Arquivo de Agosto, 2011

Blue Valentine (2010)

“Blue Valentine” (2010)

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sexo angustiado

Um filme como este é a consequência positiva de muitas coisas que aconteceram no cinema nas últimas décadas. O cinema é, claro, uma arte bebé. O seu núcleo essencial é a narrativa visual. Contar histórias em si começou há muito tempo já. as possibilidades que a imagem em movimento abriu apenas agora estão a ser descobertas. Uma das maiores revoluções visuais foi a possibilidade de quebrar a narrativa, algo que na literatura tem sido feito recentemente. Citizen Kane não foi o melhor filme de Orson Welles nem perto disso, mas agitou as coisas e quebrou praticamente todas as regras que o precederam. Desde aí, tivemos múltiplas experiências com a quebra da narrativa (algo normalmente referido incorrectamente como narrativa “não linear”). Kurosawa, Wong Kar Wai fizeram desenvolvimentos valiosos depois de Kane. Welles excedeu-se a ele próprio várias vezes. Iñarritu ou Kaufman têm feito jogos importantes com o tema. Até Haggis fez alguma coisa que importa. Por isso para já, o livro está muito longe de estar escrito totalmente, mas está aberto já. É possível fazer trabalho convincente por mera extrapolação. Este filme é isso. É uma peça sólida de narrativa moderna, perfeitamente referenciada aos seus importantes predecessores, seguindo caminhos conhecidos, sem inovar realmente. Mas é bom ver o bem que estes princípios narrativos se solidificaram.

A coisa superlativa aqui é outra. As actuações são soberbas, de Williams e Gosling, sim. Eles superam-se, fazem algo que nunca os vi fazer nas suas carreiras em termos de comprometimento, pura paixão, entrega. Funciona, e isso é relativamente raro, por isso podemos celebrar este filme apenas por isso.

*spoilers* Mas é nas subtilezas da história, a sensibilidade dos seus cantos escuros, a ironia última das suas reviravoltas e consequências que nos agitam. Começamos com um drama relativamente normal sobre uma grávida precoce, forçada a abdicar de alguns sonhos, mas que acaba por encontrar uma felicidade estável com alguém (não o pai da criança) que a ama. Os anos passam, e a relação gera conflitos profundos, eles separam-se, acaba. Tudo isto é fragmentado e contado por pedaços. A escrita é sensível, isto é cinema sólido por si mesmo. Mas o que é profundamente doloroso é a forma como o sexo é inserido no drama tradicional e as suas regras simbólicas invertidas. Temos 2 momentos de sexo no ecran:

Um é quando a criança é concebida contra a vontade da mãe, e com a indiferença do pai. Sexo por trás, sem paixão, mecânico e, no momento em que é inserido na história, doloroso para nós porque sabemos ao que levará, sabemos a dor que vai causar no futuro marido dela, sabemos a importância que terá. Um excelente exemplo de como quebrar a narrativa consegue realçar o poder dramático da história.

O segundo momento é um acto não completado, tosco e em última análise frustrado, de sexo, no motel, quando pressentimos que o casal apaixonado está à beira de romper-se. Aqui temos sexo missionário, mas mostrado de uma forma dura, da forma que um bêbedo o sentiria, da forma que 2 pessoas desesperadas o fariam. Uma vez mais, aqui arrasta-se dolorosamente a história para o fim que, sentimos, não será feliz.

Este é um dos melhores usos de sexo visível que já vi. É essa a força deste filme.

O trailer é notável.

A minha opinião: 4/5

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Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2 (2011)

“Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2” (2011)

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ir, derivar, chegar

Esta foi uma série interessante de seguir. Não partilho a excitação que trouxe fãs incondicionais dos livros a estes filmes nos últimos 10 anos. Nunca li nenhum livro completo, embora tenha tido contacto directo e próximo com alguns fãs loucos da série, por isso conheço as motivações deles. A discussão entre essas pessoas mexe-se à volta de como cada filme foi ou não capaz de chegar a todos os temas do livro, e produzir as imagens que os livros sugerem a cada leitor. Ou se aceitável ter deixado de fora certos elementos da história que um film Sempre tem de deixar. Nunca me interessaram esses argumentos, porque os filmes criam um universo próprio, relativamente aproximado ao dos livros, e por vezes até coincidente com eles, mas ainda assim autónomo. Por isso num certo sentido, os livros estão para os filmes como Hogwarts está para o mundo real dos filmes. Enraizado, mas não nele.

O que continuou a trazer-me para o franchise foi a ideia relativamente interessante de ver como estes filmes conseguiriam seguir uma história que dura 7 anos, usando os mesmos actores (adolescentes) que cresceriam com os seus personagens. A ideia mais interessante era esta: os filmes crescem como os personagens neles, como os actores que representam esses personagens E como o público alvo cresce com eles. Vemos os filmes amadurecerem em conteúdo, vemos os actores a ficarem mais velhos, vemos a textura do mundo cinematográfico mudar diante dos nossos olhos. Esse era um caminho interessante, sobreposto à minha própria evolução como espectador nos últimos 8 anos (quando comecei a ver os filmes). Este não foi um percursos linear e sem obstáculos. Os donos da série fizeram asneira pelo caminho, mas a verdade é que estavam a tentar fazer algo que não tinha sido feito ainda nestes termos, por isso temos de dar um desconto.

Por isso eles escolheram Columbus para os primeiros 2, um mestre dos filmes infantis, alguém cuja mente funciona especificamente para compreender as cabeças das crianças, visualmente e narrativamente. Os seus 2 filmes tinham um tema, visual, cinematográfico. Depois o terceiro, provavelmente o melhor filme, adicionou-lhe noções de tempo e espaço como um, e para esse chamaram um mestre nesse reino, Cuarón, o melhor realizador a trabalhar nesta série. Azkaban foi um filme amadurecido, evoluiu como um adolescente faria, e adicionou alguma profundidade cinematográfica ao mundo sedutor mas plano dos primeiros dois. Cuarón deu-nos o melhor Hogwarts e o melhor uso cinematográfico da história. A mudança dramática veio depois. O quarto e quinto filmes foram desastres absolutos, sofrendo dos mesmos erros de qualquer mau filme de adolescentes, ao pretender ser especial e apelar ao carácter único de cada pessoa enquanto é em si uma cópia aborrecida de milhões de outros filmes. Isto foi mau, tive pena que Yates não fosse capaz de seguir as pistas dos primeiros 3, ele quebrou uma corrente. Mas redimiu-se no 6º filme, e fez isso ao enraizar outra vez a série no espaço. Hogwarts outra vez, mas com uma nova visão. Esse foi um filme fascinante que, junto com Azkaban, deu-nos duas grandes visões de espaço cinematográfico. Depois disso, a história requeria que o filme seguinte fosse descontextualizado em termos de espaço e assim foi. Falei sobre isso noutro local. Foi uma jogada interessante, embora não especialmente poderosa no final.

E chegamos a este filme. Como esperado, este seria uma simples conclusão. Tinha de ser grande, ter fogo de artifício, cenas impressionantes, mortes dramáticas, sofrimento, dor, redenção. E tinha uma batalha, central no filme, na qual todas as forças colidem, todas as tensões são soltas, todos os esquemas terminam. Está modelado segundo o terceiro senhor dos anéis, e não traz muito para a mesa, uma simples conclusão, certamente requerida, mas não especialmente interessante.

Uma coisa é interessante no entanto. Temos um conjunto de pontas soltas que são atadas no filme. O irmão de Dumbledore, o passado de Snape, a “semi-morte” de Harry. A forma como cada um desses nós é atado à narrativa maior usa truques cinematográficos interessantes. Dumbledore, cuja imagem é reflectida num pedaço de espelho que Harry transporta com ele. Snape, através do pensatorium, que basicamente cria um filme dentro da cabeça de Harry. E a morte de Harry, apesar de ser uma trapalhada na forma como trataram do cenário, insere dois personagens (um deles já morto) numa terceira abstracção, sobre a abstracção que é Hogwarts e o mundo mágico, em relação ao mundo “real” não mágico do filme, em relação ao nosso mundo real como espectadores. Tenho pena que o filme tenha tido de gastar tanto tempo em batalhas e magnificiência para se permitir explorar estes truques.

Não diria que é essencial ou perto disso, mas não faria mal gastar tempo com estes filmes e vê-los como um no seu contexto.

A minha opinião: 3/5 (por este filme)

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José e Pilar (2010)

“José e Pilar” (2010)

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caminhos cruzados

É tão difícil fazer um documentário cativante. O processo habitual é transformar os factos das histórias que estamos a contar numa linha narrativa coerente, mesmo que na realidade essa linha não seja tão clara. Isso dará ao espectador uma história, algo que ele possa seguir. Mas a forma como seguimos essa história é normalmente mais externa do que quando vemos ficção, porque no documentário não podemos ou não costumamos usar os mesmos truques para nos fazer entrar na coisa. Há também a opção de reconstituir algum material, se o tema é história. Isso é banal e preguiçoso.

Aqui temos algo realmente interessante. O filme mostra-nos excerptos incontáveis das vidas dos 2 protagonistas ao longo de mais ou menos 2 anos. O filme é apresentado como uma reportagem, mais do que um documentário, e isso significa que as imagens são aquilo que fazemos delas, as palavras aparecem aparentemente de forma solta. Nenhuma narrativa manipulada nos é apresentada. Ou assim parece.

Por baixo desta exibição aparentemente aleatória de imagens, há uma estrutura por camadas muito subtil: A vida do casal José/Pilar no período do filme associada à história do elefante do livro que Saramago está a escrever. Logo temos a história que este filme conta, associada à história maior da vida de Saramago, com todo o seu peso na literatura e cultura portuguesas, como vamos compreendendo nas entrelinhas em vários momentos da narrativa. Toda a ideia de viagem e encontro associada à história de amor de José e Pilar.

E em última análise, como o título denuncia, essa história é central. A ideia de um par de pessoas unido pela arte de um deles, que escolhe partilhá-la, permitir à outra metade ser uma parte dela. Viver como um, é a parte bonita da história. Fico feliz que eles tenham escolhido partilhar essa parte da história connosco, ao permitir-nos entrar nela.

A arte dele interessa. Ele é um humanista, tem ideias profundas e profundamente poderosas, e mudou a linguagem, inventou uma nova forma com a qual nos podemos expressar.

Há um momento em que a metáfora da viagem associada às vidas das pessoas é perfeita: na terra natal de Saramago, uma rua tem o nome dele, e outra que cruza essa tem o nome dela. Caminhos cruzados.

A minha opinião: 4/5

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Gulliver’s Travels (2010)

“Gulliver’s Travels” (2010)

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preguiça

Algum dia vou ter de parar de ver filmes como este. Cada 2 horas que gasto a ver coisas destas são 2 horas que não passo a ver coisas que realmente valham a pena. Por outro lado, se és um espectador sério, terás de ter a tua dose de material banal. É um bom exercício compreender porque é que as coisas são más, é muitas vezes mais difícil do que perceber porque uma obra prima é boa.

Isto é profundamente banal e simples até este ponto: um filme deliberadamente agarrado a todas as convenções da comédia romântica hoje em dia. Sobre isso, temos um filme onde Black (um tipo de talento) está livre para explorar a sua comédia física e expressiva que já conhecemos muito bem.

Mas isto está remotamente ligado a um livro incrível, um trabalho importante na história da literatura. Lida com mundos paralelos, realidades múltiplas, uma transformação física do mundo, um tipo de flexibilidade mental notável para os seus dias. É sublime no seu próprio mundo, e deveriam gastar tempo com ele. Este filme é tão preguiçoso e inútil e tanto uma fraude como o personagem de Black: cita o material mas não faz absolutamente nada com isso. Cada coisa potencialmente interessante é um produto mastigado vindo de outra fonte qualquer.

A minha opinião: 1/5

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Death Wish (1974)

“Death Wish” (1974)

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controlar o contexto

Este é um filme banal, enraizado num conjunto de lugares comuns cinematográficos e convenções de personagens, realçados por uma banda sonora sublime.

O personagem é o que é. Parece-me que o estereótipo do durão adorável de Bronson foi criado aqui. Antes disso havia o que Leone tinha feito dele, ao ultrapassar as suas limitações óbvias como actor com grandes planos inteligentes, edição e timing perfeitos, e ambiente sonoro. Foi o que Leone fez, aliás, com um grande número de actores. Aqui ele inventa o tipo duro, perseguido por alguma tragédia no passado, e que a ultrapassa com violência, isolamento, e ao “fazer a coisa certa”. Este é o personagem seminal dele, e durou o suficiente para permitir a Bronson se tornar uma espécie de pré-Stallone. Por isso é que este personagem foi refeito 4 vezes depois deste filme. Por isso este solitário da justiça era a esta altura uma espécie de nova iteração sobre um arquétipo que começa bastante antes. Isso é bom, Suponho que é por isso que este filme ainda é minimamente celebrado hoje.

Mas o realmente excitante aqui é a forma como Herbie Hancock lida com a música. Ele é uma pessoa importante, alguém que construiu uma transição entre o jazz espacial e ambiental de Miles e os nossos dias, e empurrou algumas fronteiras do som e improvisação um pouco mais para a frente. Aqui ele faz isso com a música para filme. Ele baseia a música numa noção que Vangelis viria a explorar magistralmente em Blade Runner: não tem a ver com temas, tem a ver com ambiente. Podemos imaginar o ambiente e usar a música para o construir, ou podemos pegar nas emoções específicas ou pontos do enredo, e realçá-los com a música. Aqui ele faz ambos. Nova Iorque de noite, e suspense. O personagem principal, que seguimos sem parar, é um arquitecto, alguém que controla o ambiente com a construção, tal como faz Hancock com a música.

Vincent Gardenia é memorável aqui.

A dureza da violação/assassinato é também notável. A aspereza visceral dos cenários é perfeita para o ambiente da história.

A minha opinião: 4/5

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A Life Less Ordinary (1997)

“A Life Less Ordinary” (1997)

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expectativas

Este não é um bom filme. É divertido de acordo com um conjunto de aspectos que podemos recolher em muitos outros filmes. Os valores convencionais de comédia construídos ao redor de uma história romântica. Escapismo numa forma reconhecível por qualquer pessoa vagamente familiarizada com Hollywood.

Mas temos um pouco mais que isso aqui. Este filme é parte de uma trilogia de filmes onde entra uma trilogia de artistas interessantes: Boyle/Hodge/McGregor. Este conjunto de filmes foi importante para estabelecer a base de 2 carreiras interessantes e importantes (Hodge, entretanto, parece ter-se desviado das coisas interessantes, vamos esperar que regresse). O que eles fizeram foi o que poderemos chamar de experimentalismo, ou mesmo de experiências teóricas vertidas para um produto prático final. Dos 3 filmes, este é provavelmente o menos interessante. Não é especialmente apelativo, ou interessante como experiência. O objectivo era pegar num género específico, a comédia romântica, e manipulá-lo até termos uma nova perspectiva dele. O resultado fica bastante aquém do que, por exemplo, os Coen fizeram com Intolerable Cruelty.

Ainda assim, McGregor tornar-se-ia um actor poderoso, um dos melhores, e Boyle vale sempre a pena independentemente do que faça, e ele já fez coisas muito impressionantes desde então. Por isso este filme torna-se uma espécie de artefacto histórico se querem fazer arqueologia das carreiras destas pessoas.

O que aprendemos aqui é que desde o início que Boyle confia na sua intuição, e essa veia prevalece sobre a forma como ele racionaliza os seus conceitos. Essas intuições podem ser realmente poderosas ou resultar em nada (como aqui), mas ele está sempre disposto a correr o risco, e aprecio-o por isso, vou querer ver o que quer que seja que ele tenha para mostrar. E aprendemos que McGregor, já nesta altura, era um actor auto-consciente. Ele sabe que está a actuar, por isso a questão não é tanto a de parecer “real” (como uma quantidade obscena de actores sempre tentam parecer), mas sim entregar a actuação enquanto a reconhecem como tal. Esse provavelmente é o tema mais importante desta arte, no último século. No que toca a actuação para cinema, Ewan McGregor é uma espécie de estado da arte.

Mas este filme, a não ser que o coloquem na perspectiva do futuro dos seus criadores, é basicamente inútil.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve