Arquivo de Junho, 2011

Once (2006)

“Once” (2006)

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não tocar

Já vários comentários interessantes sobre este filme foram feitos e realçam muitas das coisas boas que podemos retirar daqui. Tem algo a ver com o ambiente da história de amor sugerida, o poder da sua simplicidade, na verdade a simplicidade de toda a produção, deste a actuação aos cenários. A história comove-nos porque podemos relacionar-nos com ela, e não há truques sofisticados aparentes nem convenções gastas usadas para nos cativar. Por isso este é em última análise um filme honesto. Não é real, e enquanto na experiência semelhante tentada por Linklater ainda podemos questionar-nos sobre se o filme vem da vida real, aqui os pedaços musicais não nos permitem considerar isso. Mas isto é uma história incrivelmente directa e honesta, e isso é raro e recompensador.

Há algumas coisas que vale a pena notar também. Uma tem a ver com a relação amorosa que vemos no filme. Sabemos que é implícita e nunca assumida durante todo o tempo. Línguas diferentes. O mais próximo que temos de um romance convencional é quando a rapariga assume o amor dela em checo, uma língua que o rapaz não compreende e que os realizadores assumem que a maioria dos espectadores também não compreenderão. É aí a que se sublima a história, mais do que em qualquer número musical, é esse o momento. No lado oposto, temos a tentativa do rapaz ao sexo de uma noite. A boa coisa é como as duas personalidades diferentes, culturas diferentes e posturas são espelhadas pelos seus contextos musicais, e como eles se misturam no ecran. O amor está na música, naquilo que resulta da colaboração, a forma como eles contornam as suas diferenças artísticas para chegarem a um objectivo comum. Isso é um conceito lindo. Por isso é que era tão importante que os factos da história não nos impedissem de apreciar a beleza do conceito latente. Tão poderoso que estes actores (que até criaram as canções!) se tornaram amantes fora do ecran, na vida real. Este é um caso muito bom de uma relação no filme. não aconteceu ainda, vemo-la surgir, somos testemunhas dela.

Dublin também é uma testemunha, é um grande sítio para filmar onde, adequadamente, a música é uma roda importante da rotina espiritual. O sentido de lugar é forte e bem conseguido aqui, apesar dos valores de produção relativamente normais.

Os melhores filmes, na verdade a melhor arte é aquela que está ligada a ideias poderosas, do tipo que corre sob a pele. Este é um desses filmes, se a música fosse realmente poderosa, em vez de apenas agradável, essa força poderia ter um efeito explosivo.

A minha opinião: 4/5

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The Tree of Life (2011)

“The Tree of Life” (2011)

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Rayuela

Como é que vemos um filme assim? Temos de baixar todas as defesas. Temos de não nos permitirmos tentar encontrar um sentido para tudo o que vemos. Temos de receber tudo, e deixá-lo entrar, tão suavemento como o filme entra dinossauros, células, evolução planetária ou uma simples sala de uma família com problemas. Sem julgamentos, sem considerar nada a não ser a pura experiência de estar lá, onde quer que seja que o filme nos leve. Não procurem explicações, porque não houve razão racional para lá da intuição para as imagens serem como são.

Imagina um filme sobre tudo, com uma história remota que fala sobre todos os temas, em todos os tempos possíveis do mundo.

Imagina um filme sem princípio nem fim. Meta-narrativas circulares, onde podemos começar seja em que ponto (qualquer um) e podemos criar a narrativa interna que quisermos. Um céu de imagens (como o poster mosaico do filme) onde podemos fazer as nossas escolhas, e criar a história que quisermos. Ou podemos escolher enquadrar a história mais palpável do filme da forma que quisermos. Cada um é que sabe. O desafio é que temos de testar os limites da nossa própria imaginação para viver o filme na sua extensão total. Nada é predefinido. Vão onde quiserem.

Agora imagina que tudo isto é feito por alguém que passou a sua vida inteira em cinema a tentar contornar a ideia das velhas sobreposições narrativas. O mestre absoluto de narrativas não relacionadas, dos detalhes fora do ecran. O homem que filma mãos e campos de milho quando quer dizer amor. Que filma o universo para construir uma das expressões mais poderosas de intimidade, da solidão da mente, na história do cinema. Contraste.

Não sei se este é o melhor filme de sempre. Provavelmente é a experiência mais forte que recebi em primeira mão, enquanto era novo.

O que é? um filme na cabeça de Sean Penna? Uma história enquadrada no universo? parte dele? metáfora para ele?

Já ouvi bastante acerca do quanto este filme é uma espécie de 2001. Não me parece. Kubrick e Malick são 2 tipos diferentes, 2 abordagens diferentes, objectivos, processos, e resultados diferentes. Kubrick manipula a narrativa com perfeição. Obcessivo. O xadrez a inundar o cinema. Malick é a outra ponta do pau. Intuição visual pura, realçada pela bagagem intelectual de Malick. Simplesmente porque estes 2 realizadores não gostam de aparições públicas, e porque tanto este filme como 2001 têm planetas, isso não os aproxima.

Em 1963, Cortázar publicou um dos livros mais importantes do último século, Rayuela. O título deste comentário tem a ver com o título do livro. Penso que este filme e esse livro têm aspirações semelhantes. Traça o teu caminho, tens os capítulos, mas tens de montar uma ordem para eles.

A forma como isto é feito é com pura maestria em cada ferramenta da concepção fílmica. Cada imagem conta, cada plano foi filmado com competência e paixão, cada frame, cada movimento de câmara – Lubezki já trabalhou com Malick, Iñarritu, Cuarón. Cada colaboração adicionou imenso ao que estava a ser tentado. Ele consegue realmente ler as aspirações do realizador, e entrega nada menos do que mestria. A esta altura ele já entrou em suficientes projectos importantes para ser considerado um dos melhores cinematógrafos de sempre. A edição é de classe mundial. Cada corte, seja nos planos espaciais virtuais ou nas cenas de família, importam para a narrativa, seja ela qual for. O que leva isto para um novo nível é a forma como neste filme Malick supera o seu já incrível uso da música. A edição tem sempre presente de forma igual o peso das paisagens visuais e sonoras. Vejam, absorvam.

Este filme exige incrivelmente muito de nós, espectadores. Exige que sejamos uma pessoa diferente depois de o ver, que possamos mesmo ter de mudar a nossa abordagem genérica ao acto de ver filmes ou, pelo menos, que acomodemos em nós uma nova forma de ver filmes. Num nível básico tem a ver com as intuições de Malick. A outro nível, tem a ver com o que aparece no ecran. Mas em última análise, tem tudo a ver com a forma como tu te colocas no universo proposto.

A minha opinião: 5/5

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La tumba de los muertos vivientes (1983)

“La tumba de los muertos vivientes” (1983)

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lawrence com minhocas

A premissa base para qualquer filme trash é que, antes de mais, ele foi feito para… ser feito. A paixão por fazer um filme é o que conduz estes cineastas. E a história pode perfeitamente terminar aí. O filme pode recompensar na bilheteira ou no gosto do público, ou pode até tornar-se uma peça interessante de cinema. Mas sob a sua camada superficial, há sempre uma profunda paixão pelo fazer o filme. O que mais poderia levar estes realizadores e respectivas equipas a fazer estas bizarrices a não ser pelo gozo de as fazer?

Franco, d’Amato, Ossorio, trabalham assim. É porreiro juntar uma equipa para filmar, por isso é o que eles fazem. Com Franco temos provavelmente o processo mais louco. Os filmes são baratos, a fotografia rasca segundo qualquer padrão ou época, e a história é absurda e falha quase todas as regras convencionais de narrativa visual, por vezes até o Kulheshov é destroçado! Por isso se levarmos os valores convencionais que aprendemos seja com Hollywood, a nova vaga francesa, ou o neo-realismo italiano, mesmo os de jarman ou méliès, vamos sentir-nos enganados. Não é assim que é suposto vermos filmes. Mas se olharmos para os filmes como afirmações pessoais de alguém que queria pegar numa câmara, aí poderemos usar o filme como um veículo para chegar ao tipo por trás dele. Franco é capaz de o fazer. Se o virmos falar, ele deriva tanto e pragueja tanto no discurso como nos filmes. Por isso não estamos a ver uma história qualquer contada por um tipo qualquer. Estamos a ver uma espécie de meta-autoretrato do tipo. Vale a pena tentar não?

Dito isto, esta versão específica das obsessões de Franco é bastante aborrecida, mesmo pelos padrões dele. Nova fase, início dos anos 80, suponho que os interesses dele já se tinham afastado de representações tão gráficas (acho que este é o filme mais recente dele que já vi!). Duas coisas que vale a pena notar:

-a forma como ele filma os poucos planos onde a amante dele aparece. Num deles ela aparece de cuecas, sentada no chão de areia, enquanto fuma um cigarro e provoca dois durões, mesmo antes de ser brutalizada pelo macho alemão que a leva para uma tenda. Um pouco depois, cortamos para o interior da tenda, e ela surge de barriga para baixo, fazendo um esforço para realçar o rabo. Há suficiente paixão nestas cenas para empurrar um pouco a linha da mulher-objecto que todas as mulheres normalmente são nos filmes dele. isso é bom;

-há um realizador na história, um tipo que passa pouco tempo no ecran, suponho que Franco não sabia exactamente o que fazer com o personagem. Ele tenta (até ser morto) fazer o filme da expedição. fazer um filme onde alguém está a fazer um filme é sempre uma coisa boa (e muito anos 70);

a minha opinião: 1/5

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Marquis de Sade: Justine (1969)

“Marquis de Sade: Justine” (1969)

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frigidez espacial

Acreditem ou não, escolhi ver este filme depois de ver a Árvore da Vida de Malick. E fi-lo não porque queria algo totalmente diferente, mas porque procurava algum tipo de abordagem semelhante ao cinema. Não confundam. O filme de Malick mudou a minha vida, e este é apenas lixo total e deliberado. Mas aqui como no outro, temos realizadores que filmam o que querem, fora de convenções. Ambos confiam fortemente na intuição, no caso de Malick suportada por uma pesada bagagem de estudo e reflexão, e no caso de Franco apenas pelo puro prazer de filmar, ou melhor, de filmar como atitude de vida.

Os filmes lixo são fantásticos, porque por momentos saímos das convenções habituais. O sexo é um dado adquirido na maioria destes filmes, chamam-lhes exploitation, porque supostamente estamos a “explorar” corpos, e o sexo como voyeurs. Poderia argumentar que não sei em que medida isso difere da maioria do nosso mainstream hoje em dia e desde há algum tempo, mas isso é uma conversa diferente. Em todo o caso, a garantia que temos é que dentro dos constrangimentos da produção, veremos o que um tipo ou um número reduzido de pessoas realmente queriam fazer. Isso é reconfortante.

Aqui temos provavelmente o maior orçamento de sempre de um filme de Franco, e por isso provavelmente aquele em que ele esteve mais constrangido, pelo menos em termos de casting. O resultado não é tão visceral, não tão loucamente alucinante como alguns pedaços de outros filmes conseguem ser, mas tem alguns aspectos que recompensam:

-cinema auto-reflexivo: o personagem de Kinski escreve a história das duas irmãs à medida que avançamos. Por isso temos um realizador que faz um filme sobre um escritor (aprisionado) que inventa 2 narrativas paralelas sobre 2 irmãs sem esperança, que espelham 2 atitudes distintas: uma é maliciosa, a outra aprende a retirar prazer das humilhações. Justine é aquela que seguiremos;

-no seu caminho pela humilhação, intriga, e todos os tipos de cobiça sexual por todos os tipos de pessoas, Justine vai passando por um conjunto de cenários. Alguns são perfeitamente olvidáveis, meras árvores em bosques filmados de forma incompetente. Alguns são apenas ordinários, alguns são lugares bem escolhidos de Barcelona (a praça S.Felipe Neri é o mais sedutor desses), e alguns são Gaudí. Isto é interessante, porque os cinematógrafos, talvez o próprio Franco, tiveram interesse nestes cenários. Em termos gerais, a fotografia neste filme é bastante boa comparando com o que podemos ver neste género. Nos locais Gaudí, há a intenção de filmar espaço (veja-se o uso denunciado das grandes angulares em alguns sítios, até ao ponto de distorcer a forma e o foco dos limites da imagem) e, nas cenas do parque, filmar o percursos arquitectónico ao longo dos arcos. Sexo e espaço, essa é uma ideia engraçada e compensadora. Mas Romina Power não faz ideia do que se pede dela, e tudo acaba por se tornar um passeio no parque, em última análise desinteressante na sua maior promessa.

A minha opinião: 2/5

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Angst essen Seele auf (1974)

“Angst essen Seele auf” (1974)

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espelhos, pessoas, angústias

Discutivelmente, ou nem tanto, o cinema foi a força motora na redefinição da alma da Alemanha ocidental, para a geração nascida durante ou imediatamente após a guerra. Estes tipos, que entraram na vida activa adulta já nos anos 60 sentiam muita coisa a acontecer na sua consciência colectiva: desde logo a herança do nazismo, que claramente não foi bem discutida (ou não foi de todo discutida), pelo contrário foi enterrada bem fundo, e é sensível sobretudo para um realizador bávaro, como Fassbinder. As pessoas da geração dele foram provavelmente os primeiros a dirigirem-se ao tema, convenientemente esquecido pelos seus pais; As coisas que se passavam naquele momento, a confrontação da Alemanha com a necessidade de globalização demográfica, a pressão da imigração, somada a uma sociedade conservadora do início dos anos 70, tradicionalmente cristã e que reagia às friccões e fracturas genuinamente abertas durante os anos 60. Sexo, moral, família. Tudo abanado e questionado. Mas mais importante e isto, para mim, é o mote que une o trabalho da maioria dos artistas alemães deste período, as interrogações profundas acerca de onde a Alemanha, antigo farol cultural da Europa, deveria encaixar-se agora que significava pouco, e que era desprezada de forma suspeitosa até pelos próprios alemães ocidentais. Wenders optou por aceitar a “americanização” em curso, tanto que construíu a sua imaginação cinematográfica ao redor de filmes americanos, nomeadamente aqueles de alguns emigrantes alemães em Hollywood. Fassbinder manteve-se totalmente alemão na sua abordagem, e totalmente agarrado a um sentido alemão de existência, mesmo quando arrasava cada um dos símbolos sob os quais havia crescido.

Isto não é um tema ligeiro, um país perdido nas suas próprias ilusões, incapaz de acreditar minimamente nelas, incapaz de acreditar também nas alternativas paliativas injectadas em umas poucas décadas, incapaz de forjar novas ilusões credíveis, está condenado à auto-destruição. Compreendo isso, como português de hoje, que vive sobre vestígios de ilusões imperiais perdidas, sob um sentido doloroso de inutilidade colectiva. É irónico que eu tivesse procurado agora Fassbinder, num momento em que a Alemanha parece estar determinada a suprimir a autonomia cultural dos países europeus mais fracos em função dum domínio económico. Lições que não se aprendem. Mas temos Fassbinder, e este filme é um documento angustiado e perfeito de tempos passados, e algo que podemos aprender aqui.

O homem filma quem ele é, em cada doloroso momento. Há uma cabeça muito especial a trabalhar aqui, muito perturbada, e podemos ver a sensação de desapontamento, a total falta de esperança e fé que atravessa as suas veias. Superficialmente, esta é a história de um amor relativamente impossível, condenado pela sociedade, que tem de ultrapassar o preconceito para existir. Os amantes improváveis enfrentam amigos, família e sociedade, e enfrentam-se no final a si mesmos e as suas próprias dúvidas. O amor aparentemente triunfa (com uma úlcera). Mas a vida é dolorosa no mundo de Fassbinder, e a felicidade é apenas a opção menos sofrível entre a miséria da existência. A auto-destruição parece ser a única forma válida para existir num torpor permanente. Além de Emmi, que sempre é sempre correcta, e nunca cede, todos os personagens deste filme, incluindo Ali, são maus, ou pelo menos terrivelmente fracos, incapazes de ultrapassar qualquer desafio, facilmente fugindo para o escapismo. Que espelho da vida de Fassbinder, do espírito de Fassbinder, da alma dele.

Se querem encontrar desafios visuais reais no cinema alemão deste período, terão de procurar Wenders ou Herzog. Em Wenders, encontrarão também um tipo de versão mainstream do como um alemão ocidental se deveria sentir numa Alemanha à Adenauer ideal. Mas é em Fassbinder que vão encontrar a angústia, os medos, as esperanças dos alemães do pós-guerra que, num contexto muito mais amplo, espelham as de uma maioria da Europa ocidental. Este filme é uma peça fantástica desse puzzle mental. Mas isto não é grande cinema, não acrescenta nada, é sensível, mesmo sublime por vezes, mas não rompe limites e muitas vezes não é mais do que competente. Não este filme, pelo menos para este espectador.

A câmara rodeia Ali, que a esta altura era o amante na vida real de Fassbinder. É a ele que a câmara acaricia, e mesmo que o personagem dele seja fraco, ele é o único cujas características físicas são exploradas e realçadas no filme. Fassbinder é um voyeur, verifiquem como ele enquadra os 2 momentos em que Ali está totalmente nu. O amor fora do ecran transpira para o filme. Isso é incrível.

A minha opinião: 3/5

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Destaques

Vou começar de forma mais séria a tratar o tema do cinema e espaço/arquitectura. Espero poder introduzir novidades em breve