Arquivo de Maio, 2010

Nathalie… (2003)

“Nathalie…” (2003)

IMDb

o anjo bom

o último filme que comentei foi algo que considerei ofensivo, “les anges exterminateurs”. O comentário mereceu-me críticas por parte de um leitor zangado, e por isso voltei a ver esse filme para que pudesse reconsiderar a minha opinião. Mantenho o que disse: o filme é ofensivo na forma como assume que é um filme sobre voyeurismo e a sua relação com o sexo mas não deixa de ser o resultado simples de uma abordagem adolescente ao sexo, e o realizador olha para aquelas mulheres como um adolescente de 14 anos olha pelo buraco num vidro partido de um balneário feminino. É superficial, e ofensivo porque se leva a sério.

Por isso, depois de tudo, procurei este filme. Igualmente francês, igualmente sobre a representação de situações sexuais. Mas isto é um desporto diferente. É dirigido por uma mulher, e isso é significativo. Parece-me que as mulheres são mais internas quando olham para outras. Por isso este filme tem outra dimensão na utilização do corpo feminino (e cara!) que vai abaixo da superfície. Essas mulheres são ficcionais, mas bons personagens ficcionais. As duas actrizes principais fazem bons papéis e suportam as intenções da realizadora, parece-me. E sobretudo, o que temos não é gratuito. As imagens surgem como suportes visuais da história e não como meras ilustrações. E, mais importante, ao contrário de “anges”, aqui temos imagens que permitem o desenvolvimento da história na nossa mente (por isso a narrativa visual). Em “anges” tinhamos uma história qualquer sobre um realizador que queria fazer um filme sobre sexo, que era uma simples desculpa para mostrarem a nudez.

É a honestidade deste filme que eu procuro, sempre que vejo um filme. O filme pode não ser tão original como poderia ser (e este filme certamente não é assim tão original) mas aprecio a honestidade intelectual.

Fiquem-se por este, vai desafiá-los moderadamente. Não o outro.

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb

3 anos

Tem 3 anos a materialização desta ideia de que posso aprender a escrever, de que escrever sobre filmes me faz organizar mentalmente o que na realidade sinto com eles. Como se descobrisse cada filme dentro de mim ao escrever sobre ele. Acredito que o que tenho vindo a fazer resultará como uma espécie de indução intelectual, em que aprenderei pela acumulação de exemplos, pela intensidade e variedade das experiências que vou tendo em filmes. Talvez um dia, ainda não, tente aglomerar e generalizar algumas das coisas que vou percebendo e que vou sintetizando, dos filmes que vejo. Por agora, continuarei dentro das possibilidades, a escrever sobre filmes, 1 a 1, como tenho feito de forma lúcida desde 2007.

Até agora comentei 264 filmes (no último ano foram 84). Gostaria sinceramente de poder aumentar a quantidade de filmes comentados, mas não tem sido possível.

Neste momento as estatísticas de visitas do wordpress (que contemplam apenas as visitas on site) são:

7Olhares:__________43 238 (15 411 no último ano)

7Eyes:_____________12 961 (6 261 no último ano)

7Ojos:_____________14 473 (5 877 no último ano)

Total:_____________70 672 (27 549 no último ano)

Agradeço as visitas, e sempre agradeço as opiniões. Continuo a querer ser lido, e tenho-o sido cada vez, mesmo escrevendo ligeiramente menos. Obrigado

Les anges exterminateurs (2006)

“Les anges exterminateurs” (2006)

IMDb

simples masturbação

O sexo é universal, em todas as artes de todos os tempos, de todas as culturas. É universal porque é tão animal como cada homem. Por isso não há tema que tenha sido tratado com tanta riqueza e mais profundamente investigado como o sexo. Isso levanta a fasquia da exigência, por outras palavras, se queremos fazer algo interessante que tenha a ver com sexo só temos duas opções:

-ou fazemos algo que, mesmo que não seja original, actualize algumas coisas já antes feitas;

-encontramos algum recanto obscuro no sexo, normalmente ligado a outros mundos igualmente fascinantes, da mente humana;

este filme não faz nada com nenhuma das opções acima. é tão aborrecido como o escritor parece ser. Digo isto baseado nos diálogos e na entrevista que está nos extras do DVD.

Aparentemente este filme foi feito como uma espécie de provocação contra umas acusações de teor sexual relacionadas com o filme anterior do realizador. Creio que ele pode poderia encarar o filme como um exorcismo ou algo que pudesse ser levado para uma perspectiva “artística” do mundo. Alguma exploração pessoal dos limites do voyeurismo no sexo; um homem que estuda o orgasmo feminino quando o observa (e filma). Suponho que no decorrer do processo, o próprio Brisseau percebeu o frágil que era tudo isto e por isso pediu emprestados uns anjos ao Wim Wenders, para adicionar uma camada de misticismo no jogo de observação e, suponho, para que nos pudéssemos identificar com o anjo mais activo, como voyeur da situação voyeur.

Isto poderia até ter funcionado, mas apenas se o realizador estivesse mais interessado em fazer um filme, em vez de aparentar dominar o mais profundo do orgasmo feminino. Tal como está, o filme é uma exibição desonesta do corpo feminino, algumas mulheres são realmente, e genuinamente atraentes, mas o trabalho no conjunto é desonesto. Realmente preferia que isto fosse um filme assumidamente sexual, softcore, do que esta trampa aborrecida. Qualquer coisa de Brass ou Franco é melhor que este.

A minha opinião: 1/5

Este comentário no IMDb

The Drowning Pool (1975)

“The Drowning Pool” (1975)

IMDb

maré negra

Parece-me que o objectivo deste filme era explorar o personagem no ecran de um Paul Newman a esta altura totalmente estabelecido.

Isto significa que temos um filme construído sobre noções cristalizadas de estilo, associadas com o efeito cómico que vem agarrado a isso. Basicamente, o filme vive dos espectadores aceitarem o efeito Newman, e aceitarem o facto de que, porque ele está no ecran, isso basta para que o filme valha a pena. Por isso, usaram uma história noir estilizada, porque isso lhes permitia estar à volta de Paul todo o tempo, com todas as coisas a acontecerem à volta dele. Ele é (literalmente) o nosso detective. Este filme foi lançado 1 ano a seguir a Chinatown. Não sei o quanto eles consideraram este aspecto, mas suponho que de repente o noir estava na moda outra vez, e por isso um filme como este seria ainda mais apelativo.

Não sei se o filme funcionou nessa altura, mas posso dizer que hoje ele parece (e soa!) incrivelmente estranho, e hoje pergunto-me como é que eles esperavam safar-se com isto. Mas os tempos mudam e é possível que em tempos o filme pudesse ter parecido relativamente apelativo para um certo tipo de audiência. Essa audiência seria, suponho, as pessoas da geração de Newman, porque os seus 50 anos até poderiam ser curiosos para os jovens daqueles dias da mesma forma que, por exemplo, Harrison Ford, era apelativo para a minha geração (eu tenho 25), mas ele não estaria já exactamente no topo do mundo como os nessa altura já venerados de Niro, Al Pacino, etc.

O que estranhamente soa mal é a actuação de Newman, que é exagerada e, eu diria, preguiçosa. Ele vai com a maré, não se leva a sério (e isso poderia ser bom) mas depois cai numa espiral de auto-paródia, que parece exagerada e forçada. Woodward é a única boa actuação aqui.

E a “piscina” do título é uma boa acrobacia, admito. Tem um sabor interessante, obviamente realçado pelos corpos quase nus, que eram uma intenção clara e, bem, não tão afastada das premissas de qualquer filme Bond… Mas o resto do filme arrasta-se.

Ah, e isto foi filmado numa área que está agora mesmo à beira de deixar de existir em toda a sua riqueza natural. O mesmo petróleo que é o mcguffin desta história é o responsável hoje em dia. terrível.

A minha opinião: 2/5

Este comentário no IMDb

L’affaire Dominici par Orson Welles (2000)

“L’affaire Dominici par Orson Welles” (2000)

IMDb

o outro lado da televisão

Este é um documentário sobre um documentário “perdido” de Orson Welles. Que responsabilidade para quem esteve envolvido aqui.

Como poderão saber, a carreira de Welles está ainda aberta porque alguns capítulos fundamentais da sua última, mais hermética e por isso mais intrigante e sedutora fase, ainda têm de ser revelados correctamente. Entre alguns projectos certamente interessantes mas não tão importantes, há um filme chamado “The other side of the wind” que, apenas compreendê-lo em termos do que aconteceu durante e depois da produção, é já um desafio. A verdade é que até agora o que exista desse filme, que Welles encarava como o seu mais importante, não pode ser visto por mortais normais como eu. E porque a edição se tinha tornado um aspecto tão vital e fundamental ao longo da carreira de Welles, realmente penso que aquilo que ele não editou numa forma acabada, pode estar para sempre perdido nas suas intenções originais: só ele saberia o que pensava.

Mas o legado dele é simplesmente demasiado grande com aquilo que ele nos deixou, e a promessa do que ainda não vimos é também demasiado grande para nos contentarmos. E dessa perspectiva, qualquer coisa que possamos ver vale a pena.

Por isso, este documentário interessa? sim. Porquê? Porque gira em torno de um documentário não transmitido que Welles filmou e que foi o seu primeiro trabalho para televisão. E a televisão, apesar de ser essencialmente um meio desinteressante e até nocivo, pelo menos para mim, foi algo que Welles começou a fazer para ganhar dinheiro para os seus projectos privados, mas que eventualmente o transformou e originou, de uma forma remota, a sua última fase. É com a televisão que ele ganha o prazer por contar as histórias de uma forma directa, a meio caminho entre a pura oralidade de “contar histórias” e a sublime manipulação do cinema. Ao fazê-lo, ele começou aquilo a que chamaria “filmes ensaio”, algo que ainda falta desenvolver e explorar convenientemente.

Por isso suponho que devemos todos à televisão o facto de ter sugerido conceitos tão poderosos a Welles. E tudo começa aqui: a própria escolha da história, que que tinha de interessar e segurar-se sozinha, mas também permitir ser transformada, até manipulada, envolta em ambiguidade. O que ele faz, sendo totalmente comum hoje, foi em alguns aspectos revolucionário nas produções televisivas: ele contava a história destes homicídios de um conjunto de diferentes perspectivas, aparentemente sem interferir, mesmo que ele sempre estabeleça a sua própria presença como entrevistador.

Os pontos bons deste documentário sobre o documentário são que em primeiro lugar é-nos permitido ver o documentário original, na forma que ainda existe. O processo de produção é apresentado claramente, e de forma interessante, e há curiosamente um conjunto de comentários inconscientes à forma de Welles pensar, feitos por pessoas totalmente fora do cinema, que são realmente interessantes.

O ponto baixo seria o excesso de tempo passado a volta da própria história do caso Dominici, em vez de tratarem mais a história de Welles a fazer o caso Dominici. Os dois níveis estão lá, mas deveriam ter sido equilibrados de outra forma.

O que conseguimos sentir, aqui e nos seus documentários “around the world”, é a capacidade que Welles tem para escrever e reescrever histórias, adicionando e manipulando níveis. Mas a força visual que ele nos daria em “F for Fake” (e quaisquer outros excertos que tenhamos hoje de outros filmes) ainda não está aqui, mesmo que fosse ainda na televisão que veríamos as raízes dessa força (Portrait of Gina).

A minha opinião: 3/5

Este comentário no IMDb


Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve