Arquivo de Junho, 2009

L’homme qui aimait les femmes (1977)

“L’homme qui aimait les femmes” (1977)

homme

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detalhes narrativos

Esta é uma das criações mais interessantes de um homem que passou a sua carreira e vida a questionar a própria criação cinematográfica e o que ela significava em cada momento. Depois da aventura da nova vaga francesa dos anos 60, Truffaut evoluiu e, para mim, começou a produzir o seu trabalho mais lúcido. Basicamente ele criou alguns filmes que são ensaios sobre cinema, assim como rascunhos autobiográficos dos seus pensamentos.

Assim, temos um filme sobre contar histórias. Um mulherengo que escreve a história da sua vida. Cada mulher nessa vi é, em si mesmo, uma história. Assim, o prazer do envolvimento com uma mulher coincide com a vontade que Truffaut tem de contar uma história. O facto de Morane escrever todas as histórias e criar uma única forma abrangente (um livro) que as contém todas sublinha isto.

A editora tem um papel importante. Ela é o personagem chave que Truffaut coloca acima de Morane, e ela produz anotações e comentários a toda a estrutura. As suas observações ao livro e personalidade de Morane podem ser tomadas como comentários ao próprio filme e ao seu realizador. Ela é auto-referência, ela é Truffaut que se comenta a si mesmo; somando assim à reflexividade do filme. Por isso é que ela nota que Morane, o escritor, não rejeita os “detalhes” que outros não notariam, e ela diz literalmente que ele é, basicamente, um contador de histórias. Para além disso, é ela quem nota que o funeral de Morane é o fim perfeito para a história. Eu vi tudo isso como anotações reflexivas à própria estrutura do filme e, de forma mais geral, à natureza do próprio cinema de Truffaut. Ele próprio foi, durante toda a vida, um contador de histórias, e sobre todos os prazeres que retirava da criação de filmes, estava o prazer de narrar. Também dava uma especial atenção a filmar os detalhes, algo que creio que retirou de Hitchcock. A mão que marca o número no telefone, ou que vira as páginas na agenda, esse tipo de coisas.

O funeral de Morane, que abre e fecha o filme, reúne todas as mulheres à sua volta. Tal como a editora (a segunda narradora) nota, é uma celebração da vida de Morane, o reconhecimento das suas qualidades, e da sua vida (cinema).

Para já, este filme e “La nuit américaine” são os filmes de Truffaut mais bem construídos que eu vi. Muitas vezes penso que ele (e Godard!) gastaram demasiado tempo com coisas que não eram assim tão importantes, como se fossem adolescentes a discutir equipas de futebol. Mas em certos momentos, ele fez contribuições importantes para o desenvolvimento da narrativa em cinema. Este filme é uma delas.

A minha opinião: 4/5

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Sleuth (2007)

“Sleuth” (2007)

sleuth

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reviravoltas

É redutor encarar este filme como um remake do original. Na verdade é muito mais rico considerá-lo como um filme que se adiciona ao original. Realmente deveriam ver o antigo em primeiro lugar, para enriquecer a experiência deste. Pensem no original, e depois considerem-no como um ponto de partida. Abram a vossa mente para receber este. Façam isso, e terão uma das melhores experiências em filmes que lidam com a criação de histórias. Eu tive.

A versão de Schaffer/Mankiewicz tinha que ver com dois personagens que lutavam pelo controlo da história. O seu jogo pessoal de humilhação e vingança baseava-se em cada um deles criar uma história e representá-la de forma tão convincente que levavam o outro a acreditar nela. Nessa versão tínhamos brinquedos e bonecos animados por todo o cenário para realçar isso. É uma obra prima de escrita para filmes que funcionava porque as actuações a suportavam. Laurence Olivier esteve muito bem aí porque constantemente nos explicava a criação da história, à medida que ela avançava. O filme é um de machos puros, lutas de galos. A mulher por quem eles lutam, estava num quadro.

Aqui começamos nas pegadas desse filme. Dois terços do que temos deixa pouco espaço para reflectirmos sobre motivações. Se conhecem o original sabem o que esperar. O filme está incrivelmente encenado. A mulher que provoca o jogo É a casa, que ela decorou. Por isso, têmo-la a jogar o jogo, muito mais do que tínhamos no original. Branagh deve ser reconhecido pela maestria disto. A forma como ele lida com as câmaras de vigilância inventa um terceiro personagem que está em todo o lado, mas que nunca vemos. Por outro lado, a casa é ostensivamente um cenário, concebido não para que alguém ali viva, mas para ser explorada pelos nossos personagens. Mas também É uma casa! Vou marcar este filme como um caso interessante de relação entre cinema e arquitectura, pela forma como a casa/cenário é usada.

**spoilers a partir de aqui**

O toque de mestre na narrativa acontece nos últimos 20 minutos. É uma coisa especial, que ganha mais força ainda porque já conhecemos o original. É uma espécie de reviravolta sobre o que esperávamos porque vimos o outro filme. Aqui sentimos a mão de Harold Pinter. Num certo momento, quando os nossos personagens começam o último “set” do seu jogo, ficamos na indecisão, oscilando entre acreditar na sinceridade deles ou tentar perceber quem está a fazer a jogada. O tema gay é introduzido, e a peça entra num campo de enorme ambiguidade, apenas desvelada nos últimos minutos. Uma vez mais, a casa (o elevador) dão-nos um último plano fortíssimo, que termina o filme de forma muito mais conclusiva e eficiente que o original. O personagem de Caine é muito mais ambíguo, e ele deve receber crédito pelos seus longos momentos de puro silêncio, no quarto de hóspedes, quando ele decide se deve ou não ceder às exigências de Law. Esses momentos são fantásticos.

Jude Law é um actor muito interessante. Para lá das suas qualidades óbvias, parece-me que ele é especialmente inteligente (ou bem orientado) na forma como escolhe os filmes onde entra. Os seus remakes de papéis antigos de Caine são bons exemplos disso.

A minha opinião: 4/5 este filme são várias peças dentro de uma peça, que se torna o filme, enquadrado por outro filme. Vocês vão querer vê-lo.

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Batman (1989)

“Batman” (1989)

batman burton original

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recordação da escuridão

Eu vi este filme quando era muito novo, e já não o via há bastante tempo, por isso tenho uma relação pessoal com ele. Eu evolui e o filme evoluiu comigo, na minha mente.

Realmente passou bastante tempo. E a memória que tinha dele é muito mais obscura do que o filme mostra. Porquê? Eu mudei; os filmes mudaram. É por isso. Supõe-se que este contém um mundo negro, muitos chamam-lhe gótico. Sim, tem um ambiente negro em vários pontos, Burton é um especialista em produzir certo tipo de ambientes. Mas já não funciona agora como um mundo negro de mentes negras, se é que alguma vez funcionou. Agora este filme tem a atracção dos filmes adolescentes:  sabemos onde tudo vai parar, mas queremos vê-lo de qualquer forma. E o mundo é mais brilhante que tantos filmes não especialmente celebrados por serem “negros” como este é. Suponho que isso tem a ver com a forma como a narrativa se constrói. Este filme apoia-se no aspecto visual, e isso normalmente é uma questão de moda. Muda, e quando muda, o filme vai segurar-se, ou não, baseado no seu conteúdo cinematográfico. Burton confia que mostrar o mundo vai fazer-nos entrar nele. Bem, eu realmente entrei há 15 anos atrás, agora apenas me lembro que o fiz, mas já não sei onde fica a porta. Suponho que Nolan, depois dos desastres de Schumacher, realmente substituiu com solidez a visão de Burton. Ele introduziu a instabilidade na narrativa, em “dark knight” ele construiu toda a narrativa em torno dessa instabilidade. Ele compreendeu como poderia suportar todo um mundo visual adicionando consistentemente reviravoltas, na verdade fazendo todo o filme ser uma enorme reviravolta.

A actuação de Nicholson é plastificada como o seu personagem. É baseada no charme individual, não numa mente perturbada. O seu vilão é um joker, mas sem ironia. Ledger realmente empurrou o personagem para os campos onde Brando ou Depp se movem.

É interessante ver este filme, já que mostra a ligação entre cinema, memórias cinematográficas, e as nossas próprias vidas.

A minha opinião: 2/5

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Je vous salue, Sarajevo (1993)

“Je vous salue, Sarajevo” (1993)

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o enquadramento certo

Godard é um cineasta curioso e imensamente talentoso, mas difícil de compreender, e tantas vezes arrogante e autista. Isto arruina muito do que ele faz, mas ainda nos deixa algumas pérolas.

Esta é uma delas. Um exercício simples de manipulação visual, minimal nos recursos usados e tempo de extensão, mas magnificada no seu poder visual. Esta curta são 2 minutos de enquadramentos múltiplos de uma única fotografia. Cada enquadramento dá-nos uma realidade particular, e faz-nos compreender mundos dentro do mundo que, à medida que a curta avança, percebemos que é apenas uma imagem. Estes 2 minutos de Godard são mais analíticos e significativos do que muitos dos filmes de Wenders que tentam directamente analisar o que significa procurar os significados escondidos das imagens. Porque é que ele não foi tão sóbrio nos 20 anos antes deste filme?

Aqui, como em outros poucos filmes de Godard, fiquei tão impressionado com a forma como ele me manipulou, que perdoei o seu discurso habitual, um de teimosia e egotismo, disfarçado de puro humanitarismo. Não rejeito as intenções dele, só a atitude.

Outra questão se levanta aqui, e no trabalho de Godard ao longo dos anos 90′. Mais do que testar os limites do cinema, aqui ele questiona as suas definições. Baseado nas suas “histórias do cinema”, penso que ele empurra as suas próprias definições de cinema para o campo da pintura. No entanto, penso que ele se torna mais um criador de imagens e um manipulador. A pintura, no seu sentido cinematográfico, tem duas formas de ser compreendida: uma é pela luz/cor/composição, a outra é pela comunicação/manipulação visual. Welles/Toland, Conrad Hall, Gordon Willis. Esses eram pintores. Aqui Godard tenta a manipulação e percorre campos não tão explorados de narrativa cinematográfica.

A minha opinião: 4/5 vejam este.

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Mankind Is No Island. (2008)

“Mankind Is No Island” (2008)

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enganador

Este filme é material danificado. Tudo nele parece confiável e poderoso, mas um revisionamento cuidadoso vai revelar o falso que é.

O filme nasce, aparentemente, de uma ideia visual inteligente, suportada pela edição. Imagens capturadas em duas cidades, que se misturam para nos dar uma mensagem. E a edição é a ferramenta cinematográfica chave para passar essa mensagem. Mas o engano é, para além de umas poucas imagens de pessoas sem abrigo e de verdadeiras cenas de rotina urbana, todo o material é na verdade palavras filmadas editadas para fazer frases legíveis. E todo o ritmo é dado Não pelas palavras filmadas, mas pela música que as suporta. Por isso, podemos ser levados a pensar que isto tem algum valor cinematográfico em geral quando, na verdade, é uma tentativa preguiçosa, disfarçada de trabalho amador honesto. Levei vários visionamentos para perceber o que estava mal.

Uma queixa menor é que a mensagem é paternalista, catatónica, sem garra. Diz-nos o que já sabemos e não o faz de nenhuma perspectiva interessante. Está embrulhada na noção estúpida de tratar os espectadores como crianças, de uma forma que nem mesmo as crianças (ou sobretudo as crianças) deveriam ser tratadas. Muitos espectadores gostam de ser tratados assim, e provavelmente é por isso que o filme teve o sucesso que teve. Eu não gosto.

Se querem um pedaço de edição onde as imagens são a chave da emoção e a música é só um suporte, vejam este anúncio:

Tirem o som num segundo visionamento e vejam como a edição se segura. Façam-no com este “mankind…” e vejam como o filme morre. O IMDb não lista anúncios comerciais, mas comparando o filme que estou a comentar com o exemplo que estou a dar, talvez devessem.

A minha opinião: 1/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve