Arquivo de Abril, 2009

Cape Fear (1962)

“Cape Fear” (1962)

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velhos jarrões

Remakes, ou filmes que foram refeitos, são uma boa experiência apenas por esse facto. Se vimos ambos, podemos ver 2 filmes em paralelo, e o filme reflexivo de imaginar como o segundo filme foi feito, o que estavam os “refazedores” a pensar. Foi assim que vi este. Já tinha visto o remake de Scorcese, antes de ver este, a partir desse momento nunca poderia ver este de forma isolada, no lugar que ele ocupava sozinho. Apenas posso imaginar.

No entanto, imaginei o que estaria Scorcese a pensar. Creio que a intenção dele não era outra senão uma questão de actualização, e cumprir o que na versão original era apenas sugerido. Tudo era mais gráfico em 1991, claro, por isso Scorcese actualizou a violência, e mostrou o que as audiências apenas estavam preparadas para serem levadas a crer, em 1960. Mas a grande coisa que Scorcese fez foi introduzir a tensão entre o Max Cady e a filha. Juliette Lewis realmente impressiona. Neste original temos o desejo sexual do personagem de Mitchum, mas é unilateral, uma simples atracção de uma mente suja a uma criança inocente. E esta é basicamente a questão:

nesta versão antiga tudo é uma questão de bem-mal. É uma abordagem mais pobre (até os motivos para a vingança são menos dúbios do que na versão de Scorcese). Bem, até os actores são menos flexíveis do que aquilo que pedimos a um bom actor moderno. Peck e Mitchum nasceram ambos artisticamente para um cinema em que o “personagem” era algo que era parte das suas personalidades como “estrelas” assim como dos seus papéis. Por isso a actuação deles é rígida, e muito limitada. Eles estão ali para exibirem os seus personagens públicos. Assim, por exemplo, se consideramos Mitchum, ele não está a tentar convencer a audiência de um certo tipo de maldade sofisticada. Ao invés, ele está a dar-nos um perfume de dureza maléfica enquanto tenta ser ele mesmo: o “Homem” bruto mas sedutor. Peck tem a vida mais facilitada, é suposto gostarmos dele por isso ele só tem de ser ele mesmo.

Este é um filme que perdeu as ambiguidades e buscas morais do filme negro original, mas que ainda não chegou a nenhuma nova fase, que inclui actuações modernas (o efeito Brando não se aplicou a estes tipos) e novas formas de construir narrativa. Para mim, soa simplesmente desactualizado, e não me disse muito.

A minha opinião: 2/5

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The Man Who Knew Too Much (1956)

“The Man Who Knew Too Much” (1956)

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music IS cinema

*** Este comentário pode conter spoiler ***

Não vi o original. Apenas pedaços soltos que encontrei nos extras do DVD deste.

Posso imaginar apenas uma razão para que Hitchcock quisesse refazer o seu próprio filme, e essa é a música. No original, ele não pôde contar com Herrmann. Com ele, Hitch sabia que poderia transformar a sequência do Albert Hall num pedaço poderoso. E a cena é realmente poderosa, e totalmente ancorada na música. Temos a tensão de saber o que está para acontecer, ou o que é suposto acontecer. Seguimos 4 linhas. Doris Day, que tenta evitar um crime, o assassino potencial e o que ele faz, James Stewart que tenta chegar lá, e perceber tudo e, mais importante, a música em si, que até é literalmente filmada a determinado momento (a partitura dos címbalos, que a câmara segue com o desenvolvimento da música). Esta quarta linha, claro, envolve as outras 3, marca o ritmo e torna-se em si mesma o manipulador da narrativa já que tudo acontece ao som da música. Este é um conceito muito poderoso que realmente está construído de forma perfeita aqui, e é um esforço coordenado de Hitch e Herrmann, um dos seus melhores momentos, e eles tiveram tantos… Reparem especialmente como a música conduz as acções do personagem de Stewart mesmo quando ele ainda não está no Albert Hall. Como a edição ajuda, quando seguimos Stewart pelos corredores, fora da sala de concerto, e quando ele fala com pessoas para tentar chegar ao assassino, sentimos por ele o que a música nos permite sentir. Toda a sequência é um pedaço perfeito de adequação entre filme e música e, por isso, um pedaço perfeito de criação colectiva. Vale a pena ver por isso sozinho. Foi que Coppolla, suponho, foi buscar o final poderoso da sua triologia do Padrinho, apesar de ele a ter feito ainda mais teatral (literalmente). Bem, ele estava a trabalhar com uma ópera italiana, de uma natureza ainda mais artificial que outras óperas italianas.

Mais à frente, temos outra tentativa de desenvolver uma cena pela música. Na embaixada, quando Doris Day canta para que o seu filho assobie, para o que pai dele possa encontrá-lo. Temos essa cena preparada desde o início do filme, desde o momento em que o suspense era apenas uma promessa. Provavelmente, Day foi escolhida precisamente por ser uma cantora, porque ela não pertence ao tipo de actrizes e presenças físicas que Hitchcock estava a escolher naquela altura para os seus filmes. o pedaço do “Que será será” não tem metade da força da sequência do Albert Hall, e perde ainda mais porque aparece logo a seguir. “Logicamente”, o Albert Hall poderia ter acabado o filme, mas penso que Hitch queria que vivêssemos um pouco no rescaldo dessa sequência.

De qualquer forma, o resto do filme constrói competentemente o ambiente do Albert Hall, se puderem evitar perguntar-se demasiadas perguntas sobre tudo o que não funciona na história. Excepto pela cena, este é um Hitchcock abaixo da média, para mim. Mas vejam.

A minha opinião: 3/5

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Slumdog Millionaire (2008)

“Slumdog Millionaire” (2008)

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cinema transatlântico

Penso que há 2 níveis de observação que podemos considerar para este filme.

Um deles é ver o filme como uma pequena parte de algo maior. A coisa maior seria a possibilidade de esta experiência se tornar uma certa regra no mundo dos filmes. A crescente proximidade entre Bolly e Hollywood, a possibilidade de começarmos a ter filmes ligados financeira, tematicamente (e culturalmente) por esta proximidade. Se considerarmos esta aproximação, então o facto de este filme ter sido tão celebrado pelos agentes chave de promoção dos filmes americanos (prémios) seria um sinal desta nova era. Creio que o outro nível de aproximação que proponho pode confirmar este:

este é um tipo de filme que catalogo como “ascendente”, que basicamente significa que começamos no inferno, e subimos as escadas do sofrimento através do filme, até chegarmos ao paraíso. Uma espécide de dinâmica invertida, que já vimos em Cidade de Deus, Blindness, Irreversible (onde o arco está literalmente invertido). Neste caso, Danny Boyle pega na experiência que Meirelles fez nas favelas do Brasil, e produz a sua própria versão. Boyle confia mais no enquadramento e trabalho/posicionamento de câmara (sempre o fez). Os filmes de Meirelles são, antes de mais, pedaços brilhantes de edição. Assim, pelo lado visual, temos abordagens diferentes, mas que contribuem para o mesmo objectivo de entrar na favela, de explorar com um olhar frenético a obscuridade daquelas vidas diárias. Este filme é brilhante a esse respeito. No entanto, à medida que progride, começa a sair da favela, e as escolhas cinematográficas respondem a isso, por isso o ritmo abranda, e pouco a pouco chegamos ao final romântico de Bollywood. O amor é a recompensa para o sofrimento, neste mundo que sabemos, no final apenas, que era fantasia. Assim, Bollywood encontra-se com certas ideias de um cinema negro. Lembram-se da minha abordagem inicial?

A minha opinião: 4/5

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The Shoes of the Fisherman (1968)

“The Shoes of the Fisherman” (1968)

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propaganda e vida real

Temos que admirar a forma inteligente como esta história antecipa a realidade. A compreensão de que um “infiltrado” do outro lado da cortina, colocado no sítio certo, com o poder correcto, poderia fazer a diferença no desfecho da guerra fria.

Bem, a maioria do que vemos neste filme é lavagem cerebral romântica. O cliché do homem bom, bem intencionado e humilde que, apesar de estar no topo do mundo e da liderança política, ainda se mantém o farol do amor e das vidas dos desfavorecidos. Por isso é que vemos este papa a viver uma vida normal, na cidade “real” e sobretudo, é esse o significado da última cena, que segue “O grande ditador”. Mas com Chaplin, nós Realmente tínhamos um artista comprometido, alguém que nesse momento se preocupava tanto com o que defendia que arriscou tudo o que era como celebridade e mesmo como artista, apenas para passar a mensagem, de verdadeira humanidade. Aqui, temos uma maquinação perversa da história (não li o livro, isto refere-se apenas ao filme). Por isso, aquele discurso final deveria, e eventualmente soa como o grito de rebelião de um homem que tenta e quebra as correntes do interesse maior, em favor dos desfavorecidos. Mas o filme é em si mesmo parte de um esquema que permite a lavagem cerebral desses desfavorecidos, e a colocação da Igreja como o líder espiritual, superior. Bem, os interesses da igreja em relação à Guerra Fria e depois eram políticos, eram mundanos, não eram altruístas. Nem nesta situação nem em qualquer momento dos seus 2000 anos de história.

Mas é notável (e suponho que isto vai para o escritor) a precisão da previsão. Como é que ele assumiu que um papa sairía das cadeias de sofrimento da união soviética? Ele saberia algo? Como é que ele criou a biografia de um homem que realmente se assemelha a João Paulo II? Isso realmente é notável.

As opções cinematográficas são boas. O filme é bastante texturado, tenta filmar muitas coisas no local, e joga com as cores, e as texturas dos espaços interiores do Vaticano, surpreendeu-me as preocupações visuais nesses temas. Também me interessou o uso de filmagens reais repetidamente, sempre que (suponho) havia a necessidade de mostrar pessoas “reais” na praça de S.Pedro. Se foi por necessidades de orçamento, ou uma opção consciente, não sei, mas o facto é que esses momentos com captações reais fizeram toda a construção deslizar para uma sensação deliciosa de documentário que, se lhe adicionarmos os últimos 30 anos de história, farão este um trabalho muito mais forte. Para realçar isto, temos um contador de histórias designado, um repórter que literalmente nos conta os factos, de um ponto de vista público. Esse repórter tem uma história pessoal, que seguimos, e que se mistura com a história do papa a certa altura. Isso não é inocente.

Bem, podemos escolher realçar a eficiência da construção cinematográfica, e como ela é provavelmente mais poderosa hoje do que era nos seus dias, devido aos factos que sabemos hoje. Ou podemos simplesmente ficar com o facto de que filmes como este são propaganda velada, que procuram moldar as opiniões das pessoas sem se assumirem como propaganda. Eu retenho essa nota, mas apreciei a experiência.

A minha opinião: 3/5

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“Equador” (#1.15) (2009)

“Equador” Episódio #1.15 (2009)

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exílio

Estou a comentar este episódio e pedaços de alguns outros.

Isto é triste. Triste de ver, miseravelmente mau em tudo, desde o enredo básico à mediocridade básica que é o alvo disto e que ajuda a moldar.

O que temos é cartões pintados que ilustram situações vulgares, histórias formatadas. Não há qualquer tipo de questionamento de qualquer tema, visual, narrativo, “histórico”. Os cenários são vistosos e más ilusões de “história”, mas o que vemos é apenas milhares de séries de tv anteriores, e má literatura, com elementos de pseudo multi-culturais que distraem. Isto é televisão cega, e isso é dizer muito.  É um género formatado que é produzido vezes sem conta, tantas como os livros formatados como aquele em que esta série se baseia.

Tudo isto é triste, o vulgar e inútil que é a produção televisiva média por estes dias, pelo menos em Portugal. Ainda mais triste é considerar que estas produções ridículas reflectem as mentes dos espectadores de tv. Bem, pelo menos parte delas, sim.

Mas há algo mais que é realmente triste. Há 3 nomes nesta produção, 3 pessoas muito valiosas, que deveriam estar a fazer coisas grandes nas suas vidas, e em vez disso se arrastam nesta pobreza mental. Nicolau Breyner poderia ter sido grande, se tivesse uma indústria de cinema onde se inserir, em Portugal ou fora. Ele é bom, ele compreende a energia e o tom, e a colocação de um actor. Depois temos Filipe Duarte que na verdade Está a ter uma carreira, actua em pelo menos um filme por ano. Ele é talentoso, provavelmente o melhor “novo” actor português nos dias que correm, ele devia estar a crescer nos desafios que tem, em vez de ter que deslizar para a inutilidade destas produções estúpidas. Por fim, é muito triste ouvir a música ambiental e que cria ambientes de Rodrigo Leão, misturada com a iluminação e cenários superficiais e falsos deste mundo falso. Ele é certamente um dos melhores compositores que Nunca tivemos.

Estes 3 nomes são o mais triste que a série tem. Não porque estão nela, mas porque deveriam estar a fazer outras coisas, coisas melhores. É como se tivessem sido deportados para uma ilha quente infernal, como incidentalmente um dos cartões ilustrados da série é forçado a fazer.

A minha opinião: 1/5

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Ischeznuvshaya imperiya (2008)

“Ischeznuvshaya imperiya” (2008)

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exorcismo

Sou português e, por isso, apesar de ter nascido nos anos 80, sei alguma coisa sobre nascer num país que tenta ultrapassar a sua própria memória. Para quem não sabe, Portugal foi o último continuador na Europa de um conceito fascista de “império”, uma ideia retro que empancou a vida cultural e a verdadeira evolução durante décadas, em alguns países. Terminou para nós em meados dos anos 70, mas lidar com uma mudança de definição colectiva tão radical é algo que se arrasta até aos dias de hoje, ainda que de forma apaziguada pela melhoria geral das condições de vida dos portugueses, mas que ainda existe.

Eu penso que a experiência soviética foi provavelmente mais radical e fundamentalista para as suas populações que os fascismos europeus latinos. E durou mais. Assim, lidar com as mudanças radicais em direcção a uma “democracia ocidental” forçada é provavelmente um processo doloroso nos territórios ex soviéticos, sobretudo o russo. É esse o enquadramento com que vejo este filme específico. Vejo-o como um exorcismo de fantasmas passados, mas também um piscar de olhos melancólico a esses dias.

Os factos da história, que é casual (está aqui como um caso “típico” e repetitivo naqueles dias) todos falam contra o que acontecia naquele regime e naquele contexto e, no entanto, evita moralizar. Ninguém é julgado (ao contrário do que acontece, por exemplo, em “as vidas dos outros”) e ninguém é inocente. É um tipo de aproximação que assume que devemos sentir o que se passava independentemente das políticas superiores ou dos contextos de poder que forjaram o que vemos. Aceito essa visão, aprecio-a. As opções cinematográficas são totalmente coerentes com o que vemos e, de vez em quando, vi Tarkovsky aqui, que tem tudo que ver com o como o cinema submete a memória. É bom ver um contexto social, uma certa juventude que nunca conheci, e um certo tipo de cinema que é doce e por vezes (não aqui) profundo e transcendente.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve