Archive for the 'Sitges 2008' Category

Repo! The Genetic Opera (2008 )

“Repo! The Genetic Opera” (2008 )


Festival Sitges 2008

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narraçao progressiva

Uma coisa que me incomoda, e outras que apreciei: o ‘filme de culto’; para mim, filme de culto é algo que reúne a atençao de um número ou uma legiao (ou muitas legioes) de fas que, fascinados pelos símbolos e/ou personagens de determinado filme, seguem buscando novos signigicados, procurando sequelas, inventando histórias ao redor do filme, etc. Pelo menos, culto no tipo de sentido de um filme como este pode produzir. Nao me interessa especialmente essa noçao, prejudica a claridade de ideias que se pode ter ao ‘ver’ um filme, em vez de o venerar. Mas tudo bem. O que temos aqui é a ideia de lançar um filme etiquetado já como ‘de culto’? Isso é um estatuto que o tempo e a dedicaçao dos fas deveria dar, ou nesta altura essa noçao está tao arruinada que ‘culto’ se tornou um género? Que estratégia comercial barata…

Tirando isso, o filme está relativamente bem feito. Ainda nao vi as sequelas de Saw que Bousman dirigiu, mas provavelmente este é um projecto muito mais pessoal para ele, logo onde podemos compreende-lo melhor. Houve um esforço enorme na criaçao e credibilizaçao de um mundo detalhado, e eu sempre aprecio isso. Mundo futurista, inumano, horrível, paranóico e pos-caos. Nao há uma visao especialmente inovadora no lado narrativo (a nao ser por uma coisa de que falarei), ou em assuntos puramente cinematográficos. Todos os esforços foram apontados para a imagem. Gostar ou nao dessa imagem é uma questao de gosto pessoal, creio. Eu gosto de espreitar estes ambientes gore de vez em quando, apesar de me sentir aí como um turista: gosto de ver, gosto de os viver, gosto de tentar, mas depois gosto de voltar para casa.

No entanto, encontrei um elemento de grande relevância, um aspecto narrativo interessante: o ladrao de campas (o personagem de Terrance Zdunich). Ele forma totalmente parte desse mundo, apesar de ser um marginal nele (criminoso, rouba campas para lucrar com isso), e dá-nos um balanço interessante, uma espécie de ligaçao entre nós e o mundo absurdo em que estamos a entrar. Ele conta-nos coisas, ele ‘narra’ muito do que vemos, e fala (canta) directamente para nós, na maioria das vezes. Isto é muito interessante, há já algumas experiências que trabalham este tipo de ligaçao audiência-filme; Cusack em Alta Fidelidade ou Willis em Die Hard, entre outros. Este trás algo novo, e nao depende tanto da abilidade do actor para o fazer, mais do dispositivo musical, no qual Zdunich teve uma particiaçao como compositor. Interessante…

Essa música aproxima-se do metal progressivo que os Dream Theater dominam hoje em dia, e desde há algum tempo. É um tipo de música que estabelece um ambiente e o ajuda a construir, mas que tem substância. Eu gosto, pelo balanço que trás e pela ambiguidade entre mundos musicais. Logo, em coerência com o que se passa neste filme. Coincidência ou nao, eu gostei disso.

A minha opiniao: 4/5

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Kurôzu zero (2007)

“Kurôzu zero” (2007)


Festival Sitges 2008

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be cool

Tudo aqui é baseado numa ideia de estilo. É uma exploraçao do que significa, num determinado momento, numa determinada cultura (discutivelmente global…), ser ‘cool’

Tudo aqui está concebido para parecer fixe. Na verdade, sempre que ouvimos alguém que quer ‘mandar’ na escola, o que está na verdade em jogo é quem tem mais estilo aí. A luta é um elemento essencial desse estilo, os melhores lutadores ganham admiraçao, nao pelos feitos físicos mas pelo estilo com que conseguem sair das situaçoes – mesmo quando Genji é derrotado depois de lutar com dezenas ao mesmo tempo, ele cai de uma forma fixe. Para sublinhar isto, acabamos por perceber que na verdade o tipo mais forte da escola está o tempo todo de fora das disputas principais, provavelmente porque nao é fixe, nao na noçao que têm os gajos fixes (ele tem estilo na sua forma sem estilo).

Esta é uma noçao pobre, que provavelmente apela a uma mente adolescente (com 24 anos ainda nao tenho a certeza se já fui adolescente). Este filme passa com esta ideia única porque é capaz de a suportar visualmente. O realizador compreende algo de enquadramento e ritmo, mesmo que nao corra muitos riscos (ou nenhum, na verdade) na forma como filma as lutas.

Num certo sentido, isto nao é diferente, na raiz, de séries como Rambo, a filmografia de Chuck Norris ou as actuaçoes/poses urbanas do hip-hop. Diferentes momentos no tempo, e diferentes locais no planeta, e um elemento importante: este filme nao se leva a sério, como os outros ‘tipos’ que referi se levam. Tudo é encenado aqui, e isso é claro para nós, e tudo bem. Os momentos cómicos sublinham isto. Também a paródia dos Yakuza o faz, aparecendo como os tipos inferiores que apanham porrada dos putos da escola.

A minha opiniao:3/5

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Ekusute (2007)

“Ekusute” (2007)


Festival Sitges 2008

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Manipulaçao e cabelo

Divirto-me bastante a ver trabalhos como este. Filmes assim usam códigos visuais e simbólicos especificamente dirigidos a um certo pedaço de audiência, que está disposta a viver uma vida em filmes fora das convençoes mais espalhadas, e aceitar o que vêm com isso. Uma das coisas que mais aprecio quando vejo uma coisa assi num recinto público (normalmente atestado com os fas absolutos do tipo de produçoes em questao) é observar como essas pessoas reagem a certas convençoes dentro do género. Para mim, porque apenas faço visitas ocasionais, é o equivalente a visitar um país estrangeiro, gosto de observar como as pessoas se comportam, qual é o ambiente do sítio que estou a visitar.

Dentro dessas convençoes alternativas, este é um bom filme, creio. Pelo menos funcionou para mim, ao ponto de me fazer querer mais trabalho deste realizador. Ele tem uma visao, no meio deste terror capilar, ele tem um conceito interessante que se extende claramente e abraça o filme, tanto como o cabelo abraça os personagens.

Cabelo como canais. Cabelo como elemento de contacto entre pessoas, entre vidas, vidas passadas. E que distribui a morte. É um estratagema eficiente. A rapariga morta que produz cabelo funciona como uma espécie de agente noir, alguém que controla a acçao, mas todo o tempo nós estamos dentro do esquema (temos que estar para fazer tudo isto credível, e também porque era importante para o género explorar a rapariga morta com um olho). Ela manipula através do cabelo, e tem uma marioneta humana que entrega cabelo e faz todo o sistema funcionar. Esse homem ridículo é as suas maos na rua, distribuindo a morte ao acaso. Esse agente acredita o tempo todo que está em controlo da rapariga, mas acabamos por compreender que é ao contrário.

Esta estratégia clara de construir uma história faz o filme suficientemente agradável para mim. Tem um trabalho sólido de producçao, os momentos de stop-motion foram feitos com competência, e vao apreciar este filme se se interessarem por sistemas de contar uma história interessantes e estiverem dispostos a aceitar, pelo menos por 2 horas, as convençoes deste canto do universo cinematográfico (isto se nao estiverem já dentro dele).

A minha opiniao: 3/5

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Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson (2008 )

“Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson” (2008 )


Festival Sitges 2008

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deitar vinho num copo

Vi este filme inserido num festival. Os festivais sao grandes ocasioes. Ha um ambiente no ar, que nos convida a ver coisas novas, coisas ambíguas. Na maioria das vezes, deve ser dito, vejo falhanços, alguns gloriosos, outros lixo completo. Mas a possibilidade de ver algo novo, surpreendente, que altere a minha vida, compensa todas as eventuais provas aborrecidas que tenhamos de passar. Este pequeno documentário é uma excepçao a estes tipos que descrevi.

Como filme em si, tem muito pouco valor. É uma colecçao de fotografias, testemunhos, velhos vídeos e testemunhos feitos para o documentário, com um extra, Johnny Depp a narrar Thompson. Está concebido como um documentário em série que o Discovery ou o História normalmente fazem. Mas na verdade eu gostei. Por uma razao: eu ignorava bastantes aspectos da sua vida, nomeadamente os seus envolvimentos políticos, que sao uma contradicçao, entre outras, na vida de um ícone da contra-cultura.

De qualquer forma, sao os factos da vida de Thompson que mexem tudo isto, e despoleta o interesse que possa ter. Mas há algo que me desagradou, um tipo de contradiçao formal que no entanto é divertida de notar: H.Thompson foi importante como um escritor, fundamentalmente porque ele quebrou formas, e no processo criou um género de direito próprio. O seu tipo de escrita é essencialmente visual, o que significa que também é potencialmente cinematográfica – Gillian compreendeu isto, mas no seu ‘Fear and Loathing…’ ele ou se tornou demasiado literal na sua interpretaçao, ou demasiado agarrado à sua própria visao e por isso, apesar de ter feito um bom trabalho, nao foi totalmente fiel a Thompson. A qualidade visual da sua escrita pode ser testada neste documentário sempre que Depp lê. É poderosa, e provavelmente mais eficiente do que qualquer das imagens antigas usadas. Aí está a contradiçao. O documentário em si é vulgar, usa uma fórmula gasta de documentários em série, equivalente ao tipo de jornalismo aborrecido a que Thompson tentava escapar. É esse o meu ponto de vista.

Provavelmente Hunter vai durar pelo que escreveu, e nao pelo que foi. Afinal, nao é assim tao pouco comum ou especialmente excitante o tipo de coisas que ele efectivamente fez. Apesar de esses factos terem contribuído com o sumo e a energia do que escreveu, nao sao as orgias, ou as armas, ou os ácidos que fazem valer a pena conhecer a sua vida.

No entanto, Thompson encarnaria perfeitamente o espírito de um festival de cinema. Isso é um elogio.

A minha opiniao: 3/5

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Your Name Here (2008 )

“Your Name Here” (2008 )


Festival Sitges 2008

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realidades coaguladas

Esta foi uma visita morna a uma mente muito quente.

Antes de ir ao que Phil Dick escreveu, os seus escritos chegaram até mim na forma dos filmes que foram feitos sobre eles. É provavelmente comum que isso aconteça, como o é com vários outros escritores. Blade Runner é, até este momento, o melhor e provavelmente um dos poucos (muito) bons filmes que trabalham o seu sentido de um sentido de realidade(s) inventado e a sua exploraçao de paradoxos de identidade, e deslocamentos de realidades. O que ele mais apreciava era provavelmente jogar com a ambiguidade e construir mundos a partir daí. Ele usa linhas narrativas, histórias, para agarrar essas noçoes. No caminho, ele cria ficçao científica meditativa e auto-reflexiva. Lamentavelmente, as suas histórias sao feitas de tal maneira que podem ser apropriadas como meras histórias, sem aproveitar o sumo real por trás da estrutura básica e visível. Por isto temos tantos filmes maus feitos sobre os seus escritos.

Agora temos este. Gostei da experiencia, mas nao pude ignorar as suas falhas. O filme está escrito com um personagem central que é um alter-ego de Dick. Mas a escrita do filme em si também é um espelho da escrita de Dick. Assim, o guionista (que também é o realizador) tenta ser Dick a brincar com Dick, no seu jogo, fazendo o que ele fazia melhor. Para isso monta uma mente complexa, multidimensional, e leva-nos numa viagem com ela. Ele pega na ideia de realidades paralelas que Dick obsessivamente explorou, e circula dentro e fora delas. Lança ambiguidades em relaçao a se estamos dentro ou fora de um mundo ficcional forjado pela mente ou se estamos numa realidade ‘real’, e vai misturando elementos de cada realidade, em última análise fazendo-nos recebê-los todos misturados. Cada realidade surge envolvida em alguma história de Dick. O problema é que apesar de aqui se tentar muito jogar com manipulaçao visual, através da ediçao, e através de dispositivos visuais, no final as histórias só valem pelo seu valor como linhas narrativas. Nao há a verdadeira ambiguidade que Dick colocaria e que, idealmente, nos faria funcionar racionalmente, e funcionariam como estimuladores cerebrais. Esta foi uma (por vezes) agradável viagem à mente de um personagem ficcional. É entretenimento, e nao era suposto ser.

Bill Pullman foi mal escolhido. Ou pelo menos representou um personagem mal moldado. Ele faz lembrar profundamente o Robin Williams de ‘o bom rebelde’. Esse era um tipo seguro, alguém que jogava direito, que nao corria riscos, porque a vida o tinha tornado medroso. Nao o tipo de pessoa que se drogaria para chegar ao fundo de novas realidades, e conhecer o sentido da vida. Ele simplesmente nao passa a energia certa.

Por fim, o que realmente me aborreceu: a conclusao. Depois de todo um filme construído sobre um mundo indefinido e que muda constantemente as suas regras e pressupostos (realidades) e a diluir as diferenças entre si, temos um médico que literalmente explica em termos científicos claros absolutamente tudo que tínhamos assistido, e desmistifica todo o jogo, tirando assim qualquer interesse por qualquer meditaçao posterior ao filme.

A minha opiniao: 2/5

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Girara no gyakushû: Tôya-ko Samitto kikiippatsu (2008 )

“Girara no gyakushû: Tôya-ko Samitto kikiippatsu” (2008 )


Festival Sitges 2008

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smells like a teen spirit

De vez em quando gosto de entrar em filmes como este. Nesses momentos entramos num filme por puro relaxe. Penso que é o mesmo tipo de espírito que realizadores como Kawasaki têm quando criam filmes assim.

Algumas destas viagens sao na verdade bastante compensadoras, e penso que é um erro desculpar cada elemento nao considerado num filme apenas porque é uma produçao de série B ou porque o orçamento estava perto de zero. Muito trabalho excelente foi feito sob essas condiçoes.

Aqui temos um filme feito sobre duas questoes: a vontade de parodiar livremente as caras famosas da cena política actual, e a vontade de produzir efeitos especiais que pareçam deliberadamente falsos e antiquados. Creio que esta equipa deve ter-se divertido imenso a fazer este, e em alguns momentos, também me divertir por estar ali. Mas é o tipo de divertimento que tem um grupo de adolescentes quando goza com um professor detestável ou quando pinta mensagens obscenas num muro. Tudo bem, para mim, mas podia-se pôr algo mais nisto. Foi agradável ver uma luta à moda dos Power Rangers, tantos anos depois, mas ‘agradável’ nao é ‘bom’.

Agora sabem de que trata este filme. É uma escolha pessoal embarcar nele ou nao. Eu fi-lo com algum interesse, mas nao o farei outra vez.

A energia é pouca, o ritmo cinematográfico nao estava também na mente destes tipos.

A minha opiniao: 1/5

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Istoria 52 (2008 )

“Istoria 52” (2008 )


Festival Sitges 2008

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Dick sem chama

Se olharmos para este filme a uma certa distância, realmente é um projecto ambicioso. Memórias capturadas, sobreposiçao de tempo, aprisionamento temporal, memórias que se misturam com a realidade, sonhos que se misturam com um estado desperto, tudo misturado e unido perante os nossos olhos, fazendo-nos entrar na confusao dos personagens no ecran. Isto é contemporâneo, é o que alguns dos melhores realizadores e especialmente alguns dos melhores escritores têm vindo a fazer.

Ponha-se este princípio, e a ambiçao de contar esta ‘história’ nas maos de um realizador que se estreia na forma longa. Este conto deveria instigar a reflexao, e a auto-reflexao. É o que temos aqui.

Eu, pessoalmente, tenho algumas pretensoes de tentar usar o cinema como meio de expressao algum dia. Tendo isso em consideraçao, várias vezes penso quais sao as possibilidades, e o que tem sido feito até agora. Creio que é preciso muita coragem para começar com um projecto destes. Aprecio o esforço, mas nao pude ignorar o falhanço geral.

O que temos é uma aparente indefiniçao do mundo capturado, e o sentido disso. Basicamente, o problema é que tudo está mais perto de um episódio dos Ficheiros Secretos, sumarento mas vazio, do que de uma história de Phil Dick, trabalhando com níveis de realidade, subjugando o tempo, ou trabalhando em realidades paralelas. Mas apesar de tudo, a sua construçao visual está evidentemente feita com a ambiçao de nos fazer pensar, nao entreter. Há até uma piada algures no meio em que um personagem diz “se nada acontecer no filme ao fim de 2 horas, o público vai protestar”.

Assim, se ele é insano ou se forças superiores a ele o capturaram numa unidade de tempo indefinida nao é importante porque o que acontece nao tem relevo. É um doce visual, sim, bem enquadrado, bem fotografado, e bem actuado pelo protagonista. Mas há uma faísca que (ainda) falta. Vamos ver onde este novo realizador vai chegar.

A minha opiniao: 2/5

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Ramírez (2008 )

“Ramírez” (2008 )


Festival Sitges

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(anti) narrativa nao enquadrada

Vi este filme no festival Sitges, por isso pude estar num post screening com a presença do realizador. Quando questionado acerca das suas referências cinematográficas, ele indicou que o Pickpocket de Bresson foi uma espécie de guia solto para este trabalho. Eu acredito nele, acredito que estava a ser sincero e que sentiu a inclinaçao para seguir esse trabalho. Mas nao me parece que este filme tenha muito que ver com o tipo de trabalho visual de Bresson.

Este filme está enraizado num tipo de narrativa baseada em acçoes quotidianas aparentemente desinteressantes, e tenta explorar um personagem e as conseguentes dinâmicas do seu comportamento a partir daí. Tem sido feito, em anos relativamente recentes, por vários realizadores. Provavelmente tem uma semente no trabalho de Godard, nos anos 60, mas nessa altura ele e os amigos da nouvelle vague estariam demasiado preocupados com outros temas e nao repararam nessa linha que estavam a abrir. Para olhos contemporâneos, este tipo de narrativa conduzida pelo quotidiano provavelmente tem sido melhor dominada por Pedro Costa, começando com o seu ‘Ossos’; desde entao ele tem dominado esse canto negro do universo que criou para ele mesmo. O Dogma dinamarquês tem uma palavra a dizer sobre isto também, mas creio que no seu caminho perderam-se nas suas próprias regras auto-impostas.

Curiosamente, por agora os exemplos que temos apenas contemplam histórias centradas num único personagem, que tem de ser pervertido ou suficientemente obsessivo com algo para que a coisa funcione. É o caso aqui: um assassino em série de motivaçoes sexuais, também traficante de droga, disfarçado de artista. Assuntos maternais nao resolvidos. A acçao ocorre entre Madrid e Segóvia, oposiçao cidade-campo, creio, e também um motivo para colocar um sentido de viagem, caminho interminável que constitui uma boa parte da caracterizaçao cinematográfica de um assassino em série.

Foi impressionante descobrir que esta é uma produçao independente. Sabia muito pouco sobre o filme antes de o ver, e quando soube que foi realizado sob regras orçamentais estritas, fiquei profundamente impressionado. O trabalho artístico é muito sólido, sóbrio de uma forma que realmente aprecio, e o uso da cidade (Madrid) foi muito bom também. Suficientemente concreto para a reconhecermos, mas suficientemente abstracto para nao nos deixar cair em clichés que nos desviem do que interessava. Nao se vê isto muitas vezes.

O que diminuiu a experiência para mim é o que normalmente o faz nos filmes de Costa. Nao creio que um filme contemporâneo, feito hoje para públicos de hoje, tenha de obedecer a uma forma clássica de introduçao-desenvolvimento-clímax-conclusao, mas deveria ir a algum sítio. Nao narrativamente, nao que tenha de acontecer algo sobre os factos da história, mas na parte visual, ou em algo mais. Era seguro deixar o filme como está porque isso nao implicava tomar o risco de fazer algo mais. O que tento dizer está expresso, de formas diferentes, em Wenders, Antonioni e, num plano diferente, Herzog, um mestre em capturar loucura, ou melhor ainda, em encontrá-la em nós. Os primeiros dois sao mestres em levantar questoes no espectador a partir da contemplaçao visual, ou sucessao visual, ou manipulaçao visual, enquadramento… Estas sao as suas abilidades, eles poderiam produzir filmes sem lógica aparente, ou pelo menos histórias interessantes, mas abririam ainda assim a nossa imaginaçao visual. Se os refiro, é porque senti falta dessa subtileza aqui.

O actor principal também nao possui o suficiente para fazer isto acontecer, sem manipulaçao visual/mental de topo como suporte. Ele tem talento, mas provavelmente foi uma má escolha. Nao consegue transportar um personagem com tantos personagens em si como este Ramírez.

A minha opiniao: 3/5 vale a pena, apesar dos pontos fracos.

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Chocolate (2008 )

“Chocolate” (2008 )

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danças misturadas

Pelo que eu penso, as artes marciais na vida real têm muito que ver com auto-conhecimento. É uma exploraçao interior, conhecermo-nos a nós mesmo, física e emocionalmente (espiritualmente). Em última análise, tem muito que ver com a ideia de limite. O que podemos fazer.

No cinema, nao e bem assim. O motivo porque penso que as artes materiais sao um terreno tao prolífico para exploraçao em cinema é porque abre a possibilidade de enquadrar uma dança no ecran, na qual o espectador participa. Como o actor se move, e como ele faz os movimentos com os oponentes. Se pensarmos nisso, é uma dança pura.

Este filme está feito com isso em mente. É de uma textura visual muito rica, centrada num personagem, e visitando vários cenários diferentes, que sao incluidos nas lutas. Este último aspecto é bastante comum em filmes de artes marciais e este, especialmente, imita parcialmente Jackie Chan, sem tanto do seu sentido de comédia.

O que me parece particularmente interessante de analisar aqui é a diferença entre as lutas que vemos aqui, e as actuaçoes de luta chinesas. Este é um filme tailandês. Há um tipo de luta diferente aqui. Ele inspira-se na elegância chinesa e japonesa, mas também está culturamente ligada â Tailândia. Na verdade, as primeiríssimas imagens que vemos a nossa protagonista autista observar para emular, sao de um desporto de luta tailandês, bastante violento. O pai da protagonista é japonês, talvez isso nao seja inocente. E depois vemos um bailado que nos inclui a nós, mas que é muito mais visceral que a luta japonesa. Mais brutal, mais gráfico num certo sentido. Gostei da experiência. A dança nao considera o movimento de câmara para a enriquecer. É pena que isso seja tao raro nos filmes, requere um controlo superior, creio. Ang Lee fê-lo bem em “Tigre…”

A minha opiniao: 4/5

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Terra (2007)

“Terra” (2007)


Festival Sitges 2008

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ambientalismo conservador

Temos aqui um tema comum nos dias que correm. Mudanças climáticas, e o consequente risco de auto-destruiçao. Aqui o segundo é misturado com auto-destruiçao provocada por conflitos humanos. Nao gostei disso para começar, porque sao temas diferentes, cada um com as suas dinâmicas e motivos de reflexao.

Sou demasiado novo para poder ignorar este tema, e demasiado velho para o tratar com tanta leviandade como se faz aqui. É-nos apresentado um futuro pós-Terra, com a espécie humana a tentar encontrar um novo local para se instalar e a encontrar o planeta ideal, apesar de já ocupado. Se somos humanos, é suposto identificarmo-nos com os nao humanos do filme; eles têm a atitude ‘humana’, nao como os maus da fita americanizados. Os humanos escolhem a guerra. O que se passa é que as pistas que nos indicam e as escolhas para um possível final feliz chegam por vàrias formas: amor (/empatia), heroísmo desinteressado, e cooperacçao. É essa a resposta? Apaixonarmo-nos pode ajudar a salvar a terra? Nao é ao contrário? Nao temos de salvar a terra primeiro para que o amor e as coisas que interessam possam florescer, junto com a natureza e a vida selvagem? Heroísmo? O que se passa nao é uma necessidade colectiva que por isso requere acçoes colectivas, construídas sobre pequenas ou grandes participaçoes individuais? Como é que pode um sacrifício individual dramático servir para alguma coisa? O que me chateia é que ou estes tipos escolheram o tema porque nos dias que correm a ecologia é um produto que se pode vender, ou entao realmente se interessavam pelo tema mas nao sao suficientemente interessantes para dizer algo que interesse. Creio que é a primeira opçao. Por isso enchem todo o filme de clichés americanos. Fazem-nos identificar com os alienígenas, por oposiçao à atitude militar americanizada, e tentam submeter a nossa mente ao princípio americano de que o heroísmo e a predisposiçao para o auto-sacrifício sao a chave para coisas superiores. Isso nao é o que Hemmer provavelmente pensaria? Vêm o paradoxo? Em última análise este é um filme que, em essência, quando se pensa, é precisamente o oposto do que pretende defender.

A estátua que vemos no final a ser construída parece um símbolo soviético. Assusta. Suponho que nao significa nada de especial.

A minha opiniao: 1/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve