Archive for the '1990' Category

Money Talks (1997)

“Money Talks” (1997)

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memórias em palco

Este é outro capítulo daquele tipo de tendência nos filmes de comédia/acção: o par protagonista bi-racial. A moda começou com a Arma mortífera. Aí, o equilíbrio cómico dividia-se entre Glover e Gibson. Mas apareceram muitas versões depois, incluindo o 3º Die Hard, e aquela coisa com Rodman/Van Damme, ou este filme.

É tão banal e curto de vistas como qualquer fórmula, mas funcionou durante algum tempo.

Já não funciona, e agora enquanto percebemos isso, pergunto-me como é que alguma vez funcionou. Uma coisa assim só pode ter um apelo médio a 2 níveis:

.se vimos os filmes enquanto adolescentes, e por isso eles se tornaram uma parte de memórias maiores da nossa evolução, e vê-los agora é uma piscadela de olho a nós mesmos.

.assumimos que são banais, e vêmo-los nessa base, tal como vemos um filme de série b, cheio de cenários maus e histórias ridículas, e assumimos esse mundo enquanto o filme dura.

Eu cumpro as duas condições acima. Mas sei que não há nada para ver aqui.

Na verdade, aqui até tentam fazer um final competente, a ideia de um palco, literalmente, onde todos os personagens vêm, e todos os conflitos são resolvidos, usando as possibilidades múltiplas que a mise-en-scène permite. Mas é tudo resolvido com um tiroteio banal, e algumas lutas corpo a corpo sem grande história.

A minha opinião: 1/5

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Out of Sight (1998)

“Out of Sight” (1998)

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golpe colorido

Vim a este filme pouco depois de ver “o americano”. Nesse, Clooney impressionou na forma como desistiu do seu personagem habitual cool, cujas acções no ecran são todas conduzidas por um sentido de auto-coolness e estilo. É um jogo divertido de jogar com ele, ainda que longe de transcendente. Neste filme, esse sentido de comédia e estilo divertido ficará para sempre resumido na cena em que a porta de um elevador se abre e Clooney vê Lopez sentada num sofá do lobby de um hotel onde ela o perseguia a ele, e ele fica apático e simplesmente levanta a mão para dizer olá. É mesmo aquilo, é assim que o personagem dele funciona.

Soderbergh compreendeu essa característica de Clooney cedo, e aqui vêmo-lo a fazer o primeiro rascunho do que seria o topo desse estilo: o franchise Ocean.

Aqui temos um projecto mais simples, um curioso onde Soderbergh se diverte e se permite alguma liberdade para ser pessoal enquanto ganha dinheiro para os seus projectos mais pessoais. É um filme normal sobre um golpe, em que a diversão está na complexidade do esquema, a forma como é planeado, e a forma como se desenrola, e todas as reviravoltas e coisas imprevisíveis que acontecem. O filme é bastante competente a esse respeito, embora não se retire grande coisa daqui.

Mas há uma sequência realmente apreciável na qual se anunciam algumas experiências futuras de Soderbergh no seu campo “pessoal”. A sequência em que Clooney se encontra com Lopez num hotel. Ela é abordada sucessivamente vários tipos babados de gravata, depois Clooney faz a sua aproximação, eles falam, vão para o quarto, dormem juntos. Apreciem a cinematografia dessa sequência e a forma como quase não cola com o resto do filme. Esse pedaço tem mais a ver com o trabalho de um autor. A paisagem urbana fora da janela do bar do hotel, as cores do quarto, a iluminação das caras, até o interesse do diálogo. Provavelmente o melhor pedaço de actuação de Jennifer Lopez. Vou ficar com essa cena.

A minha opinião: 3/5, não vai fazer mal, mas vejam os voos mais altos que Soderbergh tem para oferecer.

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The Commitments (1991)

“The Commitments” (1991)

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dura suavidade

Alan Parker é um realizador generoso, no sentido em que se permite fundir-se com a textura dos seus temas, permite que o filme tenha uma vida própria. Isso é algo que eu não apreciaria num filme de Kar Wai ou Welles, cuja forma pessoal de se apropriarem das histórias é o próprio motivo pelo qual vejo os filmes deles. Mas Parker parece ter a sua maior força no entendimento daquilo que o filme necessita, e a capacidade para o deixar respirar. Isso é uma grande qualidade.

Aqui ele trabalha o tema da música soul apropriado por trabalhadores irlandeses, e Dublin, como síbolos do espírito irlandês.

A simples qualidade e expressão da execução das canções justifica o culto que este filme criou ao seu redor desde que saiu. A música não é original, tudo que ouvimos são versões de canções dos mestres da soul, mas as interpretações são tão cativantes que é difícil não sermos conduzidos por elas. Funcionou não bem que a banda composta por vários actores deste filme, actuando com o nome da banda do filme, ainda tem uma carreira hoje, ainda actua ao vivo.

Entre todas as coisas boas que se podem dizer sobre as actuações, vou referir a cara do cantor principal. A voz de Andrew Strong dá às canções toda a paixão de que elas necessitam para funcionar. Mas a cara dele, aparentemente tão feita, forma um conjunto de expressões transcendentes, formas, frases dolorosas que saem de um qualquer mundo fantástico superior. Parker compreendeu isto, e por isso é que ele tantas vezes o enquadra quando canta, em primeiro plano. Ele absorve-nos de formas que não compreendemos.

Claro que há um enredo engraçado que rodeia os momentos musicais, mas é apenas um suporte. A música é o personagem principal, e não um mero suporte de uma qualquer história central.

Piadas irlandesas e a alma negra da América. Que mistura poderosa. Este filme merece crédito, é um excelente momento.

A minha opinião: 4/5

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A Life Less Ordinary (1997)

“A Life Less Ordinary” (1997)

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expectativas

Este não é um bom filme. É divertido de acordo com um conjunto de aspectos que podemos recolher em muitos outros filmes. Os valores convencionais de comédia construídos ao redor de uma história romântica. Escapismo numa forma reconhecível por qualquer pessoa vagamente familiarizada com Hollywood.

Mas temos um pouco mais que isso aqui. Este filme é parte de uma trilogia de filmes onde entra uma trilogia de artistas interessantes: Boyle/Hodge/McGregor. Este conjunto de filmes foi importante para estabelecer a base de 2 carreiras interessantes e importantes (Hodge, entretanto, parece ter-se desviado das coisas interessantes, vamos esperar que regresse). O que eles fizeram foi o que poderemos chamar de experimentalismo, ou mesmo de experiências teóricas vertidas para um produto prático final. Dos 3 filmes, este é provavelmente o menos interessante. Não é especialmente apelativo, ou interessante como experiência. O objectivo era pegar num género específico, a comédia romântica, e manipulá-lo até termos uma nova perspectiva dele. O resultado fica bastante aquém do que, por exemplo, os Coen fizeram com Intolerable Cruelty.

Ainda assim, McGregor tornar-se-ia um actor poderoso, um dos melhores, e Boyle vale sempre a pena independentemente do que faça, e ele já fez coisas muito impressionantes desde então. Por isso este filme torna-se uma espécie de artefacto histórico se querem fazer arqueologia das carreiras destas pessoas.

O que aprendemos aqui é que desde o início que Boyle confia na sua intuição, e essa veia prevalece sobre a forma como ele racionaliza os seus conceitos. Essas intuições podem ser realmente poderosas ou resultar em nada (como aqui), mas ele está sempre disposto a correr o risco, e aprecio-o por isso, vou querer ver o que quer que seja que ele tenha para mostrar. E aprendemos que McGregor, já nesta altura, era um actor auto-consciente. Ele sabe que está a actuar, por isso a questão não é tanto a de parecer “real” (como uma quantidade obscena de actores sempre tentam parecer), mas sim entregar a actuação enquanto a reconhecem como tal. Esse provavelmente é o tema mais importante desta arte, no último século. No que toca a actuação para cinema, Ewan McGregor é uma espécie de estado da arte.

Mas este filme, a não ser que o coloquem na perspectiva do futuro dos seus criadores, é basicamente inútil.

A minha opinião: 2/5

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Hard Target (1993)

“Hard Target” (1993)

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Mad cowboy

Este filme cai perfeito no seu próprio género, com todos os elementos. A história está concebida para encaixar nas características vendáveis do actor, e temos todos os elementos que normalmente rodeiam este sub género de acção, que é a acção construída ao redor de uma figura da acção, na tradição Stallone (mas com jogadas diferentes). Para além disso, nunca gostei muito da abordagem estilística de Woo. É o estilo em si que me aborrece. Por isso, este filme deveria ser naturalmente algo para passar tempo, uma experiência olvidável. Algo que podíamos ver numa noite bem passada com alguns gajos de 26 anos já nostálgicos que cresceram com estas coisas.

O meu último comentário, ainda para mais, foi sobre um filme que pensava que odiaria e que até apreciei. Isto motivou um protesto de um leitor que é meu amigo e que normalmente confia nas minhas opiniões, mas baseando-se nesse comentário começou a perder a fé. Suponho que só vou piorar as coisas com este comentário, mas na verdade apreciei algumas coisas neste filme. Essas coisas boas têm todas que ver com dois aspectos: cinematografia e cenários.

A primeira grande coisa aqui é a forma como entramos no filme, os primeiríssimos planos, uma noite chuvosa numa Nova Orleães encenada, onde um homem está a ser caçado. Os planos das ruas desertas, desde o ponto de vista do homem, são grandes portas para este filme. Temos todas as referências nesta primeira sequência: Nova Orleães, o jazz ambiente, o contexto de western Leone/Eastwood (o próprio personagem de Vosloo chama-se Van Cleef!). Estes 3 elementos encontram-se com um contexto Mad Max e as regras desse mundo, sem lei, terreno fértil para foras da lei e justiceiros aventureiros. Somos transportados para este mundo nos primeiríssimos minutos, e isso é fantástico, e parece-me que temos de creditar Woo pela forma como concebeu esta entrada.

Depois, claro, Van Damme entra em cena e isto torna-se necessariamente mais um dos seus típicos filmes. Ainda assim, temos bons usos das ruas da cidade, e 2 outros cenários que levarei comigo: um é a casa de Douvee, e o seu aspecto ao mesmo tempo robusto e frágil, no meio do Louisiana. O outro é o palco final onde as cenas finais se passam. Este último cenário é sempre uma peça fundamental nestes filmes Bons-Maus. Normalmente é um cenário especialmente concebido, mas não necessariamente interessante. Este aqui é muito bom, com todos os adereços, todas as cores, todo o ambiente Nova Orleães transportado para um filme. Muito bom.

As cenas de acção em si são aborrecidas e vulgares, mesmo de acordo com o que já se fazia nesta altura.

A minha opinião: 4/5

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Elles (1997)

“Elles” (1997)

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performance e ritmo

Não sei quanto deste filme foi feito com consciência e quanto aconteceu nas costas do realizador. De outras experiências que já tive com filmes dele, nunca vi nada que me fizesse acreditar que eu poderia ver algo tão inteligente e sensível como o que temos neste filme. Mas é verdade que este filme é uma boa experiência, uma peça a qual foi dada espaço para respirar ao ritmo das actuações femininas.

O casting das 5 actrizes principais é a primeira grande coisa aqui. Todas elas estão associadas a um certo contexto cultural (europeu), e no mundo do filme, cada uma surge associada a esse tipo de personagem. Isso é usado na forma como o filme foi escrito, e parece-me que cada papel tinha em mente cada uma das senhoras que vemos. Para cada papel poderia haver 1 ou 2 outras actrizes aceitáveis, mas não mais.

A segunda coisa boa é a forma como é dada liberdade nas formas de actuação. Cada mulher domina as suas cenas, e submete os outros personagens (masculinos) ao seu próprio fôlego, ao seu ritmo e estilo de actuação, tanto como o personagem de Maura submete Joaquim de Almeida ao estilo de vida dela. A história joga com isto, já que todas estas mulheres são, ou tentam ser, senhoras da sua própria vida. Por isso há uma sobreposição desta vontade de viverem vidas livres às actuações segundo estilos diferentes, que correm livremente. Isto não foi, creio, intencional, mas sem dúvida que funciona.

Outra grande coisa, que prova o parágrafo acima, são as cenas em que várias destas mulheres actuam juntas e, notavelmente, aquela em que as 5, e só elas, actuam juntas na casa de Maura, e até fazem um filme juntas! Apreciei a auto-referência disto. Estas cenas, especialmente essa na casa de Maura, são fantásticas porque aparecem na tradição de Lumet ou Altman, de capturar o fôlego da performance de cada actriz. É-lhes permitido respirar e cada performance aparece contra as outras, por isso a riqueza da cena é a comparação que podemos fazer entre elas.

Eu diria que o ambiente geral pretendido para o filme está totalmente baseado no mundo de Almodóvar, daí a ligação Carmen Maura. Isto seria intencional, creio, e era um objectivo forte do realizador. Mas ele falhou aí, e ainda bem, porque se ele tivesse insistido demasiado nesse aspecto, ele poderia ter apagado o resto das coisas boas não intencionais. Mas a escrita é muito boa, auto-consciente e suporta totalmente as actrizes. Por isso temos dois mecanismos de escrita que enfocam a natureza teatral do filme:-uma das personagens é ela mesma uma actriz, por isso está a representar um actor. As actuações dela são pontos vitais para dois desenvolvimentos dramáticos no filme (a filha dela a vê-la ter sexo em palco e o ciúme dela pela amiga). -Carmen Maura filma as suas amigas a fazerem confissões para a câmara. Por isso elas são enquadradas ostensivamente, e colocadas a falar directamente para a câmara, ou seja, para nós. Muito bom truque.

Lisboa é apenas um postal aqui.

A minha opinião: 4/5, deviam ver este.

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Cronos (1993)

“Cronos” (1993)

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Fantasporto 2010

ursinho de peluche

Querer fazer filmes é um caso amoroso. Cada novo filme é perfeito na mente de quem o imagina. Vamos para a cama à noite, e o filme está aí, tal como o sonhamos. Podemos perder essa visão, podemos comprometê-la se algum dia tivermos a sorte de avançar com ela, mas para sempre ficará a perfeição de uma ideia. Por isso, suponho que fazer filmes começa como um acto de amor. Guillermo del Toro certamente está apaixonado pelo que faz. O enamoramento provavelmente está com ele há muito tempo. ele vive nos filmes, como espectador ou criador, há muito tempo. por isso ele investe os seus filmes no próprio cinema. Cada referência, mais ou menos bizarra, que moldou a imaginação dele, aparece em cada um dos seus argumentos. Isso significa que ele nos é honesto, consistentemente, e isso por si só merece respeito.

Mas depois, há vários níveis de qualidade que podemos considerar quando vemos um filme, que variam conforme cada um. del Toro é sempre competente, em cada filme. Ele sabe como explorar uma câmara para transmitir uma ideia de suspense. Ele tem uma imaginação bizarra que lhe permite criar mundos que valham a pena visitar. E ele sabe construir um mundo que aglomere duas dimensões. Uma que é ordinária, o mundo real onde todos vivemos, e uma fantástica, onde os vampiros existem, onde as criancinhas materializam os seus jogos. É por isso que o Labirinto do Fauno foi tão adorado, não é? Por isso vão encontrar tudo isso bem feito nos filmes dele. Mas ele simplesmente não é muito ambicioso para que eu o possa realmente apreciar. Honestidade e competência não equivale a faísca. Ontem eu vi fogo real no novo e imperfeito filme de Wook Park. Os realizadores melhores jogam com mais ferramentas do que as que inicialmente têm. del Toro constrói filmes dentro de certas tradições cinematográficas, mas depois não é capaz de as quebrar. Se eu tivesse visto este filme quando ele era novo, provavelmente teria ficado excitado com a possibilidade de ver del Toro ultrapassar-se. Agora sei que ele não quebrou as regras. Ao invés, está provavelmente a deslizar para o mundo do sucesso comercial. Ou seja, também Peter Jackson o está, mas antes disso ele fez Braindead… Espero que del Toro ainda seja capaz de me surpreender, em vez de ser apenas competente.

O elemento realmente interessante que corre por este filme e pelo labirinto é a miúda. Ela é a materialização dessa ligação entre os dois mundos. Mas também é, ela mesma, um elemento bizarro que pertence a nenhum. aqui no Cronos, é-lhe dado um lugar ambíguo, como se o mundo girasse na verdade à volta dela, em vez de à volta do dispositivo que motiva tudo.

esse artefacto é, já agora, a segunda melhor coisa aqui. Um aparelho com a forma de um insecto, que contém mesmo um insecto dentro. esta é a metáfora da inserção de um mundo dentro do mundo. Um é dourado, curioso, mas frio e morto, o outro está vivo e é estranho. O insecto interno controla o externo. o fantástico invada a realidade. ideia inteligente.

a última coisa boa é o espaço pessoal da rapariga. ele concentra aquela sensação dos velhos sótãos, onde podemos encontrar praticamente tudo. Adoro isso. Este tem uma arca onde o vampiro se esconde durante o dia, e está perfurado de uma forma que permite a luz do sol entrar de uma forma bonita.

A minha opinião: 3/5

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Braindead (1992)

“Braindead” (1992)

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ketchup reflexivo

O que motiva estes filmes de série b é, antes de tudo mais, pura paixão. Paixão pela concretização deles, paixão no processo, o de inventar formas simples e baratas de representar ideias loucas. Parece-me que é aí que o enamoramento pelo gore começa, no como representar adereços que obviamente não podem ser reais. No início, tudo isto pode realmente ter nascido da frustração de querer fazer um filme sem ter o orçamento para isso. Mais tarde, o aspecto barato desses filmes criou uma base de fãs, e uma tendência. Por isso, da mesma forma que alguns tipos hoje em dia (incluindo eu) filmam super8 porque querem o grão, o aspecto, e um processo obsoleto na idade do vídeo, também muitos realizadores procuravam (e ainda procuram!) o estilo série b, porque adoravam os antigos, queriam apaixonadamente fazer um filme, e não tinham dinheiro suficiente para isso.

Eu vi este Braindead, em sessão dupla com o brilhante Re-animator. Juntos, estes dois filmes, mais o ambiente de festival na sala onde os vi, deram-me uma das minhas noites de cinema mais divertidas de sempre. Uma dessas em que ver um filme tornou-se tanto uma actividade colectiva como o próprio processo de o fazer. Risos colectivos, não planeados, espontâneos, uma sensação de relaxe diante das piadas. Tudo foi realmente memorável. Por isso suponho que o espírito dos criadores dos filmes foi totalmente transposto para a audiência naquela sala, eu incluido. significa que ambos os filmes funcionam.

Há, no entanto, algumas coisas interessantes a considerar: este filme é de uma série b consciente, ou seja, quem o fez sabia que estavam deliberadamente a fazer um filme temático, de aspecto barato. Isto foi em 1992, por isso faziam-no para audiências que a essa altura já estavam desabituadas da pobreza que seria tolerável quando, digamos, Corman, ou mesmo Ed Wood, faziam filmes. Por isso, desde o início que os cineastas estão a pistar o olho ao estilo que emulam, eles planeiam piadas baseadas no efeito que sabem que terão nas audiências. É sobre essa base sólida que toda a (imensa) piada está. Isto não é do tipo “oh não temos dinheiro suficiente para todos estes efeitos, vamos tentar o melhor e ver o que sai”. Isto é mais do tipo “sim, vamos fazer uma coisa que parece falsa, bizarra, ketchup, as pessoas vão-se rir”. Por isso num certo sentido, Braindead, Re-animator, ou as séries Evil dead, fazem ao filme zombie de série b o que Leone fez ao western americano, ou Besson aos filmes de acção. Estes filmes colocam-se naquele mundo doce da ironia e auto-consciência. Muito bem. o resto, terão de ver, uma sinopse de um filme como este soaria totalmente ridícula, assim como a descrição de praticamente todas as cenas.

Ainda assim, realço dois pedaços: um é a primeira cena. Que grande cenário que usaram. Nunca estive na Nova Zelândia por isso não sei o difícil que foi encontrá-lo, ei se calhar até está em todos os guias turísticos. Mas realmente apreciei a forma como o Peter Jackson filmou a sequência, no meio daquelas rochas enormes.

As caras. A forma como ele filma os poucos planos de intimidade entre os personagens principais. Dá a sensação que usou grandes angulares, próximas das caras. Em todo o caso, ele conseguiu grandes momentos, de intimidade cinematográfica, e a câmara segura à mão permite-o. Surpreendentemente bom, no meio deste banho de sangue.

a stop motion com o rato macaco é incrível. E o padre ninja também! E a actuação facial de Timothy Balme.

o que não funcionou tão bem foi o controlo do arco maior do filme. Algumas sequências são demasiado extendidas, e num filme de zombies, demasiadas pernas e braços cortados tornam-se aborrecidos a determinada altura.

A minha opinião: 4/5

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U Turn (1997)

“U Turn” (1997)

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Oliver às portas do país das maravilhas

Não tenho grande consideração por Stone, e a maioria dos seus filmes. Ele parece ser um desses tipos aborrecidos que só falam para serem ouvidos, que só acham significativo que outras pessoas estejam à sua volta para que possa concordar com o que ele está a dizer, acenar afirmativamente, dando-lhe a ovação que o seu intelecto brilhante merece. Na verdade penso que há um número significativo de realizadores (e outros artistas) que caem neste tipo de categoria. Suponho que estar permanentemente a tentar formar uma opinião acima das mentes médias fá-los pensar que eles mesmos são diferentes das massas banais. Bem, algumas vezes eles são, e assim justificam a arrogância: Wenders, e Tarantino (por vezes). Outros são simplesmente personalidades egocêntricas. Stone é um deles. Todas as suas divagações políticas são teorias da conspiração que ele retrata como verdades inquestionáveis. Platoon é uma grande experiência, mas há pouco mais para lá disso.

Este filme, no entanto, merece alguma atenção. Não se enganem, a personalidade de Stone está aqui, e isto prejudica uma enorme parte da experiência. Mas há pessoas interessantes a trabalhar aqui, e foram corridos alguns riscos, mesmo por parte de Stone. Por isso apesar de no final este filme ser um falhanço, eu acho que é um falhanço valioso, quase glorioso, porque havia ambição aqui, e verdadeiro comprometimento para chegar lá.

Temos um contexto Coen, um em que um mundo normal nos dá respostas bizarras para situações estranhas. Começamos, junto com Penn, fora desse mundo. No início somos literalmente conduzidos para esse cenário físico louco, e também literalmente ficamos lá pendurados. E para lá da história que liga Penn a Lopez a Nolte, todos os personagens paralelos garantem-nos que o mundo é cheio de truques, bizarro, e não confiável. Isto é totalmente cinematográfico e é a melhor tentativa que se faz aqui. Os Coens são os actuais mestres disto, já o eram nessa altura. Penn faz um grande trabalho, como costume, neste caso representando a ambiguidade de se sentir fora desse mundo louco e ter de se deixar sugar por ele. O que quer que funcione aqui tem certamente a ver com ele. Jennifer Lopez na verdade não sabe actuar, mas eu até acho que neste caso isso jogou a favor do filme, porque ao não controlar a sua actuação, ela não nos permite ver através dela, e isso é uma coisa boa dado o personagem dela. Claro que ela é também um personagem físico, o corpo dela conta. Phoenix, Danes, Billy Bob, Voight. Cada episódio que os envolve depende deles como actores, por isso este é um filme sobre actuações, ainda que Stone não o quisesse assim tanto.

O que arruina isto é ver como Oliver Stone coleccionou tantos truques visuais, que usa indiscriminadamente, em cada momento. Aqueles truques todos de edição, de separar o que ouvimos do que vemos, mais os truques no filme para mudar cores por vezes. Stone pensava que isso seria suficiente para dar ao filme o ambiente que ele queria. Na verdade, alguns desses truques podiam ter sido muito poderosos, mas era preciso uma mente sensível para usá-los, não alguém que se olha ao espelho enquanto concebe o seu trabalho. Stone fez uma boa tentativa, quase conseguiu fazer-nos cruzar para o mundo que nos propõe, mas estragou tudo porque não conseguiu apagar-se do filme, o que permitira que tudo fosse totalmente uma experiência colectiva.

A banda sonora é o elemento mais focado que temos aqui.

A minha opinião: 3/5

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Guantanamera (1995)

“Guantanamera” (1995)

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a honestidade de uma visão

Se estudamos a evolução do pensamento em relação à organização social, necessariamente teremos de passar pela maior fractura no mundo do pós-2ªguerra. A cortina de ferro. é com cada um formar uma opinião em relação ao que cada lado tem para oferecer, e que lados dentro de cada lado apoias. Para ajudar a decidir, temos de confiar nas histórias contadas por quem viveu, na pele, os problemas e vantagens desses mundos. Estou a falar de pensadores sérioes, ou pessoas com histórias honestas para contar. Se aprofundamos a pesquisa do lado soviético da cortina, necessariamente vamos enfrentar o caso cubano. É uma história fascinante. E dentro dessa história, há alguns contadores de histórias honestos. Korda, e Gutierrez-Alea são os mais significativos, e trabalham com imagens. Mas enquanto Korda é importante fundamentalmente porque seguiu o processo, a revolução, Gutierrez esteve no início, e continuou a contar a sua honesta versão da realidade até à morte. Um pouco antes disso, fez este belo filme.

Assim, sabemos que vamos ver nos seus filmes a narrativa de alguém que nunca parou de questionar-se, e denunciar o que acreditava ser mau, tanto como denunciou os abusos pre-Castro, e tanto como tinha abraçado genuinamente a revolução. Esta é a sua visão, a meio dos anos 90. Desencantado, cínico, irónico. poucas vezes foi a road-trip tão metafórica, tão embebida na noção de viagem, pelo tempo, e não no espaço físico. Também podemos colocar o peso simbólico que quisermos no cadáver que eles transportam. Mas o que me interessa é o talento puro que Alea tinha como verdadeiro contador de histórias cinematográfico. Eu aposto que ele começava com imagens, soltas e disconexas, que queria passar. Tal como a do plano final deste filme. Depois disso ele trabalhava muito na construção de uma estrutura narrativa que pudesse competente, coerentemente e, digo eu, poeticamente, integrar todas as suas múltiplas visões. O engraçado deste filme é que a multiplicidade de visões da mesma mente está reflectida nas várias histórias que seguimos, cada uma com o seu tom, o seu ambiente. Temos a história telenovelesca que rodeia a vida engraçada de Mariano, muitas mulheres que significam sexo para ele, e um amor platónico, com dificuldades em consumar-se. Temos o crítico cínico do regime totalmente investido na estupidez de todo o negócio de funerais. A parte de inventar regras para poupar combustível, tudo isso representado pelo marido burocrata e frígido, um retrato triste de um sistema a esta altura (e já naquela altura) triste. E o mais pesado drama cai sobre a alma mais delicada entre os personagens vivos, o velho viúvo, marido de uma artista falecida, aquele que nunca deixa de preocupar-se com as pessoas, eventualmente o único verdadeiro amor na história (não sei se considero a professora uma apaixonada). Alea não poupa postura cínica, por isso o humor negro com o cadáver, perto do fim, realmente faz-nos sentir desconfortáveis. Todas estas linhas estão perfeitamente integradas por uma bem gerida viagem pela estrada, e uma boa adaptação de uma canção eterna, que por casualidade é um representante da alma cubana.

Este é como um filme italiano pos-moderno “doce”, mas melhor, porque é mais significativo.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve