Arquivo de Março, 2009

Palermo Shooting (2008)

“Palermo Shooting” (2008)

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o amigo alemão

A qualidade suprema de Wenders como autor, para mim, é que ele sabe que os seus filmes não têm tanto que ver com o que as imagens mostram como têm que ver com as imagens em si. Esta é a sua magia, e a sua maldição. Por isso é que eu tenho um abrigo nos filmes dele e por isso é que eles são cada vez mais mal compreendidos (os primeiros comentários a este mostram que irá pelo mesmo caminho). Wenders sabe isto, quando ele faz um filme está a reflectir sobre a natureza da imagem, e como isso afecta a visão, e como a visão afecta a compreensão, e como a compreensão afecta o significado, a essência.

Não poucas vezes, ele dirige-se directamente ao tema, e incorpora-o no enredo do filme. Este é o caso. Filme sobre imagens. Pessoas que são sobre imagens. Pessoas que se tornam as imagens que perseguem. A primeiríssima cena torna-o claro porque “enquadra” (que significativa é esta palavra com Wenders) uma paisagem, através de uma janela de um edifício que tem em si mesmo tudo que ver com enquadramentos. Um volume puro cheio de buracos quadrados, cada um correspondendo a enquadramentos diferentes, dependendo do momento em que se olha, da posição, distância à janela… Este edifício reflecte a personalidade do fotógrafo, é em si mesmo uma sucessão de enquadramentos, uma cápsula fechada interligada com vistas parciais do exterior.

Depois temos uma história sobre a criação de imagens. Um personagem fotógrafo que perde a alma porque se torna um falsificador, ele esquece a essência, não mais procura a verdade da imagem, pelo contrário cria a sua própria verdade forjada. Céus australianos reflectidos nas janelas de S.Paulo, esse tipo de coisa. A introdução de Milla existe para isto, já que ela é fotografada “artificialmente” e logo transportada para o “verdadeir” ambiente. Depois o fotógrafo retira-se, isolado, para um sítio que ele sente ser “verdadeiro” (um grande porto, significa Palermo).

Logo, as grandes coisas acontecem em Palermo.

A mulher. O seu trabalho é recuperar imagens, é encontrar a verdade das imagens, é interpretar a visão de alguém. Aqueles olhos do pintor, que fitam a “câmara”, o que ele estava a ver é o que ela quer ver. Vejam as oposições, vejam como o fresco está integrado no filme: detalhe vs visão geral, compreensão vs perder a essência, longo vs curto. Vejam como o tempo da imagem é compreendido. A mulher leva anos a trabalhar uma imagem, o fotógrafo produz milhares sem compreender uma única.

A Morte. Não é a morte, é Dennis Hopper, e isto interessa. Ver como Hopper foi inserido neste projecto clarificou totalmente as coisas para mim, e completou um pedaço da minha vida em filmes que agora sei que estava incompleta. Hopper é aqui aquele que “enquadra” de forma superior, o homem que observa a vida, que puxa as cordas (apesar de estar só a fazer o seu trabalho). Ele é um agente superior, alguém que está para lá e para cima do que vemos. Quando as pessoas o olha, ele devolve o olhar. Ele grava tudo, vemos isso, aquela metáfora de “shooting” com duplo sentido. Assim, ele é tão enquadrado como enquadra. Agora, lembrem-se do Amigo Americano. Vejam esse filme antes deste se puderem, poderão entendê-los como 2 metades da mesma ideia, como eu entendi. Vejam o semelhante que são os 2 personagens de Hopper. Lá ele era também o mestre manipulador por trás das acções que tínhamos. Na verdade ele estava a manipular alguém que “enquadrava” (literalmente, um homem que fazia molduras para quadros). Ele usava o “enquadrador” enquanto fornecia a “imagem” principal. Esse filme, que eu considero essencial, tinha tudo que ver com o mesmo jogo de imagens. Agora temos uma actualização, q tem a ver com a mudança dos tempos (e entretanto mudou profundamente a nossa relação com as imagens) e como Wenders mudou. Dennis Hopper é a ligação, e o seu papel é um eixo pivot.

Agora, eu acredito que para se estabelecer uma relação de sucesso com um criador, temos que aceitar os seus trabalhos pelo que eles são. É como amar, para além da atracção, a amizade, para além da conversa de rotina. Temos que apreciar as qualidades e sobretudo reconhecer as falhas do trabalho, e teremos de viver com elas. É esse o meu tipo de relação com Wenders. Os seus filmes nos últimos 10 anos tornaram-se mais e mais no limite de se tornarem monólogos intelectuais, algo que devemos sentar e ouvir, e agitar afirmativamente a cabeça. Isso é algo que eu não tolero noutros realizadores (Stone, Tarantino), mas que estou disposto a aturar com Wenders, porque me interessa o que ele tem a dizer. Se, estiverem dispostos a ter diálogos discursivos e a sensação que o homem por trás das cenas nos está a tentar levar a acreditar que ele tem A verdade, poderão deixar que este filme mude as vossas vidas. Eu deixei.

Uma qualidade paralela que poderão apreciar é ver como a música define o ambiente, independentemente do cenário. Wenders sempre foi muito bom a compreender isto, agora fá-lo com a ajuda de música portátil. A edição musical é fantástica.

A minha opinião: 5/5

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Aanrijding in Moscou (2008)

“Aanrijding in Moscou” (2008)

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Fantasporto 2009

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despretensioso

Dificilmente se pode ser mais despretensioso do que o que temos aqui.

É elementarmente claro a forma como isto está feito, os truques usados, e o eficiente que o filme é, e isso é uma coisa boa, neste caso.

Vejam como a história e o ambiento estão construídos desde a primeira cena. Um acidente de tráfego menor num parque de estacionamento, isso começa uma discussão. A cena começa como um pedaço de vida diária, avança para uma discussão ligeira por palavras, e termina de forma cómica. Reparem como todas as palavras e frases neste argumento estão concebidas para causar uma impressão imediata sem se tornarem negras ou mesmo pesadas. Esse é o contexto do filme. Vive de rotinas, introduz elementos desviantes, que normalmente resultam de forma cómica (a introdução do tema lésbico é um grande momento, entre outros) e com este ambiente evoca um sentido de ternura, o que as audiências poderão chamar “romance”. O facto de que as pessoas que conceberam o filme tenham sido capazes de sintetizar tudo tão económica e eficientemente numa única cena é impressionante. Esta é uma das primeiras cenas mais sintéticas que já vi.

Alinho este filme com 3 comédias recentes que entre muitas diferenças partilham um sentido comum de despretensiosidade, um conceito que admite que o cinema é um pedaço de entretenimento, que as coisas têm de ser eficientes e funcionar no olho e pelos diálogos, NO mundo do filme, sem isso querer dizer que o filme tem de moralizar ou procurar respostas superiores para temas comuns. Estes filmes que vi recentemente são “Juno”, “Little miss Sunshine” e este. Dos 3, prefiro este. Desvia-se ainda mais dos canons de Hollywood que os outros, e esse pode ser o motivo.

O filme funciona pelas actuações, que são surpreendentemente directas e cativantes. Conheço muito pouco ou nada sobre as tradições de actuação belgas (ou equivalentes), mas adivinho (posso estar errado) que as actuações deste filme estão inseridas numa tradição mais longa de actuar com fluidez, o que alguns poderão considerar actuações “naturais”. Não ousaria confundir o filme com vida “real”, como suponho que muitos espectadores farão, mas realmente este é um mundo caricaturado bem modelado. Representação, é o que é… o personagem principal vai muitas vezes a Itália, e fala várias vezes italiano, uma língua que em alguns dos seus momentos de ouro na arte deveria “soar” em vez de realmente “significar”.

Algumas paisagens urbanas da pequena cidade de Moscovo, Bélgica, são fenomenais. Houve um olho competente para ler a cidade aqui.

A minha opinião: 4/5

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Hansel & Gretel (2007)

“Hansel & Gretel” (2007)

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três crianças, três caminhos

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Outra experiência com filmes coreanos recentes. Para mim a Coreia do Sul está a produzir alguns dos melhores filmes que temos estes dias. Parece que há uma espécie de escola de cinema ali, que ainda assim permite que os seus realizadores trabalhem livremente no campo das ideias. O lado técnico e imagético deste cinema é formidável, alguma da melhor fotografia que vi recentemente vem de filmes coreanos.

Este poderia realmente ter sido algo poderoso, foi ambicioso, mas falha, para mim.

Basicamente, o filme tenta ser uma mistura de 3 elementos: suspense/terror, sobreposto a um drama infantil, sobreposto ao conto dos irmãos Grimm.

.é suspense/terror porque temos um espectador designado, alguém que nos representa na história. Os seus medos são passados a nós, porque o que acontece a ele, nós sentimos, ou supõe-se que sentimos. Temos uma casa, não especialmente interessante em termos espaciais, excepto pelo sotão. Essa casa é explorada pelo personagem principal, e nós exploramo-la com ele, e tememos o tempo todo. No entanto, nenhuma das coisas habituais em filmes de terror acontece, e sentimo-nos pesados o tempo todo, em tensão, sem sermos “assustados”. Por isso o filme está a meio caminho entre o terror e o suspense. Esta proximidade a um género é um contexto no qual os outros elementos são inseridos. É interessante a segurança que o “género” dá aos realizadores. Eles sabem que podem confiar em certos elementos que darão várias referências às audiências, que não as farão sentir-se perdidas. Pode ser um truque para realizadores menores se assegurarem que podem fazer um filme compreensível, ou poderá ser uma rede de segurança que lhes permita fazer algo maior, no olho ou na narrativa. Este filme, suponho, deveria pertencer à segunda situação.

.as crianças têm um passado. Mais à frente no filme, vimos a compreender que tudo tem a ver com isso. O seu passado familiar, toda a história de eles não crescerem por causa dos maus tratos que os adultos lhes dão é o material que dá sentido e sentimento à narrativa. Assim, recebemos uma reviravolta quando compreendemos as motivações das crianças e começamos a encará-las como vítimas em vez de demónios.

.Hansel & Gretel, o conto, estrutura vagamente a narrativa. Os elementos de terror dão o ambiente, estabelecem um género, a história dos irmãos suporta os elementos visuais e alguns pontos do enredo. Mais importante, é uma história, a chave do filme. Reparem que o personagem principal, o nosso protagonista designado ganha a liberdade quando queima a história.

Assim, isto tem tudo que ver com sobreposições narrativas e a mistura entre linhas narrativas. Temos 3 linhas para explorar, e 3 crianças que controlam. Percebem? O problema é que não me senti ligado ao que mostraram, o filme é intelectualmente ambicioso, mas não conseguiu tocar-me. Suponho que tem muito a ver com ritmo e balanço narrativo. Os pedaços são disconexos, e penso que uma revisão séria da edição e do ritmo geral teria feito milagres aqui.

A fotografia é intensa e muito competente, apesar de não estar muito no contexto do que vemos. No entanto, é um bom trabalho do cinema coreano. Sortudos esses realizadores por terem estes valores artísticos ao seu dispor.

A minha opinião: 2/5

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Prime Time (2008)

“Prime Time” (2008)

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pensamento visual televisivo

Este é um caso curioso, em que o facto de que o filme ser formal e visualmente coerente com o que mostra torna-o num desastre total.

O filme está enrolado numa ideia televisiva de reality show que é mesmo real para os seus concorrentes. A ideia de um espectáculo que se mistura com a realidade, ao ponto de ninguém nele saber onde ela começa ou acaba. Sobre o espectáculo básico, há uma suposta moralidade superior, que usa a televisão para fazer “justiça”, já que todos os concorrentes (menos 1) escondem maus segredos. Sobre esse nível temos alguém ainda (uma mulher) que controla o grande jogo e o submete ao seu jogo pessoal.

É uma ideia medianamente interessante, mas o resultado é um desastre. Em termos de linha de história, não há muito que faça sentido e que seja suficientemente interessante para nos interessarmos. Porquê a vingança? Tanto trabalho apenas por más relações no trabalho? Porque é que deveríamos preocupar-nos por algum destes personagens? eles são caricaturas de papel, nenhum deles é uma pessoa real, até os crimes são clichés.

Pelo lado visual, as coisas ficam piores. O filme tem o aspecto (e a atractividade) de um programa de tv, barato, feito em cima do joelho, e desinteressante. Foi aí que comecei o comentário: ser fiel às mentes pobres da televisão era a ideia aqui, no entanto isso arruina qualquer coisa interessante que isto pudesse ter.

O espaço era minimamente interessante, como as divisões provisórias aparecem e desaparecem.

A minha opinião: 1/5

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Haepi-endeu (1999)

“Haepi-endeu” (1999)

happyend

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regra e excepção

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Estou a entrar no cinema coreano. Tenho tido aí algumas das experiências melhores com cinema recente. Da colheita corrente de realizadores (pelo menos) competentes, temos Wook-Park e Kim Ki-Duk. Ambos adicionaram coisas boas à minha vida com alguns dos seus filmes. Para além deles, encontrei muita competência e excitação noutros filmes.

Agora vi este. É impressionante, não poderoso e transcendente como Oldboy ou Bin-jip, mas mesmo assim vale a pena.

Vou realçar o como isto está feito. O filme começa e (praticamente) termina com 2 cenas exageradas e intensas: começa com sexo visceral e obcecado e termina com um assassinato brutal. Ambos são realçados para lá do que seria necessário para contar os factos e ambas ultrapassam o que normalmente toleramos em cenas semelhantes. Entre estas cenas, temos cenas de rotina diária comum, até aborrecida. Cozinhar, tomar conta de crianças, trabalhar, comer. Só isso. Assim, as cenas de excepção são momentos extremos de vidas normais. É disso que o filme é feito. O homicídio é uma reacção exagerada, violenta e pouco comum a uma situação relativamente vulgar de adultério. O filme corresponde visualmente a isto e temos uma grande adequação entre o que vemos e o que nos é dito. Isso é suficiente para me agradar.

O filme é imperfeito porque confia puramente no efeito que estas cenas deverão ter em nós. Os riscos estão minimizados a essas duas cenas e a controvérsia que elas podem causar (e causaram). Bem, creio que o filme funciona ainda relativamente bem, mas as cenas não me chocaram assim tanto (os últimos 10 anos trouxeram-nos filmes como Irreversível). Apesar de tudo, o que fica é uma boa experiência, porque todo o filme tem a ver com fazer-nos inoperantes e sem reacção, e de repente agitar-nos e acordar-nos. É um conceito relativamente pobre mas funciona, e mais que tudo, fá-lo de forma cinematográfica, fá-lo no olho.

O trabalho artístico é fabuloso. A cinematografica tem consciência perfeita das cores, saturações, e elementos de composição. É lindo, e algo que vemos com bastante frequência em todos os filmes coreanos, mesmo os piores. Visualmente, o cinema coreano não parece ser tão depurado e abstracto como a imagética japonesa, pelo contrário é uma exploração relaxada e agradável de beleza, com conceitos e influências ocidentais e, no entanto, bastante enraizado em ideias de sociedades orientais. Suponho que corresponde ao que a Coreia do Sul representa culturalmente hoje em dia.

A minha opinião: 3/5

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Juno (2007)

“Juno” (2007)

juno

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simplicidade

Acabei de comentar o “The Wrestler” de Afronofsky/Rourke. Para além disso, vi recentemente um grande filme belga, “Moscow, Belgium”. O motivo porque interessa ligar esses 2 filmes a este “Juno” é um: todos são o que se vê, nenhum pretende ser mais do que realmente é. São honestos, viscerais, e peças de cinema directas. Os 3 filmes captaram a simpatia das audiências (apesar de o filme belga obviamente não ter a distribuição dos outros 2). Isto é importante? Talvez não, ou talvez seja o sinal de uma tendência. Talvez as audiências esperem ser mais tocadas, e menos impressionadas. Ser levadas a sentir, em vez de serem forçadas a racionalizar. Creio que os últimos anos trouxeram progressos intelectuais fantásticos ao cinema, mas há um contra-ponto necessário para manter os filmes no nível do entretenimento, e para convidar as pessoas a vê-los. Algo como o que, digamos, Medem, fez algumas vezes (apesar do seu ambicioso Caótica Ana ter sido mal entendido pelo público). Este Juno é um filme não intelectual, e visceral. É simples pelo bom e pelo mau. O porquê de ter tido tanto sucesso é, creio, porque encarou de forma ligeira temas pesados. Evitou ligar a gravidez na adolescência a problemas sociais, e a limitações de vidas pessoais. Ellen Paige foi uma boa escolha tendo isso em mento, tal como Simmons.

Um filme como este faz o meu dia? Satisfaz-me completamente? Não, procuro mais, quero encontrar mais num filme do que vejo à primeira vista. Quero acordar a meio da noite, questionando certas coisas, descobrindo mais sobre o que o realizador quis dizer com certas coisas. Quero transportar imagens comigo, quero a sensação de que conheci alguém, que um realizador, ou um actor, ou um cinematógrafo mostraram algo do que eles têm dentro. Mas este filme é suficientemente bom pelo que é. É despretensioso no sentido que é o que vemos. É intelectualmente honesto porque não moraliza. Sinto-me muitas vezes cansado de ver filmes que são em si o perfeito oposto do que defendem, filmes que pretendem encorajar a liberdade de pensamento mas eles mesmos são parte de uma enorme linha de montagem. No entanto, espero que este filme não se torne regra. Espero que possamos contar no futuro com os Medems, Iñarritus ou Kar-Wais.

Mas este É entretenimento e é honesto, e esse era o sentido.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve