Archive for the 'Fantasporto 2009' Category

Ischeznuvshaya imperiya (2008)

“Ischeznuvshaya imperiya” (2008)

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exorcismo

Sou português e, por isso, apesar de ter nascido nos anos 80, sei alguma coisa sobre nascer num país que tenta ultrapassar a sua própria memória. Para quem não sabe, Portugal foi o último continuador na Europa de um conceito fascista de “império”, uma ideia retro que empancou a vida cultural e a verdadeira evolução durante décadas, em alguns países. Terminou para nós em meados dos anos 70, mas lidar com uma mudança de definição colectiva tão radical é algo que se arrasta até aos dias de hoje, ainda que de forma apaziguada pela melhoria geral das condições de vida dos portugueses, mas que ainda existe.

Eu penso que a experiência soviética foi provavelmente mais radical e fundamentalista para as suas populações que os fascismos europeus latinos. E durou mais. Assim, lidar com as mudanças radicais em direcção a uma “democracia ocidental” forçada é provavelmente um processo doloroso nos territórios ex soviéticos, sobretudo o russo. É esse o enquadramento com que vejo este filme específico. Vejo-o como um exorcismo de fantasmas passados, mas também um piscar de olhos melancólico a esses dias.

Os factos da história, que é casual (está aqui como um caso “típico” e repetitivo naqueles dias) todos falam contra o que acontecia naquele regime e naquele contexto e, no entanto, evita moralizar. Ninguém é julgado (ao contrário do que acontece, por exemplo, em “as vidas dos outros”) e ninguém é inocente. É um tipo de aproximação que assume que devemos sentir o que se passava independentemente das políticas superiores ou dos contextos de poder que forjaram o que vemos. Aceito essa visão, aprecio-a. As opções cinematográficas são totalmente coerentes com o que vemos e, de vez em quando, vi Tarkovsky aqui, que tem tudo que ver com o como o cinema submete a memória. É bom ver um contexto social, uma certa juventude que nunca conheci, e um certo tipo de cinema que é doce e por vezes (não aqui) profundo e transcendente.

A minha opinião: 3/5

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Palermo Shooting (2008)

“Palermo Shooting” (2008)

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o amigo alemão

A qualidade suprema de Wenders como autor, para mim, é que ele sabe que os seus filmes não têm tanto que ver com o que as imagens mostram como têm que ver com as imagens em si. Esta é a sua magia, e a sua maldição. Por isso é que eu tenho um abrigo nos filmes dele e por isso é que eles são cada vez mais mal compreendidos (os primeiros comentários a este mostram que irá pelo mesmo caminho). Wenders sabe isto, quando ele faz um filme está a reflectir sobre a natureza da imagem, e como isso afecta a visão, e como a visão afecta a compreensão, e como a compreensão afecta o significado, a essência.

Não poucas vezes, ele dirige-se directamente ao tema, e incorpora-o no enredo do filme. Este é o caso. Filme sobre imagens. Pessoas que são sobre imagens. Pessoas que se tornam as imagens que perseguem. A primeiríssima cena torna-o claro porque “enquadra” (que significativa é esta palavra com Wenders) uma paisagem, através de uma janela de um edifício que tem em si mesmo tudo que ver com enquadramentos. Um volume puro cheio de buracos quadrados, cada um correspondendo a enquadramentos diferentes, dependendo do momento em que se olha, da posição, distância à janela… Este edifício reflecte a personalidade do fotógrafo, é em si mesmo uma sucessão de enquadramentos, uma cápsula fechada interligada com vistas parciais do exterior.

Depois temos uma história sobre a criação de imagens. Um personagem fotógrafo que perde a alma porque se torna um falsificador, ele esquece a essência, não mais procura a verdade da imagem, pelo contrário cria a sua própria verdade forjada. Céus australianos reflectidos nas janelas de S.Paulo, esse tipo de coisa. A introdução de Milla existe para isto, já que ela é fotografada “artificialmente” e logo transportada para o “verdadeir” ambiente. Depois o fotógrafo retira-se, isolado, para um sítio que ele sente ser “verdadeiro” (um grande porto, significa Palermo).

Logo, as grandes coisas acontecem em Palermo.

A mulher. O seu trabalho é recuperar imagens, é encontrar a verdade das imagens, é interpretar a visão de alguém. Aqueles olhos do pintor, que fitam a “câmara”, o que ele estava a ver é o que ela quer ver. Vejam as oposições, vejam como o fresco está integrado no filme: detalhe vs visão geral, compreensão vs perder a essência, longo vs curto. Vejam como o tempo da imagem é compreendido. A mulher leva anos a trabalhar uma imagem, o fotógrafo produz milhares sem compreender uma única.

A Morte. Não é a morte, é Dennis Hopper, e isto interessa. Ver como Hopper foi inserido neste projecto clarificou totalmente as coisas para mim, e completou um pedaço da minha vida em filmes que agora sei que estava incompleta. Hopper é aqui aquele que “enquadra” de forma superior, o homem que observa a vida, que puxa as cordas (apesar de estar só a fazer o seu trabalho). Ele é um agente superior, alguém que está para lá e para cima do que vemos. Quando as pessoas o olha, ele devolve o olhar. Ele grava tudo, vemos isso, aquela metáfora de “shooting” com duplo sentido. Assim, ele é tão enquadrado como enquadra. Agora, lembrem-se do Amigo Americano. Vejam esse filme antes deste se puderem, poderão entendê-los como 2 metades da mesma ideia, como eu entendi. Vejam o semelhante que são os 2 personagens de Hopper. Lá ele era também o mestre manipulador por trás das acções que tínhamos. Na verdade ele estava a manipular alguém que “enquadrava” (literalmente, um homem que fazia molduras para quadros). Ele usava o “enquadrador” enquanto fornecia a “imagem” principal. Esse filme, que eu considero essencial, tinha tudo que ver com o mesmo jogo de imagens. Agora temos uma actualização, q tem a ver com a mudança dos tempos (e entretanto mudou profundamente a nossa relação com as imagens) e como Wenders mudou. Dennis Hopper é a ligação, e o seu papel é um eixo pivot.

Agora, eu acredito que para se estabelecer uma relação de sucesso com um criador, temos que aceitar os seus trabalhos pelo que eles são. É como amar, para além da atracção, a amizade, para além da conversa de rotina. Temos que apreciar as qualidades e sobretudo reconhecer as falhas do trabalho, e teremos de viver com elas. É esse o meu tipo de relação com Wenders. Os seus filmes nos últimos 10 anos tornaram-se mais e mais no limite de se tornarem monólogos intelectuais, algo que devemos sentar e ouvir, e agitar afirmativamente a cabeça. Isso é algo que eu não tolero noutros realizadores (Stone, Tarantino), mas que estou disposto a aturar com Wenders, porque me interessa o que ele tem a dizer. Se, estiverem dispostos a ter diálogos discursivos e a sensação que o homem por trás das cenas nos está a tentar levar a acreditar que ele tem A verdade, poderão deixar que este filme mude as vossas vidas. Eu deixei.

Uma qualidade paralela que poderão apreciar é ver como a música define o ambiente, independentemente do cenário. Wenders sempre foi muito bom a compreender isto, agora fá-lo com a ajuda de música portátil. A edição musical é fantástica.

A minha opinião: 5/5

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Aanrijding in Moscou (2008)

“Aanrijding in Moscou” (2008)

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Fantasporto 2009

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despretensioso

Dificilmente se pode ser mais despretensioso do que o que temos aqui.

É elementarmente claro a forma como isto está feito, os truques usados, e o eficiente que o filme é, e isso é uma coisa boa, neste caso.

Vejam como a história e o ambiento estão construídos desde a primeira cena. Um acidente de tráfego menor num parque de estacionamento, isso começa uma discussão. A cena começa como um pedaço de vida diária, avança para uma discussão ligeira por palavras, e termina de forma cómica. Reparem como todas as palavras e frases neste argumento estão concebidas para causar uma impressão imediata sem se tornarem negras ou mesmo pesadas. Esse é o contexto do filme. Vive de rotinas, introduz elementos desviantes, que normalmente resultam de forma cómica (a introdução do tema lésbico é um grande momento, entre outros) e com este ambiente evoca um sentido de ternura, o que as audiências poderão chamar “romance”. O facto de que as pessoas que conceberam o filme tenham sido capazes de sintetizar tudo tão económica e eficientemente numa única cena é impressionante. Esta é uma das primeiras cenas mais sintéticas que já vi.

Alinho este filme com 3 comédias recentes que entre muitas diferenças partilham um sentido comum de despretensiosidade, um conceito que admite que o cinema é um pedaço de entretenimento, que as coisas têm de ser eficientes e funcionar no olho e pelos diálogos, NO mundo do filme, sem isso querer dizer que o filme tem de moralizar ou procurar respostas superiores para temas comuns. Estes filmes que vi recentemente são “Juno”, “Little miss Sunshine” e este. Dos 3, prefiro este. Desvia-se ainda mais dos canons de Hollywood que os outros, e esse pode ser o motivo.

O filme funciona pelas actuações, que são surpreendentemente directas e cativantes. Conheço muito pouco ou nada sobre as tradições de actuação belgas (ou equivalentes), mas adivinho (posso estar errado) que as actuações deste filme estão inseridas numa tradição mais longa de actuar com fluidez, o que alguns poderão considerar actuações “naturais”. Não ousaria confundir o filme com vida “real”, como suponho que muitos espectadores farão, mas realmente este é um mundo caricaturado bem modelado. Representação, é o que é… o personagem principal vai muitas vezes a Itália, e fala várias vezes italiano, uma língua que em alguns dos seus momentos de ouro na arte deveria “soar” em vez de realmente “significar”.

Algumas paisagens urbanas da pequena cidade de Moscovo, Bélgica, são fenomenais. Houve um olho competente para ler a cidade aqui.

A minha opinião: 4/5

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Hansel & Gretel (2007)

“Hansel & Gretel” (2007)

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três crianças, três caminhos

*** Este comentário pode conter spoilers ***

Outra experiência com filmes coreanos recentes. Para mim a Coreia do Sul está a produzir alguns dos melhores filmes que temos estes dias. Parece que há uma espécie de escola de cinema ali, que ainda assim permite que os seus realizadores trabalhem livremente no campo das ideias. O lado técnico e imagético deste cinema é formidável, alguma da melhor fotografia que vi recentemente vem de filmes coreanos.

Este poderia realmente ter sido algo poderoso, foi ambicioso, mas falha, para mim.

Basicamente, o filme tenta ser uma mistura de 3 elementos: suspense/terror, sobreposto a um drama infantil, sobreposto ao conto dos irmãos Grimm.

.é suspense/terror porque temos um espectador designado, alguém que nos representa na história. Os seus medos são passados a nós, porque o que acontece a ele, nós sentimos, ou supõe-se que sentimos. Temos uma casa, não especialmente interessante em termos espaciais, excepto pelo sotão. Essa casa é explorada pelo personagem principal, e nós exploramo-la com ele, e tememos o tempo todo. No entanto, nenhuma das coisas habituais em filmes de terror acontece, e sentimo-nos pesados o tempo todo, em tensão, sem sermos “assustados”. Por isso o filme está a meio caminho entre o terror e o suspense. Esta proximidade a um género é um contexto no qual os outros elementos são inseridos. É interessante a segurança que o “género” dá aos realizadores. Eles sabem que podem confiar em certos elementos que darão várias referências às audiências, que não as farão sentir-se perdidas. Pode ser um truque para realizadores menores se assegurarem que podem fazer um filme compreensível, ou poderá ser uma rede de segurança que lhes permita fazer algo maior, no olho ou na narrativa. Este filme, suponho, deveria pertencer à segunda situação.

.as crianças têm um passado. Mais à frente no filme, vimos a compreender que tudo tem a ver com isso. O seu passado familiar, toda a história de eles não crescerem por causa dos maus tratos que os adultos lhes dão é o material que dá sentido e sentimento à narrativa. Assim, recebemos uma reviravolta quando compreendemos as motivações das crianças e começamos a encará-las como vítimas em vez de demónios.

.Hansel & Gretel, o conto, estrutura vagamente a narrativa. Os elementos de terror dão o ambiente, estabelecem um género, a história dos irmãos suporta os elementos visuais e alguns pontos do enredo. Mais importante, é uma história, a chave do filme. Reparem que o personagem principal, o nosso protagonista designado ganha a liberdade quando queima a história.

Assim, isto tem tudo que ver com sobreposições narrativas e a mistura entre linhas narrativas. Temos 3 linhas para explorar, e 3 crianças que controlam. Percebem? O problema é que não me senti ligado ao que mostraram, o filme é intelectualmente ambicioso, mas não conseguiu tocar-me. Suponho que tem muito a ver com ritmo e balanço narrativo. Os pedaços são disconexos, e penso que uma revisão séria da edição e do ritmo geral teria feito milagres aqui.

A fotografia é intensa e muito competente, apesar de não estar muito no contexto do que vemos. No entanto, é um bom trabalho do cinema coreano. Sortudos esses realizadores por terem estes valores artísticos ao seu dispor.

A minha opinião: 2/5

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Prime Time (2008)

“Prime Time” (2008)

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pensamento visual televisivo

Este é um caso curioso, em que o facto de que o filme ser formal e visualmente coerente com o que mostra torna-o num desastre total.

O filme está enrolado numa ideia televisiva de reality show que é mesmo real para os seus concorrentes. A ideia de um espectáculo que se mistura com a realidade, ao ponto de ninguém nele saber onde ela começa ou acaba. Sobre o espectáculo básico, há uma suposta moralidade superior, que usa a televisão para fazer “justiça”, já que todos os concorrentes (menos 1) escondem maus segredos. Sobre esse nível temos alguém ainda (uma mulher) que controla o grande jogo e o submete ao seu jogo pessoal.

É uma ideia medianamente interessante, mas o resultado é um desastre. Em termos de linha de história, não há muito que faça sentido e que seja suficientemente interessante para nos interessarmos. Porquê a vingança? Tanto trabalho apenas por más relações no trabalho? Porque é que deveríamos preocupar-nos por algum destes personagens? eles são caricaturas de papel, nenhum deles é uma pessoa real, até os crimes são clichés.

Pelo lado visual, as coisas ficam piores. O filme tem o aspecto (e a atractividade) de um programa de tv, barato, feito em cima do joelho, e desinteressante. Foi aí que comecei o comentário: ser fiel às mentes pobres da televisão era a ideia aqui, no entanto isso arruina qualquer coisa interessante que isto pudesse ter.

O espaço era minimamente interessante, como as divisões provisórias aparecem e desaparecem.

A minha opinião: 1/5

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The Wrestler (2008)

“The Wrestler” (2008)

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honestidade

Este filme é um Aronofsky desapontante e uma grande actuação de Mickey Rourke.

O que temos é um filme sobre um actor. A luta livre tem tudo que ver com actuação física, assim como o striptease. Por isso Rourke e Tomei representam actores. Actores que fazem de actores, é aí que estamos.

Sobre Rourke: o seu personagem reflecte a sua vida pessoal, provavelmente é por isso que o escolheram, e certamente que é por isso que ele estava tão entusiasmado com o filme, como ele admitiu. Uma estrela antiga, alguém que criou impressões duradouras nas mentes de quem o viu em anos dourados, mas que eventualmente se torna uma estrela gasta, que representa em shows modestos, com uma vida pessoal arruinada. Estes factos são provavelmente a chave do sucesso da actuação. Mickey Rourke não é tão sofisticado como actor como outros e porque passou boa parte dos anos 90 a fazer outras coisas e a viver uma infância tardia, ele não progrediu como outros da sua geração. Mas no entanto ele provavelmente viveu coisas tristes e feias na sua vida. Por isso agora temos este. A razão porque confiamos aqui tanto na sua actuação é porque ela é tristemente honesta. Aqui ele é tripas e coração, está tão comprometido com o seu trabalho como o lutador que representa, cuja vida está no ring. Rourke tem uma mente directa – só temos de conhecer os seus comentários políticos para o perceber – mas também o lutador a tem. Assim, temos um casting perfeito, e comprometimento verdadeiro. Estas actuações honestas devem ser realçadas, porque é raro vê-las. Vejam a primeira cena depois dos créditos condensados e significativos, quando Rourke está sentado sozinho num quarto vazio, nos bastidores de uma actuação. É uma síntese perfeita de tudo isto.

Agora, isto faria um filme simples de algum realizador menor suficientemente bom. Mas este foi realizado pelo homem que nos deu “Pi” e “Requiem for a Dream”. Por isso não é suficientemente bom. Ok, é um estudo de personagem, a forma como a câmara segue constante e ostensivamente as costas de Rourke mostra-o. Este deveria ser um filme sobre Rourke, e até admiro que Aronofsky se tenha apagado para o realçar. Mas no final das contas, não há muitas coisas para admirar aqui. Assim, como muitas vezes acontece, não é uma questão do que Aronofsky faz aqui, antes uma questão do que ele poderia ter feito, porque eu vi os seus outros filmes. Algumas cenas de luta são boas, porque ele denuncia a falsidade de todo o espectáculo, e ao mesmo tempo coloca-nos dentro das cenas, contribuindo para fazê-las reais para nós.

A minha opinião: 3/5 por Rourke.

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Fantasporto 2009

Blindness (2008)

“Blindness” (2008)

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Fantasporto
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branco espacial

A determinado momento nas suas vidas, muitos artistas sentem a necessidade de descer aos abismos da degradação humana, da ausência de humanidade (ou trocas de valores radicais). São as catacumbas de Piranesi, o inferno de Dante. Creio que o objectivo básico deste tipo de viagens não é tanto o imaginar uma realidade possível onde poderíamos viver, mas espelhar a nossa própria realidade, os pedaços podres das nossas existências tantas vezes ridículas. O exagero é um truque que os artistas usam bastantes vezes para realçarem o que querem passar. ‘Ensaio sobre a cegueira’, o romance, foi a descida de Saramago a essas catacumbas, o pedaço de escrita mais negro de um pessimista já negro e irónico (ou um optimista de um outro tipo de humanidade). Meirelles, que tinha já feito dois filmes negros, usa o romance para fazer a sua própria descida. Como curiosidade, ele admitiu que queria ter adaptado o livro antes e não o pôde fazer, e eventualmente acabou por adaptar Cidade de Deus. A mistura de ideias e mentes criativas aqui é poderosa, e o filme resulta como se pretendia. Esta é uma representação bem conseguida de um inferno possível, de uma realidade possível, da nossa própria realidade (?).

Antes de avançar para o filme, deveria dizer algo. Há um pequeno documentário brasileiro, praticamente desconhecido. Chama-se “Janela da Alma”. Tem a ver com visão, claro, é sobre observar, e o que significa para uma quantidade de artistas esse conceito, ver. Usar os olhos para conquistar o mundo, e expressar sentimentos. Entre outras pessoas e artistas interessantes que colaboram, refiro 2. Um é Saramago, que escreveu o romance deste filme. O outro é um fotógrafo cego (esqueci-me do nome) que fotografa por intuição, obviamente não se preocupando com o resultado final que ele não pode ver, mas fazendo fotografias como um meio de chegar ao mundo. É um conceito fantástico se pensarem nisso. Recomendo que vejam esse documentário, antes ou depois deste filme. Poderão encontrar coisas interessantes nele. No filme existe mesmo um momento em que o personagem de Ruffalo fotografa, “intuição de cego”, diz ele…

(possível spoiler)

Aqui os arcos dramáticos são semelhantes ao que temos em Irreversível. Aterramos directamente no inferno, na maior escuridão possível, desde o início, e subimos as escadas em direcção à luz à medida que avançamos. Por isso é que neste filme não temos exactamente um prelúdio dos acontecimentos. É um truque poderoso porque não nos permite ser racionais, como espectadores estamos tão no escuro (branco) como alguém que de repente perdeu a sua capacidade de ver.

Basicamente, o filme torna-se um estudo do que a civilização seria sem um dos seus pilares básicos, a visão. “what would happen if…?”. É um dispositivo simples e eficiente e, porque lida com a visão, e o jogo de a retirar, é puramente cinematográfico, literalmente visual. Meirelles obviamente percebeu-o, por isso é que ele queria adaptar o romance desde o início. Tudo o que acontece é a consequência de não ver. Várias coisas podem ser concluídas: depois do choque inicial da perda de visão, as pessoas adaptam-se, e criam conflitos, hierarquias, novos conflitos e novas hierarquias, mas é suposto identificarmo-nos com o que vemos (e se têm uma consciência, vão-se identificar). Novos grupos são formados, novas amizades, novas “famílias”.

Meirelles é um realizador extremamente visual. Aqui, ele faz muito mais “enquadramentos” que nos anteriores, onde as suas capacidades concentravam-se mais no ritmo (edição). Claro que aqui também temos pedaços fantásticos de edição, logo desde o início. Mas é muito mais arquitectónico na sua abordagem. Afinal, o tema de perder a visão e relacionar-se com o mundo é puramente espacial. É uma questão de como relacionar-se com um mundo concebido para ser visto. Sendo um arquitecto, Meirelles certamente aprecia esta questão melhor que outros realizadores.

Assim, o jogo visual que ele joga é espaço, e cores (p&b). A fotografia é altamente depurada, contrastante quando tem de ter contraste, mas sobretudo desenvolvida com imagens sobre-expostas, quase brancas, e a total escuridão, que até existe literalmente durante 30 segundos numa cena específica, quando Julianne Moore procura comida na cave.

As actuações são boas, Julianne Moore está no topo do jogo na forma como é intensa sem explodir demasiado, e na forma como nos mostra uma face enquanto nos sugere que o seu personagem tem outras faces. Assim, ela é líder, literalmente na história, já que é a única que vê. Todos os outros jogam o jogo, excepto McKellen que demasiadas vezes é apenas arrogante como actor, do tipo que acredita que todo o filme (e todos os filmes) têm que ver acima de tudo com actores. Estranho tendo em conta que ele também foi argumentista neste filme. O personagem de Glover foi interpretado por Meirelles como um alter-ego de Saramago. A sua actuação é bastante boa apesar de ter tempo limitado, e a voz off tem o tom certo. Uma curiosidade interessante é que quando o vemos pela primeira vez, ele ouve o rádio, e o que ele ouve é português europeu. A voz off e o rádio são os detalhes que Meirelles usa para nos indicar quem é o seu narrador designado, a presença de Saramago no ecran.

Meirelles refere que cortes anteriores do filme tinham um efeito mais repulsivo, mais negro e chocante e que, por influência do estúdio, ele suavizou a versão final. Creio que ele poderia ter carregado um pouco mais do que o que fez. Também era sobre isso que tratava a história.

A minha opinião: 4/5 o filme não mudou a minha vida, mas certamento criou uma marca duradoura em mim.

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve