Arquivo de Novembro, 2008

Men in Black II (2002)

“Men in Black II” (2002)

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IMDb

sem raízes

Bem, corrijiram aqui algumas coisas. Os cineastas compreenderam os buracos enormes do primeiro filme. Apesar disso, esse foi celebrado (neste momento tem uma classificação maior no IMDb).

Entre outras coisas, o que melhorou aqui foi a ligação que sentimos ao mundo alienígena. Há mais situações que nos fazem interessar minimamente pelo que os mib perseguem. Os aliens entram na acção, e algumas vezes são divertidos, o cão falante tem os seus momentos, e também o têm as minhocas.

Também a colaboração Smith-Jones é muito mais efectiva aqui. Isso porque eles criam os gags juntos, enquanto no primeiro a produção confiava totalmente em Will Smith para o fazer enquanto Tommy Lee estava num segundo plano a comprovar o quão divertido é Smith, mesmo no mundo do filme.

Mas, acima de tudo, uma coisa leva isto para outra dimensão: o personagem de Lara Flynn Boyle, suportado eficientemente por ela. Isso é colocar sexo na equação. O primeiro filme usa um vilão mal desenvolvido e totalmente desinteressante (o representado por d’Onofrio). Aqui esse papel totalmente secundário é realmente secundário, e representado pelo personagem de duas cabeças de Knoxville. O centro está ocupado por Boyle, e a sua presença afecta tudo, ela espalha raízes como as q o seu personagem domina. Ela foi uma boa escolha, e faz tudo isto funcionar; ela tem uma presença de ecran e sabe como posar para fazer tudo funcionar.

Isto é suficiente para um filme ser bom? A palavra ‘entretenimento’ estreitou tanto na indústria de cinema que é possível os mentores de projectos como este safarem-se? Pensem que apesar de serem ‘clássicos’ hoje, filmes como ‘Luzes na cidade’ eram na verdade entretenimento quando foram lançados. Nenhum filme consegue igualar esse no seu canto específico, mas vêm como as atitudes mudaram?

A minha opinião: 3/5

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Charade (1963)

“Charade” (1963)

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Honestidade

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Este filme funciona perfeitamente, provavelmente melhor agora que quando foi lançado. Sim, foi celebrado no seu tempo, mas os anos realçaram o charme (e a lenda) dos actores nele, e podemos vê-lo com um sentimento de mundo perdido, coisas passadas.

Stanley Donen, aqui já fora do sistema de Hollywood, apesar de depender dele, é um dos melhores realizadores americanos. Ele foi produndamente original nos seus anos como realizador de musicais, e nunca foi menos que competente no que fez depois. Isso inclui este filme apreciável. Para mim, um dos seus pontos mais fortes como realizador era a capacidade para misturar forças e talentos opostos, e criar uma visão unificada de tudo isso, motivando cooperação genuína. Não é isso o melhor que podemos esperar de um realizador? E que boa mistura ele faz aqui.

Creio que a ideia era criar um enredo que constantemente agarrasse a audiência por quebras constantes. Não sabemos mais que o personagem de Audrey, e tentamos adivinhar o verdadeiro carácter do de Grant. É extremamente eficiente porque as quebras são subtis e inteligentes, e o efeito dramático excessivo que elas poderiam ter é sempre atenuado pelo sentido de comédia do conjunto.

Grant passou uma boa parte da sua carreira a fazer comédia, e na verdade provavelmente ele definiu os padrões pelos quais a actuação em comédia ainda se regia no momento deste filme. O que o público considera “engraçado” fica rapidamente datado, mas o que ele faz aqui ainda funciona hoje, e isso é notável. Audrey/Givenchy estão nesta aventura, e ser o personagem que ela inventou para si no ecran encaixa perfeitamente aqui.

Os actores secundários também permitem que tudo funcione, especialmente Walter Matthau que, pela forma como as suas linhas são colocadas no filme, e como ele nos distrai com as suas excelentes capacidades como comediante, engana-nos a nós na mesma medida em que engana o personagem de Hepburn.

Henri Mancini é um dos meus compositores de cinema favoritos. A música aqui tem menos presença que em outros filmes que ele musicou, mas creio que ele joga com o ambiente pretendido.

Não conheço nenhum filme recente que trabalhe tão facilmente este ambiente de comédia/suspense e que pareça tão natural e pouco forçado. Aprecio as pessoas envolvidas nele.

A minha opinião: 4/5 vejam e conservem-no convosco.

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Men in Black (1997)

“Men in Black” (1997)

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Estilo passageiro

Este é um filme vazio. 11 anos não é assim tanto tempo, mas parecem décadas neste filme. Vê-lo agora faz-me perceber que não há nada para ver.

Este é outro filme desenvolvido em torno de uma certa ideia de estilo. Se começarem a contá-los, é incrível a quantidade de filmes feitos nessa base. Bem, é enorme mas compreensível: o estilo é algo atractivo para as audiências no momento de lançamento do filme (apesar de ficar rapidamente datado) e algo que não requer muita capacidade para que aconteça. Apenas o tipo certo, neste caso o Will Smith, que representa o topo do estilo para uma certa percentagem da audiência.

O Museu Guggenheim de Nova Iorque foi aparentemente uma boa escolha, mas mal usada. Queria ver o que eles iam fazer nele, mas afinal eles só queriam usar a longa rampa para mostrar como Will Smith era capaz de correr rapidamente até ao topo do edifício.

Se virem os extras do DVD, vejam como Barry Sonnenfeld soa um ignorante. Completamente inconsciente acerca do que o seu trabalho implica. Apenas realça curiosidades técnicas, não tem nada para dizer.

A minha opinião: 1/5

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Batman Begins (2005)

“Batman Begins” (2005)

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Entrar no filme

Nolan e Bale são dois dos realizadores-actores que mais me interessa seguir hoje em dia. Neste momento fazem um bom par, e para além dos renovados Batman (dos quais só vi este), fizeram o muito bom Prestige. Este par torna, para mi, o projecto interessante.

O que fizeram aqui foi ambicioso, sério, e não falhou. Aparentemente, Nolan queria mesmo fazer parte disto, e falou com a Warner Bros. em primeiro lugar. Ele sabia que podia trazer algo ao filme de super-herói, e provavelmente o Batman encaixava melhor naquilo que ele gosta de fazer. É um super-herói autoinventado, não foi criado por acidente, e no processo de criação da sua máscara (que é Batman ou Wayne?) há uma questão de procura interna, ao contrário de, por exemplo, IronMan, que joga à ciência com o próprio corpo. Assim, na visão de Nolan, nós precisamos de um actor que possa actuar, e vários artifícios cinemáticos e de concepção que funcionem. Temos todos esses dispositivos apontados aqui, ainda que sem sucesso total. Se considerar o top 250 do IMDb neste momento onde temos Dark Knight em 4º lugar, provavelmente resolveu os problemas nesse. Mas por outro lado, Shawshank Redemption está em primeiro.

cidade: a concepção do filme tem muito a ver com a cidade em si. Há claramente a intenção de criar algo desligado dos filmes anteriores – “realista”, nas palavras de Nolan. Por isso a cidade é modelada a partir de Chicago, algo que podemos reconhecer, e tem um manto negro que cai sobre ela, de decandência, bancarrota social, corrupção. Os espaços são bem explorados, e usados para o truque cinematográfico de que falarei.

Uma queixa: Gotham City costumava ser O mundo, no Batman. Nós nem sentíamos que havía um mundo fora dela, era autosuficiente, e equilibrada, como um mundo fechado onde tudo nasce. Tenho pena que não tenha sido mantida assim.

cinema: para lá das sequências hollywodescas do Wayne a treinar, o Wayne a aprender, o Wayne a construir fatos e encontrar lugares, há algo fantástico aqui. O enredo principal desenvolve-se ao redor de uma “liga das sombras” que tenta espalhar gás alucinogénico pela cidade. Esse veneno faz as pessoas verem tudo tornar-se os seus piores medos. Perdem o sentido da realidade, e começam a fraccionar a sua própria visão, e a não compreender/exagerar o que vêm. A edição e o ritmo do filme estão construídos de acordo com isto, por isso nos momentos mais activos, sentimos o filme como as pessoas de Gotham provavelmente sentiam o que viam. Tornamo-nos espectadores activos, e isso é muito bom. Só se sente em alguns pedações, e essa é a falha. A maioria do tempo é passado a construir o mundo do morcego, e as profundezas de Wayne. Gostava de ter tido mais dos pedaços alucinogéncios, mas escolho algumas sequências deste filme para ver várias vezes. Christian Bale está nesta viagem, ele sabe o que está a acontecer, e permite que isso aconteça. Grande trabalho. Isto é o que o cinema anda a fazer de novo ultimamente. Fazer-nos entrar no jogo.

A minha opinião: 4/5

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Beetle Juice (1988)

“Beetle Juice” (1988)

beetle

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Mundo danificado

Tenho passado algum tempo com Burton. Gosto dele, sinto-me estranhamente atraído ao que ele propõem, apesar de não poder deixar de notar as falhas notáveis.

Em resumo: ele cria mundos, por vezes é excitante apenas por isso, otras nem tanto. Mas todos os seus filmes são uma visão honesta do seu criador, e isso é algo que valorizo muito. Mas ele não é um grande realizador. Puramente como realizador, ele não consegue ser mais que competente, porque não trabalha os temas específicos da direcção (edição, câmara, direcção de actores…) com a mesma paixão e ponto de vista especial que põe na modelação dos mundos que nos dá.

Vejam este. Ele era ainda um realizador relativamente jovem (esta foi, ao que parece, a sua segunda longa). Ele não concebeu o mundo deste filme tão requintadamente como o fez com outros mais tarde. E o filme é um falhanço relativo para mim porque, uma vez que essa noção rica de estar dentro de uma mente torcida, o resto não se segura.

Ah, uma coisa salva tudo: a actuação de Michael Keaton. Nunca o vi actuar como ele fez aqui. Ele considera esta a sua melhor actuação e eu concordo. É uma grande performance física e verbal, que agarra a audiência tal como faz com os personagens do filme, e por isso o enredo desenvolve-se sobre a ideia de alguém que tenta (e falha) resistir a dar-lhe atenção. Muito bom.

As animações são queridas em alguns pontos, e têm o sabor de velhas animações, que parecem artificiais, mas nas quais estamos dispostos a acreditar. Recentemente vi um filme muito mau, Monster X, feito por alguém que poderia ter tirado deste algumas lições sobre honestidade na criação cinematográfica.

A minha opinião: 3/5

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Star Wars: Episode I – The Phantom Menace (1999)

“Star Wars: Episode I – The Phantom Menace” (1999)

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Darth Lucas

Devo dizer que fiquei muito mais satisfeito com este filme agora do que da primeira vez que o vi, na altura do seu lançamento. Provavelmente isso acontece porque nessa altura ainda acreditava ingenuamente que pudesse ter com este algo tão excitante como os filmes originais que coloriram parte dos meus sonhos de infância. Também porque a diferença entre este e os antigos era tão grande que não me deixava colocar este no seu devido lugar.

Sobre A Guerra das Estrelas: é impossível para mim ver os filmes antigos friamente como poderia ver um filme sem essa carga de nostalgia. Pensando nisso, penso que este é um complemento das velhas séries. Olhando para trás, vendo este e pensando nos antigos, creio que George Lucas não é um bom realizador, bastante vulgar até, e ele compreendeu isso quando delegou a realização dos episódios 5 e 6. Ele não tem nenhuma abordagem especial, ele faz o que qualquer outro poderia fazer; ele viu os mestres mas não conseguiu extrair o que eles realmente estavam a fazer. Mas ele é um grande contador de histórias, e foi magistral a forma como ele criou esta série.

Ele inventou uma cosmologia e alimentou as mentes secas de uma sociedade sem mitos com histórias que colocavam forças superiores (a Força) a controlar os seres vulgares, algo que os ‘rodeia’ (aqui ele matou a mística com a explicação ridícula dos midclorianos). A forma como as audiências evoluíram para apreciar histórias assim, baseadas no sobrenatural e na ideia de encontrar forças e eventos que nos excedam como humanos provou que Lucas estava certo, e ao mesmo tempo sublinhou o papel que os Star Wars originais tiveram em modelar o pensamento popular dos últimos 30 anos. Indiana Jones, Senhor dos Anéis (repescado para o cinema), Harry Potter e um grande número de séries equivalentes. As pessoas têm a tendência para procurar a religião, e a querer confiar nela. Isso é o que o pensamento positivista ‘causa-efeito’ não previa nem considerava, e as sociedades extremistas de inspiração marxista ajudariam a esconder. Para mim, entender essa tendência para procurar o mito é a chave do sucesso destes filmes.

Há 10 anos Lucas pensou que era a altura de voltar. Ele tinha muitos espaços na história para preencher, muitas promessas nos filmes antigos, toda uma galáxia de eventos por contar. Isso é rico, ele criou o universo dele, e quis explorá-lo mais. Mas o problema é que não foi suficientemente competente para o fazer. Aqui ele já não tem o ponto de vista inovador que tinha em 1977, quando os seus efeitos eram revolucionários, eles ainda me impressionaram quando eu vi os filmes pela primeira vez, no final dos anos 80. Aqui esses efeitos têm apenas uma qualidade média no meio do que tem sido feito ultimamente (para o que a investigação de Lucas pós-Guerra das Estrelas contribuiu muito). Assim, porque não temos esse lado inovador, e a história já é conhecida (quem conhece os velhos filmes sabe o que esperar deste), a magia desapareceu parcialmente, e as falhas de Lucas-realizador notam-se, vivas como nunca. Claro que há um conjunto de fãs absolutos que não abandonam o barco e votarão cegamente negativo neste comentário por culpa dos ‘insultos’ às suas crenças, mas mesmo esses penalizaram estes novos filmes (6.4 no IMDb, quando escrevo).

É uma história bonita, essa da Guerra das Estrelas, mas Lucas, ou desgastado e sem novas ideias, ou influenciado por caçadores de prémios ao redor dele (ou ambos os casos), estragou isto. É como se Lucas se tivesse tornado Anakin: ele era um rapaz curioso inteligente e brilhante, protegido pela Força e que supostamente traria pás e prosperidade à República, mas no final mudou para o lado negro.

A minha opinião: 3/5

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Kaubôi bibappu: Tengoku no tobira (2001)

“Kaubôi bibappu: Tengoku no tobira” (2001)

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western japonês

Esta é outra animação japonesa baseada nas convenções cinematográficas do western, e numa construção visual japonesa. É uma das três linhas que a animação japonesa tem seguido nos últimos 10 ou mais anos.

Este está especialmente bem feito. Vejam que todos os elementos narrativos reconhecíveis, e a maioria dos elementos visuals, estão ligados a culturas ocidentais. A cidade poderia ser japonesa, Tokyo, mas o resto não (incluindo a música). Temos um enredo vulgar sobre um terrorista com intenções de extermínio global. Caçadores de prémios, sobretudo um, tentam ter a recompensa, e mais tarde o principal torna o assunto pessoal, até porque se apaixona.

Estando em desvantagem, porque não vi a série de TV, reconheci aqui aspectos muito interessantes: pude seguir todo o filme, e seguir os personagens, os seus arcos dramáticos de evolução na narrativa sem nunca os ter visto antes. Fizeram um filme que, creio, pode ser inserido nas séries por quem as viu, mas ao mesmo tempo é uma peça independentemente, com valor próprio.

A produção é boa, e os japoneses têm uma capacidade de utilizar as cores de uma forma sóbria, criando imagens em que a prioridade é o equilíbrio geral da imagem no nosso olho em detrimento do jogo de profundidad de perspectiva (o uso da perspectiva sempre foi um conceito mais ocidental).

O filme não é inteligente e enriquecedor como algumas animações contemporâneas japonesas – como o formidável Paprika – mas vale a pena espreitar e viver um pouco com ela. Vou tentar encontrar as séries.

A minha opinião: 3/5

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La Science des rêves (2006)

“La Science des rêves” (2006)

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despertado

Provavelmente é difícil encontrar um filme que seja tão claramente a visão do seu criador como este.

Gondry tem feito um grande trabalho, explorando os limites da narrativa em cinema. O seu maior feito até agora foi ‘o despertar da mente’, mas aí ele estava associado com o ainda mais brilhante Charlie Kaufman, provavelmente o melhor argumentista a trabalhar hoje. Agora temos este ‘ciência dos sonhos’ e o muito recente ‘Be kind rewind’ (que eu ainda não vi) e temos o ‘Synecdoche, New York’ de Kaufman. O interessante de pegar em ‘desperar..’ e vê-lo antes e depois deste grupo de filmes é ver Gondry e Kaufman a trabalhar em separado, e compreender onde eles estão a levar, individualmente, o que começaram em ‘despertar…’. Creio que eles estão a trabalhar um dos campos mais motivadores no cinema de hoje.

Num certo sentido, isto é um tipo de expressionismo, no sentido em que todos estes filmes estão profundamente enraizados em vidas, reais e interessantes, independentemente do quão fantásticas pareçam, e o quão irreal tudo parece. Tudo isto é uma tentativa de mergulhar no oceano da alma humana, esse iceberg do qual só vemos uma ponta superficial. É fantástico que o cinema esteja a fazer isto. Provavelmente é um dos melhores meios para o conseguir.

Neste caso, temos uma construção visual minimamente complexa, a partir de uma ideia simples: a mistura entre sonhos e realidade e o conceito ainda mais interessante de que, se os sonhos são um reflexo da nossa vida diária misturada com as nossas preocupações mais obscuras, a vida também pode ser contaminada pelos sonhos. Assim, a vida invade os sonhos, e ao contrário. Depois, temos o dispositivo já usado em ‘despertar..’, diminuindo as diferenças entre sonho e realidade e muitas vezes deixando ambiguidade em relação a isso, aqui diminuida em grande medida pelos bonecos que mostram os sonhos (objectos, telefones, carros) e que constroem o ambiente do subconsciente.

Aqui temos um elemento extra, visitas ao interior (literalmente) da mente do personagem principal, que nos faz ver coisas pelos olhos dele, pensar pela sua mente (ele toca bateria, como o realizador costumava). Outros jogos incluem uma máquina no tempo, que avança e recua 1 segundo, e um barco com um bosque no interior.

Vê as pistas, vê onde te levam. Eu gostei.

A minha opinião: 4/5

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The Argentine (2008 )

“The Argentine” (2008 )

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um contentor para os pensamentos de cada um

Vi este filme como um documentário ou, mais justamente, como uma meditação pessoal mas directa sobre as próprias palavras do homem, no seu contexto, que no fundo é uma definição para documentário. Fiquei profundamente impressionado com a honestidade deste filme. Percebi onde Soderbergh, o artista, estava, quando senti o espaço que ele deixou para eu poder pensar. Como ele usa a própria história do Che sobre a parte da sua vida que o filme mostra, com a menor manipulação possível (editar o livre já é uma manipulação) e ainda assim, cada espectador é que tem de colocar as suas próprias opiniões sobre o que viu – mais ou menos distanciadas do tema conforme a nossa idade e de que terra somos. Claro que isto está feito considerando que quem vai para o filme tem um conhecimento prévio do contexto e do momento, e que personagem estamos prestes a ver.

Num certo sentido, ponho este filme junto com ‘La pelota vasca’ de Medem (um documentário assumido) no sentido em que ambos mostram uma sensibilidade extrema em trabalhar com temas tão delicados como os que escolhem trabalhar. Ambos causaram contestação, mais com o de Medem porque o realizador estava mais ligado ao problema mostrado, e porque a história está longe de estar fechada, mas para mim ambos são filmes abertos que, como qualquer filme contemporâneo devia ser, deixam uma boa parte do pensamento para o público, e funcionam como um incentivador de discussão.

A estrutura narrativa é eficiente, o trabalho artístico e edição são de grande competência. Che nos bosques da Serra Maestra, à beira de conquistar o poder em Cuba alternado com a sua visita aos EUA em 1964. Esta segunda linha está filmada em preto e branco, a outra tem cores lindas. A ausência de música foi uma escolha minimamente arriscada que eu apreciei. O resto, podem pensar sozinhos. Del Toro está muito bem, concentrado internamente, resistiu totalmente a ser o que nós esperaríamos do Che, e isso diz muito, ser capaz de interpretar uma figura com essa aura carismática ao seu redor, que nós podemos sentir sempre que as suas palavras são pronunciadas. A partir deste filme admiro Del Toro; antes disto não o via como vejo agora. Vou ver as suas actuações anteriores, tenho de ver se não tinha notado o bom que ele é. Completamente ao contrário, Bichir como Fidel é um desastre total, francamente uma das piores actuações que já vi. Como pôde ele pensar que o Fidel tem que ver com imitar uma voz, alguns gestos, e segurar num charuto. Que mau.

Claro que a história deste homem é controversa, o que significa que se podem formar opiniões radicalmente opostas a partir dos mesmo factos, conhecidos e aceites. A quantidade razoável de discussões que já tive desde que vi este filme com pessoas que também o viram prova que estou certo. Para mim Guevara foi um homem lúcido, que leu perfeitamente bem as mecânicas do mundo oprimido onde ele estava. Escolheu ficar nessa parte e viver como eles, apesar de não ser como os oprimidos, e isso merece admiração. As ideias que ele formou da injustiça que ele viu são o produto de uma mente genuína. Mas apesar do diagnóstico ser correcto, todo o processo de o transformar em factos práticos foi uma desgraça, para mim. Ele esteve na raiz de um regime inserido num regime maior, que cresceu em arrogância, em hipocrisias, e num certo momento tornou-se algo pelo menos tão injusto para as mesmas pessoas oprimidas como a situação anterior. E é por isso que, apesar de querer ter sido diferente, esta revolução usou as mesmas armas de força e superioridade física que os outros tinham usado. E isso matou toda a ideia. E o Guevara estava lá, com isso, sendo opressivo quando pensava que estava a ser melhor, creio que por ingenuidade. O que quero dizer é, leiam o homem, as suas observações são provavelmente tão ou mais correctas hoje como eram quando ele as fez, mas não sigam os passos dele, eu não seguiria, pelo menos sabendo o que sei hoje.

Notem também como o ícone Che cresceu a proporções incríveis, por 3 razões, para mim:

-Morreu novo, e lutando por ideais, pelo menos disparando por ideias;

-Ele foi repescado pelo próprio capitalismo que ele rejeitou e foi vendido como um ícone para as populações (maioritariamente jovens) desesperados por sair das contradições deste regime, vejam a contradição disto;

-Ele tinha uma imagem que o segura, literalmente uma imagem, a fotografia que Korda tirou. É fantástico, e provavelmente um caso único, como uma única imagem pode mover milhões, como o momento certo, com a publicidade certa pode ser tão poderoso. Se pensamos nisso, entre os capitalistas que vendem t-shirts e os liberais que acreditam em Guevara, esta imagem é o centro da campanha publicitária mais bem sucedida de sempre. Uma vez mais, admiro a inteligência de Soderbergh em deixar a imagem fora deste filme. É mais que evitar um cliché. É evitar que os espectadores caiam e recordem os preconceitos que eles fizeram (eu incluído) sobre essa imagem.

A minha opinião: 4/5

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Kagemusha (1980)

“Kagemusha” (1980)

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o filme como um quadro

Vi o meu primeiro Kurosawa há 7 anos. Tenho 24 e logo isso é uma quantidade relevante de tempo. Apesar de tudo, sinto que sou um principiante, também porque apenas tenho um par de anos a ver seriamente filmes, tentando aprendê-los e aprender com eles. Por isso este comentário é mais uma aproximação, seguramente ingénua, mas para fixar algumas ideias que tive ao ver pela primeira vez este Kagemusha.

24.10.2008

-Kurosawa trabalha como um pintor. É bem conhecido que ele pintava a maioria do que filmava, e isso ajudava-o a criar na mente o que ele queria trazer para o olho. As pinturas, em si mesmas, valema pena ver; um extra no DVD tinha uma edição dessas pinturas com o diálogo do filme sobreposto, para mostrar o filme. É uma boa experiência em si. Assim todos os planos são perfeitamente considerados. A composição é fantástica, equilibrada como só um artista poderia conseguir;

-num certo sentido, este é o primeiro Kurosawa a cores, porque é o primeiro em que ele realmente joga com a cor, e a faz parte da composição. As experiências anteriores em cor funcionariam igualmente bem em p/b. Aqui não. Reparei como as cores transportam as acções, como os enquadramentos perfeitamente balançados ganham vida por causa das cores. Os céus são fantásticos, claro, e o sonho nas nuvens também. O ambiente artificial faz o filme parecer um esboço, como na verdade foi, já que é conhecido que Kurosawa estava a preparar com este o grande projecto (Ran).

-A edição é fantástica; os enquadramentos são quase sempre parados, o seu olho funciona como o de um pintor, mas a edição sequencia todos os planos perfeitamente e isso faz-nos acreditar q a seguir a determinado plano, só há um possível para fazer as coisas funcionarem, e esse é o que vemos. É uma estrutura sublime, sólida como uma rocha, e se trabalharem mentalmente, vão ver que não tirariam ou acrescentariam nada. Kurosawa talvez o fizesse. Penso que a edição era um processo mental para ele, ele pintava magnificamente o storyboard, mas na sua mente também construía o esquema da edição. Por isso é que ele conseguia editar de noite o que tinha filmado durante o dia.

-a história é, como muitas, sobre actores que actuam. O papel de um líder tem em si mesmo tudo que ver com actuar. Essa necessidade de sentar-se numa batalha, imóvel, sem mostrar medo, é mostrar algo aos súbditos, e aos inimigos, que pode não corresponder à verdade. Aqui temos um duplo a fingir que é esse líder.

-Coppola e Lucas merecem agradecimentos por permitirem que isto tenha acontecido. Contudo, quando eles falam é claro que Coppola tem muito mais consciência do que trata o filme e o trabalho de Kurosawa, enquanto que Lucas fascina-se com os efeitos visíveis. Isto é significativo. Eu nunca fiz um filme, quem me dera poder, mas não creio que criar um tenha muito que ver com a lente que se usa, ou como se gerem câmaras múltiplas num plano, mas provavelmente tem mais que ver com o que se quer dizer (e como). O primeiro tema é técnico. O segundo mexe com a alma. Por isso é que, dos dois, Coppola foi o que reconheceu as falhas gerais deste bom filme – avassalador se pensarmos nele como uma mesa de experiências, a tela de um pintor.

A minha opinião: 4/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve