Arquivo de Maio, 2011

Badlands (1973)

“Badlands” (1973)

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flutuar

Se não sabemos nada sobre este filme antes de o vermos, ou se não vimos nenhum dos filmes que Malick fez depois deste, parece-me que ainda assim veremos bom cinema aqui. O filme é sólido dentro de qualquer medida que consideremos para este tipo de filme. Um tipo de anti-filme, uma expressão de ambiente em vez de história, contemplação em vez de reflexão. Os anos 70, no crepúsculo dos 60, eram ideais para isto. Isto não tem tanto a ver com mudar o mundo, como tem a ver com contemplá-lo, estar nele, ou deliberadamente por fora dele, enquanto o reconhecemos, como fazem os personagens deste filme. Por isso é que nos anos 70 tivemos os Antonionis mais profundamente introspectivos, tivemos a criação de ambientes mesmo no material underground de Monte Hellman, no seu Cockfighter. E a esta altura, tínhamos o desconhecido Malick, cujo passado é um de filosofia e não de cinema. Ele é um pensador, mais que um realizador.

No entanto, nas suas poucas iterações em cinema, ele deu-nos algumas das experiências visuais mais profundas de sempre. Aqui, ele fica-se pela fórmula do ambiente, suponho que por ser o seu primeiro filme e ele não conseguir ou não arriscar esticar as oportunidades sem se sentir seguro de conseguir dominá-las. Por isso o que ele nos dá é um filme numa forma reconhecível, enquanto lhe coloca o espírito daquilo que ele dominaria, em anos posteriores. Este género está totalmente inscrito no espírito de cinéfilos de todo o mundo, é um clássico no filme americano. Mas as intenções de Malick estão noutro sítio. Ele não é um Coen, nunca o quis ser. Ele não quer pegar num género e subvertê-lo tanto quanto consiga até descontextualizar todo o filme. Por isso é que ele escolheu esta história, sobre 2 personagens totalmente largados no nada, que vão gradualmente matando todas as suas ligações ao mundo reconhecível. A loucura latente justifica o que Malick faz. E o que ele faz são pedaços interligados, fragmentos de motivos incontáveis. Narrativas paralelas que não têm sentido na narrativa principal (se é que há uma) a não ser pelo facto de estarem lá.

Um dos melhores elogios que posso fazer a um filme e um realizador é que ele seja capaz de nos colocar num possível mundo mais ou menos alternativo. É esse o objectivo principal dos filmes. Malick empurra esse limite um pouco mais. Nunca estamos no filme, mas flutuamos ao redor dele, inseguros acerca do onde ou quando estamos, ou mais importante, o que somos enquanto espectadores, qual é o nosso lugar na narrativa.

Este filme é bastante cru, percebemos as intenções (agora que vimos já o que ele construiu depois deste) e há pedaços do filme em que atingimos esse estado de maravilha indeterminada. Mas este filme é apenas um esboço. O homem só estava a começar! Novo Mundo e Barreira Invisível são aqueles onde ele chegou mais alto. E suspeito que a Árvore da Vida poderá ser um passo tão grande como esses 2.

Sissy Spacek, que mulher em filme, que olhar, que inocência auto-consciente. Que fantástica Lolita ela poderia ter sido, se tivesse representado o papel.

A minha opinião: 4/5

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A Bela e o Paparazzo (2010)

“A Bela e o Paparazzo”

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hyde e hyde

É difícil para um português comentar filmes portugueses, mesmo que goste do filme. O problema é que o cinema português, independentemente do tipo de filme (em Portugal a questão é reduzida ao filme ser “comercial” ou “artístico”) existe quase sempre para consumo interno. Não há absolutamente nenhuma projecção internacional para filmes portugueses. Dois autores fazem um caminho fora, Pedro Costa e Oliveira, mas são criadores dirigidos a uma audiência específica e relativamente restrita, e mesmo se tivessem maior número de espectadores, isso ainda não seria minimamente suficiente para carregar o resto da produção com eles. Parte do problema parece ser a própria equação do problema. Muitos comentadores perdem tempo a balbuciar sobre como “cinema português”, considerado como entidade orgânica e autónoma, deveria ser feita: se para “vender” a tantas pessoas quanto possível ou para “agradar” aos críticos, que deverão decidir as suas qualidades. De acordo com esta dicotomia liderante e sem sentido, estes 2 aspectos são incompatíveis. Para aqueles que acreditam na versão “vender”, o “cinema americano” (outra expressão sem sentido dada a vastidão do que o conceito abarca) deveria guiar o caminho.

Porque é que importa referir isto ao comentar este filme? Porque, entre muitas características mais, o seu realizador é alguém que gasta uma quantidade enorme de tempo a dirigir-se a este problema. Não é um tema ligeiro. Acredito que o cinema pode realmente ser o meio abençoado para questionar temas de identidade colectiva, preocupações nacionais. Que melhor documento para compreender a forma como os governos americanos e soviéticos tentaram influenciar as mentes do seu público durante a guerra fria do que o cinema? Por isso obviamente que me preocupa que Portugal não tenha sido capaz de sustentar a renovação constante das narrativas sobre os nossos temas nacionais. E ainda mais que a maioria dos nossos filmes simplesmente não valham a pena ver.

Essa é a outra face do problema. O que se passa aqui não é que cada realizador escolha “ser” comercial ou “ser” um autor. Isso é fogo de artifício. O real problema, associado ao da distribuição horrível, é que os filmes simplesmente não são suficientemente bons para merecer a atenção de uma audiência nacional, muito menos de uma internacional. Admito que o público português em geral é muito mais duro com um filme português do que com um americano equivalente. Por outras palavras, as pessoas vão tolerar certas coisas num filme americano que simplesmente vão rejeitar num português. Mas mesmo que isso não seja justo, deveria fazer levantar a fasquia, e produzir uma reacção por parte dos cineastas portugueses.

No meio disto temos Vasconcelos. Que já anda por aqui há algum tempo. Com o seu esforço e mérito, conseguiu ir filmando ao longo dos anos. Não tanto como seria desejável para um realizador profissional numa indústria de filmes saudável, mas apesar de tudo já teve as suas chances. Que legado deixa ele? Que qualidades é que trouxe? Importou modelos, e tornou-os pior ao Não os adaptar nada, na maioria das vezes. O trabalho recente dele, dos últimos 12 anos, foi pegar num género americano atrás do outro, e repeti-lo com a menor alteração possível. Tão americano quanto possível. Cinema pelos números. Tentar atingir um reconhecimento fazendo exactamente o que outros já fizeram num sítio qualquer. Qual é o mérito disso? Não tem a ver com Onde alguém se vê no mundo dos filmes. Tem a ver com se o teu trabalho é o de um pirata ou o de um criador genuíno. Não é preciso ser um génio. Se vamos a Hollywood, ou recordamos a nova vaga francesa, 2 referências queridas deste realizador, a maioria dos seus protagonistas estão muito longe de ser génios. A maioria simplesmente se adapta às circunstâncias e rema com a maré. Mas é necessário competência, e honestidade nas adaptações também.

Este filme não é honeste, e por isso falha. Como português, não vejo nada aqui. Admito um filme com o mesmo tipo de audiências-alvo vindo do mercado americano, porque vou vê-lo como uma peça de um puzzle, um pedaço da sua indústria. E a maioria desses filmes, mesmo os piores, são mais competentes que este. Para fazer isto, ou seja, usar uma sempre rara oportunidade para fazer um filme português genuíno, independentemente de como se faça, e desperdiçar a chance fazendo isto, aborrece-me. Irrita. Não há discurso que compense a dor de ver este filme. cinema é mais ficção que vida, sempre o defendi. Mas ao mentir sobre a vida real, contém em si uma noção mais alargada de realidade. Isso é verdade sobre as comédias portuguesas dos anos 30 e sobretudo 40, aqueles filmes tão queridos deste autor, que os referencia aqui mesmo no início deste filme, com um personagem literalmente a ver um velho clássico português. Apesar de terem um patrocínio político, esses filmes cinicamente acabam retorcidos e tornam-se uma crítica ao seu próprio promotor, tornam-se propaganda e o seu reverso, um retrato riquíssimo das contradições e tensões desses dias. Onde é que temos isso aqui? Qual é o objectivo de entrar no mundo moderno e estúpido das novelas que dominam a televisão portuguesa e estupidificam (ainda mais) as pessoas só para produzir um filme que é tão vápido como essas novelas? Falar sobre os problemas apenas para se tornar mais uma parte do problema, esses têm sido os últimos desenvolvimentos da carreira deste realizador.

Normalmente, aborrece-me quando vejo um filme mau. Por vezes divirto-me com coisas paralelas relacionadas com o filme. Mas nada dói mais do que comentar assim um filme português.

A minha opinião: 1/5

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4 anos

Assinala-se aqui mais um aniversário deste blogue. No último ano, por motivos vários que não importa numerar, o ritmo de publicações foi bastante mais baixo do que em anos anteriores. Tenho até agora 305 filmes (41 no último ano).

No decurso deste ano desisti, espero que apenas temporariamente, de actualizar a versão do blogue em espanhol. Questões de tempo. Espero poder retomar a publicação em 3 línguas que vinha fazendo até agora.

As estatísticas do wordpress que contemplam apenas visitas on site registam:

7Olhares__________53 154 —– 9 916

7Eyes_____________16 894—- 3 933

7Ojos_____________16 432—- 1 954

Como sempre, agradeço as visitas, agradeço a leitura.

Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec (2010)

“Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec” (2010)

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mergulhar na piscina

No mesmo festival, pude ver os 2 filmes mais recentes de 2 dos meus realizadores franceses favoritos actuais. Jeunet e Besson estimularam a minha imaginação, e por isso os meus sonhos, com o trabalho anterior deles. Agora, com o seu trabalho mais recente, eles tiraram os 2 umas férias. Ambos os filmes são relativamente inúteis, comparando com aquilo que eles já fizeram. Mas no Micmacs de Jeunet, ainda temos muitos dos elementos que superficialmente construíram o estilo dele, e que nos fizeram em parte apaixonarmo-nos pelo seu trabalho em primeiro lugar: a fotografia filtrada, o uso das cores, o uso insuperável do espaço, a estranheza do mundo. Tinha falhas e em última análise é inútil, até moralista, mas o seu exagero compensava a falta de um conteúdo real.

Aqui não. Tenho medo que tenhamos perdido Besson como um realizador sério. Digo mais, parece-me que os efeitos especiais contaminaram a sua forma em tempos puramente visual de conceber os planos, que construíam um ambiente, normalmente para suportar uma forma poética de ver o mundo, e as obsessões pessoais de Besson. Tivemos isso desde cedo, desde Dernier Combat, até aquela carta de amor ao oceano que é Atlantis. Léon está lá em cima na minha lista, por vários motivos. Em anos recentes ele tem trabalhado com animação, na série Arthur. Provei o primeiro, e não gostei, porque as animações são, como muito, banais segundo os padrões de hoje, e porque a fluidez que nasce da narrativa, e se prolonga com a câmara até nós, espectadores, essa fluidez que sempre foi a maior força dos filmes de Besson, desapareceu. Não há rasto do homem que em tempos foi mergulhador, e que levou as sua visão de mergulhador para o mundo dos filmes.

Este Adèle é algo que vem depois de Arthur (ou no meio). Como enredo, como história, dá a Besson o mesmo tipo de possibilidades visuais que, por exemplo, o Quinto Elemento. Muitos cenários, muitos sítios, cenas de acção. Tudo pretextos para fazer a imagem oscilar e levar-nos com ela. Parece haver uma obsessão fora do filme pela actriz principal, e esse é o elemento mais valioso do filme. Vemo-la ser repetidamente acariciada pela câmara, que a eleva, a torna poderosa, faz-nos adorá-la um pouco. Essa é a parte boa. Mas os dinossauros, as múmias, tudo isso escapa ao controlo de Besson, tudo isso é o trabalho dos especialistas do computador, e para já pelo menos, parece claro que Besson não consegue manipular a animação como consegue manipular os movimentos reais das câmaras, como já provou por mais de 2 vezes. Mas ele parece interessado em explorar isto, para lá do seu papel de produtor. Se ele conseguir controlar estas ferramentas, poderemos ter algo memorável. Se não conseguir, então perdemos um realizador inteligente. É ele a jogar.

A minha opinião: 2/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve