Arquivo de Março, 2012

Escape from New York (1981)

“Escape from New York” (1981)

IMDb

alusões pós modernas

Carpenter tem um talento muito especial para dar aos seus filmes um ambiente, um contexto, o sabor de um mundo específico. Esse ambiente é quase sempre associado a um sentido muito forte de lugar. Muitos dos seus filmes estão fisicamente localizados numa área reconhecível, relacionada ou não com o nosso mundo real e sempre retorcida de uma forma cinematográfica (visual).

Acredito que ele começa sempre a concepção de cada filme com esta ideia de lugar e ambiente. Depois ele constrói uma história que lhe permita explorar esse ambiente, normalmente com algo trivial, sem importância, que existe apenas para suportar a visão.

Aqui está: Manhattan, um dos lugares mais reconhecidos do mundo dos filmes. Retorcido para se tornar um mundo apocalíptico assumido (o facto de Plissken entrar nele de avião, e aterrar no topo do World Trade Center é uma ironia não intencional, 20 anos antes dos ataques).

Ele usa Kurt Russell, alguém a quem se pode confiar o tipo de papel que faz: fisicamente auto-consciente, com estilo, deliberadamente vazio. Ele é o tipo porreiro, porque representa este papel com um segundo nível de auto-referência, uma piscadela de olho às audiências, sempre: ele representa o papel de alguém que ele sabe que não pode ser levado a sério, e nós percebemos isso, sabemos que estamos a ver um tipo a representar um papel enquanto goza com isso. Isto é algo que Bruce Willes ou George Clooney também são capazes de fazer. É curioso que 25 anos mais tarde Russell participasse num filme de Tarantino que referencia com um sentido de ironia semelhante estes filmes que já não eram sérios, e aqueles antes deste. Russell participou nos dois níveis de ironia.

Mas Van Cleef é ainda melhor. Ele foi um actor secundário da primeira geração de westerns. Ele viveu o suficiente para se tornar um actor principal em 2 dos westerns geniais e irónicos de Leone. E aqui está ele, ainda a participar numa nova etapa da ironia em filme, representando um personagem que manipula e observa este western de um herói solitário lutando contra a falta de escrúpulos para benefício próprio. 3 níveis no mundo dos filmes, ele esteve nos 3. Notável.

Para lá disto, Carpenter usa todos os tipos de truques visuais, para enriquecer o sentido bizarro deste mundo. Esta experiência vale a pena, uma espécie de Blade Runner sem nada sério para dizer. Não te vai mudar, mas vale a pena.

A minha opinião: 4/5

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The Hitch-Hiker (1953)

“The Hitch-Hiker” (1953)

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olho aberto

O filme road trip é um género muito poderoso porque implica normalmente um sentido profundo de opostos, misturados para dar uma visão de unidade. Isto é algo que, para lá deste sub-género, talvez só o western nos possa dar tão directamente, mas com westerns estamos sempre presos ao significado de cada filme: o filme western está visceralmente ligado a uma certa visão americana dos valores, moral e ética, enquanto que a sua versão italiana está ligada ao cinema em si, à meta-narrativa.

Mas o road-trip está livre destas convenções todas. Estes filmes vêm com todos os tamanhos e feitios. Por isso podemos fazer um road-trip de qualquer forma, sem sermos forçados a obedecer às leis de um género, porque no final, isto não é um género.

Por isso temos Bonnie e Clyde, Fear and Loathing in Las Vegas, My blueberry nights. Cada um é uma luz muito brilhante da sua galáxia cinematográfica própria. Cada um cria as suas próprias regras.

Mas aquilo que funciona sempre como elementos chave nestes filmes, e que é ao mesmo tempo aquilo que partilham com os westerns, é a forma como estes filmes são um convite aos realizadores para filmarem um certo mundo selvagem, espaços abertos, estradas infinitas, para representar a solidão, viagens interiores, dramas pessoais. É esse o aspecto que faz o filme viver ou morrer.

Este vive. Tenho uma admiração crescente por Ida Lupino. Uma mulher num trabalho feito sobretudo por homens. Dando-nos novas versões de géneros essencialmente masculinos. Calculismo íntimo feminino colocado sobre as intuições e os símbolos masculinos. Este é um filme sem personagens femininos relevantes. Mas ela dá-nos, penso, uma versão mais profunda do género, especialmente comparando com o tipo de filmes que se faziam naqueles dias, em que o cinema como meio não estava tão desenvolvido que permitisse a emoção transparecer desde um ponto de vista interior.

Por isso aqui temos um filme de tensão, em vez de violência. A promessa daquilo que vai acontecer a seguir é sempre superior à perspectiva de realmente ver essa coisa. E é isso que constrói a forma deste filme: a próxima coisa. Talman dá uma versão bastante razoável para este tipo de personagem, mais impressionante se pensarmos que o filme foi feito quando Brando ainda não tinha quebrado as regras para actuação em cinema. E naturalmente, um filme como este depende necessariamente em grande medida da actuação dos actores.

Por isso este é um filme de acções desenhadas mas não cumpridas, tensão, em vez de realizações. A promessa da próxima paisagem, a próxima cidade, sempre espelha a avaliação da situação por parte dos 3 personagens. Por isso é que o nosso mau deixa um olho sempre aparentemente aberto, mesmo quando dorme.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve