Arquivo de Abril, 2012

The Hospital (1971)

“The Hospital” (1971)

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o personagem maior

Tenho um grande interesse no trabalho de George Scott. Ele é único no contexto dos actores de cinema. Ele nunca abraçou a revolução do método tão profundamente como muitos actores americanos da sua geração, mas também não era um actor antiquado. A actuação dele, mesmo quando ele está perto de chegar ao exagero, é sempre fluída, e os filmes onde ele entra, mesmo que estejam datados em alguns aspectos, funcionam ainda hoje por causa dele (pelo menos). Ele é teatral no sentido em que as palavras, e não outra coisa qualquer, comandam a actuação. O fraseado dele apropria-se do texto e dá-nos todas as nuances que ele precisa para o filme. Ele transporta o filme.

Aqui temos todos os talentos somados a um guião inteligente, e um uso fantástico de espaço, de uma forma cinematográfica. O que temos é uma história de detectives caricaturada, sobreposta à vida de um detective acidental, sobreposta ainda a um cenário único e bem explorado. Sobre tudo isto, temos misticismo nativo americano, disfarçado na forma de uma mulher interessante no ecran. Por isso, tudo isto é uma história policial casual. Alguns assassinatos acontecem, poucas pistas são dadas. Seguimos esses assassínios desde um ponto de vista perdido, sem pistas que, no entanto, não coincide com o ponto de vista do médico atormentado, que actua parcialmente como um detective, até ao ponto de manipular a conclusão da história. Por isso, o truque narrativo engraçado aqui é a forma como o olho do narrador está agarrado ao espaço do hospital, mesmo que a história tenha mais que ver com a forma como o médico lida com os factos. Vemos a versão que o médico tem do mundo desde um ponto de vista externo a ele, e isto é interessante.

**spoilers** A certa altura uma mulher entra na história, uma besta mística e sensual, que nos desvia da história principal, até ao ponto em que descobrimos que ela tem (sem saber) a chave do enigma. E depois temos a história do médico consumido, suicida, sem esperança. Estas 3 linhas começam como linhas separadas que seguimos, ligadas pela acção do médico. A piada do guião é como no final estas linhas têm uma única conclusão: o assassino é o pai da mulher, e a mulher é o elemento que cura a depressão do médico. Por isso ele protege o assassino louco e tenta fugir com a mulher.

Ah, mas temos o hospital. Agora sabemos que esse era o grande personagem, todo o tempo. O médico percebe isto, e por isso é que não consegue abandoná-lo. A sua existência como personagem depende da existência desse hospital, como espaço. É esse espaço que manipula tudo o que acontece dentro dele, como se fosse aquele personagem de um filme de terror que nunca viste mas que sabes que está lá.

Reparem como isto é sublinhado pelos manifestantes. Eles estão fora todo o tempo, e tentam entrar, e à medida que o filme termina e a história se conclui, é a invasão do hospital que nos faz ter consciência do quanto estamos envolvidos com esse personagem agora. É o hospital, o tempo todo.

A minha opinião: 4/5

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The Artist (2011)

“The Artist” (2011)

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o sorriso

Já vimos coisas assim antes, não vimos? Filmes que não sobre filmes mas antes uma carta de amor a outros filmes.

Essas incursões ficam longe de me fascinar tanto como qualquer coisa nova que seja feita. Segundo penso, o cinema referenciado mais fascinante que existe é aquele que capta as lições de grandes filmes passados e que prolonga essas noções um pouco mais. Ou as quebra. Temos pessoas como os Coen ou de Palma que fizeram uma carreira a perverter ideias de pessoas antes deles. Se falamos de filmes mudos, então Guy Maddin é alguém que realmente pegou naquilo que deixamos de apreciar com The Jazz Singer, e perverteu todas as ideias para criar uma nova. É esse o tipo de referência que estou a procurar com essa paixão.

Este entra na gaveta Cinema Paraíso: uma paixão genuína e expansiva por um certo tipo e momento da história do cinema, moldado pela nostalgia. Compreenderás estes filmes se entenderes essa nostalgia, mas não necessariamente os filmes a que ela se dirige. Doçura desenvergonhada coroa esta atitude. Decidimos entrar nesse mundo ou não. Eu já o entrei várias vezes. Mas não fico lá mais do que alguns momentos sem sentir que estou a desviar-me de algo realmente importante que está a ser feito noutros filmes.

Dito isto, esta é uma homenagem bastante boa, nesse sentido plano. Alguns elementos funcionam muito bem aqui, e um é realmente interessante desde um ponto de vista cinematográfico:

O que funciona incrivelmente bem é o actor principal. Quem quer que o tenha escolhido compreendeu o potencial dele, e ele compreendeu o que era preciso para um actor mudo viver no ecran, e o realizador definitivamente compreendeu a cara dele, cada ângulo dela. Ele sorri de uma forma que vi poucas vezes. Aquele sorriso transporta o filme. Quando ele não sorri rapidamente entramos no ambiente depressivo do personagem. Actores que representam actores é algo sempre interessante. Fazê-lo basicamente com um sorriso apenas, fá-lo merecedor de Oscar. Já agora, ele é sempre um actor no filme. Quando ele está a actuar nos filmes mudos do filme, ele tem uma atitude semelhante em termos de consciência da câmara à que tem no mundo real do filme.

A narrativa desenvolve-se à volta de filmes, e termina com filmes, claro. Por isso é que os amantes se juntam a fazer um filme, e o amor dele por ela é reafirmado pelas cenas de outro filme que eles fizeram. É a auto-referência necessária para que estes filmes funcionem.

E há uma cena notável. O sonho “sonoro”. O nosso personagem mudo sonha que o mundo ganha som, objectos, tudo começa a produzir sons, excepto a sua própria voz. Isto é notável porque nada é explicado, tudo está no olho. A simples edição de sons numa cena de outro modo muda faz-nos compreender o drama deste personagem à beira da extinção. Esse foi um momento cinematográfico.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve