Arquivo de Maio, 2008

What goes around, comes around (2008)

“What goes around comes around” (2008 )

Esta não é uma entrada normal. Não estou a comentar um filme que tenha visto, estou a mostrar um filme que fiz, em parceria. No passado mês de Abril (dias 7-18), aconteceu na FAUP, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto um workshop dedicado a explorar as relações entre cinema e arquitectura, fazê-lo num âmbito internacional, e experimentar praticamente explorar essa relação, ou seja, produzir filmes.

Das 3 experiências em que participei esta foi aquela cujo resultado final mais me agradou, e a única que acho que pode ter interesse mostrar aqui. Participaram na produção deste filme directamente 6 pessoas. Os créditos estão incluídos no filme, mas a pouca qualidade desta versão não permite ler. A minha participação passou pela cinematografia (trabalho de câmara, sobretudo) e a criação/execução da banda sonora. Procurarei actualizar este post com o resto dos créditos. Entretanto, caso alguém queira saber algo mais, agradeço que pergunte, por mail seria melhor.

What goes around, comes around:

A vossa opinião: X

CinemArchitecture

Yo puta (2004)

“Yo puta” (2004)

IMDb

Yo nada

Isto é um completo desperdício de ideias eventualmente interessantes. Gosto de realizadores que tentam ultrapassar canônes pre concebidos e formas de contar histórias. Nos dias de hoje, os melhores ensaios cinematográficos que se podem encontrar têm que ver com a reformulação de dispositivos narrativos e história, e num segundo plano, ideias visuais renovadas. Se o olho está em conformidade com o dispositivo narrativo, temos grandes filmes.

Aqui temos um trabalho de alguém que provavelmente concorda com o que disse acima mas, pelo menos esta tentativa (a segunda, confiando no IMDb) foi completamente desfocada, inútil, sem gosto. É um trabalho terrível, queria ser muito, tentou fazer coisas de uma forma imaginativa, mas o resultado final é um desastre originado, creio, na falta de sensibilidade de quem o engendrou.

Assim, contam-nos uma narrativa ficcionalizada, por camadas. Isto significa que temos um grande número de linhas a seguir (aqui associadas com diferentes prostitutas. O dispositivo escolhido é o falso documentário. No meio desta falsidade assumida, temos uma linha de ficção, com Richars, Hannah e Almeida. O problema é a rigidez com que esta construção é feita, e o pouco imaginativa que ela se torna no seu desenvolvimento. O que quero dizer é, as actrizes que representam prostitutas (realmente creio que todas eram actrizes, só tive 1 ou 2 dúvidas) são um cliché completo, alguém se sentou e pensou “quantos tipos de prostituas, e motivações para a prostituição, e condições sociais de prostitutas existem?”. E nada mais. Temos a ninfomaníaca negra africana, temos a brasileira com ar de disponibilidade sexual, temos a latino-americana descendente de índios, temos a acompanhante de classe alta (que é francesa!), temos o prostituto masculino. Temos aqueles que gostam do que fazem, aqueles que o fazem por dinheiro e aqueles que não têm outra escolha. Tão inútil, tão superficial, tão aborrecido, uma perda de tempo. Há grandes exemplos de falsos documentários sobre realidades meio reais (estando ‘F for fake’ no topo dessa lista) que é terrível que alguém pudesse fazer isto como o vemos. Qual é o sentido de retratar pessoas que parecem prostitutas, falam como vários estereótipos de prostitutas falariam, actuar como prostitutas, vivem como prostitutas, mas na verdade são actores? A pergunta é: porque não colocar prostitutas reais e fazer um documentário real se não há manipulação, não há intenção alguma por trás da ideia do falso documentário?

Depois, para concluir, a história ficcional. Uma estudante de antropologia, virgem, que estuda a prostituição. A sua vizinha é uma prostituta e devido a problemas financeiros, ela acaba por entrar no mundo. Qual foi o sentido? No final, isto desenvolveu-se como os documentários comuns dos canais de televisão, História, Biography, Odisseia, etc. Com uma diferença: com esses documentários, pelo menos poderemos eventualmente retirar factos interessantes, se não os conhecemos, e se queremos ser distraídos (eu não quero) podemos confiar nos terríveis momentos encenados.

A resolução visual do filme está de acordo com a inutilidade das escolhas narrativas. Na maior parte do tempo temos mulheres destacadas de algum contexto onde estavam a falar, e coladas sobre fotografias de hoteis baratos onde a prostituição ocorre. Outras vezes temos truques visuais, de imagens deformadas, e cores altamente saturadas.

A minha opinião: 1/5 evitem.

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Uncovered (1994)

“Uncovered” (1994)

IMDb

Kate e Barcelona

Esta é uma experiência que vale a pena, apesar das muitas falhas que o filme tem. É um trabalho fraco na maioria das características que se possam pensar, relacionados com a técnica cinematográfica, e expressão:

As actuações são infantis, isto aplica-se a praticamente todos os participantes. A excepção é Beckinsale, ela move-se de uma forma ingénua e arrapazada mas destila sexo. Ela concentra atenções sem ter demasiada consciência disso, e fá-lo bem. O resto das actuações são fracas. A edição não ajuda também. Os pressupostos para uma montagem deste tipo não são difíceis de seguir. Apenas tem de se contar acções físicas, lineares e comuns. No entanto há transições, problemas básicos de continuidade que não estão resolvidos, expressões nas caras que mudam, etc. A música também não é bem colocada, é uma má banda sonora no seu próprio valor, mas acima de tudo no ambiente que transmite. As referências tribais não eram necessárias, e de acordo com este tipo de história, de influência noir, teria sido interessante ter a música a ligar os cenários e evoluções da história.

Mas há 3 coisas pelas quais vale a pena ver o filme. Uma é a estrutura narrativa, como a história se desenvolve. O filme está baseado num romance de Pérez-Reverte, o homem que também escreveu A Nona Porta. Assim, temos uma fusão de arte e vida, a história que acontece à nossa frente foi “escrita” ou pelo menos determinada há muitos anos, por um artista, neste caso um pintor. A primeira cena é fantástica na forma como transmite isto, realmente foi uma das primeiras cenas mais significantes e económicas que já vi desde sempre. Basicamente começa com o primeiro plano de uma mão numa pintura (uma mão como sinónimo de poder, capacidade de fazer coisas), e a câmara afasta-se da pintura (move-se, não é zoom out) e vamos percebendo a margem da pintura completamente fundida com o ambiente “real” que a rodeia. Esta ilusão de fusão funciona por uns momentos, após os quais entramos no ambiente envolvente e esquecemos momentariamente a pintura. Isto funciona muito bem.

Outra coisa interessante é o uso da casa Batlló, de Gaudi. É interessante como a câmara (e a edição) mentem sobre o edifício, para realçar as suas qualidades. Não é uma exploração de espaço especialmente brilhante, mas é bastante competente: o que se passa é, vemos Beckinsale a subir as escadas que sobem para o primeiro piso, ela toca a campainha dessa porta. Estas escadas são lindas, curvam como as costas de um animal, temos a sensação de elevação, mais do que subir escadas. Depois isto é editado e o espaço interior que temos é do interior do sotão, que está construído com arcos que lembram a espinha dorsal de um animal e as costelas. Mais tarde no filme, teremos um plano exterior que estabelece o cenário e que conduz a câmara, do exterior, todo o caminho até ao sotão. Só aqui é assumido que o personagem vive no sotão, não no primeiro piso. Isto foi interessante e demonstrou interesse em jogar com a casa. Uma nota paralela é que este filme é uma boa oportunidade para ver o rés-do-chão da casa, que hoje está poluído pelas grades que conduzem turistas, e pelos próprios turistas, alinhados, que também enchem o passeio envolvente. Pena. Tenho a teoria de que o turismo está literalmente a matar e a sugar vida real dos nossos melhores sítios no mundo, mas isso é outra discussão.

De qualquer forma, o olhar turístico também pode ser visto nos planos que usam a cidade. Aqui também temos mentiras, normalmente relacionadas com a intenção de ter a todo o custo planos cliché. Creio que não foi bem feito isso aqui. Eles não tinham de mostrar todos os sítios conhecidos a toda a hora. Há sítios na cidade relativamente escondidos que são fantástico, e mostram muito mais do modo de vida que os monumentos. Um desses sítios é mesmo usado, o mercado de St.Antoní (a protagonista vive em frente a ele). O sítio tem vida, e eles usam-no bem em algumas cenas. Mas depois mentem sobre a cidade, por isso temos a protagonista a ir da Batló, à Rambla, à Sagrada Família, ao mercado, como se fossem sítios suficientemente perto uns dos outros para se caminhar, na sequência que eu indiquei. É uma mentira, e não tenho nada contra isso, mas tenho contra este esforço de fazer um postal ilustrado da cidade sem retirar nada útil disso. Um bom uso da arquitectura comum é o feito com a casa de Beckinsale, especialmente com as escadas centrais, e o elevador central. O uso do Parque Guëll não é particularmente interessante, excepto por algum movimento de câmara entre as colunas. E nesse movimento foram inseridos alguns casais que namoram encenando. Muito pobre, muito artificial, não era necessário, o parque tem uma vida própria interessante.

A minha opinião: 3/5

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1 ano

Há um ano atrás, dia 25 de Maio de 2007, publiquei o meu primeiro texto neste blogue, uma nota introdutória e de intenções. No dia seguinte publiquei o meu primeiro comentário a um filme. Não imaginei nessa altura que esta aventura trilíngue pudesse durar tanto tempo de acordo com as intenções delineadas originalmente por mim. Mas durou, já tive muitas alegrias, e bastante empenho nesta ideia.

Um ano depois, comentei 81 filmes no total, obtive uma quantidade razoável de respostas, perguntas, convites, simples notas a dar força para continuar, directamente no blogue mas sobretudo por mail. 81 filmes num ano significa aproximadamente 1,5 filmes por semana. Não imaginei poder ter esse ritmo, tendo em conta o carácter completamente amador de um blogue deste tipo. Espero poder continuar assim, e convido todos os que por aqui passam e que me leem a escrever-me com sugestões ou simples comentários sempre que assim o desejarem. É a maior alegria para mim poder ler as opiniões de pessoas que se interessam pelo que faço.

O WordPress registou estas estatísticas no último ano:

7Olhares: 13 537 visitas

7Ojos: 4 174 visitas

7Eyes: 2 711 visitas

Total: 20 422 visitas (visitas “on site”, excluindo “syndicated views”)

Fiquei satisfeito, nunca esperei vir a ter tantas visitas. Espero que continuem a acompanhar-me nesta ideia. Leiam-me, comentem-me e vejam filmes.

Rui Resende

ruiresende84@gmail.com

Angel-A (2005)

“Angel-A” (2005)

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Luc Besson mais tranquilo

O filme é doce, é açúcar, e tocou-me. O que Besson faz toca-me sempre. Ele tem qualidades que eu não reconheço em nenhum outro cineasta francês: ele confia na intuição, e não é pretensioso. Creio que a segunda é uma consequência da primeira. Também penso que ele é um realizador mal interpretado.

Ele não desenvolve os seus filmes em torno de construções narrativas ou histórias especialmente inteligentes ou complexas. Mas ele constrói tudo no olho, ele é puramente visual na sua narratica e no ambiente que cria para os seus filmes, e é isso que realmente aprecio nele. Ele tem ideias visuais para agarrar as histórias inúteis que conta. Mas essas histórias, apesar de superficiais e mundanas na maioria das vezes, ajudam-no a construir o modo cinematográfico, tal como ajudavam a Hitchcock. Uma boa forma de provar o que estou a dizer é ver alguns dos filmes que Besson escreveu sem realizar. Normalmente temos filmes de acção, acéfalos e inúteis. O que ele escreve só faz sentido quando é ele quem dirige. Por isso é que temos cenas de acção nos seus filmes (não neste). Ele na verdade não é um realizador de acção, não no meu dicionário. Mas é mal interpretado como sendo um, muitas vezes mesmo desprezado como sendo um realizador de acção.

Aqui ele tenta fazer algo que ainda não tinha tentado antes (ele sempre tenta coisas novas). Não utiliza tanto o trabalho de câmara (a vários momentos eu duvidei mesmo que ele tenha estado na concepção dos planos) como criador de um ambiente. Ele tenta fazer isso com a cidade e a fotografia.

O primeiro plano é claro e diz-nos tudo. Temos um personagem que mente sobre si mesmo, e imediatamente após, sofre fisicamente com essas mentiras. Um homem que tenta ser ele mesmo. Ele terá uma loira sexy para o ajudar, e teremos o envolvimento romântico que esperamos. É tudo. É superficial, e descartei o interesse intrínseco da história desde o início. Temos de nos focar nas cores. Não é preto e branco, é uma cor dessaturada, com predominância no azul. É subtil, tão subtil como normalmente o são os movimentos de câmara de Besson. Mas realmente senti a falta daqueles movimentos profundos, que exploram espaço como se uma cidade fosse o espaço submarino tão querido de Besson, que ele até já filmou. Este filme é doce, mas não é muito mais que isso. Precisei da relação Reno-Portman de Léon.

A minha opinião: 3/5

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Novo (2002)

“Novo” (2002)

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nada para além do que vemos

Este filme é confuso e desfocado. Tenta ser demasiadas coisas, e falha em conseguir alguma delas com sucesso.

O filme queria ser uma história de amor dita de uma perspectiva diferente. Queria jogar com a memória como creadora de realidade, ou algo capaz de definir uma certa realidade. Queria estabelecer a ambiguidade em relação às motivações e em relação a quem controla o que vemos; quem está a submeter a realidade do que vemos à sua visão específica. Também queria usar o sexo, e personagens de motivações sexuais (sobretudo femininas) como uma cola cinematográfica que juntasse tudo isto. Consigo pensar em vários filmes para cada uma destas intenções frustradas que resolvem o seu tema específico com mais sucesso que este. Não conheço um único filme que resolva bem tudo ao mesmo tempo. E se encontrar um, creio que não será pelos autores deste. Pelo menos a avaliar pelo que vi aqui.

‘Memento’ brincou com as noções e os efeitos da memória a curto prazo, e a perda de memória com muito maior profundidade. Aqui, temos as perdas de memória como o dispositivo que permite ao nosso personagem tornar-se a marioneta de outros e fazer o que outros querem. É o necessário para ele ser instável e para lançar a dúvida sobre quem ele é, o que ele quer. Noriega fez o papel equivalente em ‘Abre los ojos’, que era muito mais interessante. Nesta questão, até ‘o cão zarolho’ explorava melhor o tema!… Aqui temos ligações que existem para percebermos a evolução do amnésico, as artes marciais, as sessões de fotos, o bloco de notas. Mas nada disso é realmente usado. O final desenrola-se como uma situação romântica comum de encontro e decisão sobre que mulher o protagonista vai eleger (que se vê a milhas de distância).

Assim termina como a história de amor que o filme também quer ser. A parte da ‘mulher que ama o homem aceitando-o pelo que ele é’. É vulgar, mas tem uma nova roupagem, para parecer novo. Mas se paramos e pensamos, não há absolutamente nada que mereça ser mencionado sobre essa história. Se querem formas renovadas de juntar um ambiente de amor e a criação de realidades alternativas, tentem Medem. Em ‘los amantes…’, em ‘Lucia y el sexo’, em ‘La ardilla roja’. Ele consegue fazer isso. Por coincidência (ou não), aqui temos até a Lucia de Medem (Paz Vega) como a mulher do protagonista doente que, nos seus momentos de recuperação, fala espanhol…

Depois temos as tentativas de jogar com as forças que controlam o que vemos. Sabemos quase sempre tanto como o personagem principal. E praticamente todos os personagens (excepto o rapaz e a mulher que ama o protagonista) têm intenções ambíguas (tirando o facto de que levamos o nosso tempo a perceber onde cada um encaixa, isso é uma coisa boa). Dão-nos uma uma sucessão de factos que não podemos julgar correctamente. Mas depois compreendemos que o filme se desloca para parte nenhuma, e o que vemos é o que realmente é. Não há viragens, não há revelações, o que parece estar a acontecer está realmente a acontecer. Não significa que tivessemos de ser enganados, mas deveria haver alguma intenção por trás da ideia de lançar ambiguidade em cada canto. Vejam ‘Oldboy’, se querem trabalho de mestre em relação a estes conceitos.

A minha opinião: 2/5 isto é uma confusão, mas tem alguns conceitos interessantes se começarmos a pensar o que isto poderia ser.

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My life without me (2003)

“My life without me” (2003)

IMDb

Kar Wai e uma história

Começo a gostar de estar no mundo que Coixet cria para os seus filmes. Esta foi só a minha segunda experiência com o trabalho dela (a outra foi ‘a vida secreta…’)

Ela tem uma qualidade que aprecio imenso, que é a capacidade de construir um mundo e incluir-me nele, como espectador. E o mundo dela é muito pessoal, algo depressivo, mas que convida à auto-reflexão. Tem uma dialéctica interessante entre ser em si mesmo um mundo escuro, com sombras, povoado de personagens estranhos e pesados, mas no final passar uma mensagem positiva, no sentido em que nos motiva.

A estrutura é construída de forma clara: nos dois filmes que pude ver, ela segura as suas histórias em perguntas de “E se…”. E se tivesses apenas 2 meses para viver? não um princípio original, mas temos uma versão interessante aqui. A questão é imediatamente respondida pelo personagem que vai morrer. Ela escreve essa resposta, define tópicos. Nós vemos mesmo as palavras a serem escritas em frente a nós, no écran. Isto é simbólico. A questão surge de uma partida do destino: câncro. A resposta é completamente controlada pelo personagem de Polley. Assim temos uma luta entre o destino e o poder da personagem para controlar a vida que lhe resta. Ela controla todo o filme, desde o momento em que sabe que vai morrer. Ela submete toda a realidade da vida dela à visão que ela tem dessa realidade sem a sua presença. Assim, ela “escreve” os últimos dias dela, e escreve a vida daqueles que são parte do seu mundo e daqueles que ela vai permitir que entrem nesse mundo. Assim o mundo gira em torno de um personagem, que também o controla. Isto é uma narrativa inteligente.

Visualmente, o ambiente baseia-se no trabalho/movimento da câmara e alguns truques de edição inteligentes (sobretudo quando temos um monólogo que continua mesmo quando vemos a boca fechada do personagem a falar) e a fotografia. A forma como Coixet usa a câmara manual para nos fazer chegar próximo dos personagens é muito pessoal, e funciona, e creio que é a força visual dos seus filmes, e o que suporta o mundo desses filmes. A fotografia segue a tradição Kar Wai/Christopher Doyle, mais notavelmente no primeiro terço do filme. Penso que não foi uma boa opção. Kar Wai desenvolve os seus filmes como contentores vazios em que nós podemos colocar coisas num tipo de abstração muito sensível em que nós, como indivíduos, deveremos ser os principais intervenientes. A qualidade visual dos filmes de Kar Wai existe para nos apoiar e nos dar pistas na nossa procura mental/emocional. Coixet alimenta-nos com informação concreta. Ela dá-nos linhas para seguir, ela motiva a reflexão mas através das suas próprias reflexões (história) que nós deveremos seguir. Assim não poderemos com um filme dela meditar visualmente como fazemos com Kar Wai. Nos filmes dele, a imagem que temos é parte do contentor, o resto é connosco. Coixet enche esse contentor com elementos bem definidos, mas também se preocupa com as “paredes” do contentor, mesmo se elas estão tapadas com os personagens que ela cria. Em ‘A vida secreta das palavras’ ela separou-se desta emulação de Christopher Doyle, apesar do cinematógrafo ser o mesmo nos dois filmes (Larrieu). Suponho que isso teve algo que ver com esta observação que fiz.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve