Arquivo de Fevereiro, 2008

Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980)

“Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón” (1980)

IMDb

no princípio…

Suspeitava que iria ver algo assim antes de o ver. Estava interessado em compreender as raízes de Almodóvar como realizador, como ele começou a desenvolver o seu tipo de narração visual, que é tão único hoje. Ao mesmo tempo, queria compreender e sentir a pulsação do espírito underground de Madrid naqueles dias. Estas questões são pessoais para mim. Quero compreender como se pode utilizar uma força jovem (e inexperiente) disponível e talentosa e dar uma expressão fiel de um certo momento no espaço e no tempo. Também queria (e ainda quero) chegar aos “primeiros trabalhos” de realizadores que admiro, para assim compreender como eles usaram as suas limitações técnicas e orçamentais para perseguir as suas ideias. Este não é o primeiro filme de Almodóvar, mas é o mais antigo a que podemos ter acesso no mercado legal (e suponho que também no ilegal…).

Creio que o filme falha. Não por ser tecnicamente e formalmente (muito) imperfeito. Na verdade até gostei de ver todas as falhas a passar em frente dos meus olhos, creio que por vezes um projecto pode funcionar melhor se o amadorismo/inexperiência por trás se mostrar. Este é o caso. De qualquer forma, para mim o filme falha porque aqui Almodóvar ainda não é capaz de transformar as suas vulgares histórias de novelas em algo inteligente de um ponto de vista da narrativa visual. A história aqui não é mais ou menos pobre que em muitos dos sucessos de Almodóvar. Mas aqui ele não conseguiu encontrar um dispositivo suficientemente inteligente para transformar tudo numa experiência puramente visual, como ele faz nos seus melhores trabalhos. Assim, tentei ver a parte positiva disto. Este filme prova-me o quão inteligente Almodóvar é, pelos caminhos que percorreu depois desta aventura, inteligente no que toca ao desenvolvimento narrativo, e a narrativa visual e como ele sempre procura novas formas de codificar a sua história e fazê-la chegar como um produto visual.

Na verdade, há pistas aqui. Entre determinadas cenas, as raparigas sugerem a produção de um filme sobre as suas próprias vidas. Esse filme teria precisamente os eventos que vemos no ecrán. Decidi tentar entender (penso que isto é uma questão da interpretação de cada um) que eu estava a ver o próprio filme que elas estava a discutir, como se a história fosse na verdade coisas do mundo real que aconteceram, e eu estivesse a ver mulheres a representar essas vidas. Mas há um aspecto importante (interessante), o personagem de Carmen Maura avisa que para essas raparigas interpretarem as suas próprias vidas, elas têm de representar. Têm de actuar, para serem elas mesmas. Inteligente. Almodóvar seguiria colocando mulheres que actuam, muitas vezes actuam como elas mesmas, outras como actrizes (“Todo sobre mi madre” tinha tudo que ver com isto). Este possível filme dentro do filme, e a denúncia de que talvez estejamos a ver um filme com personagens que se representam a si mesmos foi para mim uma pista para narrativa por camadas sobrepostas, e invenção narrativa. Para mim, a carreira de Almodóvar tem tudo que ver com isto.

A “movida” está aqui. Neste momento em que estou com vontade e tentando criar algo no mundo visual das imagens (chamem-lhe cinema se quiserem), interessa-me muito compreender como neste momento da cultura espanhola, tantos talentos foram capazes de se revelar, e produzir trabalho importante. Vou provurar outras provas visuais e documentos importantes deste tempo, tentarei compreender como este e outros filmes foram possíveis. Este é um mau filme que eu invejo. Gostava de poder reunir uma equipa assim um dia.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

Byt (1968)

“Byt” (1968)

IMDb

Cinema codificado

Este foi o meu primeiro contacto com Svankmajer. E que impressão forte tive! Ele está ‘rotulado’ com o movimento surrealista, e é frequentemente colado aos outros nomes do surrealismo em cinema. Por este filme sozinho, não verifico nada que possa ser chamado surrealismo, excepto por algumas escolhas estéticas, e alguma física do mundo do filme. Isto porque o surrealismo sempre teve que ver com a procura de transmitir através da arte estados de (in)consciência que estão para além da auto-consciência. Exemplo maior, os sonhos. Coisas que não podemos controlar, que não são materiais, não podemos tocar, que acontecem em tempo indeterminado (em forma e duração). Nada disso está aqui. Isto tem, claro, um discurso político velado nas entrelinhas. Temos um personagem a quem é dito onde deve ir, ele segue setas que levam a onde quer que alguém queira. É-lhe dado tudo, mas ele não consegue provar nada. Levam-no a portas, mas lhe permitem que as abra. Dão-lhe comida, mas é um cão que a come. Todo o filme passa totalmente dentro de um apartamento. Claro que isto é (ou poderá ser) a metáfora directa da União Soviética, a cortina de ferro, todos esses elementos que motivaram muitos cineastas e artistas a criar arte que pudesse expressar o desespero e a insatisfação sem alertar os censores. Isso não é surrealismo. É, no entanto, uma experiência fantástica. Não sei muito sobre animação checa, ou cinema checo, mas estou disposto a explorar. Vi uma curta, há pouco tempo, ‘Prílepek’, foi uma boa experiência feita por alguém que aprendeu com certeza muito desta referência checa que é Svankmajer. Assim, pressenti um trabalho em continuidade que me interessa explorar, por isso vou procurar mais destes trabalhos.

O que temos aqui (e esse aspecto é o mais próximo que conseguimos estar de surrealismo neste filme) é um mundo que define as suas próprias regras. Falo de regras físicas. É um mundo onde o comportamento dos materiais e objectos não é o mesmo que o do nosso mundo real. É possível um homem fazer um braço atravessar uma parede, ou uma cama desintegrar-se completamente como se estivesse a ser comida. É isso que nos leva para outra dimensão, isso e a edição e ritmo frenéticos. O stop-motion é notável, e o nível técnico muito muito elevado aqui.

A minha opinião: 4/5 não percam este.

Este comentário no IMDb

Ace in the Hole (1951)

“Ace in the Hole” (1951)

IMDb

Abutres

“i don’t make things happen, i just write about them”

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este é o filme que Wilder realizou depois de Sunset Boulevard. Este é um facto importante. Ele estava nesse momento, sinto, imerso em vários assuntos, alguns que dizem respeito à sua postura perante a vida e a indústria do cinema na América, e outros temas dizendo respeito a sua exploração pessoal do noir e das suas possibilidades narrativas. A minha opinião é que Wilder levou a concepção original do noir aos seus limites com Sunset Boulevard. Assim, num certo sentido, ele esgotou o noir na sua primeira fase com esse filme. Este foi uma espécie de bónus, um último fôlego dessa concepção primitiva do género.

O cerne narrativo aqui está na escrita, tal como em Sunset… . Temos várias entidades que são responsáveis por “escrever” visualmente o que vemos, e que lutam ao longo da história para estar em controlo dos factos:

. os ‘sete abutres’, as crenças dos nativos. eles são responsáveis, pelo menos suspeitamos, pelo aprisionamento de um homem, que motivará todo o ‘circo’ (ou foi pura coincidência? destino?)

. o personagem de Kirk Douglas, ele mesmo responsável pelo relato de todo o evento, durante uma boa parte do filme. Ele é como um deus quando escreve (e inventa) tudo o que vemos (ou melhor, a audiência externa no próprio filme). Isto é interessante porque não temos Douglas como um detective noir, alguém que é tão cego acerca do que está por trás dele como nós os espectadores, como normalmente temos nas construções noir. Assumimos que ele manipula tudo, apesar de suspeitarmos que ele vai perder controlo.

. a plateia. O circo que Douglas chamou para sua auto promoção vai tomar controlo, como um monstro de várias cabeças (ou pior, de nenhuma cabeça); Douglas permite que isto aconteça, já que ele perde controlo (emocional) com o desenvolvimento da história;

Estes 3 elementos sozinhos fazem a nossa construção. Isto torna-se noir quando Douglas se torna vítima e não deus, e temos de questionar quem está em verdade a controlar tudo o que acontece. Terá sido na verdade uma ‘maldição’ dos Índios?, foi algo que poderemos chamar destino?, (Douglas corria de cidade em cidade terminando naquela cidade com uma tumba índia!). Este filme não é bom ou influente como a obra-prima que Wilder realizou no ano anterior, mas é um bom filme. O facto de que o detective aqui se torna escritor e tenta controlar tudo dá a pista de que aqueles por trás deste projecto tentavam aqui quebrar as convenções noir e levá-lo para outro nível. Isso não aconteceu aqui, este não é um filme importante, foi mesmo um falhanço comercial. Mas foi uma boa tentativa.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb

Tekon kinkurîto (2006)

“Tekon kinkurîto” (2006)

IMDb

Vi dois filmes aqui. Um interessou-me, o outro aborreceu-me.

a cidade:

Há sempre ideias visuais fortes por trás das boas animações japonesas. Na minha interpretação, este filme tem duas fontes principais: uma é a própria noção de imagen na arte e cultura japonesa. A arte japonesa produz agora e desde há muitos séculos imagens que são tão complexas como agradáveis, têm ideias abstractas na sua concepção, mas são viscerais na forma como tocam o espectador. Assim, a arte no Japão (quando realmente boa, e realmente japonesa) tem esta componente dupla, de ser altamente intelectual e altamente ligada ao público que atinge, independentemente de onde esse público é. Por isso é que tem sido relativamente fácil o processo de universalização da cultura japonesa (pelo menos a ‘imagem’ da cultura japonesa). O que me fascina é como criadores japoneses tão diferentes e de diferentes áreas e formas de expressão tendem a ser tão coerente entre eles, mesmo que não directamente relacionados. A outra fonte que encontrei aqui vem de uma certa forma de expressão que, em tempos, o cinema explorou. falo do expressionismo, e ainfluência directa que os filmes alemães dos anos 20 tiveram em tantas criações posteriores. Este filme é basicamente um produto destas duas (principais) influências. Temos uma cidade, que é magnífica, colorida mas escura (e, tal como os dois personagens principais, ‘preta’ e ‘branca’). Esta cidade merece ser explorada. É poderosa, e visual. É visual numa perspectiva falsamente bidimensional. Isso porque as imagens são mais baseadas em textura, cor, e enquadramento, do que em distâncias tridimensionais, ponto de vista ou perspectiva. Assim, tem mais de Metropolis que de Blade Runner. Mas é falso por os japoneses são muito bons a reduzir os meios sem perder conteúdo. É como dizer, a profundidade está toda lá, apesar de a imagem ser aparentemente plana. Assim, esta cidade merece uma visita e é, sem dúvida, o ponto mais forte neste filme.

linha narrativa:

aqui fiquei, por outro lado, bastante desiludido. Aborreceu-me seguir as linhas narrativas aqui. Black e White, o filme gira em torno da ligação entre eles, e temos outras linhas ao redor para seguir. O velho gangster com uma moralidade, o seu quase filho que é forçado a matá-lo, e as forças superiores (aqueles que vivem na esfera sobre tudo e todos). O conceito é bastante simples, uma espécie de ying-yang (como na verdade é mostrado na camisola de Black), tentando compreender como os opostos se atraem (e se afastam) e como a ligação entre esses opostos cria uma relação ‘perfeita’. Mas há muito ‘ruído’ aqui. O tipo de ‘ruído silencioso’, cidade escura e colorida que tínhamos, está totalmente ausente dos truques narrativos e da história. Há apenas um ponto de interesse, porque é visual e funcionou com as possibilidades do meio. As visões de White, que ele desenha, tornam-se muitas vezes animações, com uma expressão totalmente diferente do resto, permitindo-nos tomá-lo por algo realmente desenhado à mão. Esses foram momentos poderosos. Mas o resto não foi interessante ou agradável suficiente para seguir e nos minutos finais tudo desmorona, precisamente quando a cidade sai fora da nossa visão e toda a expressão gráfica muda para algo que não encaixa aqui.

A minha opinião: 3/5, vejam-no pela cidade…

Este comentário no IMDb

Get Carter (2000)

“Get Carter” (2000)

IMDb

não é acção

Eu gostei deste filme. Tem uma construção visual interessante que tem que ver, creio, com uma coerência fotográfica e especialmente edição. É narrativa visual no sentido em que o enredo, apesar de fino e relativamente desinteressante é totalmente contado de uma forma visual. Sem dispositivos como os diálogos em excesso normalmente utilizados para substituir a falta de ideias visuais. Como algo positivo aqui, realço a coerência artística global, com quadros construídos quase como um mosaico.

No entanto este é um projecto detestado. Porquê? Tenho uma teoria. O grande público gosta de Stallone porque ele representa 9 em cada 10 vezes o herói americano típico, tal como os seus colegas Seagall, Van Damme, Schwarzenegger (estes dois são importações americanas). Mais recentemente, este papel tem vindo a ser representado por Vin Diesel. Assim Stallone ganhou a sua reputação entre os fãs de heróis difundidos como Rambo ou Balboa. Esses personagens não existem muito aqui. Ainda é um filme típico de “matar toda a gente” e ter a vingança, mas muito suavizado pela forma como a coisa foi montada visualmente. Assim o problema (para o sucesso do filme) foi, na minha opinião: colocando Stallone, o filme imediatamente chamava fãs desses tipos de produções comerciais, destinadas a atingir as audiências com contos de heroísmo, vingança, acção física e moral à moda antiga (o ego americano chama-lhes “valores americanos”). Aqui não temos nada disso. Ao invês, temos uma construção relativamente inteligente, sensível e cinematográfica. Mas as audiências dispostas a esse tipo de experiências provavelmente não sentiram apelo para ver este filme. Creio que foi essa a questão.

Assim, vale a pena ver o filme uma vez, é interessante na forma como faz a edição em coerência com o enredo, tudo feito de uma forma altamente visual. De facto, acabamos por descobrir a “verdade” dos factos no enredo através de um filme dentro do filme (literalmente um filme). Vemos esse filme, junto com Stallone logo, uma vez mais, através de um esquema que utiliza a imagem como meio transmissor de informação.

A minha opinião: 3/5 uma experiência cinematográfica minimamente interessante.
Este comentário no IMDb

Macao (1952)

“Macao” (1952)

IMDb

Cinzento, não “noir”

Desta vez a minha intuição falhou. Normalmente prevejo algumas coisas sobre os filmes que estou prestes a ver baseadas em puro preconceito, algumas coisas que retiro de outros filmes dos mesmos produtores/actores/realizadores que estou prestes a ver, o título do filme (normalmente sugere-me muito simplesmente saber o título) ou pura intuição. Este foi o caso.

O que temos aqui é um noir feito no início de uma década de aspectos interessantes no cinema americano: não foi uma década experimental como os anos 30 (que exploraram as possibilidades de um meio renovado pela possibilidades de sincronização entre som e imagem) nem tão apoiado num género e num sentido de estilo com os anos 40. Assim, num certo sentido, esta era uma década de indefinição. Mas filmes como este dizem-me que já não se vivia o período do noir tal como os anos 40 (e em grande medida John Huston) o definiram. The Maltese Falcon mudou (ou eventualmente resumiu) algumas convenções e introduziu novas possibilidades para dispositivos narrativos em cinema, e esse legado seria desenvolvido continuamente e ainda tem novos passos a serem dados nos dias que correm. Mas esse estilo, os muito apreciados chapéus, detectives, luz/sombra que eram a face mais visível (e para muitos espectadores incorrectamente tidos como a essência do noir) não funcionam já aqui. Ainda estou a tentar encontrar um filme noir posterior a Sunset Boulevard que realmente funcione. Este não funciona.

Comecemos com Macau. Seria, em teoria, uma boa cidade para colocar uma história deste tipo. Mesmo que a realidade descrita na introdução do filme seja provavelmente um exagero enorme (e invenção) em relação ao que realmente acontecia em Macau naqueles dias, esse é um exagero que estou disposto a aceitar, por uma certa riqueza ficcional do filme. Uma queixa paralela é o retrato do polícia português. O tipo ccorrupto, gordo e de bigode é um preconceito que suponho muitos europeus tinham (alguns ainda o terão eventualmente hoje) em relação aos portugueses. Não sei que concepções os americanos teriam sobre isto, mas estas estilizações chateiam hoje quando as vemos, mas provavelmente daqui a 20 anos os preconceitos que se colocam hoje nos filmes que se fazem hoje serão também notadas. De qualquer forma, encontram-se em muitos, muitos filmes americanos com mais de 30 anos várias situações como esta (estou-me a lembrar, por exemplo, do japonês de Breakfast at Tiffany’s). De qualquer forma, Macao começa como uma promessa na voz off, mas termina como um estúdio de cinema aborrecido, ligeiramente oriental ligeiramente genérico, sem grande interesse para além do que é descrito em off.

Para lá disto temos a figura controladora e carismática (rica) que é H.Hughes. Ele provavelmente seria muito controlador em relação às suas produções (ele próprio tinha já entrado no delicado trabalho de dirigir). Ele coloca dois dos seus fétiches aqui: Mitchum e Russell. Assim, temos Hughes que quer criar um clássico do filme noir. Para fazer isso ele chama um realizador competente (mais do que competente) que tinha sido, precisamente, capaz de trabalho muito bom em colocar histórias em cenários estranhos e exóticos; Hughes, sabendo isso, procura um típico cenário noir, não fresco, pouco interessante (ou pelo menos explorado de forma pouco interessante). O enredo não está sequer perto do material interessante da década anterior. Há alguma dúvida algures no enredo? O que é que não sabemos? Não sabemos quem controla toda a história? Há alguma ambiguidade em relação a algum personagem? Grahame seria a mulher nesta história eventualmente mais capaz de trazer alguma ambiguidade em relação ao “deus” desta narrativa, o marionetista que controla as acções nas costas dos espectadores, mas é completamente desaproveitada. A cena com Mitchum e Russell no barco demasiado próxima do início destrói qualquer ambiguidade ou jogo que pudesse ocorrer entre ambos. Mitchum anda simplesmente a passear num fato branco, representando a sua “americanidade”. Russell talvez fosse sedutora e misteriosa aos olhos de Hughes, mas aqui era uma mulher normal, de longe ultrapassada por Grahame, que aparece em muito menos cenas. Jane Russell teve melhores momentos noutros filmes.

Este filme é nostálgico, tinha interesse em vê-lo, mas não correspondeu às expectativas.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

Tout va bien (1972)

“Tout va bien” (1972)

IMDb

esquisso estrutural

Godard faz-me sempre pensar. Raras vezes sou indiferente ao que ele faz, com algumas excepções. Mas muitas vezes, a excitação em relação a um filme dele vem nos dias depois de o ver. Este é um desses casos.

O esquema aqui é simples, ele está a trabalhar a (re)invenção estrutural dos seus próprios filmes. Provavelmente nesta altura ele seria suficientemente arrogante para acreditar que estava a trabalhar na reinvenção de todo o cinema (lembram-se do “jean luc cinema godard” de Bande a part?). Bem, há conclusões aqui que viriam a afectaro trabalho de outros autores, mas nem sempre. Creio que este filme é importante como um marco na própria obra de Godard, no quadro maior dos seus trabalhos e também é importante ver no contexto histórico do cinema de então. Muitas coisas aconteciam no princípio dos anos 70, e a principal questão seria clarificar o significado do cinema e as suas ligações à vida real, a questão essencial que a nouvelle vague tinha levantado mas nunca respondido satisfatoriamente. Assim, há um conjunto de trabalhos deste período que creio deverão ser analisados porque demonstram diferentes abordagens de diferentes contextos a uma questão similar. Pensem em “F for Fake” de Welles, “The conversation” de Coppola, “La nuit américaine” de Truffaut ou, uns anos antes, no Blow Up de Antonioni. Em comum entre estes projectos (e alguns outros) há, a meu ver, esta preocupação cinematográfica de compreender se o cinema representa vida, encena vida, ou é pura ficção que poderá influenciar a vida. Este filme é provavelmente a resposta menos interessante dos projectos que mencionei, mas mesmo assim vale a pena verificar.
A razão porque creio que este é menos recompensador do que os filmes que referi acima é porque Godard, nesta altura, tendia a arruinar parcialmente os seus filmes aborrecendo o espectador com as suas concepções infantis e cruas de ideologias políticas. Assim, ele não se foca tanto no cinema como se foca na política. Gosto de acreditar que mesmo então ele tinha a noção da falta de profundidade das ideias que ostentava, mas escolhia adoptar essa postura panfletária como motivadora de determinadas opções estéticas. Assim, no que toca ao cinema:

O filme é, em si mesmo, uma estrutura crua e denunciada, que contém várias estruturas cruas e denunciadas. O resultado é que podemos verificar os mecanismos de todos os assuntos a que assistimos: filmes, polítiva e relações pessoais. Destes três, o único que interessa é o relacionado com concepção cinematográfica. Tudo é denunciado pelo que no início temos um plano em que alguém assina cheques para pagar serviços relacionados com filmes (fotografia, filme, guião, etc.) seguido de um diálogo off que traduz estilizadamente do início do processo de realização de um filme. Depois temos uma sequência linda dentro de uma fábrica. Vemos a fábrica (o edifício) em corte, assim podemos identificar simultaneamente o que acontece em cada uma das suas divisões (esta denúncia estrutural seria usada em diferente contexto por Lars von Trier, com Dogville). Mesmo antes de nos ser dado a compreender que estamos a ver um cenário, nunca por um momento acreditamos estar a ver locais reais (as cores de tudo são as da bandeira francesa). As actuações dos trabalhadores são ostensivamente dramatizadas por isso nunca ponderamos estar a ver vidas reais capturadas. Assim, a ficção está anunciada. Tal como Truffaut en “la nuit américaine”, Godard finalmente assume que o cinema tem dinâmicas próprias que não tem assim tanto que ver com a vida, e o papel do cinema não é capturar a vida, mas criar uma vida própria, com raízes no mundo real, mas dotada leis internas próprias.

Depois, Godard arruina a experiência parcialmente. Ele assume o discurso político. Ainda na fábrica, coloca vários trabalhadores (actores que representam trabalhadores, é bom lembrar) soltando monólogos terrivelmente aborrecidos (pelo menos do meu ponto de vista, não sou um tipo do Maio de 68, os mais velhos por favor comentem aqui), referentes aos seus direitos e queixas. Ele coloca os actores a falar directamente para a câmara, assumindo uma vez mais que um filme está a ser feito. Mais tarde ele assum que nós podemos fazer o nosso próprio filme, quando põe Montand a falar lado a lado com uma câmara apontada a nós (quem faz o filme, quem está por trás ou pela frente da câmara).

O terceiro, e claramente menos desenvolvido tema, é o da relação pessoal entre Fonda e Montand. Também é contado tendo em atenção a estrutura da relação. Assim, tudo é estilizado, cliché, mas é suposto ser assim. Terminamos o filme com várias possibilidades de como uma relação pode terminar.

Este filme é um esquisso cinematográfico, como se fosse um demo de um filme. Gosto dessa atitude, esse aspecto de projecto “inacabado”, algo rude, com aspecto de filme provisório. É como se fizessemos parte do processo. E na verdade fazemos.

Ah, há um plano, que sozinho faz a experiência valer a pena: o plano relativamente famoso do supermercado. Temos a câmara a mover-se durante cerca de 15 minutos sobre uma linha recta, vemos a vida normal de supermercado, coisas que acontecem, uma luta “ideológica” encenada. Apenas isso. A câmara vai e vem, a linha que segue é paralela à linha das caixas registadoras. Vemos as coisas ao nível do olhar dos trabalhadores das caixas. É lindo. É cinema, talvez não cinema da verdade, mas verdadeiro cinema.

A minha opinião: 4/5

Esta comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve