Arquivo de Abril, 2008

A Guide for the Married Man (1967)

“A Guide for the Married Man” (1967)

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sWingin’ in the rain

Creio que sei o que era suposto este filme ser. Esta história, e esta montagem deveriam bailar em frente dos nosso olhos tal como Gene Kelly costumava, literalmente, dançar nos seus musicais passados. Aprecio a ideia, o homem usou a imagem que o público tinha dele, e tentou ser coerente com ela, detrás da câmara. A história fala de bailarinos, tipos que contornam adversidades, esquemas para enganar as mulheres, aquele ambiente onde o adultério é cómico, e o bom nunca cai nele, porque no fundo ele compreenderá que na verdade ama a sua mulher. Assim, trocamos constantemente de cenários, e voltamos a esses cenários, introduzimos novos personagens, contando-se histórias que não sabemos se realmente aconteceram, e isso é feito de uma forma frenética (para a altura deste filme). Kelly tenta bastante manter a edição a par da história, e aprecio o esforço, mas ele não é suficientemente dotado para fazer isto com competência. No mesmo ano, Stanley Donen realizou uma obra notável, um filme que eu considero essencial, “Two for the Road”, ele tentou algo semelhante, mas saíu-se bem de uma forma que Kelly nunca poderia conseguir. Aí, Donen conseguiu controlar a edição e a linha narrativa em coerência. Estas duas mentes (Kelly e Donen) tinham sido responsáveis por uma grande experiência, “Singin’ in the rain”. Por esse filme, e por “Two for…” compreendemos que eles sabiam que poderiam chegar a algum lado com o que experimentavam. Donen chegou, mas este filme é só uma tentativa menor.

A minha opinião: 1/5

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Phone Booth (2002)

“Phone Booth” (2002)

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cinema centrípeto

Isto podia ter sido memorável. Tinha um conceito interessante detrás, mas quem executou arruinou-o. Suponho que em grande parte a responsabilidade devia ser atribuída a Schumacher. Ele é incompetente, ele vai com a maré, ele faz o que quer que as audiências consumam facilmente, e não se interessa por cinema ou como pode construi-lo numa base visual. Os seus filmes funcionam para mim como poluição visual, a estratégia dele é encher o olho com todo o tipo de imagens para substituir a falta das suas próprias ideias.

Assim, algumas coisas boas perderam-se aqui: Este filme é, num certo sentido, o oposto do que Hitchcock fez em Janela Indiscreta. Esse foi uma obra prima, porque nos colocava dentro do olho de um observador, e o mundo do filme é tudo aquilo que ele é capaz de ver. Nem mais, nem menos. Tirando alguns poucos planos especiais, recebemos um mundo com as mesmas medidas do de Stewart. Isso foi especialmente bem feito, e a história desenvolve-se visualmente. Aqui tínhamos o oposto. O mundo está centrado num personagem, como em Janela indiscreta, mas a forma como vemos esse mundo é completamente oposta, o que significa que não vemos o mundo como Farrel vê (pelo menos não tantas vezes), temos antes Farrel de vários ângulos e pontos de vista:

. o atirador furtivo, ele é o mais próximo de deus que temos, ele sabe tudo, incluindo o que levou à situação que observamos, ele tem o olhar superior, ele controla a acção, todo o tempo;

. o polícia, ele esforça-se por perceber as coisas, no início ele é tão ignorante como todos os outros, mas acaba por descobrir algumas coisas;

. a esposa e a amante, cada uma ignora a existência da outra, e sabem apenas o que Farrel quer dizer-lhes;

. a imprensa, esta é a entidade que tem de concluir, que tem de fingir que sabe, mas a sua participação aqui é praticamente nula;

Havia estas 4 linhas, mais a versão pessoal de Farrell. Isto já foi bem explorado em cinema, como explorar várias linhas narrativas, começando com Citizen Kane, e continuando com uma série de outros projectos importantes ou meramente interessantes. Este perde-se com truques de edição completamente inúteis, edição sonora inconsequente, fogo de artifício inútil. Pelo menos desta vez não vemos mamilos nas roupas do herói.

A minha opinião: 2/5 alguns conceitos interessantes, mas execução terrível.

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The Apartment (1960)

“The Apartment” (1960)

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tempos modernos

Vale a pena ver o que Billy Wilder fez, independentemente do que seja, ou sob que circunstâncias ele as fez. Isso porque ele sempre tentou contornar adversidades, mesmo se no final isso aparece com a forma da ironia e da crítica aos seus patrões, usando as possibilidades que eles dão. É o que ele faz aqui. Os resultados não são muito impressionantes, talvez porque ele mistura mundos diferentes. Ele tem um romance para contar, foi para isso que foi contratado, para produzir a comédia romântica que se esperava dele, início dos anos 60, mas feita como se fosse nos anos 50. Mas na verdade, ele está angustiado porque ele sente-se agarrado e dependente do sistema de produção cinematográfica que não lhe permite exprimir livremente as suas preocupações, os seus temas, da sua própria forma. Ele teria a sua última recusa tarde na sua vida, quando Spielberg não o deixou realizar a sua Lista de Schindler. Por isso imagino que Stalag 17 deve provavelmente ter sido um projecto muito pessoal para Wilder, um que procurarei verbrevemente. Neste processo de luta pela sua própria expressão, ele criou uma obra prima, Sunset Boulevard, e o menos interessante Ace in the Hole. O noir servia perfeitamente as suas intenções de integrar os seus sentimentos sem os gritar, e ainda assim produzir o filme que lhe tinham pedido.

Aqui, isso não funcionou assim tão bem. Como o tema era romance, ele substitui o ambiente noir por sexo. Assim, temos um personagem imerso num mundo moderno de exploração, onde lhe dizem o que ele deve fazer, tem a sua vida sabotada pelos interessos dos seus (muitos) superiores. Este é um mundo que Chaplin tinha criado em Tempos Modernos, mas aqui Wilder substitui a maquinaria belissimamente coreografada da fábrica pelo sexo. O apartamento é um ponto de encontro, o sexo guia o que acontece aqui, tudo. Assim, temos um homem apanhado num sistema e que tem de criar as suas soluções para ganhar a sua liberdade de decisão. certo?

Jack Lemmon é sublime, realmente aprecio o seu estilo de comédia não explosivo, mas intenso. Ele tem uma forma de se mover, de caminhar, que fortalece o seu personagem, e neste caso particular, torna-o mais apreciável e mais fácil de acreditar que ele é na verdade um peão num mundo corrupto e opressivo. Ele é um Charlot aqui. Isto não é inocente. O Charlot deve ser uma das personagens com maior poder metafórico na história do cinema, e ele sempre representa coisas que não vemos no ecrán. Shirley MacLaine encaixa bem, a cara dela não é tão enigmática e intensa como a das Hepburns, mas ele move-se de forma mais entusiástica.

Depois de tantos anos, creio que o que suporta este filme são as actuações. Por agora já não tenho o contexto de Wilder, e estou demasiado afastado das audiências que valorizaram o filme no seu tempo. E toda a mecânica do sexo parece uma linha completamente paralela ao romance que seguimos, não está suficientemente bem integrada, creio. Apesar de tudo, há um carinho nas interpretações, e uma nostalgia que eu levava para o filme quando comecei a vê-lo, não porque vivi esses dias, mas porque pude ver o que aconteceu a esses intérpretes, Lemmon e MacLaine. A nostalgia é um ingrediente poderoso.

A minha opinião: 3/5

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Die Fälscher (2007)

“Die Fälscher” (2007)

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uma nova abordagem

Tendo em conta todos os filmes que já foram feitos sobre a opressão nazi aos judeus, este é inteligente na forma como constrói os seus personagens e a sua abordagem ao tema.

O que se passa é, os criadores aqui são suficientemente competentes, especialmente na cinematografia, que segue Rembrandt, uma tradição belíssima no que toca ao uso da luz, e a construção de um ambiente. Com isto falo de imagens onde a luz é uma massa com a forma do objecto iluminado no meio de um ambiente escuro, mas nunca, ou quase nunca, percebemos a fonte da luz, é como se ela irradiasse do próprio objecto. Isto faz-nos focar no centro da composição com especial concentração. Coisas comuns, aspectos miseráveis, tornados especiais por estarem num local escuro. Isto tem tudo que ver com a segunda guerra, e as profundas da miséria humana. Mas apesar desta fotografia, o resto é apenas competente, a câmara foi carinhosa em alguns momentos, mas apenas (falso) documental em praticamente todo o resto. As actuações são boas, e Markovics e os escritores merecem crédito, porque fizeram algo que eu nunca tinha visto num filme de Holocausto.

Assim, não temos bem e mal, isso ganhou o meu coração imediatamente. Verificamos as falhas, e o mau carácter do falsificador logo do início. Ele tem tantas falhas como qualquer outro homem, talvez ainda mais. Ele finge, ele falsifica dinheiro, ele finge para sobreviver, ele está interessado em sobreviver, não em salvar o mundo. “um dia é um dia”, diz ele. Todos os judeus que trabalham com ele pensam da mesma forma, excepto o idealista. Todos os judeus querem apenas sobreviver, e eles são os sortudos, uma ilha de relativa paz na ilha que é o campo de concentração. É interessante como acabamos por os invejar pelo seu quase nada, comparado com o nada que a maioria tinha. Creio que essa sensação que temos ao ver o filme, é provavelmente comparável à sensação que os judeus reais teriam, ao viver a situação. Isto é um feito interessante. Assim, temos um ângulo diferente, um que não santifica as vítimas, e coloca-as na esfera real do mundo com falhas onde eles viviam, antes da guerra, antes dos nazis. Para alguém que está 2 ou 3 gerações afastado da guerra, como eu, isto representa uma abordagem muito mais interessante. Claro que o realizador tem apenas 47 anos agora, também é evidentemente pós-guerra.

Uma coisa não funcionou para mim, pelo menos achei que foi mal utilizado. Tango. Está assumido, desdo o início, todas as adaptações de Gardel, muito boas, mais sensuais mas menos viscerais que o Gardel original. Realmente não percebi a ligação. Porquê Tango? No início tentei compreender e adivinhar onde iria encaixar, mas não encaixou, não para mim. Vou tentar compreender isso.

A minha opinião: 4/5 vejam este

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve