intuição visual pura, realçada pela bagagem intelectual de Malick. Simplesmente porque estes 2 realizadores não gostam de aparições públicas, e porque tanto este filme como 2001 têm planetas, isso não os aproxima.

Em 1963, Cortázar publicou um dos livros mais importantes do último século, Rayuela. O título deste comentário tem a ver com o título do livro. Penso que este filme e esse livro têm aspirações semelhantes. Traça o teu caminho, tens os capítulos, mas tens de montar uma ordem para eles.

A forma como isto é feito é com pura maestria em cada ferramenta da concepção fílmica. Cada imagem conta, cada plano foi filmado com competência e paixão, cada frame, cada movimento de câmara – Lubezki já trabalhou com Malick, Iñarritu, Cuarón. Cada colaboração adicionou imenso ao que estava a ser tentado. Ele consegue realmente ler as aspirações do realizador, e entrega nada menos do que mestria. A esta altura ele já entrou em suficientes projectos importantes para ser considerado um dos melhores cinematógrafos de sempre. A edição é de classe mundial. Cada corte, seja nos planos espaciais virtuais ou nas cenas de família, importam para a narrativa, seja ela qual for. O que leva isto para um novo nível é a forma como neste filme Malick supera o seu já incrível uso da música. A edição tem sempre presente de forma igual o peso das paisagens visuais e sonoras. Vejam, absorvam.

Este filme exige incrivelmente muito de nós, espectadores. Exige que sejamos uma pessoa diferente depois de o ver, que possamos mesmo ter de mudar a nossa abordagem genérica ao acto de ver filmes ou, pelo menos, que acomodemos em nós uma nova forma de ver filmes. Num nível básico tem a ver com as intuições de Malick. A outro nível, tem a ver com o que aparece no ecran. Mas em última análise, tem tudo a ver com a forma como tu te colocas no universo proposto.

A minha opinião: 5/5

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Marquis de Sade: Justine (1969)

“Marquis de Sade: Justine” (1969)

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frigidez espacial

Acreditem ou não, escolhi ver este filme depois de ver a Árvore da Vida de Malick. E fi-lo não porque queria algo totalmente diferente, mas porque procurava algum tipo de abordagem semelhante ao cinema. Não confundam. O filme de Malick mudou a minha vida, e este é apenas lixo total e deliberado. Mas aqui como no outro, temos realizadores que filmam o que querem, fora de convenções. Ambos confiam fortemente na intuição, no caso de Malick suportada por uma pesada bagagem de estudo e reflexão, e no caso de Franco apenas pelo puro prazer de filmar, ou melhor, de filmar como atitude de vida.

Os filmes lixo são fantásticos, porque por momentos saímos das convenções habituais. O sexo é um dado adquirido na maioria destes filmes, chamam-lhes exploitation, porque supostamente estamos a “explorar” corpos, e o sexo como voyeurs. Poderia argumentar que não sei em que medida isso difere da maioria do nosso mainstream hoje em dia e desde há algum tempo, mas isso é uma conversa diferente. Em todo o caso, a garantia que temos é que dentro dos constrangimentos da produção, veremos o que um tipo ou um número reduzido de pessoas realmente queriam fazer. Isso é reconfortante.

Aqui temos provavelmente o maior orçamento de sempre de um filme de Franco, e por isso provavelmente aquele em que ele esteve mais constrangido, pelo menos em termos de casting. O resultado não é tão visceral, não tão loucamente alucinante como alguns pedaços de outros filmes conseguem ser, mas tem alguns aspectos que recompensam:

-cinema auto-reflexivo: o personagem de Kinski escreve a história das duas irmãs à medida que avançamos. Por isso temos um realizador que faz um filme sobre um escritor (aprisionado) que inventa 2 narrativas paralelas sobre 2 irmãs sem esperança, que espelham 2 atitudes distintas: uma é maliciosa, a outra aprende a retirar prazer das humilhações. Justine é aquela que seguiremos;

-no seu caminho pela humilhação, intriga, e todos os tipos de cobiça sexual por todos os tipos de pessoas, Justine vai passando por um conjunto de cenários. Alguns são perfeitamente olvidáveis, meras árvores em bosques filmados de forma incompetente. Alguns são apenas ordinários, alguns são lugares bem escolhidos de Barcelona (a praça S.Felipe Neri é o mais sedutor desses), e alguns são Gaudí. Isto é interessante, porque os cinematógrafos, talvez o próprio Franco, tiveram interesse nestes cenários. Em termos gerais, a fotografia neste filme é bastante boa comparando com o que podemos ver neste género. Nos locais Gaudí, há a intenção de filmar espaço (veja-se o uso denunciado das grandes angulares em alguns sítios, até ao ponto de distorcer a forma e o foco dos limites da imagem) e, nas cenas do parque, filmar o percursos arquitectónico ao longo dos arcos. Sexo e espaço, essa é uma ideia engraçada e compensadora. Mas Romina Power não faz ideia do que se pede dela, e tudo acaba por se tornar um passeio no parque, em última análise desinteressante na sua maior promessa.

A minha opinião: 2/5

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Inception (2010)

“Inception” (2010)
Origem

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o despertar da mente, com um salto

Isto é um virar de página, uma declaração importante de um realizador importante de hoje. É também o topo (para já) de quaisquer coisas interessantes que Nolan tenha explorado até agora. Di Caprio está nesta viagem e provavelmente este é o melhor esforço dele para se tornar um actor sério no mundo dos filmes. Ele conquistou-me aqui.

Eu sou um espectador perfeitamente definido. Interessam-me emoções, sentimentos (de amor ou outros), e a sua representação visual. E realmente importam-me muito os dispositivos narrativos e a construção narrativa de um filme. Realmente desprezo os filmes que banalizam as emoções simples e reais. Por isso aprecio mais filmes que concebem uma estrutura narrativa coerente mesmo que não atinjam tanto uma tensão emocional, do que filmes que mostrem o amor, a amizade, a empatia, como pornografia sentimental. Por isso, o topo deste jogo para mim naquilo que diz respeito ao cinema é a sensibilidade e histórias honestas, suportadas por estruturas narrativas inteligentes.

É isso que temos aqui, brilhante e lindo como vi poucas vezes. O próprio conceito abstracto daquilo que está a ser contado mistura-se com o adn do filme. O filme em si constrói o conteúdo que é suposto termos na história. A estrutura do filme É a história. A forma como entramos em todas as sub estruturas mimetiza a forma como os personagens o fazem. É tão simples como isto para explicar, e tão complexo como este filme para compreender.

Há várias noções aqui, que me são caras, e que me emocionaram. Temos camadas Óbvias (sonhos dentro de sonhos) que nos são literalmente e constantemente explicadas por muitos personagens no filme. Mudarmos de camada é literalmente ir mais fundo, num sentido espacial. Cada camada tem autonomia, mas é severamente afectada pela forma como as outras camadas evoluem. Por isso, um espirro numa camada pode equivaler a um terramoto noutra.

A noção mais bonita é a de que temos pessoas no interior de pessoas. Temos pessoas que alteram a alma de outras, tocando-se intimamente, tocando num sentido mais profundo do que alguma vez tivemos em cinema. Nolan quase consegue que o cinema funcione como literatura na forma como atingimos o interior de um personagem para lá daquilo que conseguimos ver. A esse nível, a melhor sequência é provavelmente a visita a Paris. Di Caprio e Page. Como ela manipula as memórias que ele tem de Paris, como ela literalmente manipula o cenário. E a sequência final, a cidade em colapso, uma reinvenção das memórias que di Caprio tem das suas próprias memórias. Uma das melhores coisas aqui é a forma como a emoção surge colada ao espaço. Cada cenário é o próprio retrato de uma memória, de uma sensação. Pela forma como está feito, esta é uma forma original de associar filme com o uso visual do espaço. Vou marcar este filme.

Marion Cotillard como o personagem que, por aquilo que nós podemos ver, é apenas uma memória (inventada ou não) e dificilmente uma pessoa real. A performance dela é incrível, eventualmente a melhor do filme.

Jogamos o jogo das memórias inventadas/partilhadas, que existem sobre a realidade, e vamos descendo até ao nível onde essas memórias podem ser manipuladas e mudadas, criando-se ou inventando-se novas. Essa é a origem. Consegues criar a memória deste filme? Consegues recrear os seus níveis quando sonham com ele? E mais importante, consegues inseri-los nos níveis da tua própria vida tão naturalmente como se eles tivessem sido criados por ti?

A minha opinião: 5/5 experimentem este.

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The Ghost Writer (2010)

“The Ghost Writer” (2010)

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pequenos espaços

Este filme é uma visão tão clara do seu criador, e tão reconhecível na sua forma, e família de histórias, que se torna automaticamente uma pérola.

Polansky sempre foi um realizador de pequenos espaços, de uma certa claustrofobia induzida, ainda que sempre controlada pelo realizador, que leva sempre o nosso fôlego nas suas mãos. contrastes. espaços abertos vs quartos apertados. claustrofobia nos dois tipos de espaços. A praia que vemos da janela da casa oposta à prisão disfarçada em que o personagem de Ewan trabalha (numa ilha!). Isto sempre foi um terreno fértil para este realizador. Por isso é que o primeiro filme dele foi filmado num barco, onde as limitações espaciais deste contrastavam com a vastidão do mar. Considerando esses filmes em que ele exibe este tipo de oposição, este aqui junta-se a Bitter Moon, Death and the Maiden, ou a Faca na água. É dessa família. Já agora, a casa neste filme é interessante como arquitectura, pela forma como enquadra a paisagem (uma vez mais oposição aberto/fechado) e, como costume com Polansky, isso é bastante bem usado.

Mas realmente, o poder dos filmes dele vem do seu ponto de vista. Se este termo não tivesse outros significados dentro do vocabulário técnico do cinema, eu diria que a câmara dele é sempre subjectiva. Cada plano em qualquer dos seus filmes parece nascer de um ponto de vista específico, de alguém que nem está no filme, nem entre nós, nem no meio. Vem de fora, e de cima, uma espécie de deus que observa tanto o mundo do filme como para nós, espectadores. Num filme de Polanski, o espectador está tão inseguro e desprotegido como qualquer outro personagem. Isso torna qualquer coisa que ele faça um filme noir natural. Mesmo quando a história não se dirige directamente às características do noir, o filme torna-se visualmente noir, no olho de Polanski.

Neste caso, a história ajuda. É uma narrativa interessante que fala de um peão, um manipulador enorme, e o “detective” que luta para descobrir tudo. *spoilers* Casualmente (ou não), a escolha de actores é bastante adequada aqui, já que Mcgreggor é um dos actores mais inteligentes de hoje, e por isso compreendeu a sua colocação na narrativa (tal como sempre faz), e Brosnan é tão convencido que é manipulado pelo realizador tanto como o seu personagem é manipulado no filme. Por isso o que temos é um Mcguffin, que lida com um tema de corrupção política, que nos leva à ambiguidade, que partilhamos com Ewan (noir) e que nos faz não confiar em ninguém. No final é-nos dado uma reviravolta previsível, mas tudo tem a ver com a forma como somos manipulados antes. A solução dos “inícios” é um truque bastante espalhafatoso, mas ainda assim é um final competente e, afinal, não há muitas formas novas de acabar uma história destas pois não? E Olivia Williams é uma mulher interessante no ecran, e por isso credibiliza o truque. Esperemos que Polanski, dentro ou fora da sua prisão (como a casa neste filme) ainda possa dar-nos mais algumas pérolas.

Este é o primeiro que vi lançado em 2010. Que grande forma de começar uma década de filmes!

A minha opinião: 4/5

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Wonderful Days (2003)

“Wonderful Days” (2003)

Fantasporto 2010

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tentáculos

Quem é leitor regular dos meus comentários sabe que tenho um interesse especial pelo tema da utilização do espaço em cinema. Normalmente, na maioria das vezes, estou a falar de espaços físicos construídos, arquitectura. Planeio desenvolver o tema, e num futuro próximo conseguir algum tipo de apoio para aprofundar a pesquisa e eventualmente chegar a algum lado. Até lá, colecciono exemplos de filmes que se dirigem com clareza ao tema.

O que se passa é que tenho notado que ao contrário de outras qualidades que podemos encontrar num filme, esta adequação espaço/imagem é algo que simplesmente não vai acontecer a não ser que os realizadores tenham consciência disso. Por outras palavras, para os edifícios se tornarem personagens ou entidades espaciais, tem de haver muito pensamento e premeditação envolvidos. Ser arquitecto pode ajudar, certamente ajudou Meirelles em Blindness.

Aqui temos um exemplo relativamente interessante do tema. A história é absolutamente desinteressante, aborrecida e dispensável, excepto pelo facto que permite a ligação arquitectónica: tudo gira em torno de um edifício, o ECOBAN, onde os maus têm a sua fortaleza, de onde controlam o mundo ao redor do filme. a sequência durante os créditos iniciais é poderosa na forma como sintetiza este conceito: o herói guia a sua chopper pela estrada, e entra no edifício. É interessante compreender esse edifício: tem uma planta central, e nós até vemos uma maqueta virtual dele no filme!, quando os maus discutem a segurança do ECOBAN. desde esse núcleo central (com um interior que copia o museu de Nova Iorque de Wright) temos vários acessos enormes, vários longuíssimos corredores que ligam o núcleo ao exterior. Esses corredores são em si grandes estruturas que misturam arcos góticos sucessivos com estruturas de inspiração mais biónica, uma dentro da outra. É por um destes corredores que vemos o herói entrar, na sequência inicial. Por isso essa primeira sequência essencial acaba com ele a chegar ao interior do edifício. É a sequência mais espacial de todo o filme, e faz a experiência valer a pena, apesar do resto dos planos serem normalmente descompensados (com algumas poucas excepções). É inútil dizer que a solução final para libertar o mundo da tirania está no centro do edifício.

Por isso, temos uma história agregada a um edifício, tornando esse edifício um personagem em si mesmo. esse edifício funciona na sua concepção como metáfora (símbolo) do que representa na história. Por isso é narrativa agregada à arquitectura. Isso é interessante. Tudo o resto no filme é pálido comparado com este conceito. Mais do que isso, a história é estranhamente ineficiente. Não sei como podemos ter a inteligência de fazer a arquitectura um personagem, suportando uma narrativa tão pouco clara. É como se houvesse pessoas diferentes e incomunicadas a trabalhar em diferentes aspectos do projecto.

A produção, e aspecto visual, são bastante bons, aliás como quase tudo o que sai da Coreia do Sul.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve